Com o objetivo de compreender qual a evolução registada nas publicações dos relatórios de sustentabilidade, iremos realizar uma análise estruturada a dois níveis: uma apresenta os valores agregados entre o ano de 1999 (data do surgimento do GRI) a 2011 e outra faz referência aos dados de 2011 (ano escolhido para o nosso estudo).
5.4.1.1 Setores económicos
Os setores de atividade económica considerados para o estudo têm como base a divisão sectorial apresentada pelo GRI e pela classificação do International Standard Industrial Classification of All Economic Activities.
Foram considerados exclusivamente os relatórios elaborados com as diretivas e os critérios propostos pelo GRI nas suas diferentes versões. Apresenta-se na tabela 5.5 os relatórios publicados no período referenciado por setor de atividade. Observa-se que existe uma percentagem significativa de relatórios que não referem o seu setor de atividade, correspondendo para os dados agregados a 754 relatórios (8%) dum total de 9.724 e a 219 relatórios (10%) dum total de 2.266 para o ano de 2011. De salientar para os dados agregados que 23 dos 37 setores apresentam algum equilíbrio no número de relatórios publicados nesse período.
Um aspeto importante prende-se com o baixo número de empresas a publicarem com regularidade. Do total de empresas 8.749, apenas 975 publicaram três ou mais relatórios.
Tabela 5.5: Distribuição por setores de atividade dos relatórios de sustentabilidade.
Número de relatórios publicados entre 1999–2011 Número de relatórios publicados em 2011 Setor de atividade n % n % 1 Agricultura 102 1,05 21 0,93 2 Energia 726 7,47 165 7,28 3 Mineração 446 4,59 105 4,63
4 Bens de consumo duráveis 122 1,25 18 0,79
5 Brinquedos 8 0,08 3 0,13 6 Conglomerados 220 2,26 47 2,07 7 Construção 271 2,79 68 3,00 8 Distribuição de água 144 1,48 31 1,37 9 Distribuição de energia 627 6,45 133 5,87 10 Equipamentos 175 1,80 38 1,68 11 Gestão de resíduos 75 0,77 21 0,93 12 Industria automóvel 207 2,13 39 1,72 13 Industria química 296 3,04 75 3,31 14 Equipamentos tecnológicos 280 2,88 50 2,21 15 Materiais de construção 232 2,39 53 2,34
16 Produtos alimentícios e bebidas 491 5,05 121 5,34
17 Produtos de saúde 253 2,60 41 1,81
18 Produtos domésticos e pessoais 156 1,60 28 1,24
19 Produtos florestais e papel 187 1,92 41 1,81
20 Produtos metalomecânicos e similares 216 2,22 50 2,21
21 Hardware 117 1,20 26 1,15 22 Telecomunicações 358 3,68 73 3,22 23 Tabaqueiras 67 0,69 4 0,18 24 Têxteis e vestuário 88 0,90 26 1,15 25 Aviação 170 1,75 39 1,72 26 Comunicação 99 1,02 24 1,06 27 Imobiliário 177 1,82 58 2,56 28 Logística 220 2,26 46 2,03 29 Retalho 244 2,51 39 1,72 30 Serviços comerciais 184 1,89 54 2,38 31 Serviços de saúde 74 0,76 31 1,37 32 Serviços financeiros 1309 13,46 298 13,15 33 Transporte ferroviários 55 0,57 14 0,62 34 Turismo e lazer 101 1,04 38 1,68
35 Sem fins lucrativos/ONG 233 2,40 69 3,05
36 Organismos públicos 191 1,96 46 2,03
37 Universidades 49 0,50 14 0,62
38 Sem área definida 754 7,75 219 9,66
Número total de relatórios 9724 100,00 2266 100,00
Fonte: http://database.globalreporting.org/search (acesso em 2012/2013).
É de assinalar que nos valores agregados, 8 dos 37 setores representam 47% de todos os relatórios publicados naquele período. Observa-se que em 2011 os mesmos setores apresentam a mesma tendência, representando 46% do total. Na tabela 5.6 apresentam-se os setores onde se regista esta concentração de relatórios. Destacamos como causas primárias para esta concentração a dimensão da empresa, a sua reputação corporativa e o impacte provocado pelas suas atividades. Cinco dos oito sectores pertencem a setores considerados de
risco (estes dados são comparáveis aos resultados obtidos por: Branco & Rodrigues, 2008 Holder-Webb et al., 2009).
Tabela 5.6: Concentração de relatórios por setor de atividade.
Relatórios entre 1999-2011 Relatórios 2011
Setor de atividade n % n %
1 Construção(*) 271 2,79 68 3,00
2 Industria química(*) 296 3,04 75 3,31
3 Telecomunicações 358 3,68 73 3,22
4 Mineração(*) 446 4,59 105 4,63
5 Produtos alimentícios e bebidas 491 5,05 121 5,34 6 Distribuição de energia(*) 627 6,45 133 5,87
7 Energia(*) 726 7,47 165 7,28
8 Serviços financeiros 1309 13,46 298 13,15
Total de relatórios 4524 46,53 1038 45,80 .
