Neste item, apresentamos a base teórica que norteia esta tese, tendo por pressupostos a abordagem sociocultural do letramento, a partir das perspectivas dialógicas bakhtiniana.
Versamos, inicialmente, sobre as teorias envolvendo o conceito de letramento, os Novos Estudos de Letramentos e o conceito de letramentos acadêmicos, com destaque ao que se pesquisa sobre letramentos acadêmicos em Língua Materna e letramentos acadêmicos em Língua Estrangeira. Os temas se imbricam na medida em que a noção de letramentos acadêmicos em língua estrangeira tem uma relação de dependência em relação ao que se concebe como letramento em Língua Materna numa abordagem interdisciplinar de formação. Os sujeitos licenciandos do Curso de Linguagens e Códigos são apresentados aos componentes curriculares, com seus respectivos gêneros acadêmicos, que possibilitam sua inserção na Língua Estrangeira como licenciados e futuros docentes de espanhol.
O debate sobre a relação entre o processo de leitura e a aprendizagem da língua escrita, em âmbito acadêmico – na universidade, é considerado recente no contexto brasileiro, conforme Fuza (2015). Realizando consulta aos bancos de dados acadêmicos33e livros publicados verifica-se farta produção sobre aspectos do letramento com ênfase na Educação Básica – Ensino Fundamental, Ensino Médio e na Educação de Jovens e Adultos. Entretanto, no que tange aos Letramentos Acadêmicos estamos em processo de expansão das produções,
33 A consulta foi realizada no banco de dados de Pós-Graduação que atuam em linhas de pesquisa na área de Letramento, como PUC SP, UNB, UFPE, UFC.
principalmente advindas de grupos de pesquisas em nível de pós-graduação sobre esse contexto educacional do Ensino Superior.
Tais estudos consultados abarcam desde a distinção entre ser alfabetizado e ser letrado como categorias distintas, nos quais: alfabetização é a aquisição do sistema convencional de escrita, nos modelos formais34 e letramento como nomenclatura fazendo referência às práticas e comportamentos sociais no uso da leitura e da escrita de modo eficiente, profícuo. Ao se refinar a busca nos repositórios acadêmicos rastreando outras pesquisas sobre o letramento acadêmico, se restringe o campo de atuação desta área, e o foco das pesquisas prioriza o ensino de língua materna35.
Face ao exposto, tratamos a seguir de algumas das discussões atuais desenvolvidas por pesquisadores na Pós-graduação no Brasil sobre a noção de letramento, com foco principal no letramento acadêmico dos licenciandos, em abordagem interdisciplinar.
A noção de letramento é proposta a partir dos anos 80, no cenário nacional brasileiro por Kato (2010). A autora relaciona o termo à aquisição da língua culta falada e afirma que seria decorrência do “letramento”, porém não explora a definição do termo. Houve outras contribuições de pesquisadores como Tfouni (1988, 2010), Kleiman (1995), Soares (2005), Terzi (2003); Terzi e Scavassa (2005); Terzi e Ponte (2006), Matencio (2001, 2005, 2008) que ampliam o uso deste termo em torno das discussões sobre as dificuldades de leitura no ensino e os usos nas práticas sociais, o que implicou a necessidade de ampliar os conceitos sobre o que era/é um indivíduo proficiente em leitura e sua inserção no meio letrado.
As discussões provenientes dessas pesquisas colocam o foco na necessidade de se repensar o processo de encaminhamento do ensino de leitura e escrita em língua materna, com o intuito de munir o indivíduo de conhecimentos que possam ser acessados no uso cotidiano das interações sociais.
O conceito de letramento, proposto por Kleiman (1995), sinaliza para a ação do indivíduo de apropriar-se da leitura e da escrita para uso nas diversas práticas sociais exigidas pela sociedade da qual faz parte. Essa ideia se alinha com Soares (2005, p.39), quando destaca a abordagem pragmática do uso dos conhecimentos de leitura e escrita como respostas as
34Vale explicitar que tratamos os modelos formais a partir de Kato (2010, p. 61-62), ao propor que sejam os métodos indutivos (fônico, silábico) para o processo de aquisição da leitura e escrita.
