5.1 aktivitetsplan
5.1.2 Jevnlige møter
A partir do olhar da mestiçagem, observaremos alguns elementos e processos que compõem a construção do povo brasileiro e que aparecem, traduzidos metaforicamente, nas imagens da mulher brasileira. O conceito da mestiçagem cultural evidencia as porosidades que possibilitam um ir e vir dos elementos culturais presentes na tão falada tríade racial. Essa tríade, como já mencionamos, elege três povos — portugueses, africanos e índios — que migraram para o território brasileiro como os formadores da nossa sociedade e da nossa cultura.
A mestiçagem não é um fator exclusivo da colonização brasileira. Os próprios colonizadores que passaram ou viveram no Brasil já eram mestiços. Sabemos que não foram apenas esses três povos que formaram a população brasileira. As mestiçagens ocorrem infinitamente; não possuem um início ou um fim. São constituídas por um trançar constante e infindo que impede a estagnação e o congelamento cultural. Essa enxurrada de elementos culturais transforma os memes, os sujeitos e o entorno. Compreender o meme a partir do pensamento da mestiçagem é quebrar uma aparente configuração estática das representações, inserindo-as em um mosaico móvel, invadido por informações que desestabilizam os sistemas culturais. É importante lembrarmos que mesmo os memes de grau adaptativo degenerado, que se encontram em segundo plano ou excluídos de determinado sistema memético, dispersam seus vestígios e deixam rastros na realidade. Esses, mesmo que invisíveis, se fazem presentes na memória cultural e dialogam com o presente. São potencialidades prestes a eclodir quando o ambiente for favorável.
Durante o período colonial aumentaram os encontros culturais através da intensificação da migração de diferentes culturas para o Brasil. Foi esse ambiente que suscitou a formação das primeiras imagens das mulheres que viviam no Brasil. Essas imagens iniciais surgem como uma pluralidade representacional mestiça que ainda não possuía um estereótipo dominante, mas sim algumas representações com alta taxa de reprodução e adaptabilidade.
Título: Market woman and water carrier Autor: Lady Maria Callcott , 1785-1812
No século XV, com a chegada dos primeiros viajantes e colonizadores, inicia-se o processo de configuração da sociedade brasileira. Essa estava se estruturando, se mestiçando e ainda não possuía traços culturais delineados.Não temos a pretensão de afirmar que hoje seja possível observar ou definir o que é o Brasil e seu povo. As tentativas de fechar um complexo cultural dentro de uma identidade é algo impossível de ser realizado sem acarretar processos de exclusão.
Título: Costumes de Bahia Autor: Rugendas, 1835
As terras do Brasil no século XVI localizavam-se no centro da rota comercial entre Ocidente e Oriente, “Desde a chegada dos portugueses às terras brasileiras, por um
desvio de rota a Calicute, a nova colônia ficou plenamente inscrita no grande périplo lusitano que circunscreveu Oriente e Ocidente.”11 (ALFONSO-GOLDFARB,1993: 123).
11“Desde la llegada misma de los portugueses a tierras brasileñas, por um desvio de su ruta a Calicut, la
Esse tráfego comercial era realizado pelas mais diversas culturas, legal ou ilegalmente. Nossas terras serviam como porto para os navios, que ao chegarem às costas da colônia portuguesa desembarcavam seus tripulantes. Esses, ao visitarem nossas tribos, capitanias ou vilas propagavam e dispersavam elementos culturais. Assim o Brasil se fez como um lugar de fluxo e refluxo de povos e conhecimento.
Título: Interieur d’une Habitatio de Cigannos Autor: J.B.Debret, 1835
No caldeirão cultural do Brasil colonial, ao andar pelas ruas, iríamos nos defrontar com portugueses, africanos, africanos arabizados, muçulmanos, holandeses, índios, espanhóis, franceses e outros. “No começo de nossa sociedade colonial encontramos
em união com as famílias de origem portuguesa estrangeiros de procedências diversas, sendo que alguns, filhos de países reformados ou tocados por heresia” (FREYRE,
2005: 92). E não eram apenas os cidadãos de outros costumes e tradições que engrossavam essa grande sopa cultural, mas também os produtos comercializados vindos do Oriente.