(*) Setores com atividades de risco acrescido.
5.4.1.2 Dimensão empresarial
Na tabela 5.7 apresenta-se a distribuição dos relatórios por dimensão empresarial. Como se observa, as empresas de grandes dimensões (GE) e as multinacionais (MN) para os dados agregados representam, respetivamente, 71% e 18% e no seu conjunto 89% dos relatórios publicados. No ano de 2011 estas dimensões empresarias representam, respetivamente, 69% e 18% e no seu conjunto 87% dos relatórios publicados. No âmbito das PMEs os dados agregados representam 10% e para o ano de 2011, 12% dos relatórios publicados.
Tabela 5.7: Distribuição dos relatórios por dimensão empresarial.
Entre 1999-2011 Ano de 2011 Dimensão n % n % PME 1050 10,80 289 12,75 GE 6946 71,43 1564 69,02 MN 1728 17,77 413 18,23 Total de relatórios 9724 100,00 2266 100,00
Fonte: http://database.globalreporting.org/search (acesso em 2012/2013).
Dimensão empresarial: O GRI segue os critérios publicados no JO L n.º 124, de 20 de maio de 2003.
Estes dados confirmam que à medida que as empresas se tornam maiores e globais, os efeitos positivos e negativos que geram no desempenho da sua atividade se manifestam com maior visibilidade aos olhos dos diversos stakeholders e dai a necessidade sentida de uma maior
comunicação. Referem esta relação os trabalhos de Brammer e Pavelin (2004, 2008); Archel et al. (2008); Kolk (2010); de Villiers et al. (2014); Barkemeyer et al. (2014).
Esta exposição tem produzido uma maior sensibilidade por parte das empresas em comunicar e justificar a sua legitimidade, presença e atividade no mercado (Branco & Rodrigues, 2008; Holder-Webb et al., 2009). Um outro aspeto a destacar tem a ver com a adoção progressiva que se tem vindo a verificar por parte das GE e das MN da prática de publicação conjunta dos seus relatos financeiros com os das suas atividades de responsabilidade corporativa e social (IIRC, 2013).
No caso das PMEs, comparativamente, não existe uma correspondência positiva entre a multiplicidade de empresas existentes e o número de relatórios publicados. De salientar que as PMEs representam, segundo a OECD (2008), aproximadamente entre 85 a 90% de todo o tecido empresarial – número de empresas a nível global. No espaço europeu temos 23 milhões de empresas, correspondendo a 99% do total de empresas na EU (Comunidade Europeia, 2006), com tudo o que de bom e mau representa. As causas possíveis para a fraca adesão podem estar diretamente relacionadas com a complexidade associada ao processo de relato, aos custos para a sua implementação, preparação e controlo para cumprimento dos requisitos normativos e a própria dimensão das unidades empresarias. Tudo isto origina a desmotivação e desencoraja a que as PMEs adiram ao relato e dêem a conhecer as suas atividades no âmbito da sustentabilidade.
Não obstante, independente da dimensão da empresa, a inter-relação que se estabelece entre a sua permanência a operar no mercado e a exposição do impacte mediático das suas atividades faz com que tenha a obrigação de comunicar (Steurer & Konrad, 2009; Kolk, 2010). Tanto os aspetos positivos como os negativos das suas atividades fazem com que a empresa seja vista como uma entidade quási-publica16 (Ulrich et al., 1995), a qual cumpre funções em nome de diversos grupos de stakeholders com expetativas, interesses e necessidades particulares.
5.4.1.3 Distribuição geográfica
Na tabela 5.8 apresenta-se a distribuição geográfica dos relatórios publicados. Observa-se que o continente europeu, comparativamente com os restantes continentes, é o que apresenta uma concentração maior de relatórios publicados com 45% tanto para os dados agregados como para o ano de 2011. Constata-se, igualmente, que as dinâmicas de publicação são diferentes para os restantes continentes. Porém, verifica-se a existência de tendências de crescimento no relato, facto que está relacionado com maiores níveis de globalização e deslocalização de alguns dos setores de atividade, assim como uma maior sensibilização para a temática da sustentabilidade.
Estes resultados indicam também que as empresas europeias têm vindo progressivamente e de forma consistente a desenvolver metodologias de apresentação e divulgação das suas atividades no âmbito da RSC, aproveitando a comunicação para dar a conhecer as suas preocupações e iniciativas em ações pro sustentabilidade (Cuganesan et al., 2010; Lozano, 2013) e de accountability (Kolk, 2008; 2010).
Tabela 5.8: Distribuição dos relatórios publicados por continentes.
Entre 1999-2011 Ano de 2011 Região geográfica n % n % Africa 428 4,40 120 5,30 América 2449 25,18 623 27,49 Asia 1942 19,97 405 17,87 Europa 4371 44,96 1017 44,88 Oceânia 534 5,49 101 4,46 Total relatórios 9724 100,00 2266 100,00
Fonte: http://database.globalreporting.org/search (acesso em 2012/2013).