Para facilitar a entrada no campo investigativo, entendemos prudente envolver a mediação de pessoas capazes de identificar mulheres elegíveis para as entrevistas, conforme o perfil inicialmente pensado (35 anos, dois filhos, inscrita no PBF há no mínimo dois anos), e, ao mesmo tempo, que fossem da esfera de confiança destas, no sentido de motivá-las a participar da pesquisa, dialogando conosco. A ideia foi procurar, tanto quanto possível, desvencilhar aquelas mulheres do receio de perder o benefício, em razão da suspeita de (possível) ação fiscalizadora. Em outras palavras, adotamos uma postura de cautela, que deve ser compreendida como um esforço com vistas a “exorcizar” o medo de deixar escapar a “zona de conforto” proporcionada pela transferência mensal de dinheiro, por entender que tal situação de insegurança poderia, como notório, influir na fidedignidade das narrativas.
Antes, porém, percebemos que o recrutamento de beneficiárias para a entrevista não seria tarefa fácil, tendo em vista dificuldades no trato da aproximação inicial, cuja qualidade da abordagem é vital para pactuação de uma relação de confiança. Mas, onde e como começar a tratar uma questão tão sensível, visto que envolve dinheiro para sustento de uma família, sabendo-se ser natural a estranheza de uma titular desse direito com a atitude curiosa e, porque não dizer invasiva, de
terceiros.
A propósito, avaliamos a possibilidade de abordar beneficiárias ao acaso, chegamos inclusive a estabelecer contatos iniciais com o proprietário de uma agência lotérica ligada à Caixa Econômica Federal, lugar onde é pago grande parte dos benefícios do PBF. Todavia, abandonamos a idéia por avaliar de antemão que nossa presença naquele local poderia transparecer ameaça (golpe ou roubo), assédio (moral e sexual) ou outro viés.
Dentre outras soluções de encaminhamento para recrutar beneficiárias, cogitamos a possibilidade de partir dos dados relativos às famílias dos alunos da educação infantil e/ou ensino fundamental de uma determinada escola, bem como das informações contidas em certa unidade do Programa Saúde da Família (PSF) ou Centro de Referência da Assistência Social (CRAS). Entretanto, logo descartamos esse caminho, posto envolver equipamentos públicos relacionados ao controle das condicionalidades em educação, saúde e assistência social, respectivamente. Pela mesma razão, preferimos não partir das indicações do staff da “Casa do Cidadão” de Sobral.
No afã de buscar informantes a partir de um local que não tivesse implicação direta com as condicionalidades, optamos pela Escola de Artes e Ofícios de Sobral, espaço público voltado à qualificação profissional (gratuita) de jovens e adultos de baixa renda. Assim, a partir de contatos com a direção da Escola chegamos até uma Educadora Social residente no mesmo bairro (D. Expedito, situado na periferia urbana) que, tão logo cientificada dos propósitos da pesquisa e tendo conhecido o instrumento da entrevista, aceitou a tarefa de colaborar conosco na fase de pré-teste do Roteiro Guia, com a missão adicional de identificar no cadastro da escola três mulheres de 35 anos beneficiárias do Bolsa Família e com 2 filhos inscritos no programa há pelo menos dois anos (naquele momento os dados de inscritos no PBF apontavam 726 mulheres nessa situação no município – Apêndice B) e, ato contínuo, convidá-las para uma entrevista.
O processo de recrutamento acima descrito demorou três semanas, tendo sido relatadas dificuldades de localizar mulheres com exatos 35 anos e que, satisfeitas as outras condições exigidas no perfil indicado, aceitassem participar da
entrevista. Na oportunidade, a Educadora Social relatou haver encontrado resistência e desconfiança quanto ao mérito da pesquisa, no sentido de que poderia ser uma fiscalização de algum agente do governo, motivo pelo qual elas preferiam não participar.
