De acordo com o pensamento hegeliano, há conceitos e princípios objetivos universalmente válidos, e só através deles é que os homens teriam condições para se guiar. A partir do movimento dialético, a razão enquanto substrato universal é que permitiria estabelecer os conceitos e princípios necessários para o governo de si e da realidade, tendo como resultado a liberdade. A meta colocada pela Lógica de Hegel foi ilustrar a fragilidade da aparência das coisas e a possibilidade efetiva de sua superação, por meio do próprio pensamento.
Para iniciar nossa exposição, comecemos pelo conceito de conceito. Ao abordarmos a ideia de conceito, com base na filosofia hegeliana, é possível ilustrar o sentido do movimento dialético e seu contraste com a rigidez da proposta positivista. O conceito, no sentido positivista, tem seu significado operacional e utilitário. Considera- se aquilo que está posto, a sua identidade imediata, de modo que a observação do dado no imediato é sinônimo de verdade. Sendo assim, considera-se que os objetos somente podem ser idênticos a si mesmos, incapazes de conter potenciais virtuais de uma outra realidade, o que “[...] leva os homens a só se sentirem em segurança quando conhecem e manipulam fatos objetivos” (p.113). Dessa forma, “[...] o pensamento era induzido a contentar-se com os fatos, a renunciar a transgredi-los e a submeter-se à situação vigente” (MARCUSE, 1989, p.38).
Já a ideia de conceito, no sentido dialético, traz à tona aquilo que o fenômeno não é, aquilo que não está explícito, mas que, no entanto, pode vir a ser. Cabe ao movimento dialético evidenciar as potencialidades do objeto, ao destacar a sua incompletude, pela via da negatividade: “[...] a estrutura previamente dada [...] é algo essencialmente negativo, inconciliável com seu próprio fim, a conservação e satisfação da humanidade” (ADORNO, 1999, p.140). Considera-se o significado operacional, da identidade imediata, porém, também se levam em conta as potencialidades não realizadas do objeto, a sua não identidade. Com efeito, o pensar filosófico, no sentido dialético, caracteriza-se pela “negação” da realidade dada, ao acreditar que “[...] as coisas só atingem sua própria verdade quando negam suas condições determinadas” (MARCUSE, 1989, p.71). A ideia de conceito no sentido hegeliano é, portanto, ambígua, tem uma duplicidade, representa a tensão entre os opostos, de maneira a conduzir aos potenciais ainda não efetivados.
Nessa perspectiva, a verdade requer a superação do que é simplesmente dado. Aquilo que se apresenta no fato dado, para a dialética, não corresponde às reais potencialidades, não corresponde à realidade, é falso e deve ser negado. Esse é o fio condutor do método dialético, uma vez que assume a “[...] ideia de que todas as formas do ser são perpassadas por uma negatividade essencial, e que esta negatividade determina seu conteúdo e movimento” (MARCUSE, 1989, p.37).
É importante ressaltar que a negação e a contradição não dizem respeito à incoerência, como posto no senso comum. Trata-se de uma desconfiança
frente a qualquer realidade imediata. Indicam que existe um potencial no objeto que é mais efetivo que o que está posto, que sua configuração imediata, “[...] a crítica não faz desaparecer a identidade, ela a transforma qualitativamente, conservando elementos da afinidade do objeto com seu pensamento” (ADORNO, 1992). Assim, a contradição não anula a identidade imediata, mas se opõe a ela para alcançar as reais potencialidades. Nessa ótica, “[...] dizer, então, que cada coisa se contradiz é dizer que sua essência contradiz um determinado estado de sua existência” (MARCUSE, 1989, p.124). A estrutura negativa é própria da realidade, os próprios objetos são negativos a si mesmos, é o movimento infinito do ser: “[...] os aspectos negativos da realidade não são pois distúrbios ou pontos fracos dentro de um todo harmonioso, mas as condições mesmas que revelam a estrutura e as tendências da realidade” (MARCUSE, 1989, p.153).
Portanto, a negatividade é o que conduz à constituição plena da existência dos sujeitos, é o que inquieta, desequilibra o estado dado e conduz à busca das reais potencialidades. Como metaforicamente tratado por Marcuse, a negatividade “[...] é um estado de privação que força o sujeito a procurar remédio” (MARCUSE, 1989, p.73).
Devido a essa dinâmica necessária à efetivação do conceito, as formas fixas são consideradas abstrações, de modo que “[...] cada forma particular só pode ser determinada pela totalidade das relações contraditórias em que existe” (MARCUSE, 1989, p.37). Desse modo, “[...] não é o abstrato ou o que está privado de realidade que constitui o elemento e o conteúdo de filosofia, mas o real, o que se autoestabelece, o que vive em si mesmo, o que existe no seu próprio conceito” (HEGEL apud MARCUSE, 1989, p.103). Diante das possibilidades realizadas, o conceito se realiza e revela a verdade: “[...] representa a forma real do objeto, pois o conceito nos revela a verdade sobre o processo que, no mundo objetivo, é cego e contingente” (MARCUSE, 1989, p.71).