35 Pontuando a partir de Revuz (2006, p. 215), a língua materna é a língua da família, considerada onipresente na vida do sujeito que se tem a impressão de jamais tê-la aprendido.
demandas construídas pela sociedade, já que mobiliza aspectos de natureza social, cultural, cognitivo, linguístico, entre outros posicionamentos que modificam o “estado ou condição”. Isso se materializa na necessidade constante de adequação dos dispositivos de inserção letrada do sujeito nas esferas sociais, o que se alinha com Bakhtin (1997, p.279), ao propor que cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, transpostos através dos gêneros discursivos e seus usos sociais. Soares (2005, p.48) acrescenta ainda, a complexidade de entendimento sobre a abrangência conceitual do(s) letramento(s), por envolver dois fenômenos distintos – a leitura e a escrita e suas peculiaridades, concluindo que há gradações de tipos e níveis de letramento, o que depende das necessidades individuais e do meio em que vive, assim como, do contexto social e cultural.
Nessa linha, Terzi (2003); Terzi e Scavassa (2005); Terzi e Ponte (2006) afirmam que o letramento é a relação que indivíduos e comunidades estabelecem com a escrita nas interações sociais. O que supõe a influência de fatores como as condições socioeconômicas, culturais, políticas, educacionais etc. locais, em movimentos cíclicos, isto é, fazendo com que comunidades distintas apresentem padrões diferentes de letramento.
Uma das principais contribuições teóricas nesta discussão, sobre o letramento, advém dos estudos de Street (2014), que discute a constituição do letramento a partir de interações sociais, culturais, históricas de apropriação da escrita por parte dos indivíduos e os usos que se faz da escrita, sem necessariamente ser uma prática advinda somente do contexto educacional. Ampliando essa posição, a área dos Novos Estudos do Letramento36 foi proposta pelos estudiosos do letramento americano (STREET (1984); BARTON, 1994; GEE 1996; Lea e Street (1998)). Estes estudiosos propõem que as práticas de letramento, como práticas sociais que são, têm caráter situado, ou seja, têm significados específicos em diferentes instituições e grupos sociais. A prerrogativa de assumir que as práticas de uso da escrita são diferentes, permite afirmar que existem múltiplos letramentos, ao qual estão vinculados a vivências de letramentos a partir das esferas e grupos sociais: escolar, religioso, familiar, acadêmico, entre outros espaços de interação social.
Tal perspectiva desenvolve a noção de letramentos sociais37 e sua implicação na sociedade contemporânea, no que tange aos aspectos político-educacionais, assim como, os
36Os chamados “Novos Estudos de Letramento” – em inglês, New LiteracyStudies (NLS) foram propostos por Barton, 1994; Gee, 1996; Street, (1984), Lea e Street (1998) baseados em teorias sobre a leitura, escrita e letramento como práticas sociais.
37 Conforme Street (2014, p.30), é o reconhecimento de múltiplas práticas letradas, em todas as esferas de ação social. O que independe diretamente o entendimento de letramento vinculado somente ao contexto educacional.
aspectos de pesquisa etnográfica que lançam bases metodológicas para elucidar tais pesquisas na área do letramento.
Ao considerar o letramento a partir de duas dimensões, os aspectos individuais (letramento autônomo38) e sociais (letramento ideológico39) aparecem em ênfase à posição do sujeito e sua relação com as práticas de uso social da linguagem, tanto oral quanto escrita (STREET, 1984; GEE, 2000). Nesse percurso de teorização sobre o letramento, surge a partir de Cook-Gumperz (1986), a noção de letramento como produto de escolarização.Tal processo de escolarização é marcado pela institucionalização e burocratização no percurso do letramento do educando, em função dos planejamentos e organização do ensino. O que torna o uso das práticas sociais e de linguagem no contexto educacionais controladas e monitoradas. Isto é, o estudante/licenciando necessita seguir as diretivas propostas por estes espaços, permeados principalmente por momentos de produção escrita e oral de gêneros da esfera acadêmica, o que nem sempre condiz com os usos reais em contexto social de uso da linguagem e que teoricamente contribui para o déficit nos resultados desse processo.
Tais diretivas possibilitam teorizar sobre a linha dos vários letramentos existentes na esfera acadêmica. Essa posição é defendida por Lillis e Scott (2007) ao discorrerem sobre a necessidade de se pensar as múltiplas dimensões da escrita acadêmica, no qual os licenciandos são atores socialmente situados e implicados em várias ações/situações que o auxiliaram ou não a torna-se letrado na academia. A seguir, discorremos sobre as noções de letramentos acadêmicos e sua implicação no aporte teórico que fundamenta esta tese.
