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Embora tenha a dicotomia entre a pesquisa básica e a pesquisa aplicada como um dos aprendizados que obtive durante a graduação, quando penso em pesquisa, nego essa dicotomia.

A pesquisa básica e o desenvolvimento tecnológico são profundamente interdependentes. É a atitude do pesquisador que estabelece uma distinção entre os dois (NUSSENZVEIG, 1983). A dicotomia que possa ser traçada entre a pesquisa básica e a pesquisa aplicada, em minha opinião, é aparente, se não mesmo falaz. Não acredito em pesquisa completamente pura, isto é, voltada para si mesma ou tão-somente para a satisfação da curiosidade do pesquisador ou da pesquisadora, apesar de achar simpático o idealismo do matemático alemão, Carl Jacobi, que viveu na primeira metade do século XIX. Em resposta a Joseph Fourier, matemático e físico francês, que o criticara por causa do tempo que “perdia” com problemas abstratos, sem aplicação prática, Jacobi disse que a única finalidade da ciência

era servir para a honra do espírito humano. Ah, os jovens!. Sempre querendo (alguns conseguindo) superar os mestres!...

A pesquisa básica tem por função precípua contribuir para a compreensão do mundo. Suas conquistas são incorporadas ao patrimônio cultural da humanidade, para também servir de fonte de inspiração para estudos interessados na evolução da tecnologia. À redação dos dois parágrafos seguintes, utilizei o artigo “Para que serve a pesquisa básica”, de H. Moisés Nussenzveig (1983), consultas a diversos verbetes da Enciclopédia Delta Universal (1980) e histórias da Física que pertencem ao domínio público.

Se a curiosidade nasce do contexto, é ao contexto que há de voltar, logrando uma gama imprevisível de utilidade plástica. Vejamos o encadeamento de alguns produtos de pesquisas básicas que exprimem com clareza a idéia de plasticidade das “descobertas” científicas (que na verdade são “invenções” historicamente situadas). As telecomunicações não atingiriam o nível de sofisticação que conhecemos sem os experimentos de Heinrich Hertz, físico alemão. Elas resultaram na descoberta das ondas eletromagnéticas, que propiciaram a invenção do rádio, do telégrafo sem fio, da televisão, do radar, do computador, dos satélites, etc. Hertz, aliás, avançou porque se apoiou nas “invenções” teóricas de James Maxwell, físico inglês. Em 1864, Maxwell predisse a existência de ondas eletromagnéticas se deslocando no espaço com a velocidade da luz, ao elaborar a teoria que relacionava a luz ao magnetismo e à eletricidade. Baseou-se nos estudos de Michael Faraday, físico inglês, a respeito da influência do magnetismo sobre a luz e do fenômeno da indução eletromagnética. Ah, a indução levou à invenção da bobina, que, mais tarde, serviu à invenção do motor, e vieram... A lista é extensa!

A válvula eletrônica, que permitiu a invenção da televisão e dos computadores da 1ª geração, surgiu porque Thomas Edison, inventor norte-americano, observou a passagem de uma corrente no vácuo entre o filamento e o fio, após centenas de tentativas para criar a lâmpada. Já as primitivas válvulas impulsionaram o surgimento da indústria eletrônica até o advento do transistor, invenção que revolucionou o campo das comunicações até o advento dos circuitos integrados. Aquela foi a única descoberta de Edison feita consoante os padrões da ciência. Mas ele próprio não a entendera. Sequer antevira qualquer aplicação possível. Nem por isso deixou de patenteá-la. O efeito Edison foi a “invenção” que teve as aplicações

mais importantes para a história recente da humanidade. Seu descobridor ficou milionário com a lâmpada, embora se referisse ao fonógrafo, bisavó dos atuais aparelhos sonoros, como o seu maior invento.

Se o pesquisador não vê aplicabilidade para os conhecimentos que produziu, como aconteceu nesse caso, outros descobrirão em que aplicá-los, segundo os seus interesses

imediatos, suas inquietações e necessidades da realidade objetiva. Veja o que disse Stephen Hawking a respeito da história da elaboração da Relatividade Geral:

Com a ajuda do amigo Marcel Grossmann, Einstein estudou a teoria dos espaços e superfícies curvos desenvolvida anteriormente por Georg Friedrich Riemann como um trabalho de matemática abstrata; Riemann não imaginava que sua teoria tivesse alguma importância para o mundo real. Einstein e Grossmann escreveram um artigo em conjunto, em 1913, no qual apresentaram a idéia de que aquilo que concebemos com forças gravitacionais são apenas uma expressão do fato de o espaço-tempo ser curvo. (2002, p. 18-9. Grifo meu).

A história da ciência ajuda a compreender que existe e também não existe pesquisa básica e pesquisa aplicada. Uma e outra são tributárias da atitude do pesquisador, como salientei.

Porque prego a não-dicotomia entre ambas, na visão de um professor que pesquisa, as investigações em educação comprometidas com as mudanças anunciadas devem ser locais, aplicadas e implicadas. Local, porque nasce do interesse por um aspecto específico da realidade objetiva em que o pesquisador tem inserção (o ponto de partida da pesquisa, assim, é a curiosidade do sujeito social). Aplicada,porque o foco da curiosidade é um problema que, já tendo experimentado algumas malogradas, requer solução (na impossibilidade de uma solução definitiva, a pesquisa deve ao menos apontar caminhos, que chamo de inspirações, para soluções possíveis, quando essas estão ainda fora do alcance histórico imediato ou além dos limites teórico-metodológicos de quem conduz a pesquisa). Finalmente, implicada, porque é sobre a vida social, especialmente, a que transcorre entre os muros da escola, na qual educadores e educadoras, pesquisantes ou não, estão também imersos, e buscam sentidos para a própria existência (BITTENCOURT, E., 2000).

A curiosidade, talvez a indignação, desses sujeitos se impregna daquilo que acreditam poder contribuir à mudança do meio social em que eles e os outros se fazem e fazem história. Comigo não foi nem será diferente. Por isso, os holofotes da pesquisa estiveram sobre a ressignificação das práticas pedagógicas de planejar, ensinar e aprender, na escola onde sou professor de Ciências. E fiz isso mediante a aplicação de um conceito de avaliação, elaborado para alterar as rotinas do ensino-aprendizagem. Por isso, a opção por um estudo de abordagem qualitativa foi inevitável, já que o fito era a construção e a busca de significados para práxis reinventada.

No quadro atual de intensas denúncias contra a escola e seus processos, em particular a avaliação, corre-se o risco da imobilidade pela crítica, caso não se reconheça que “esforços de intervenção muitas vezes proporcionam o melhor contexto para conduzir uma pesquisa” (WERTSCH; DEL RÍO; ALVAREZ, 1998, p. 34).

Imbuído dessa idéia e apoiado em ambições de superação do modelo arraigado na escola, foi que concretizei a pesquisa como uma perigosa intervenção (para incautos e neófitos), segundo a modalidade de desenvolvimento.