Para a consecução dos objetivos expressos nesta proposta de pesquisa, foram utilizados procedimentos de cunho qualitativo, para facilitar uma investigação prioritariamente psicológica dos significados e sentidos das crianças com câncer, a respeito da própria doença, no Centro Pediátrico do Câncer (CPC), anexo do Hospital Infantil Albert Sabin. Toda a investigação teve como fundamento principal a Teoria Histórico-Cultural de Lev Semenovich Vigotski.
A pesquisa qualitativa vem em auxílio de uma investigação pormenorizada, de caráter subjetivo e dialético, em que devem ser considerados diversos aspectos componentes das particularidades do adoecimento de câncer para os pacientes. Assim, utilizamos como procedimentos de elaboração dos dados da pesquisa as produções das crianças investigadas, com esteio em recursos lúdicos: desenhos, brincadeiras e as falas que foram organizadas e sistematizadas em forma de estudo de caso. A observação participante também constituiu meio valioso para maior apropriação dos aspectos hospitalares e das interações das crianças com a equipe e todo o universo hospitalar que as circundam. As entrevistas com as mães forneceram subsídios complementares, com auxílio na composição das histórias de vida e na contextualização do próprio entendimento da expressão da criança.
Consoante González Rey (2002), a epistemologia qualitativa se fundamenta em três princípios de grande importância metodológica. O primeiro deles se refere ao conhecimento como produção construtiva-interpretativa. O conhecimento, assim, não constitui mera soma de fatos comprovados empiricamente. A interpretação possibilita que as expressões do sujeito em estudo sejam prenhes de sentido. Ela constitui um processo a que o pesquisador agrega os dados e indicadores obtidos durante a pesquisa, reconstituindo-os, de modo interpretativo, de modo diferente se tomados isoladamente,
apenas como constatações resultantes da empiria. Trata-se de uma complexidade progressiva, que não condiz com a redução do valor do objeto de estudo a categorias já estabelecidas.
A interpretação diferencia-se justamente por dar vazão às diversas manifestações que emergem do objeto de estudo e as transforma em momentos particulares de um processo global. Não se refere, portanto, a uma categoria universal e sem variação da base teórica adotada no estudo. Como é dito em González Rey:
A teoria está presente como instrumento a serviço do pesquisador em todo o processo interpretativo, mas não como conjunto de categorias a priori capazes de dar conta dos processos únicos e imprevistos da pesquisa: só influi no curso das construções teóricas do pesquisador sobre o objeto. A teoria constitui um dos sentidos do processo de produção teórica, não o esquema geral ao qual se deve subordinar esse processo. (2002, p. 33).
Outro princípio que sustenta a epistemologia qualitativa, apontado por González Rey (2002, p. 34), é o “caráter interativo do processo de produção do conhecimento”. Este aspecto destaca a importância das relações entre pesquisador e pesquisado como condição para o desenvolvimento das pesquisas. Ressalta, ainda, a importância do contexto em que os sujeitos se encontram inseridos, como pontos fundamentais para a produção de um conhecimento de qualidade.
A singularidade também constitui outro ponto a desfilar nas considerações do autor: “significação da singularidade como nível legítimo da produção do conhecimento”. Aspecto antes desconsiderado cientificamente, a singularidade é legitimada pela pesquisa subjetiva.
A subjetividade individual se constitui em um indivíduo que atua como sujeito graças a sua condição subjetiva. O sujeito é histórico, uma vez que sua constituição subjetiva atual representa a síntese subjetivada de sua história pessoal, e é social, porque sua vida se desenvolve na sociedade, e nela produz novos sentidos e significações que, ao constituir-se subjetivamente, se convertem em constituintes de novos momentos de seu desenvolvimento subjetivo. Por sua vez, suas ações na vida social constituem um dos elementos essenciais das transformações da subjetividade social. (GONZÁLEZ REY, 2002, p. 38).
A definição do nosso objeto de estudo de base qualitativa, ainda de acordo com Rey (2002), foca o esclarecimento e o conhecimento da complexa constituição subjetiva, sem imprimir a tentativa de predição ou controle da situação a ser estudada. Nosso trabalho define-se pela captação de sentidos subjetivos e processos de significação.
Considerando esta prioridade, estamos ciente de que as elaborações do sujeito a ser investigado não provêm de certa linearidade e isomorfismo, desde a indução promovida pela aplicação do método. A complexa trama da investigação, da singularidade e história de vida de cada participante, exige acurada perícia do investigador. Isso, entretanto, não pode ser conquistado sem a implicação ativa do pesquisador. O uso dos instrumentos, por si, não garante os resultados coerentes com o caráter qualitativo da investigação (GONZÁLEZ REY, 2002).
Só a presença do pesquisador na situação interativa que toda pesquisa implica representa um elemento de sentido que afeta de múltiplas formas o envolvimento do sujeito estudado com a pesquisa. O sujeito pesquisado é ativo no curso da pesquisa, ele não é simplesmente um reservatório de respostas, prontas a expressar-se diante da pergunta tecnicamente formulada. (GONZÁLEZ REY, 2002, p.55).
A espontaneidade e os vínculos formados durante a pesquisa entre participantes (mães e crianças) e o uso dos instrumentos metodológicos com certa fluidez, permitindo que se ajustasse a cada momento interativo, permitiu a riqueza de informações e detalhes expressos de variadas maneiras pelas crianças e suas mães.
Então, em virtude do modo como as informações foram se organizando, a pesquisa tomou uma direção não delimitada anteriormente como pretensão metodológica. De posse do recorte das falas das crianças, da minúcia exigida no processo analítico e do contexto fornecido pelas mães, vimo-nos impossibilitada de abarcá-los, todos, no escopo desta dissertação.
Com isso, não intencionalmente, com a permissão do fluxo da elaboração da análise, a pesquisa se organizou em dois estudos de caso. Deste modo, não seria necessário um recorte tamanho das transcrições que prejudicasse a leitura, interpretação e visão do todo, embora a concentração se faça em torno dos significados e sentidos do câncer para as crianças. Como apreender, porém, o fluxo do pensamento infantil, do texto e subtexto presentes sem suas expressões, desconsiderando o contexto histórico e social em que vive cada uma delas? Não há como homogeneizar as biografias deste estudo, embora elas representem milhões de histórias de crianças acometidas por um tumor maligno.
Na perspectiva de Ventura (2007) o estudo de caso se origina nas pesquisas médicas e psicológicas, com a finalidade de produzir a análise detalhada de um evento particular, com esteio em algum processo patológico.
[...] o estudo de caso como modalidade de pesquisa é entendido como uma metodologia ou como a escolha de um objeto de estudo definido pelo interesse em casos individuais. Visa à investigação de um caso específico, bem delimitado, contextualizado em tempo e lugar para que se possa realizar uma busca circunstanciada de informações. (VENTURA, 2007, p. 384).
Ventura (2007) ainda leciona que a possibilidade do estudo de uma unidade, contextualizada e delimitada, permite a análise do caso em si e do todo que ele representa. Assim, estruturamos os estudos de dois casos selecionados entre as quatro crianças investigadas, seguindo a análise microgenética, no intuito de delinear a captação dos significados e sentidos do câncer infantil, sem deixar de inseri-las num âmbito social e cultural específico.