Assumimos, para esta tese, a noção de Letramentos proposta por (STREET (1984); BARTON, 1994; GEE 1996; LEA; STREET (1998, 2006); LILLIS; SCOTT (2007)), como práticas sociais que têm caráter situado, ou seja, têm significados específicos em diferentes instituições e grupos sociais, neste caso, o contexto acadêmico de formação interdisciplinar, cabe a indagação principal em relação ao conceito de letramentos acadêmicos.
A priori, podemos afirmar a partir dos Novos Estudos do Letramento que se trata de uma linha teórica nos estudos de letramento, no qual o indivíduo mobiliza processos cognitivos e linguísticos de aprendizagem para usos sociais da linguagem (LEA; STREET
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No modelo de letramento autônomo, se pressupõe que a escrita se desenvolve de forma desvinculada dos fatores sociais em que o sujeito se encontra inserido. É a capacidade de ler e escrever vincula-se a ideia de decodificação, de forma impessoal. (TERZI, 2006)
39 O modelo de letramento ideológico é constituído como uma práxis social e não como uma habilidade desprovida de posicionamento social crítico. Para Terzi (2006), a opção pelo letramento ideológico exige não apenas ensinar a tecnologia da escrita, mas, simultaneamente, oferecer-lhes a oportunidade de entender as situações sociais de interação, que possui o texto escrito como parte constitutiva.
1998, 2006). Dessa forma, os licenciandos em formação teriam contato com usos acadêmicos da linguagem, mobilizando processos de compreensão e elaboração de gêneros discursivos que permeiam esse espaço educacional.
Street e Lea (2006) argumentaram em favor do engajamento em discussões sobre a escrita e o letramento em contextos acadêmicos, que poderiam ser concebidas por meio da sobreposição de três perspectivas ou modelos: (a) modelo de habilidades de estudo, (b) modelo de socialização acadêmica e (c) modelo de letramentos acadêmicos. Destacamos aqui que esses modelos já são aplicados em pesquisas tais como Cruz (2007), Fischer (2008); Fischer e Pelandré (2010); Cunha (2012), colocando os pressupostos em pesquisas sobre Letramento no Ensino Superior.
O modelo de habilidades de estudo, em Street e Lea (2006), conceitua a escrita e o letramento como habilidade individual e cognitiva, pois centra-se nos aspectos da superfície da forma da língua e sugere que os graduandos podem transferir seu conhecimento de escrita e letramento de um contexto para outro, sem quaisquer problemas. Essa abordagem sinaliza que à medida que se desenvolvem habilidades de escrita e leitura na esfera acadêmica, se fundamentam cada vez mais outras práticas letradas, sem que haja a necessidade de esforços cognitivos já desenvolvidos anteriormente. O foco do modelo de estudo centra-se no ensino de aspectos formais da língua; por exemplo, estrutura da sentença, gramática, pontuação.
Já a perspectiva da socialização acadêmica, direciona-se ao processo de inserção/adaptação cultural de licenciandos em discursos e gêneros baseados nos temas e nas disciplinas, que compõe o currículo aos quais estão vinculados. Retoma-se aqui a noção de gêneros, proposto por Bakhtin quando os denomina como estruturas relativamente estáveis, pois a partir do momento em que os licenciandos tenham aprendido e entendido as regras básicas que permeiam o discurso acadêmico (como resumos, resenhas, fichamentos, monografia, entre outros), com os quais convivem, estão aptos a retomá-los em quaisquer outros contextos.
Nesses termos, a inserção nos conhecimentos das várias áreas (Inglês, Espanhol, Português, Artes, Música) que integram a formação no curso de Linguagens e Códigos, possibilitará ao licenciando a sedimentação de gêneros discursivos orais e escritos que permeiam tal processo. Essa ação didática necessita um olhar crítico sobre como se desenvolvem tais contextos, no sentido de como são constituídos como modelos a serem reproduzidos indicam uma maior implicação da qualidade desses inputs aos licenciandos, para que se mantenha um fio condutor do contexto interdisciplinar que o curso pressupõe.
