Dadas as origens do conceito, e as suas ligações à arte da guerra, atente-se na seguinte definição: “A estratégia militar é a conjugação do pensamento e da acção porque se situa entre a política, que lhe fixa as finalidades, e a táctica que realiza a acção no terreno…” (Fiévet, 1993:34). Distinguem-se ainda, segundo este autor, referindo-se ao âmbito militar, dois níveis de estratégia: a geral, referente ao estudo das condições de viabilidade (onde, quando, quantos) e a operacional, referente às condições de sucesso (zonas, acções, apoios), estando estes dois níveis numa situação de interactividade, tanto com o nível de topo, o político, que fixa os objectivos políticos e as prioridades, como com a táctica. Esta última interdependência é mais evidente, distinguindo-se entre si mais pela natureza dos meios utilizados.
Para Ziane (2004), as definições destes dois conceitos que melhor permitem descrever as situações dos JDC são:
1) A estratégia, designada como “...um plano de acção completo, em que o decisor explora todas as possibilidades de acção que a situação apresenta, associando a cada perspectiva um valor que representa aos seus olhos, a utilidade do resultado obtido.” (Saint-Sernin, 1999 cit. Ziane, 2004:27). 2) A táctica, designada como a conduta da execução das operações reais. Também no campo do desporto Garganta (1997b), ao fazer um levantamento exaustivo das definições de estratégia, conclui pela existência de uma dualidade temporal, encontrada nessas mesmas definições. Para alguns autores (Teodorescu, 1977; Wrzos, 1984; Gréhaigne, 1992), a estratégia representa o conjunto das actividades e das acções que precedem o confronto desportivo, enquanto outros (Morin, 1973; Zerhouni, 1980; Parlebas, 1980; Duriceck, 1985; Toran, 1995; Mercier & Cross, s.d.) estabelecem de forma explícita ou implícita que, tal como a táctica, também o conjunto das actividades e acções aplicadas durante a condução do confronto fazem parte do domínio da estratégia (Garganta, 1997b). Este autor conclui a sua análise afirmando a natureza prospectiva que ressalta das definições de estratégia, inferindo que esta é um processo que, partindo de um conjunto de dados, define cenários, baliza meios, métodos e institui regras de gestão e princípios de acção.
Chauffier (1993) não propõe uma definição de estratégia, mas sublinha duas especificidades dos JDC com ela relacionados, como seja, os objectivos a perseguir (determinação do sistema de jogo, desenvolvimento das qualidades adaptativas da equipa e dos seus jogadores, observação, análise e interpretação do jogo), e a escolha
privilegiada de certas formas de treino (individual ou colectivo, esforços intensos ou moderados, exercícios de ataque ou defesa, conhecidos ou novos, tarefas motivantes ou incómodas).
A ideia de estratégia referida às decisões tomadas antes da competição ou antes da acção é defendida por Nadeau (2001), especialista do hóquei no gelo, que considera que a estratégia tem lugar como um plano geral, das tendências a privilegiar face a diferentes situações. No entanto, considerando o contexto desta modalidade onde as situações apresentam grandes variações, bem como da rapidez das acções que nela ocorrem, afirma que a estratégia assim considerada, atinge muitas vezes os seus limites. Continuando, Nadeau (2001:22) refere-se a este conceito de estratégia “...Elle
devant telle ou telle situation mais devient moins sûre dans des situations precises oú l’adaptation est continuelle”.
Richard (1998, cit. Nadeau, 2001) define estratégia como sendo o conjunto de decisões tomadas anteriormente à competição entre os jogadores para que a equipa se organize, a fim de fazer face às diferentes situações de jogo susceptíveis de serem colocadas pela equipa adversária.
Para Roman Seco (1999a), a estratégia encaminha-se mais no sentido de formas ou habilidades para dirigir assuntos ou situações. O estratégico é algo conjuntural, ou seja, que se utiliza em situações competitivas pontuais para resolver um problema surgido num dado momento. É algo que pertence ao domínio de actuação de quem conduz uma equipa, relacionado com a “arte de dirigir”. A estratégia, para este autor, é “uma pauta de ordem”, uma ordenação inicial dos recursos humanos que se utilizam, que podem permitir ao estratega desenhar um plano em função do adversário, mas que apenas considera como um suporte, não fundamental no desenvolvimento de qualquer JDC, onde a táctica é a parte fundamental.
Posição contrária defendem Gelé (1993) e Ziane (2004), quando afirmam que, embora os treinadores construam planos de acção procurando antecipar o que vai ocorrer durante a partida e distribuindo tarefas aos jogadores, durante a competição tanto os jogadores como os treinadores assumem um comportamento táctico e estratégico.
Voltando atrás e fazendo o paralelo do plano militar com o desporto, notemos o comentário sobre a complexidade da acção estratégica militar, que é fruto do carácter de dualidades simultaneamente complementares e opostas das suas componentes: para Fiévet (1993:42) “…é a estratégia operacional, por intermédio da
táctica que, de facto, impõe a lei. Na verdade, é sempre no terreno que as coisas se passam.”. Fiévet (1993:42) General francês, para explicitar melhor esta ideia cita Moltke (1909) em “Sobre a Estratégia”: “Os melhores planos de ataque só têm valor
até ao momento de enfrentar o inimigo...Em caso de vitória táctica, a estratégia submete-se”, e faz referência a uma afirmação com idêntico sentido do marechal Foch que, na guerra, os factos prevalecem sobre as ideias. Segundo Fiévet (1993) é por esta razão que a característica principal da acção estratégica é a capacidade de se adaptar à evolução da situação.
No desporto, o treinador define a estratégia tendo em conta os adversários e a sua própria equipa, mas é no terreno, que as coisas se decidem. Ou seja, é na interacção directa com os adversários, e só aí, que se percebe da justeza da estratégia adoptada, podendo esta realidade fazer com que seja refeita a estratégia (Sampedro, 1999).
A estratégia, sendo um conjunto de actividades e produtos de planos de acção (Ziane, 2004), prolonga-se na acção concreta e recebe a influência desta, não se esgotando no “antes”, mas continuando no “durante”, num diálogo estreito entre o que foi previsto, a reacção dos adversários e a necessidade de adaptação e de regulação em tempo real.
Neste sentido, a estratégia surge nos JDC fortemente vinculada à capacidade dos jogadores e das equipas para agirem em condições de adversidade, aleatoriedade e imprevisibilidade (Garganta, 1997b).