Nosso trabalho com as informações qualitativas envolveu a coleta e tratamento dos componentes mais significativos das informações qualitativas. No trato das entrevistas dialógicas, tomamos o cuidado de transcrevê-las logo após a sua realização, ainda com a memória recente das impressões de maior impacto em nosso entendimento. Utilizamos o editor de texto Word Office 2010, momento a partir do qual, indo e vindo nas leituras, fomos selecionando trechos e atribuindo notas breves (comentários ou lembretes) baseados em nossa pré-compreensão – conforme assinalada por Gadamer (2008) – e nos pressupostos teóricos e conceituais antes referidos, mas sempre com zelo para evitar etiquetas deterministas e simplistas.
El proceso analítico de escribir marcha paralelo al de leer. Así como escribir es un acto positivo para encontrar sentido, también lo es leer (o ló debería ser). Un acercamiento activo y de tipo analítico a la “literatura” es parte importante del proceso recurrente de reflexión e interpretación (COFFEY; ATKINSON, 2003, p. 130).
O ponto de partida de nosso exercício hermenêutico nessa pesquisa foram os eixos temáticos, as dimensões interpretativas e as categorias preliminares baseadas na teoria, as quais foram sendo resignificadas e reelaboradas no processo de codificação, seguido da análise dos discursos, à medida que emergiam categorias novas no campo investigativo. Todas elas apreendidas nos textos dos discursos obtidos para então serem destacadas na composição reformulada da Rede Interpretativa, com vistas a destacar temas e conceitos capazes de cumprir funções importantes, inclusive, nos permitir revisar rigorosamente o que disseram as vozes consignadas em nossos dados.
As categorias inicialmente emergentes da base teórica que estruturou a pesquisa foram reformuladas e reajustadas com o avanço do trabalho de campo, no interior de um diálogo entre teoria e evidência empírica. O ponto de partida desse processo complexo de categorização, que nos exigiu muito na etapa de análise do material empírico, foi o esforço criativo para identificação de temas e dimensões relevantes e significativas – pertinentes aos objetivos da pesquisa e a dialética do desenvolvimento do projeto – surgidas nos discursos com alguma regularidade e coerência (LÜDKE e ANDRÉ, 1986; BOSI; UCHIMURA, 2010). Toda essa dinâmica no curso do estudo provoca, dentre outros movimentos, um revisitar da literatura antes consultada.
Gadamer (2008), por alusão a Heidegger, ressalta a importância da revisão dos projetos prévios de sentido em vistas da compreensão, notadamente na perspectiva de antecipar um novo plano de sentido. Sendo assim, criam-se as condições subjetivas para que também projetos rivais sejam postos lado a lado na construção de sentido, até alcançar uma unidade. Para aquele autor, todo esse movimento de sentido do compreender e do interpretar deve começar com conceitos prévios que, no curso desse processo, cederão lugar a outros mais adequados.
Quem quiser compreender um texto, realiza sempre um projetar. Tão logo apareça um primeiro sentido no texto, o intérprete prelineia um sentido do todo. Naturalmente que o sentido somente se manifesta porque quem lê o texto lê a partir de determinadas expectativas e na perspectiva de um sentido determinado. A compreensão do que está posto no texto consiste precisamente na elaboração desse projeto prévio, que, obviamente, tem que ir sendo constantemente revisado com base no que se dá conforme se avança na penetração do sentido (Op. cit., p. 105).
Ao lado das recorrências, procuramos igualmente evidenciar nos discursos analisados aqueles que se diferenciaram por expressar opinião notoriamente inovadora e, por vezes, oposta às demais. Foi interessante verificar ao longo desse processo hermenêutico que várias das vozes e experiências nelas presentes produziram insights, surpresas e outros impactos de viva importância em nosso esforço criativo, no encontro de uma tese de natureza acadêmica. Portanto, desenvolvemos nossa pesquisa conscientes de que o nosso conhecimento é, particularmente, função de interações com o mundo social que nos cerca, sendo também modelado pelos métodos de investigacão e tratamento dos dados que elegemos ou produzimos, não como um conjunto independente de procedimentos aplicados e resultados obtidos, mas como trabalho que foi adquirindo existência conforme nossas próprias vidas e processos analíticos.
Realizamos a condensação do grosso de nossas informações qualitativas em unidades analisáveis – e o fizermos à semelhança da codificação descrita por Coffey e Atkinson (2003), como o processo de compilação dos dados na perspectiva de expandir, transformar e recontextualizar os mesmos, ampliando assim as possibilidades analíticas no sentido de reconstruirmos diversas facetas das experiências das beneficiárias do PBF na forma de um texto analítico, intrinsecamente relacionado a um processo de teorização. Trabalho intelectual esse que, sabe-se, além de exigir uma leitura ativa da literatura de ciências sociais e humanas, requer uma interação criativa e disciplinada com a produção subjetiva. Nesse prisma, a codificação foi empregada para interagir com as informações qualitativas até alcançar categorias mais gerais e simples e, adicionalmente, selecionar e recombina-las com vistas à formulação de novas perguntas e níveis de interpretação.