O último modelo, proposto por Street e Lea (2006), é o de letramentos acadêmicos. Essa perspectiva sinaliza para uma relação com a produção de sentido, os processos identitários, as relações de poder e hierarquias institucionalizadas. Tal modelo considera as relações de poder entre pessoas, instituições e identidades sociais. Considera ainda, a abrangência tanto questões epistemológicas quanto processos sociais nos processos que envolvem a aquisição de usos adequados e eficazes de letramento como mais complexos, dinâmicos, matizados, situados.
No que diz respeito aos letramentos acadêmicos com base na abordagem anterior, Fischer (2008, p.46) afirma que o letramento acadêmico é a fluência em formas particulares de pensar, ser, fazer, ler e escrever, muitas das quais são peculiares a um contexto social (neste caso acadêmico) que exige o manejo de tais práticas de modo profícuo. Nestes termos,assim como, no contexto educacional da Educação Básica, o letramento acadêmico se constitui a partir de processos de desenvolvimento de práticas e comportamentos sociais que se efetivam com a escrita, considerando o contexto social-histórico do aluno/licenciando em formação.
Ampliando o conceito, Lillis (2003, p.193) explora a noção de monológico e dialógico em relação ao letramento acadêmico no ensino superior. Afirma que o ensino superior pode ser considerado com atitudes monológicas quando as práticas institucionais e pedagógicas são orientadas para a reprodução de discursos oficiais de conhecimento; assim como, quando sinalizam para uma concepção de comunidade acadêmica como sendo homogênea. Demonstra a partir de pesquisa, realizada no Reino Unido, que tais posições em relação aos letramentos acadêmicos podem modificar-se desde que se tenha um ensino superior em que as práticas pedagógicas são orientadas para tornar visível desafiar o discurso oficial e não oficial,considerando a comunidade acadêmica reconhecidamente heterogênea. Tais mudanças sugerem uma relação dialógica, na qual existe múltiplas verdades, vozes e identidades, uma relação híbrida, permeada por discursos internamente persuasivos.
O cenário das pesquisas sobre letramentos acadêmicos traz a discussão sobre o sujeito ingressante na universidade. Esse sujeito possui como já dito, algumas habilidades sobre os usos das práticas sociais através da escrita. Assim sendo, trazem consigo concepções de leitura, escrita e usos sociais desses elementos pautados nas experiências anteriores, marcadas pelos contextos sociais que vivenciaram.
A seguir, relacionamos as noções bakhtinianas de discursividade e dialogismo na concepção e produção de gêneros discursivos da esfera acadêmica, neste caso, o artigo científico na universidade. Relacionamos a reflexão em torno dos discursos institucionais e o saber científico (entendidos como gêneros discursivos da esfera acadêmica) que se apresentam nas formações discursivas dos licenciandos, que por sua vez, se configura no domínio dos letramentos acadêmicos ou multiletramentos da esfera acadêmica.
A Universidade é considerada uma agência de letramentos, no qual são praticados muitos gêneros que organizam as necessidades enunciativas dos sujeitos que atuam nos cenários acadêmicos, os vários cursos que integram a formação superior. Nesse sentido, aprendizes recém-ingressos nos cursos superiores tendem a apresentar dificuldades para compreender as relações de produção de linguagem que regem a elaboração e o consumo de gêneros nessa esfera de atividade científica. Dentre os gêneros mais praticados estão o artigo e a resenha crítica, objetos de reflexão neste subitem.
Tomamos para esta tese, o disposto por Sito (2016, p.170), Kleiman e Sito (2016) e Rojo e Barbosa (2015) sobre o conceito de multiletramentos. Em linhas gerais, afirmam que houve uma ressignificação do conceito de Letramentos, isto em função da diversidade de sistemas semióticos e de modalidade de comunicação, e a diversidade linguístico-cultural. Essa perspectiva aponta que os textos não se compõem apenas de palavras, mas de múltiplos outros sistemas de significação como o sonoro, o oral, o gestual, o imagético, o gráfico. Na universidade essa concepção abarca desde a constituição do contexto educacional em seus documentos oficiais aos meios didático-pedagógicos empregados no processo de ensino- aprendizagem nessa modalidade de ensino, pois integra uma complexa rede de conceitos, documentos e práticas situadas e marcadas pelo caráter científico.
