6. Findings
6.1. A Business Model for Sustainability
6.1.2. Key Activities
Neste tópico, dedicamo-nos a analisar quatro artigos: os artigos de Marcos Barbosa de Oliveira, intitulados A Crise e o Ensino de Ciências (1998) e Considerações sobre a neutralidade da ciência (2003), o artigo de Ileana María Greca e Olival Freire Júnior., intitulado A "crítica forte" da ciência e implicações para a educação em ciências (2004), e o artigo de Reinaldo Furlan, Uma revisão/discussão sobre a filosofia da ciência (2003).
Nesse grupo, a partir da discussão epistemológica, foram elucidados os paradoxos que contornam a atividade científica, salientando a importância de se refletir acerca do papel da ciência.
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O artigo intitulado A Crise e o Ensino de Ciências (1998), de Marcos Barbosa de Oliveira, apresentou uma discussão no âmbito da Filosofia da Ciência, e, nesse contexto, assinalou a situação de crise pela qual a ciência passa, suas concepções predominantes e seus irracionalismos. O autor realçou que, por trás do discurso científico que estabelece as certezas e verdades absolutas, há interesses particulares que têm desviado os avanços tecnológicos das finalidades humanas. O positivismo, por priorizar a segurança advinda da ciência, supervaloriza a confiança no sujeito, o que dificulta o reconhecimento das limitações e das contradições contidas em suas atividades. Sendo assim, destacou a importância de uma atitude crítica na ciência e sobre a ciência, sugerindo que se faça uma análise das concepções que têm contornado a atividade científica, reconhecendo suas influências, suas falhas e suas limitações. A discussão contribuiu no sentido de elucidar o paradoxo contido nos avanços tecnológicos, contornando as implicações no âmbito do ensino.
O autor, por abordar a discussão de maneira ampla, não trabalhou com a crítica frankfurtiana, mas se aproximou em vários momentos de sua discussão, ao explanar enfaticamente sobre a importância de uma atitude crítica na ciência e sobre a ciência. Não se trata, porém, de banir a atividade científica, mas de reconhecer suas limitações: “[...] deve-se procurar corrigir os rumos de seu desenvolvimento, deve-se reorientá-la tendo em vista os problemas fundamentais da humanidade”. Com efeito, o autor destacou:
O que está em pauta, em outras palavras, é a responsabilidade social da
ciência - a ideia de que os cientistas são no mínimo corresponsáveis pelas
consequências sociais de suas práticas. Nessa posição, cabe a eles estudar tais consequências, avaliar em que medida cada especialidade contribui para tornar a sociedade mais ou menos justa, mais ou menos eficiente. (p.14).
Com efeito, os avanços tecnológicos não têm se voltado para interesses e finalidades humanas, não têm cumprido suas promessas de libertação e emancipação da humanidade, visto que boa parte dos seres humanos são privados das condições básicas de sobrevivência: “[...] apesar de todo esse progresso, a maioria dos seres humanos continua sendo vítima de toda a sorte de privações, da fome, da miséria material e espiritual, de doenças, da falta de habitações decentes etc.”. (p.11). Dessa forma, o autor sustentou que “[...] apesar de em princípio aumentar o domínio do homem sobre a natureza, a ciência, no fim das contas, deixa muito a desejar quando avaliada sob o prisma da satisfação das necessidades básicas dos seres humanos” (p.11) – o homem dominou a natureza, mas não conseguiu suprir nem mesmo as necessidades básicas dos seres humanos. Para que fazer ciência, se não se aplica à humanidade como um todo?
No âmbito do ensino de ciências, o autor destacou que é imprescindível ao professor refletir sobre a ciência e sobre as suas concepções, pois seus desdobramentos refletem no todo social. Os sinais de crise da ciência vêm desencadeando a adoção de algumas posturas reativas ou irracionalistas, na contemporaneidade. Dentre essas posturas, o autor salientou o anticientificismo, que se trata de vertentes que recusam o conhecimento científico, a atração pelas formas “[...] orientais de misticismo e medicina [...] auras, duendes, florais, I Ching, Nostradamus, Paulo Coelho; é vasto o cardápio do alternativismo, e as prateleiras das livrarias, bem como as listas de best-sellers dão uma boa ideia das dimensões do fenômeno” (p.02).