Em outras palavras, a dialética aponta aquilo que o objeto é e, ao mesmo tempo, o seu vir-a-ser, se é idêntico e não idêntico ao mesmo tempo. A identidade é conservada e ao mesmo tempo negada. É a copertinência do ser e do nada, pois a coisa só é quando passa a não ser. Vale lembrar que “[...] o conceito dialético, contudo, é mediação, e não ser-em-si; o que lhe impõe a obrigação de não pretender nenhuma verdade dos [...] fatos” (ADORNO, 1999, p.184). A verdade, por conseguinte,
é algo em estado de formação, já que, para algo ser considerado verdadeiro, todas as possibilidades, todos os potenciais devem ter sido alcançados.
Não obstante, contrapondo a lógica científica tradicional, citamos a passagem de Hegel: “[...] a proposição, tal como aparece de modo imediato, é apenas uma forma vazia” (HEGEL apud MARCUSE, 1989, p.103). Nesse sentido, o conhecimento se inicia, quando a experiência cotidiana e a certeza sensível são destituídas. A certeza sensível é, se não percepção, o reino da aparência, por isso deve ser negada.
A pretensão positivista, ao colocar a verdade nos fatos, não permite a realização das reais potencialidades humanas: “[...] como Hegel demonstra, num mundo em que os fatos não revelam o que a realidade pode e deve ser, o positivismo equivale a renunciar as reais potencialidades da humanidade, em favor de um mundo falso e alienado” (MARCUSE, 1989, p.114). Trata-se da liquidação da esfera suprassensível.
Na crítica à forma estática de se conceber a realidade, através da dialética, Hegel desestabilizou o método matemático. Sustentou que o processo da realidade não poderia ser reduzido a fórmulas e símbolos estáticos, visto que estes são externos ao Ser: “[...] a redução da ciência às matemáticas significa a renúncia final à verdade” (MARCUSE, 1989, p.141), na medida em que “[...] o formalismo matemático deixa de lado e impede qualquer compreensão e aproveitamento crítico dos fatos” (MARCUSE, 1989, p.141). Apontou que o método matemático não é capaz de alcançar a realidade, por tentar isolar e fixar pontos determinados. Como salientado,
[...] nosso conhecimento estaria em situação bastante embaraçosa se objetos tais como a liberdade, a lei, a moral, ou mesmo o próprio Deus, por não poderem ser medidos ou calculados, ou expressos em uma fórmula matemática, tivessem de ser considerados fora do alcance do conhecimento exato, a nós cabendo uma vaga imagem geral deles. (HEGEL apud MARCUSE, 1989, p.141).
Para exemplificar o movimento dialético, ilustraremos com o exemplo da semente. A semente, ao mesmo tempo em que é semente, possui potenciais ainda não realizados, que são de ser broto. O mesmo ocorre com o broto, que ainda possui potenciais adormecidos de ser flor. O que irá revelar a natureza do objeto ao sujeito, a sua verdadeira essência, é o conceito, o qual é a essência das coisas. Logo, como
ilustrado nas considerações tecidas acima, o conceito se constitui sendo sua identidade imediata junto à sua não-identidade. Podemos ainda exemplificar com outro enunciado: a afirmativa “homem é escravo” indica a condição imediata, que é de ser escravo. No entanto, se ele compartilha de uma substância universal, essa realidade imediata deve ser negada e transformada. Significa dizer que há potenciais que ainda não foram realizados, neste caso, o homem ser livre. Vê-se, dessa forma, que há movimento no próprio conceito, pois não é estático.
Só assim, com a insatisfação contínua com aquilo que está determinado no imediato, é possível realizar o conceito e atingir a plena existência dos sujeitos: “[...] a verdadeira existência só começa quando o estado imediato passa a ser compreendido como negativo, quando os entes tornam-se sujeitos e lutam por adaptar seu estado aparente às suas potencialidades” (MARCUSE, 1989, p.72).
De acordo com Marcuse (1989), o movimento dialético é necessário para qualquer ser e se aplica a qualquer relação em que se busque a verdade das coisas. Por mais que não se perceba, a não plenitude no dado imediato, a aparente estabilidade, são enganosas, devem ser negadas. Isto é, a dialética pressupõe o movimento inerente à emancipação humana. Ademais, “[...] a dialética é o método filosófico autêntico. Ele revela que o objeto existe em um estado de negatividade, estado que o objeto rejeita, pressionado por sua própria existência, no processo de reconquista de sua verdade” (MARCUSE, 1989, p.103).