Título:Costumes do Rio de Janeiro Autor: Rugendas, 1835
No Brasil “sempre houve (...) algo de oriental que sobrepassa suas características
ocidentais, algo mourisco (...) que contrasta com seus traços latinos”(ALFONSO-
GOLDFARB, 1993: 123)12.
Essas mestiçagens ocorreram em Portugal, antes mesmo do período das grandes navegações, pela proximidade entre os territórios portugueses e africanos.
12 “En Brasil, nos dice um famoso pensador de su cultura: “siempre hubo (...) algo de oriental que
A singular predisposição do português para uma colonização híbrida e escravocrata dos trópicos, explica em grande parte o seu passado étnico, ou antes, cultural, de povo indefinido entre a Europa e a África. Nem intransigente de uma nem de outra, mas das duas. A influência africana fervendo sob a europeia e dando um acre requeime à vida sexual, à alimentação, à religião; o sangue mouro ou negro correndo por uma grande população brancarana quando não predominando em regiões ainda hoje de gente escura; o ar da África, um ar quente, oleoso, amolecendo nas instituições e nas formas de cultura as durezas germânicas; corrompendo a rigidez moral e doutrinária da igreja medieval; tirando os ossos ao cristianismo, ao feudalismo, à arquitetura gótica, à disciplina canônica, ao direito visigótico, ao latim, ao próprio caráter do povo. A Europa reinando, mas sem governar; governando antes à África. (FREYRE, 2005: 66).
Os portugueses, diferentemente de outros colonizadores, utilizaram no processo de colonização do Brasil a religião católica como um meio de vínculo social ao invés da pureza da raça.
Os hábitos e costumes da sociedade portuguesa eram recheados de ambiguidades, seus corpos e culturas eram mestiços e, assim, consequentemente o seu modo de se relacionar com o outro. Devido à evidente presença da mestiçagem cultural sobre o solo brasileiro e o solo português, os vínculos sociais gerados por uma ilusão de pureza da raça foram imediatamente quebrados. Prevaleceu o catolicismo como um meio de união popular; a religião, como um pensamento e uma ideologia em comum que unia os cidadãos de todas as regiões portuguesas.13 Essa formação
utilizada em Portugal foi importada como uma das características primordiais para a formação da população na colônia brasileira. Para viver no nosso solo era necessário apenas “saber fazer o sinal da cruz” (FREYRE, 2005).
13 Para obter mais informações a respeito da religião como um meio de geração de vínculo social em
Titulo: Going to Mass; obra atribuída a Callcott, Maria, Lady, 1785 -1812; Bahia
Não importava a nação de origem dos imigrantes e sim as suas crenças religiosas. Assim, fervilhava nas ruas e famílias do Brasil uma imensa variabilidade cultural. Segundo Freyre, essa abertura para se relacionar com o outro, com a diferença cultural, não surge aleatoriamente na população brasileira. O próprio português era um povo movediço, com facilidade para envolver-se e relacionar-se com culturas, povos e hábitos distintos dos seus.
O que se sente em todo esse desadoro de antagonismos são as duas culturas, a europeia e a africana, a católica e a maometana, a dinâmica e a fatalista encontrando-se no português, fazendo dele, de sua vida moral, de sua economia, de sua arte um regime de influências que se alternam, se equilibram, se hostilizam. Tomando em conta tais antagonismos de cultura, a flexibilidade, a indecisão, o equilíbrio, ou a desarmonia deles resultantes, é que bem se compreende o especialíssimo caráter que tomou a colonização do Brasil [...] Vários antecedentes dentro desse de ordem geral [...] impõem-se à nossa atenção em particular: um dos quais a presença, entre os elementos que se juntaram para formar a nação portuguesa, dos de origem ou estoque semita, gente de uma mobilidade, de uma plasticidade, de uma adaptabilidade tanto social como física que facilmente se surpreendem no português navegador e cosmopolita do século XV. Hereditariamente predisposto à vida nos trópicos por um longo habitat tropical, o elemento semita, móvel e adaptável como nenhum outro, terá dado ao colonizador português do Brasil algumas das suas principais condições físicas e psíquicas de êxito e de resistência (FREYRE, op. cit.: 66).