Retornamos então à Educadora Social para detalhar os objetivos do pré-teste e analisar com ela as questões propostas no sentido de esclarecer eventuais mal entendidos, que poderiam estar dando causa à hesitação das beneficiárias quanto à participação voluntária na pesquisa. Na mesma articulação, analisando em conjunto a dificuldade em localizar uma mulher de 35 anos completos e a distribuição por ano de idade das titulares do PBF em Sobral (Apêndice B), resolvemos alterar o perfil etário alvo das entrevistas, de modo a abranger o intervalo de 30 a 39, justamente a idade em anos com maior frequência, visto os dados oficiais.
Duas semanas depois, finalmente nos foi oportunizado o acesso a três mulheres (dentre quatro convidadas) para entrevista, conforme grupo etário ampliado de um ano para uma década, como acima mencionado. Dessa feita realizamos as primeiras entrevistas com o propósito definido de aperfeiçoar o instrumento para esse fim específico, (Roteiro Guia, Apêndice A), bem como o equipamento de gravação.
Por tais motivos, procuramos nos cercar de algumas cautelas para, senão afastar, minimizar resistências e desconfianças quanto à real ou suposta intencionalidade do pesquisador. Tanto mais considerando as dificuldades relatadas em campos investigativos análogos, as quais destacam o medo da perda do benefício do PBF como limitador importante.
Tivemos a dificuldade de fazer com que as mães beneficiárias falassem espontaneamente e aceitassem se envolver com a pesquisa, talvez pelo fato de o PBF impor condicionalidades e estabelecer punições, como, por exemplo, o cancelamento do recurso, as mães de demonstraram receosas e constrangidas durante as entrevistas (MOREIRA, 2011, p. 70).
Surgiram algumas dificuldades para a realização das entrevistas, pelo fato de que as pessoas a serem entrevistadas pensaram tratar-se de uma fiscalização do programa, em vez de um estudo. (...) Houve resistência à gravação das falas pelo medo de comprometer o benefício por meio das declarações prestadas(BORGES, 2009, p. 54).
Nossa experiência no exercício do trabalho de nutricionista junto a SAFS, no período de 1996 a 2008, facilitou por demais os contatos com as famílias da comunidade. Nesse processo, cinco agentes comunitárias de saúde (ACS) e duas lideranças locais aceitaram de pronto colaborar e recrutaram beneficiárias com o perfil traçado para a investigação. De modo que, nossa incursão no campo contou com uma Rede de Contatos.
Sendo assim, a história de nossas relações profissionais e afetivas firmadas ao longo de doze anos em torno das famílias e alguns atores sociais que compõem a comunidade dos bairros Alto Novo I e Alto Novo II, facilitou sobremaneira o estabelecimento um pacto de confiança, indispensável no que tange ao sigilo das informações expressadas nas entrevistas, conforme as razões antes expostas.
Contudo, também contamos com informantes-chaves relacionados à condução do PBF em Sobral, pessoas essas responsáveis pela gestão do programa, cadastro e operacionalização das inclusões e exclusões de beneficiários e comando das ações de campo junto às famílias inscritas. A partir da colaboração desses sujeitos tivemos acesso à base de dados local.
Optamos pelo apoio das ACS por força de estarmos seguros da relação de confiança historicamente construída entre aquelas profissionais e a comunidade da área, tomando como referência o que testemunhamos de perto em anos anteriores. Adicionalmente, não identificamos qualquer implicação prática daquelas agentes com a possibilidade de bloqueio do benefício por desconformidade da conduta da família, seja em relação à vacinação, assistência pré-natal ou outra contrapartida exigida das famílias no campo da saúde. Nessa linha, não apuramos nenhum registro em Sobral de bloqueio ou corte do benefício em dinheiro do PBF por conta de descumprimento das condicionalidades em saúde, diferente do que ocorre na Educação, como será adiante exposto.
Na sequência, com a intermediação de nossa Rede de Contatos constituída por cinco ACS, um instrutor da Banda Musical sediada no bairro (na SAFS) e uma liderança do tipo carismática residente há 34 anos no bairro, foram progressivamente surgindo beneficiárias com o perfil previamente definido, e, nesse processo, agendadas entrevistas com dia hora e local, conforme a conveniência de cada
pessoa convidada a participar. Cumpre ressalvar que as mulheres da comunidade reservam a manhã e o início da tarde para o trabalho, inclusive o doméstico.