Em Razão e Revolução (1989), Marcuse retomou o percurso de constituição da dialética hegeliana, elucidando seus principais pressupostos. Marcuse assinalou que a filosofia hegeliana é um instrumento fundamental de combate ao positivismo, de maneira a resgatar os potenciais emancipadores do esclarecimento. Para ele, a dialética possibilita compreender que irreal não é o conhecimento que se abstrai da realidade, mas, o contrário, aquele que se limita ao empírico. Nesse sentido, os fatos devem ser compreendidos conceitualmente, o que implica serem transcendidos: “[...] o mundo dos fatos não é racional, mas tem que ser trazido à razão, isto é, a uma forma na qual a realidade corresponda efetivamente à verdade” (MARCUSE, 1989, p.151). Assim, ressaltou a contradição do objeto em relação ao seu vir a ser, as contradições entre o espírito e as coisas, em que a identidade é oposta a si mesma, é contraditória, é processo, e solicita a transformação da realidade. Para o autor, “[...] a dialética começa
quando o entendimento humano reconhece ser incapaz de apreender alguma coisa de modo adequado por meio das formas qualitativas ou quantitativas pelas quais a coisa é dada” (MARCUSE, 1989, p.73).
No aforismo intitulado Autorreflexão do pensamento, da obra Dialética Negativa (1992), Adorno também problematizou a temática do movimento dialético e o seu confronto com a concepção tradicional. Adorno (1992) salientou que o pressuposto positivista se paralisa no que o objeto é, não tem a identidade confrontada com a não-identidade, não transcende o significado imediato: “[...] a falha do pensamento tradicional consiste em tomar a identidade por seu próprio objetivo”. Dessa forma, reduz a complexidade do objeto a uma forma pré-concebida, e o entendimento fica reduzido a estereótipos. Nesse sentido, “[...] a degeneração da consciência é produto de sua carência de reflexão crítica sobre si. Esta é capaz de calar ao princípio da identidade”. Adorno destacou que o movimento dialético pressupõe a estranheza frente ao objeto, é o confronto entre o que o homem é e o que deveria ser – a identificação das potencialidades não realizáveis, porque “[...] o potencial de liberdade exige crítica frente àquilo em que lhe converteu sua inevitável formalização” (ADORNO, 1992). Em decorrência, pressupôs a superação do princípio de identidade, e sintetizou que “[...] a falsidade de toda identidade adquirida é a forma pervertida da verdade. As ideias vivem nos interstícios entre o que as coisas pretendem ser e o que são” (ADORNO, 1992).
Essa distância entre o que o objeto é e o seu vir a ser, entre o particular e o universal, conforme aludimos até o momento, é o tema do aforismo A três passos de distância (1993) de Adorno. Nesse fragmento, o autor faz uma crítica ao pensamento positivista, pois este não transcende o objeto. Com efeito, somente na distância, no distanciamento do que está no imediato, do aqui e agora, isto é, somente a três passos de distância é possível pensar concretamente a realidade – uma dimensão não-verificável. A condição da existência, por conseguinte, reforça o estado de não- liberdade, e a ideologia omite essa condição.
Passemos para a discussão sobre a noção de sujeito – ponto importante da Lógica de Hegel, que merece ser frisado. De acordo com Marcuse (1989), para Hegel, os sujeitos são dotados da capacidade de realizar seu conceito, de realizar todas as suas potencialidades na sua existência. Quer dizer, o sujeito é quem constitui a essência das coisas, é quem compreende a verdade dos objetos, nesse movimento
dialético de negação determinada: “[...] ser é, na sua substância, um sujeito”, um sujeito que se realiza na realidade histórica. Cumpre sublinhar, no entanto, que o ser só é sujeito quando compreende suas potencialidades, quando realiza seu próprio desenvolvimento. Logo, o homem é considerado um ser que pode fazer uso da razão e que pensa a caminho da liberdade, de modo que “[...] o pensamento filosófico nada pressupõe além da razão, que a história trata da razão, e somente da razão” (MARCUSE, 1989, p.18). O sujeito é dotado de razão, é quem possibilita a verdadeira realização dos potenciais, o que exige a consciência de tal processo: “[...] a autoconsciência tem de demonstrar que ela é a autêntica realidade; ela deve efetivamente fazer com que o mundo se torne sua livre realização” (MARCUSE, 1989, p.98). Para isso, pressupôs a liberdade, o agir com vistas à transformação, à realização de suas potencialidades.
É importante destacar, ainda, a relação entre sujeito e objeto. Sujeito e objeto dependem um do outro, estão imbricados, não subsistem isoladamente. A autoconsciência só se realiza na relação com o outro, em outra autoconsciência: “[...] o indivíduo só pode tornar-se o que ele é, através de outro indivíduo; sua existência consiste nesse ser-por-outro” (MARCUSE, 1989, p.115). O sujeito “[...] descobre que é ele mesmo quem está por trás dos objetos, e que o mundo se torna real em virtude do poder compreensivo da consciência” (ibid., p.98).