O fato de a descendência não ter poder decisivo sobre as relações sociais durante a colonização permitiu que um povo com pouquíssimos habitantes dominasse e colonizasse um país de dimensões gigantescas como o Brasil. Os colonizadores, despreocupados com a pureza da raça, entravam em intercurso sexual com os povos da terra e com os outros povos que aqui chegavam. Mesmo com a presença rarefeita, os portugueses se fizeram expressivos sobre o solo brasileiro. “Durante quase todo o
século XVI a colônia esteve escancarada a estrangeiros, só importando às autoridades coloniais que fossem de fé ou religião católica” (FREYRE, op. cit.: 91). O fator que atuou como um meio de seleção dos imigrantes que entravam na colônia era a religião. Todos os católicos, independentemente do país de origem e da sua cor, eram bem-vindos. Os viajantes que chegavam aos portos coloniais, ao invés de serem interrogados acerca de sua saúde e de sua origem — como fazemos em nossos portos, aeroportos e fronteiras nos dias de hoje —, tinham de comprovar a sua fé e devoção pela religião católica.
Através de certas épocas coloniais observou-se a prática de ir um frade a bordo de todo navio que chegasse a porto brasileiro, a fim de examinar a consciência, a fé e a religião do adventício. O que barrava então o imigrante era a heterodoxia; a mancha de herege na alma e não a mongólica no corpo. Do que se fazia questão era da saúde religiosa: a sífilis, a bouba, a bexiga e a lepra entraram livremente trazidas por europeus e negros de várias procedências (FREYRE, op. cit.: 91).
Foram essas tramas, mestiçagens genético-culturais que constituíram a nação portuguesa. Notar um traço que os unificasse seria uma jornada impossível de ser concluída com sucesso. Os tons de pele e cabelo variavam do claro ao negro, e os traços faciais e físicos não possuíam uma uniformidade. Essa impossibilidade de encontrar um traço físico claramente delineado da população portuguesa foi observada séculos atrás peloconde Hermann de Keyserling.
O que ele observou foram elementos os mais diversos e opostos”, “figuras com ar escandinavo e negróides”, vivendo no que lhe pareceu “união profunda”. “A raça não tem aqui papel decisivo”, concluiu arbuto observador. E já da sociedade moçárabe escrevera Alexandre Herculano: “População indecisa no meio dos dois bandos contendores [nazarenos e maometanos], meia cristã, meia sarracena, e que em ambos contava parentes, amigos, simpatias de crenças ou de costumes14 (FREYRE, op. cit.: 67).
A mestiçagem não aparecia apenas nos elementos genéticos; ela se fazia presente também nos objetos da cultura e no imaginário português. Esse estava recheado de lendas trazidas ou alimentadas por outras culturas. Uma de grande relevância para esta pesquisa é a lenda das Mouras Encantadas. Essa foi elaborada através do contato com os sarracenos e falava de mulheres extremamente sensuais de pele escura e com longos cabelos pretos. Essa imagem feminina rodeava e invadia de fantasias o imaginário português.
O longo do contato com os sarracenos deixara idealizada a figura da moura-encantada, tipo delicioso de mulher morena e de olhos pretos, envolta em misticismo sexual — sempre de encarnado15, sempre
penteando os cabelos ou banhando-se nos rios ou nas águas das fontes mal-assombradas (FREYRE, op. cit.: 71).
Se olharmos com cuidado para a imagem feminina que essa lenda traz, facilmente iremos notar, assim como Gilberto Freyre o fez, que essa mulher de cabelos e olhos negros poderia ser facilmente associada à imagem das índias brasileiras.
Que estas tinham também os olhos e os cabelos pretos, o corpo pardo pintado de vermelho, e tanto quanto as nereidas ou mouriscas, eram doidas por um banho de rio onde se refrescasse sua ardente nudez e por um pente para pentear os cabelos (FREYRE, op. cit.: 71).