Podemos aproximar a crítica ao anticientificismo à crítica que realizamos no grupo de análise I, em que identificamos que, ao se criticar os determinismos da atividade científica, se desprezou a atividade racional, recaindo num discurso irracional. Isto é, é a crítica da própria crítica ao positivismo.
Além disso, o autor chamou a atenção para a aproximação da concepção de ciência com o discurso oficial do neoliberalismo, em que a concepção de ciência acaba por reforçar uma situação de dominação, enfatizando o discurso moldado por interesses particulares, que
[...] determina as decisões sobre a ciência que são efetivamente tomadas, continua fixado em umas tantas pressuposições, como se fossem dogmas: que a ciência é sempre benéfica para a humanidade, que sem ciência não há
desenvolvimento, de que hoje, com a globalização, mais do que nunca a ciência é imprescindível para qualquer país que pretenda ter sucesso na arena da competição internacional. (p.02).
O segundo artigo examinado também é de autoria de Marcos Barbosa de Oliveira, intitulado Considerações sobre a neutralidade da ciência (2003), em que a discussão foi em torno da tese da não neutralidade da ciência. O objetivo do autor foi buscar uma definição para a tese da não neutralidade da ciência, e um dos pontos cruciais de sua discussão refere-se ao relativismo. O autor enfatizou que, muitas vezes, a reflexão crítica acerca das limitações da ciência junto à defesa da tese da não neutralidade acaba recaindo em discursos relativistas – tendência geralmente presente em discursos pós-modernos. Destarte, chamou a atenção aos irracionalismos e incoerências do discurso relativista que, segundo ele, acabam, por si só, sendo autodestrutivos. Dessa forma, propõe como desafio, discorrer sobre a tese da não neutralidade da ciência, preservando seu aspecto crítico, sem cair no relativismo.
O autor retomou os escritos de Hugh Lacey, filósofo da ciência que tem se dedicado a esse objetivo, e se apoia em algumas de suas considerações. Em síntese, enunciou os princípios que aposta dar conta do tema de neutralidade da ciência: a imparcialidade, a neutralidade aplicada e a neutralidade cognitiva.
Concernente ao princípio da imparcialidade, este se restringe ao “uso exclusivo de valores cognitivos na seleção de teorias”, valores pautados na adequação empírica das formulações, sua consistência lógica, poder explicativo, entre outros (p.166). Isto é, para ser imparcial, não pode haver interferência de valores considerados não cognitivos (valores sociais e morais). De acordo com o autor, as posturas mais radicais de crítica à ciência não consideram de modo algum a imparcialidade, nem mesmo como um ideal, “[...] sustentando ser impossível excluir os valores não cognitivos” (p.167). Logo, o autor reforça: “[...] se quisermos evitar o relativismo, devemos, portanto preservar a imparcialidade como um ideal, ou seja, como um valor” (p.167). Não se pode abrir mão do ideal da imparcialidade; por mais que não seja atingida, ela deve ser mantida.
Quanto ao princípio da não neutralidade, em síntese, o autor explicitou a inviabilidade da formulação de que a ciência é neutra e de que suas aplicações (tecnologia) não o são. O autor sustentou a impossibilidade de separação entre ciência e
tecnologia. Assinalou que há situações em que os efeitos da ciência são explicitamente intencionais, no entanto há outras situações em que a ciência traz sérios danos, porém não intencionadamente – mas nem por isso deixa de ser maléfica. Isso torna a tese da neutralidade insustentável.
Para isso, salientou alguns pontos que devem ser observados diante dos malefícios não intencionais da ciência: os vários efeitos das inovações tecnológicas – dentre eles, a destruição e a degradação do meio ambiente, além dos problemas éticos, como a clonagem humana e o anticoncepcional; os interesses comerciais e produtivos, entre outros, e exemplificou as contradições com algumas interrogações, como a que segue:
[...] será que, do ponto de vista das condições de saúde da totalidade dos seres humanos, os recursos destinados às pesquisas de alta tecnologia, que na maioria dos casos são acessíveis apenas às camadas mais ricas, não teriam um retorno muito maior se aplicados na eliminação das causas dos problemas de saúde da imensa maioria pobre da população do mundo? (p.170).