Para o conhecimento científico tradicional, a verdade está no objeto, independente do sujeito, é neutra, isenta de valores. Em seu texto Sobre sujeito e objeto (1995c), Adorno ponderou essa pretensão de neutralidade ideológica, explicitando que sujeito e objeto se encontram mediados um pelo outro, e sua separação pressupõe ideologia: “[...] uma vez radicalmente separado do objeto, o sujeito já reduz este a si; o sujeito devora o objeto ao esquecer o quanto ele mesmo é objeto” (p.183).
Nesse mesmo sentido, na Fenomenologia do Espírito, Hegel (apud MARCUSE, 1989) faz a relação entre a epistemologia e a história, em que o sujeito se descobre e enxerga a realidade por meio da prática autoconsciente, que é “a essência das coisas” (MARCUSE, 1989, p.113). Para Hegel, o processo epistemológico – da experiência sensível à razão – está ligado ao processo histórico, da condição de servidão para a condição de liberdade. Enfaticamente, liberdade e razão são consideradas como atividades do espírito. A liberdade, por sua vez, é o conhecimento da verdade, é o
termômetro do agir racional. Sabemos que estamos agindo racionalmente, se atingirmos a liberdade. Isto é, há o imbricamento entre razão e liberdade: ambas devem coexistir, para plena emancipação dos sujeitos, é pela inter-relação entre a razão, a liberdade e a história, que a liberdade e a razão só se realizam no processo histórico. A título de ilustração, Hegel (apud MARCUSE, 1989) acentuou que a liberdade de seu momento histórico não correspondia a uma liberdade real, devido a ser uma época de servidão, de maneira que a Revolução Francesa ainda não atingira a condição plena de liberdade dos sujeitos.
Por isso, a razão é uma “[...] força histórica objetiva que, uma vez libertada dos grilhões do despotismo, faria do mundo um lugar de progresso e felicidade” (MARCUSE, 1989, p.20); “[...] em virtude de seu próprio poder, a razão triunfaria sobre a irracionalidade social e destruiria os opressores da humanidade” (ibid., p.21). A realidade somente é real, quando atingidos seus potenciais, o real é a realização da razão, a realização dos potenciais racionais. A realidade, portanto, só atinge a razão após um longo processo histórico, a partir da realização dos sujeitos livres e racionais em constante busca e transformação, em constante realização de suas potencialidades.
Nesse sentido, Hegel chama a atenção para a força histórica da razão, que vai se desenvolvendo no decorrer da história, por meio da razão e da realização da liberdade. Uma razão contra qualquer tipo de opressão, dominação e desigualdade, uma razão histórica condutora do progresso e da felicidade. O sistema de Hegel “[...] fez da filosofia um fator histórico concreto, e trouxe a história à filosofia” (MARCUSE, 1989, p.27).
Para encerrar, vejamos a estrutura da Lógica de Hegel (apud MARCUSE, 1989): primeiro, trata das categorias da experiência imediata, aquelas que permitem apreender apenas as formas abstratas das coisas, sendo a quantidade, a qualidade e a medida; em seguida, trata das categorias que possibilitam mais objetividade, entretanto, ainda incompletas, sem a liberdade para autorrealização, que correspondem às categorias da substancialidade, causalidade e reciprocidade. Por fim, seguem-se as categorias de liberdade, as quais são efetivamente guiadas pelo pensamento, sob o domínio do pensamento.
Conclui-se, por conseguinte, que, no sistema hegeliano, a realidade é dialética e que a dialética conduz a razão a caminho da liberdade. Com efeito, “[...] a
essência surge de um movimento no seio da existência e, inversamente, o vir-a-ser da existência é um retorno à essência” (MARCUSE, 1989, p.102). Essas considerações fazem-nos postular que o objeto da filosofia é o próprio mundo em seu vir-a-ser, em sua realização plena, e que os conceitos filosóficos têm um caráter histórico. Encerramos com as palavras de Marcuse (1989): “[...] o mundo será hostil e falso enquanto o homem não destruir a objetividade morta e se reencontrar, bem como à sua própria vida, por trás das formas rígidas das coisas e leis” (p.114). Por fim, enquanto não considerarmos o movimento, o processo, a negatividade, não poderemos efetivamente compreender a realidade.
No próximo capítulo, buscamos amarrar as questões debatidas até o momento com nosso objetivo geral. Sendo assim, no próximo e último capítulo, almejamos analisar se as pesquisas no âmbito nacional têm abordado a temática da oposição positivismo e dialética, tal qual apontam os teóricos críticos, frente à insuficiência dos moldes racionais no trato com as questões humanas, mais especificamente, com as questões educacionais.