As bases do paradigma reflexivo têm raízes também no terreno do método fenomenológico, tal como ele foi definido por Antonio Muniz de Rezende (1990), na obra
Concepção fenomenológica da educação. Pequena nas dimensões; grande em significado para a iluminação dos meus caminhos de pesquisador que gosta de inventar no exercício do magistério. A opção que fiz decorreu do intento de reconstituir o que ocorre no curso do processo educacional, uma vez que o método trata de desentranhar o fenômeno, para pô-lo a descoberto, além da aparência. Exatamente porque os fenômenos não estão ou são evidentes de imediato, com regularidade.
O método fenomenológico não traz uma resposta ou definições de contorno para possível e abreviada superação do modelo atual de ensinar e aprender. É um ponto de encontro para muitas partidas, como o que fiz com a avaliação ao voltá-la para as ações pedagógicas, buscando outros sentidos à escolarização, com a meta de transformá-la em longo prazo (e provocando, assim, o seu alinhamento com uma transformação ainda maior, que seria a social, em prazo mais longo ainda, da qual a escolar é tão-somente, uma fração). Com o paradigma fenomenológico desse modo tecido, como pesquisador renunciei a atitude de apenas constatar (e descrever) o que ocorreria ou o ocorrido na minha sala de escola. Assumi o ir mais além, para surpreendê-la (e interpretá-la) na totalidade, junto com outros afazeres pedagógicos e da própria pesquisa.
A opção pela Fenomenologia como princípio filosófico inspirador para a pesquisa reflexiva de desenvolvimento partiu da compreensão sobre o que poderia ser um caminho viável para a revolução das atuais práticas escolares. O nascedouro foi a forma como, a educação se acha definida na obra citada: como um fenômeno; como uma experiência profundamente humana.
Tantas educações, para quê? Todas são partes da educação do ser humano. Para Antonio Muniz de Rezende, em sentido forte, a educação...
é mesmo uma experiência universal e exclusivamente humana: todos os homens se educam, e só eles o fazem. (...) Tanto os indivíduos como os grupos, a família e a sociedade, a história e o mundo, estão implicados na estrutura do fenômeno educacional. Isto quer dizer que, em sua polissemia, a educação pode ser enfocada de vários pontos de vista, mas cada um deles acaba por nos remeter aos demais (1990, p. 46).
Segundo esse autor, a fenomenologia da educação traz conseqüências importantes para a metodologia de pesquisa. Em educação, ensina que ela tem três momentos, diretamente relacionados com os três sentidos da palavra sentido: a constatação descritiva da realidade, o tratamento interpretativo dos dados constatados e a manifestação projetiva das conseqüências e alternativas possíveis. No primeiro momento, a fase de constatação, tratar-se-á de constatar a realidade com um levantamento adequado dos dados, em vista de uma descrição suficiente e significativa da situação de mundo que foi escolhida como objeto de pesquisa. Como indicadores do senso de sentido e do senso da realidade, num questionamento da própria realidade, importa saber o que os dados significam. No segundo momento, a fase de compreensão, tratar-se-á de considerar a realidade constatada, não apenas para explicá-la, mas para compreendê-la, sobretudo. Para tanto, tentar-se-á evidenciar as diversas relações internas e as manifestações de suas contradições, bem com a descoberta das possibilidades de superação. No terceiro momento, a fase de projeção-prospectiva, tratar-se-á de mostrar como essas contradições e possibilidades podem ser exploradas, em vista da construção de uma realidade outra, de uma situação histórica singular, julgada preferível e desejada pelos sujeitos – e para eles mesmos.
Muitas pesquisas em educação têm-se se limitado à primeira dessas três etapas, embora nem sempre de maneira significativa, sem atingir a segunda e muito menos a terceira. É claro que, dessa forma, a educação e a aprendizagem têm contribuído muito mais para a reprodução do sistema, ou
quando muito para a consciência de seu valor auto-reprodutivo, do que para sua negação revolucionária (ibdem, p. 58).
Esse trecho da obra de Antonio Muniz de Rezende é similar ao pensamento de Elcie Masini (1994, 1997), segundo o qual o enfoque fenomenológico de pesquisa em educação tem se caracterizado pela ênfase ao “mundo da vida cotidiana”, pelo retorno ao que ficou esquecido, encoberto pela familiaridade. Remonta ao que está estabelecido como critério de certeza e pergunta sobre os seus fundamentos.
As etapas de constatação descritiva da realidade e de tratamento interpretativo dos dados constatados são contempladas por pesquisas diversas, como mostrei no Capítulo 1. Em relação à avaliação da aprendizagem, a literatura educacional é farta em projetos latentes. Por isso, primeiro agi no sentido de iluminá-los à luz de intervenções que os materializassem, para, em seguida, torná-los visíveis, palpáveis, presentes... naquele que efetivei.
Embora também tenha me inspirado no método fenomenológico para realizar a pesquisa de mestrado, não o utilizei como ferramenta metodológica. Todavia, fiz algo semelhante à etapa de manifestação projetiva das conseqüências e opções possíveis, a de projeção- prospectiva nos capítulos finais daquela obra. Era para evidenciar contradições e possibilidades a explorar na construção de uma realidade histórica singular, preferível e desejada pelos educadores e educadoras do País. Recuperei para o doutorado o que elaborara na dissertação. Outrossim, para ultrapassar a etapa de projeção-prospectiva (ou pular a cerca da fenomenologia) e inaugurar um fenômeno educacional novo.
Se fragmentos da dissertação fazem parte deste texto é porque não convém ignorar a ponte que nos ajudou a superar o rio, sem precisar nadá-lo. Por isso, as necessárias correções temporais, o aprofundamento e o refinamento, em especial à corrente filosófica que serviu de pano de fundo às operações da pesquisa reflexiva de desenvolvimento. Ampliei as projeções já escritas com o intuito de explorá-las no âmbito da sala de aula. Recordo que na dissertação denominei essa idéia para o futuro de fase de proposição de uma ação ampliada.
Em termos simples, nada mais do que o delineamento de uma proposta de intervenção em bases ambiciosas, mas politicamente viável – hoje realizado. E por ter sido tecnologia, mais do que técnica, em torno da qual idealizei a pesquisa reflexiva de desenvolvimento, dedico o Capítulo 3 à explicitação da intervenção pedagógica que, primeiro, foi política para melhor ser pedagógica, até para atender os propósitos do projeto. Dessa forma, renuncio à atitude de apenas constatar (descrever) o ocorrido e “comprovar” o potencial inovador da proposta. Mais além, tratou-se de empreendê-la na totalidade de outros afazeres escolares dos sujeitos envolvidos na trama pedagógica alterada.