Progressivamente, o formato de atuação do Centro expandiu- se, deixando de ser unicamente trilateral (envolvendo o governo brasileiro, o PMA e o país que demanda apoio técnico) para tornar- se multilateral. Essa estratégia foi elaborada visando à otimização de recursos, de modo que o Centro possa atender diferentes países em uma mesma visita, tanto no Brasil quanto no exterior. Ademais, o multilateralismo estimula o contato entre países demandantes, gerando novas sinergias para além da interação com o Brasil ou com o PMA. Assim, o Centro vem promovendo encontros, seminários e cursos com a participação de diversos países parceiros, que desenvolvem programas similares e compartilham problemas e desafios. O objetivo é apoiar a criação de redes regionais e globais para o intercâmbio de conhecimentos e promoção de iniciativas conjuntas entre os países parceiros, de modo a coordenar esforços coletivamente. “Por isso a ideia de hub e redes. Porque a ideia é que realmente você tenha esse conhecimento mais global e seja capaz de trocar. [...] Esse tipo de diálogo inter-regional, interpaís, foi muito estimulado pelo Centro de Excelência. [...] Primeiro porque a gente tinha uma agenda muito cheia e a gente precisava acomodar muitas delegações. Depois a gente criou toda uma base teórica e, olha que interessante, a gente viu que a melhor forma é isso. A gente teve, por exemplo, Níger e Guiné Conakry, Benim, Togo e Burundi, até hoje esses países caminham juntos, até hoje eles interagem. Foi excepcional, eles começaram a ver que eles tinham os mesmos problemas com arroz, mesmos problemas com doadores, para plantar. O potencial dessas trocas é impressionante, e tem também a questão um pouco de visibilidade, de reporting pra comunidade internacional, uma coisa que você consiga observar e
que o país consiga se posicionar como país que tem certa liderança, ou certas boas práticas e lições aprendidas” (Funcionário 1).
Essa prática de colocar países do sul em contato também pode ser considerada um dos métodos inovadores do Centro. Para além de incentivar a troca de experiências e a concepção conjunta de projetos visando ao fortalecimento da cooperação sul-sul, esse formato proporciona menor interferência de interesses materiais nas iniciativas. Tratam-se basicamente de “interesses comerciais. Como é hoje: eu te dou [ajuda] porque eu estou interessado no seu minério não sei das quantas e gostaria que você comprasse meu produto X. Então, sempre é assim. Por que Reino Unido, EUA, em tudo há interesses comerciais, a cooperação não é uma cooperação desinteressada, é uma cooperação por interesses. Eles falam ‘olha, te dou dinheiro para fazer o projeto X se você começar abrir mercados para as minhas empresas, para a minha indústria, para a minha empreiteira’, como é com a China, está cheio lá [na África] construindo. Eu acho que as redes diminuem isso quando você tem uma diversidade de atores porque ninguém fala abertamente. [...] Está na hora da gente começar a entender que não é mais aquela cooperação bilateral de um país com o outro. Porque isso gera uma série de interesses de um país com o outro” (Funcionário 8).
Para encorajar e fortalecer essas redes, são realizados eventos pelo Centro em parceria com organizações locais e internacionais, com destaque ao Fórum Global de Nutrição Infantil, organizado anualmente pela Fundação Global Child Nutrition e apoiado pelo Centro desde 2013 (WFP, 2015, p. 31). O Fórum reúne autoridades de alto escalão, além de funcionários e técnicos, de mais de 40 países, organizações internacionais e regionais, organizações não- governamentais e diversas entidades que trocam conhecimentos através de oficinais, consultas técnicas e mesas de debate que possibilitam o aprimoramento e expansão dos programas de
alimentação escolar nos países participantes (WFP, 2015, p. 8). “Mas era um evento pequeno, que acontecia nos Estados Unidos e que envolvia poucas pessoas. A partir do envolvimento do Centro veio a ideia de tirar ele dos Estados Unidos, começar a fazer em países em desenvolvimento e isso gerou uma mobilização muito maior, hoje em dia você tem 250 pessoas participando do evento todos os anos, vários ministros, você tem representantes de organismos internacionais, vários níveis de governo. E todos eles, durante uma semana, discutindo o andamento dos seus programas, estabelecendo compromissos, fechando parcerias para assistência técnica” (Funcionário 7).
Em 2014, o governo do Níger, que trabalha com o Centro desde 2011, convidou países da África Francófona participantes do Fórum, que acontecia na África do Sul, para uma reunião paralela, em que foi proposta uma Rede de Alimentação Escolar da África Francófona (Funcionário 6). “Isso teve um impacto muito grande, os países receberam bem a ideia e ela acabou sendo ampliada para uma Rede Africana de Alimentação Escolar, vinculada à União Africana. [...] Representantes da União Africana solicitaram uma visita de estudos ao Brasil, então a gente fez uma visita com representantes de vários países africanos e comissários da União Africana [...] e aí eles entenderam o que a gente faz e porque tantos países pedem. Assim eles decidiram encampar esse processo de advocacy pela alimentação escolar na África” (Funcionário 6). Na sequência, houve a assinatura de um compromisso dos países do bloco para aumento dos recursos para alimentação escolar e criou-se o dia africano da alimentação escolar (Funcionário 6). Os Ministros da Educação aprovaram uma recomendação continental para que todos os países adotem, por meio do bloco, uma abordagem de alimentação escolar conjunta e coordenada (WFP, 2016, p. 5). “Ao invés de trabalhar pingado com cada país, estamos trabalhando com a União Africana inteira, que tem um poder de persuasão enorme junto aos países africanos”
(Funcionário 6). Assim, outra consequência do trabalho em redes é o aumento do potencial de sensibilização e mobilização dos dirigentes políticos para o tema da alimentação escolar.