Percorrendo e integrando as informações qualitativas no processo de codificação criamos categorias com elas e a partir delas estabelecemos vínculos de várias classes, destacando excertos significativos por nós reunidos para identificar, criativa e criticamente, categorias estreitamente relacionadas às diretrizes analíticas e aos eixos temáticos, sempre buscando unidades significativas, como parte do empreendimento indutivo guiado pelas mesmas informações, coerentes com os
objetivos traçados para essa pesquisa.
A codificação das informações qualitativas – ao exigir a leitura e releitura e realizar uma série de ações que ajudam a seleção, o recorte, a fragmentação e a categorização – possibilita ao investigador obter uma visão (recontextualizada) em perspectiva do conjunto de informações reunidas. Nada obstante, a interpretação requer a transcendência os dados “fáticos” como parte de um processo analítico norteado por zelo e rigor (COFFEY; ATKINSON, 2003; NEVES, 1996). Para tanto, nesse trabalho, buscando o alinhado com a tradição hermenêutica, optamos pela técnica de análise de discurso identificada com a vertente crítica.
Na perspectiva de uma análise crítica, o discurso – uma vez reconhecido como prática social (nas dimensões reprodutiva e construtiva) – deriva da interface dialética entre as estruturas e as relações sociais. Por tal óptica, a Análise de Discurso abrange também algumas dimensões implicadas com o contexto de quem fala em um dado tempo e lugar (ROJO, 2004). Sendo assim, no caso concreto dessa pesquisa, importou conhecer a representação dos processos comunicativos implicados com a condição de privação material, particularmente do modo expressado (e apreendidos como códigos em nosso esforço hermenêutico) pelos titulares do cartão do Bolsa Família, ao lado da intervenção política a ela relacionada ou focalizada.
Os códigos frequentemente representam categorias de distintas abordagens, não necessariamente contraditórias, mas sempre complexas, algumas das quais já implicam referências interpretativas ao vincularem pressupostos teóricos e conceituais a questões críticas que emergem do campo de investigação. Nesse passo hermenêutico, a decisão que tomamos nesse trabalho ao longo do processo de codificação – focalizando relações sistemáticas entre eixos temáticos, diretrizes analíticas e categorias empíricas – implicou em uma estratégia analítica, aqui assumida como uma Rede Interpretativa.
Todo el proceso de investigación debe estar condicionado por la conciencia de lãs posibilidades del análisis. La investigación bien informada y diseñada y la recolección de datos siempre deben conducirse comprendiendo cuáles, seguramente, van a ser lãs estrategias analíticas (COFFEY; ATKINSON, 2003, p. 14).
O processo de codificação realizado possibilitou a identificação de fenômenos instigantes, representando, por conseguinte, informação qualitativa para análise crítica dos discursos. Os códigos, tomados como princípios organizadores favoreceram ainda o reordenamento das informações qualitativas, provocando-nos a discutir os mesmos de modos distintos de muitas de nossas ideias de partida nesse trabalho.
Desse modo, em nossa incursão no campo investigativo protagonizado por beneficiárias da transferência de uma renda mínima, nos permitimos analisar os discursos em termos de como eles se desenvolvem ou como constroem sentidos e significados. Por tal premissa hermenêutica, buscando-se problematizar a relação do sujeito com o sentido em face da determinação histórica do processo de significação, foram estabelecidas corelações entre fontes documentais e algumas das situações narradas ou os argumentos mais ou menos expressos pelas entrevistadas.
Quem escuta deve estar disposto a ouvir pra lá das evidências e compreender, acolhendo a opacidade da linguagem, a determinação dos sentidos pela história, a constituição do sujeito pela ideologia e pelo inconsciente, fazendo espaço para o possível, a singularidade, a ruptura, a resistência (ORLANDI, 2012, p. 59).
Na busca da compreensão da constituição do sujeito, em função das ideologias que o implicam no âmbito de suas funções e relações sociais, particularmente aquelas associadas à sua inserção como beneficiário do PBF, adotamos uma versão analítica de discurso também inspirada na teoria crítica identificada com o materialismo histórico. Por tal enfoque reflexivo, valoramos a vertente interpretativa que considera as produções discursivas na qualidade de componentes de formações ideológicas – contexto no qual o sujeito que fala toma posição em meio às representações das quais ele é o suporte em um determinando momento histórico (MALDIDIER, 2003). Dito de outra forma, as narrativas individuais estão situadas dentro de interações particulares e no interior de discursos sociais específicos.
Para a identificação dos temas e conceitos pertinentes ao objeto em estudo tomamos como referência as informações qualitativas coletadas nas entrevistas para pensar com e a partir deles, prestando atenção não apenas na semântica do
discurso, mas também na maneira como se expressa algo, as conexões com outras passagens discursivas, o conjunto de cada fala individual e, ainda, o que foi referido sobre o mesmo assunto por outros entrevistados.