Como pode ser constatado nos dias atuais o trabalho tem sido cada vez mais relacionado aos seres humanos, ou seja, com o cuidado das pessoas. Por isso, ensinar também passa a ser um trabalho com seres humanos e não meramente um ato racional de ensino-aprendizagem ligado somente a transmissão de conteúdos.
Os professores são muito conteudistas, não sabem fazer um trabalho social. Um dia uma das professoras falou assim: “ei, o Mais Educação está te chamando lá”. Eu não entendi assim a forma como ela disse. Eles ainda não se acostumaram, eu fiquei meio assim, puxa que falta de educação. Fiquei chateada com a forma como fui tratada. Não me aceitaram ainda, não se acostumaram com a minha presença. O
trabalho de meu colega de hip hop é lindo, todos deveriam conhecer (Educadora Social-ND).
Dessa constatação pode-se perceber também que o trabalho tem sido reconfigurado nos últimos anos. O trabalho material diferencia-se do trabalho com seres humanos. Lidar com o objeto humano é diferente de lidar com um objeto físico. A transformação que vem acontecendo na sociedade a partir dos anos 1980 e mais fortemente a partir dos anos 1990 nos faz pensar num trabalho que não é mais transformação de matéria. Por isso, cada vez mais a escola é chamada a dar uma resposta para essas demandas da sociedade.
Enquanto o professor está preocupado em passar só o conteúdo vai ficar para trás. Muitos dizem para os alunos: “tá pensando na morte da bezerra”? O professor tem que passar carinho, a maioria dos alunos não tem carinho em casa. Eu pergunto por que meu aluno está triste e procuro intervir. Tem professor que fala assim com os alunos: “tá voando? Tá viajando”? A criança não está preparada para ser tratada desse jeito. Eu sento com o aluno do lado e pergunto o que está acontecendo. Eu percebi que um aluno estava de biquinho [raiva] do outro. O professor tem que perceber e olhar diferente para o aluno não só passando o conteúdo, tem que saber se a mãe dele brigou, bateu. Se nós temos nossos problemas e às vezes chegamos aqui com nossos problemas, imagine esses alunos (Educadora Social-NDB).
É neste contexto de transformações sociais e reconfiguração do trabalho que se pensa na profissão docente para além da profissão típica do processo de escolarização. Novos sujeitos são inseridos dentro e fora da escola visando o processo de ensino-aprendizagem. Aparecem, então, os Educadores Sociais como trabalhadores sociais que podem contribuir para educar crianças, adolescentes e jovens que precisam de conhecimentos além da escolarização obrigatória.
Eu quero dá minha contribuição para essas crianças, é uma área muito carente, a maioria não tem pai. Um dia um aluno disse: “meu pai foi embora e nem se despediu de mim”. Eu trabalho com desenho e pergunto por que o aluno desenhou isso, eu percebo as cores e percebo porque eles usam determinadas cores e identifico se eles estão bem, alegres ou não. Já pensou se o professor não perceber que o aluno está com fome? Imagina uma criança que não sabe o que está acontecendo. Eu estou aí para dá a minha contribuição para essas crianças. Esses dias um aluno me disse: “meu pai me odeia” e eu falei que não, que o pai dele não o odiava, e ele disse que odeia sim porque foi embora, mas aí eu disse que onde ele estiver ele gosta sim dele. Eu vejo as letras deles e chamo um por um para não expor. Quando eu percebo que ele não sabe ler direito procuro olhar a ortografia e tem bastante erros mesmo no
9º ano. Eu tentei ensinar matemática e percebi como eles estão carentes nessa área. Um aluno falou: “isso é coisa do capeta” [a matemática]. Eles entram em pânico com a matemática. Eu disse para descontrair: não é do capeta não, é de Deus sim (Educadora Social-NDB).
Nesse sentido, para Tardif (2005)
Ora, longe de se desfazer com o tempo, constata-se que esse modelo de socialização e formação, que chamamos de ensino escolar, não para de expandir-se, ultrapassando em muito a instituição que lhe serve de historicamente de suporte, ou seja, a escola. Na realidade, são raros hoje os setores sociais (famílias, corporações e profissões, indústrias, esportes e lazeres, etc.) em que não se encontrem modos de socialização e de formação que reproduzem as formas e conteúdos da escolarização: aprendizagem por objetivos, abordagens por competências, etc (p. 23).
O mundo do trabalho atualmente requer profissionais que sejam capazes de desempenhar múltiplas funções. Por isso a escolarização, apesar de fundamental, não consegue atender a todas as exigências do mundo do trabalho e por isso a educação social tem muito a contribuir.
Por isso, o chamado trabalho social não deve ser dissociado do trabalho educacional. Tanto as profissões sociais como as educativas estão interligadas ao trabalho social e educativo. Neste sentido, para Canastra (2009, p. 1) a expressão “trabalho social e educativo” ganha cada vez mais consenso, quando referida ao tipo de especificidade de que se reveste a atual figura do Educador Social. Essa aproximação do social com o educacional tem sido cada vez mais reclamada pelas comunidades locais, ou seja, a comunidade também reclama o direito de ser um “sujeito” educativo, não deixando apenas que a família e escola assumam o papel de educar.
Muitos pais apostam na profissão dos filhos. A concepção de profissão é uma construção social e histórica. Por isso torna-se importante saber como as pessoas pensam suas tarefas, o que fazem e porque fazem, seus interesses e ideologias.
Globalmente, son secuencias en las que se muestra cómo se produce lá transición de lá “ocupación” a la “profesionalización”, adoptando la estructura lógica de un proceso que se desarrolla a partir de la existencia de un grupo de personas que se comprometen com lá realización de un trabajo, preocupándose por prepararse para desempeñarlo satisfactoriamente em beneficio de la comunidade y al que se dedican com la intención explícita de solventar un conjunto de problemas particulares. La congruencia entre lo que los profesionales hacen y lo que la sociedad espera de ellos, contribuye decisivamente a su legitimidad social e, incluso, a la defensa que de ella puedan hacer ante las injerencias de otros colectivos com pretensiones similares (pseudo- profesionales, aficionados, voluntarios, etc.) (GÓMEZ, 2002 p.96). Precisamos pensar urgentemente sobre o trabalho dos Educadores Sociais dentro das escolas. Esses trabalhadores têm sido arremessados nas escolas sem uma formação adequada.