Por fim, é enfático ao afirmar a importância de se levar em conta esses aspectos ao se pensar em projetos científicos e tecnológicos. A tese da não neutralidade permite uma visão crítica sobre o papel da ciência e da tecnologia na sociedade, permite que “[...] se examine criticamente o papel social da ciência e da tecnologia no mundo em que vivemos”, e “[...] não ameaça a tese da imparcialidade, necessária para evitar o relativismo” (p.172). Enquanto não se considerar esses aspectos, os papéis da ciência e da tecnologia não cumprirão com sua finalidade social e humana.
Outro artigo que incluímos nesse grupo é o texto de Ileana Maria Greca e Olival Freire Júnior. Intitulado A "crítica forte" da ciência e implicações para a educação em ciências (2004), abordou a importância do trabalho com a História e Filosofia da Ciência na formação de professores para o ensino de ciências. Ressaltaram, portanto, as contribuições da perspectiva pós-moderna para o ensino de ciências, apesar de todas as suas limitações, pois instiga a investigação no âmbito epistemológico. Os autores defenderam o quanto as discussões no campo da história social da ciência e da sociologia da ciência, independentemente de seus vieses epistemológicos, têm ajudado a tornar mais inteligível o fenômeno da ciência. Greca e Freire Júnior apontaram que essa
discussão contribui para a aproximação da temática epistemológica, oportunizando uma reconsideração no papel da ciência, desmistificando seu papel de neutralidade e de poder absoluto. Dessa forma, ao destacar a ciência, enquanto construção humana, fortalece a “[...] formação de cidadãos críticos que possam questionar os produtos culturais de seu tempo” (p.353), contribuindo para “[...] tornar mais inteligível o fenômeno da ciência, de sua produção e de sua difusão nas sociedades contemporâneas” (p.353).
Os autores observam que o trabalho com a História e Filosofia da Ciência na formação de professores para o ensino de ciências tem ganhado espaço, considerado importante para o aprimoramento dessa área. Em síntese, no âmbito do ensino de ciência, extraem e salientam três posicionamentos: 1) pós-modernista, que ataca e nega a ciência, tendência irracionalista; 2) a defesa cega da ciência; 3) a busca por “[...] uma imagem mais realista do fenômeno multifacetado que é a ciência contemporânea” (p.348).
No que tange ao ataque e negação da ciência, representado pelos pós- modernistas, a superioridade do conhecimento científico é colocada em questão, em detrimento das demais formas de conhecimento. Essa corrente é fortemente criticada devido ao relativismo nela implícito, pois qualquer alicerce é negado.
O segundo posicionamento, contraponto da postura pós-moderna, se refere à defesa cega da ciência, sustentada pela visão empirista e indutivista. Essa tendência acusa o pós-modernismo de relativismo e de anticientificismo, que pode levar a uma sociedade sem “alicerce de uma cultura civilizada” (p.346). Para seus adeptos, “[...] o sociólogo deveria aceitar que o pesquisador científico procura a verdade e que, embora se tenha que admitir que a organização social condiciona a pesquisa, a mesma não determina [...] o valor de verdade dos mesmos” (CUDMANI apud GRECA; FREIRE JÚNIOR, 2004, p. 345). Isto é, implica numa concepção de ciência neutra, enfatizando o “[...] apelo à verdade, independente de desejos humanos ou de questões de poder” (MATTHEWS apud GRECA; FREIRE JÚNIOR, 2004, p. 345). Com efeito, acusam os relativistas de desvalorizarem a ciência, e, com isso, invalidarem o próprio ensino de ciências. Assim, de acordo com essa postura, deve-se defender e considerar que
[...] os objetos teóricos de que trata a ciência são acerca do mundo real, e podem ser deduzidas proposições verdadeiras sobre eles, então existe um conhecimento, o conhecimento científico, que é melhor que as concepções alternativas que os estudantes eventualmente possuem. (CUDMANI apud GRECA; FREIRE JÚNIOR, 2004, p. 345).
