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Pesquisa-ação é uma linha de estudo criada pelo norte-americano Kurt Lewin na década de 1940, ensina Marli André (1995). Estudioso das questões psicossociais, Lewin pretendia investigar as relações sociais e obter mudanças em atitudes e comportamentos individuais. Para o processo, descrevia os passos: análise; coleta de dados e conceituação dos problemas; planejamento da ação, execução e nova coleta de dados para avaliá-la; repetição desse ciclo de atividades.

Na década de 1950, os manuais já descreviam uma linha de pesquisa pela qual os práticos estudavam cientificamente seus problemas, de modo a orientar, corrigir e avaliar suas ações e decisões, ou seja, uma ação sistemática, controlada, desenvolvida pelo próprio pesquisador. Um exemplo é o do professor que decide fazer uma mudança na sua prática docente e a acompanha com um processo de pesquisa. Para isso, planeja uma intervenção, coleta sistematicamente os dados, analisa-os segundo a literatura pertinente e relata os resultados. Essa foi a primeira geração da pesquisa-ação. Após um período de ostracismo, na década de 1970, a pesquisa-ação mobilizou diferentes grupos, que produziram correntes distintas em diferentes regiões da Terra.

Na corrente anglo-saxônica, adquiriu um caráter de diagnóstico. No início, centrou-se mais na imagem do professor, mas evolui até questões relacionadas ao currículo e condições institucionais. A corrente australiana se aproximou da anglo-saxônica, porém, foi além. Propõe que a pesquisa se volte para atividades de desenvolvimento profissional, programas de melhoria da escola, planejamento de sistemas e desenvolvimento de políticas. Filiada a essa corrente, pode-se identificar duas vertentes, a espanhola e a portuguesa, que discutem a pesquisa-ação no âmbito da formação continuada dos professores. A corrente americana se diversificou. Defende a investigação colaborativa ou cooperativa, que preconiza o trabalho conjunto e a colaboração progressiva entre pesquisador e grupo pesquisado. A corrente francesa compreende dois grupos. Um é o que se volta para a pesquisa institucional. Seu objetivo é que os grupos-objeto nas instituições cheguem a ser grupos-sujeito à medida que se conhecem, analisam e renovam, tornando as relações sociais mais eqüitativas e justas. O outro grupo se volta para a educação não-formal, ou seja, para a educação de adultos, educação popular, educação permanente e animação sociocultural. Seu alvo é a conscientização do grupo para uma ação conjunta em busca da emancipação. Essa corrente foi a que se desenvolveu na América Latina com o nome de pesquisa participante ou participativa. Dela, o princípio básico é o envolvimento dos sujeitos em todas as fases da pesquisa, inclusive na própria definição do problema a ser pesquisado.

É na última vertente que alinho o trabalho de Michel Thiollent (1992), no qual o autor até faz uma distinção entre pesquisa-ação e pesquisa participante, obra em que me fundamentei primeiro para distinguir pesquisa de desenvolvimento, como preconizo, de

pesquisa-ação. Houve outras. A opção por Thiollent é pertinente à história dessa modalidade de investigação no Brasil, como também um tributo à história que me constituiu leitor.

A pesquisa que realizei guarda semelhança com a pesquisa-ação da primeira geração norte-americana, tão logo que o termo e os passos investigativos foram fixados. No entanto, eu não quero fazer somente uma mudança na minha própria prática, como é a proposta original, porque não sou apenas o prático. Eu quero criar e refletir sobre a minha criação. Sei que uma mudança, por si, é uma criação. Mas a mudança (e criação) que tenho em mente tem a conotação de processo, não de produto. Deve ter alcance maior do aquele restrito à esfera da minha ação individual, particular. Por isso, reservo-me do termo “pesquisa-ação”. Em minha opinião, ele limita o problema à sua solução. Prefiro “desenvolvimento”, que abre e deixa abertas as portas, descortina horizontes para novos trabalhos – de criação, de mudança, de reflexões e, na esteira disso tudo, de novos desenvolvimentos, que por sua vez...

é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo (1992, p. 14).

A pesquisa-ação – e também a pesquisa participante – têm audiência garantida em vários meios sociais. Os partidários da metodologia convencional vêem em ambas um grande perigo: o de rebaixamento do nível do rigor acadêmico. Existem, sim, riscos efetivos e exageros na concepção e na organização da pesquisa, mas eles não são exclusividade de pesquisas não-convencionais. Podem ocorrer em todo tipo de pesquisa. Em qualquer caso, os riscos são superáveis por meio de uma fundamentação teórica consistente, salienta Thiollent.

Um dos objetivos da pesquisa-ação consiste em oferecer ao pesquisador e aos grupos de participantes implicados os meios de responderem aos problemas da situação em que vivem, em particular sob a forma de diretrizes de ação transformadora, com maior eficiência. De forma facilitada, busca-se a solução dos problemas para os quais os procedimentos convencionais têm pouco contribuído. Por causa da urgência do problema investigado, seja na educação, na informação, nas práticas políticas, etc., os procedimentos escolhidos obedecem a prioridades estabelecidas pelo diagnóstico da situação, para o qual os participantes tiveram vez e voz.