Os discursos científicos são fundamentais na atividade científica, uma vez que possibilita unir esforços dos membros da comunidade acadêmica, com intuito de mobilização de conhecimentos que são relevantes tanto para o docente, o pesquisador quanto para os aprendizes do Ensino Superior. Esses discursos são constituídos por sua natureza oral e, principalmente escrita via meios de publicação que gerenciam a circulação do saber cientifico, que cotejando Bakhtin (1997, p.322) ao discorrer que o gênero de divulgação científica se dirige a um círculo preciso de leitores, com certo fundo aperceptivo de compreensão responsiva. Os discursos científicos são atravessados por relações de poder que transversalizam os processos de produção cultural, especificamente por envolverem o uso da linguagem (SITO, 2016, p.135).
Essa relação de saber-poder tem sua vertente nos estudos foucaultianos que tratam sobre as atividades humanas e sua relação com os conhecimentos institucionalizados, que, por sua vez, constituem o domínio do saber.
A necessidade do conhecimento na visão de Foucault (2008, p. 17) nasce no século XVI e XVII. Há uma vontade de saber que impunha posição, olhar e função do sujeito, que assim como, os sistemas de exclusão são subsidiados e mantidos por um suporte institucional, que confere verdade a esse poder-saber. Nessa perspectiva, inferimos que os discursos da esfera acadêmica relacionados aos diversos campos epistemológicos no viés de formação interdisciplinar e embasam a formação docente têm uma pressão coercitiva, que diríamos poder discursivo que privilegia determinados conceitos em detrimentos de outros, o que influencia sobremaneira nas relações dialógicas que compõe as formações discursivas dos sujeitos envolvidos nesse processo de elaboração do conhecimento.
Considerando o curso de LLC, há todo um arcabouço de conceitos e teorias que circundam cada componente curricular que compõe a formação, de modo que cada docente que atua nessa formação estaria implicado, conforme concepção interdisciplinar, de desenvolver concepções/atividades que suscitasse essa visão de integração entre os campos do saber na área de linguagens.
Em se tratando da relação poder e saber, Foucault (2014, p. 31) fundamenta que o poder produz saber, desse modo são considerados implicados, e acrescenta que “não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder”. Nessa linha de argumentação, as produções e ações sociais, principalmente no uso da linguagem são determinadas pela relação poder-saber, nos quais os processos e lutas que o atravessam e que a constituem determinam os possíveis campo do conhecimento.
No que tange ao discurso institucional, cotejamos Sousa (2013, p. 137), ao discorrer que os documentos prescritivos das IES (Instituições de Ensino Superior), como os PPPs, que por sua vez, integram as ementas e os fluxogramas, regulam o trabalho dos docentes e dos licenciandos em formação, pois “participam de um conjunto de discursos que concorrem, que estabelecem diferentes relações de poder, participando da construção de subjetividades docentes, todas, de algum modo, tratando os embates entre discursos em defesa do beletrismo e discursos em defesa da profissionalização”. Trazendo para nossa realidade, no curso interdisciplinar verificamos que as ementas foram transpostas do Curso de Letras/ Espanhol
regular do Campus Bacanga, sem que houve que integrasse o discurso interdisciplinar que a formação defende em sua linha epistemológica de formação docente. A pesquisadora ainda infere em contrapartida, que os documentos reguladores não se constituem apenas como modos de ordenamentos/prescrições, mas também como enunciados que “participam de uma visão de docência que, de certa maneira, participará das relações que o futuro professor estabelecerá com sua atividade profissional” (SOUSA, 2013, p. 138).
Então inferimos que os licenciandos de LLC não irão compor uma visão heterogênea da formação no componente de Espanhol, já que para que isso ocorra, deveria existir desde os documentos como ementa e organização curricular um ordenamento/prescrição que encaminhasse para tais composições enunciativas tanto de teorias quanto de encaminhamento para prática profissional.
Para esta tese, tratamos especificamente dos gêneros artigo científico e resenha crítica, por serem constitutivos da coleta de dados dos corpora para análise dos resultados. Partimos do pressuposto que os licenciandos compreendiam as marcas e as especificidades dos gêneros discursivos artigo científico e resenha crítica.
Para tratar sobre o artigo cientifico cotejamos Motta-Roth e Hendges (2010). Para elas, o artigo é um texto produzido com o objetivo de publicar, em periódicos especializados, os resultados de uma pesquisa acerca de determinado tema. Nessa linha, esse gênero funciona como meio de comunicação entre autor-pesquisador, profissionais, mestrandos, licenciandos e outros interessados que compõem a esfera acadêmica de produção científica. Segundo as