Como alternativa, que decorre do terceiro posicionamento, os autores buscam uma postura crítica capaz de trazer à tona a discussão a propósito de “[...] uma imagem mais realista do fenômeno multifacetado que é a ciência contemporânea, em vez de simplesmente negá-las ou atacá-las” (p.348), de modo a “[...] evitar uma visão rígida [...] deformada e descontextualizada, socialmente neutra da ciência” (p.347-348).
Como referencial de base, aludiram ao pensamento de Boaventura de Sousa Santos, no que se refere à crise do conhecimento científico, e à possível mudança de paradigma na própria ciência. Santos discute a crise do paradigma da racionalidade científica moderna e acentua suas limitações, defendendo a tese de que estamos em um período de transição de paradigma.
Essa discussão tem elucidado as insuficiências sociais e teóricas desse paradigma, rompendo com a noção de espaço e tempo absolutos e a distinção entre sujeito e objeto, mostrando que “[...] não é possível observar ou medir um objeto, no mundo microscópico, sem interferir com ele” (p.350). Sendo assim, põe-se em questão a completude dos sistemas matemáticos, suas certezas e evidências absolutas. Não obstante, os conteúdos também são questionados, uma vez que a tendência de especialização é estimulada, impedindo o conhecimento da totalidade. A ciência entra em crise.
Os pressupostos metafísicos, os sistemas de crenças, os juízos de valor, não estão antes nem depois da explicação científica da natureza e da sociedade. São parte integrante dessa mesma explicação. A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade. Nada há de científico na razão que hoje nos leva a privilegiar uma forma de conhecimento baseada na previsão e controle dos fenômenos. No fundo, trata-se de um juízo de valor. (SANTOS apus GRECA; FREIRE JÚNIOR, 2004, p. 352).
Chamam a atenção para os paradoxos contidos na proposição moderna, em que as promessas de progresso da sociedade moderna vinculadas à ciência não aconteceram. Destarte, no lugar do progresso, vê-se uma “[...] exploração excessiva
e despreocupada dos recursos naturais e o desenvolvimento do poder destrutivo da tecnologia” (p. 350).
As críticas e considerações de Boaventura Sousa Santos sobre a ciência também são alvos de críticas, como realçado pelos autores. Dentre as críticas, destacam ser esta uma proposição perigosa, por poder levar a uma postura anticientífica de negação da ciência (DEUS apud GRECA; FREIRE JÚNIOR, 2004, p.352).
Outro texto deste tópico, o artigo de Reinaldo Furlan, intitulado Uma revisão/discussão sobre a filosofia da ciência (2003), que apresenta uma discussão no âmbito da História e Filosofia da Ciência. O autor buscou evidenciar a natureza do conhecimento científico, com o intuito de desconstruir a visão de ciência disseminada pelo senso comum, apresentando discussões epistemológicas a partir do tensionamento das teorias de Kuhn e Popper, seus pontos de convergência e de divergência. Para isso, o autor explorou alguns pontos do decorrer do texto, a saber: 1- a relação entre história da ciência interna e externa; 2- a crítica à noção de indução; 3- o papel da teoria na observação; 4- o princípio de verificação. Sua discussão se focou no modelo de ciência advindo das ciências naturais, em especial da física, não adentrando o âmbito das ciências sociais.
Popper voltou-se para os fundamentos lógicos da teoria científica, realizando a crítica ao princípio de indução, posto por Francis Bacon, que frisa o papel desempenhado pela observação. O pensamento de Popper, para o autor, representou a passagem da física newtoniana para a de Einstein: as certezas cartesianas são substituídas “[...] por uma noção de conhecimento mais dinâmico e provisório, sendo o conhecimento humano também limitado” (p.129).
Já Thomas Kuhn, teórico do século XX que enfatizou as rupturas da história da ciência, voltou-se para a análise das práticas das comunidades científicas, e realiza um relato histórico do desenvolvimento da ciência, que pode ser vista como crítica à visão de Popper. Kuhn aponta que a adoção dos paradigmas foi necessária para o desenvolvimento das ciências, no entanto, restringiu a visão do cientista devido à confiança no paradigma, uma espécie de mapa a ser seguido.
Avaliamos importante realçar o caráter extremamente tecnicista do texto, pois apesar de propor desconstruir visões sedimentadas que foram propagadas na
modernidade, seu discurso técnico não realiza reflexões problematizadoras acerca das questões propostas.