15 “É o vermelho [...] que o povo português vê em tudo que é maravilhoso: desde os trajos românticos das
Assim, os portugueses possuíam em sua própria cultura elementos que propiciavam o desejo pelas mulheres encontradas sobre o solo brasileiro — a princípio as índias e posteriormente as negras e as mulatas.
Título: Neure a Neresse Autor: Rugendas, 1835
Em oposição à imagem da moura encantada surge a figura lendária da Moura- Torta, uma mulher horrível de cabelos e olhos escuros, pernas tortas e que dominava a magia da bruxaria. Essa, segundo Freyre, pode ter surgido devido ao ciúme e inveja da mulher loira contra a mulher de cor, ou propiciada pela relação de ódio religioso entre os “cristãos louros descidos do norte e os infiéis de pele escura.”
Ódio que resultaria mais tarde em toda Europa na idealização do tipo louro, identificado com personagens angélicas e divinas em detrimento do moreno, identificado com os anjos maus, como os decaídos, os malvados, os traidores. O certo é que, no século XVI, os embaixadores mandados pela república de Veneza às Espanhas a fim de cumprimentarem o rei Felipe II, notaram que em Portugal algumas mulheres de classes altas tingiam os cabelos de “cor loura” e lá na Espanha várias “arrebicavam o rosto de branco encarnado” para
tornarem a pele, mais alva e rosada, persuadidas de que todas a trigueiras são feias (FREYRE, op. cit.: 71).
Nesse encontro entre negras, índias e louras, o tipo físico que irá reinar na preferência dos colonizadores será o da mulher mestiça, a mulata. Ela poderia não ser ideal para casar, mas será ao menos a preferida para manter relações sexuais (FREYRE).
Pode-se, entretanto, afirmar que a mulher morena tem sido a preferida dos portugueses para o amor, pelo menos para o amor físico. A moda da mulher loura, limitada, aliás, as classes altas, terá sido antes a repercussão de influências exteriores do que a expressão de genuíno gosto nacional. Com relação ao Brasil, que o diga o ditado: “Branca para casar, mulata para f..., negra para trabalhar”16, ditado em que se sente,
ao lado do convencionalismo social da superioridade da mulher branca e da inferioridade da preta, a preferência sexual pela mulata. Aliás nosso lirismo amoroso não revela outra tendência senão a glorificação da mulata, da cabocla, da morena celebrada pela beleza dos seus olhos, pela alvura dos seus dentes, pelos seus dengues, quindins e embelegos muito mais do que as “virgens pálidas” e as louras donzelas (FREYRE, op. cit.: 72).
Título: Province de Ste. Catherine Autor: Tienne Motte Charles, 1834
16 Esse adágio, segundo Gilberto Freyre, vem registrado por H. Handelmann na sua “História do Brasil”
CANÇÃO
Gonçalves Crespo
A Bernardino Machado
I
Mostraram-me um dia na roça dançando Mestiça formosa de olhar azougado, Co’um lenço de cores nos seios cruzado,
Nos lobos de orelha pingentes de prata. Que viva mulata!
Por ela o feitor
Diziam que andava perdido de amor. II
De entorno dez léguas da vasta fazenda A vê-la corriam gentis amadores, E aos ditos galantes de finos amores, Abrindo seus lábios de viva escarlata,
Sorria a mulata, Por quem o feitor
Nutria quimeras e sonhos de amor. III
Um pobre mascate, que em noites de lua Cantava modinhas, lunduns magoados,
Amando a faceira dos olhos rasgados, Ousou confessar-lhe com voz timorata…
Amaste-o, mulata! E o triste feitor
Chorava na sombra perdido de amor. IV
Um dia encontraram na escura senzala O catre da bela mucamba vazio; Embalde recortam pirogas o rio, Embalde a procuram nas sombras da mata.
Fugira a mulata, Por quem o feitor
Se foi definhando, perdido de amor.
Possuindo o imaginário tragado por representações de mulheres nuas, de cabelos longos e sedutoras, não tardou para os portugueses se encantarem pela beleza das índias.
Título: Femme Camacan Mongoyo Autor: Tienne Motte Charles, 1834.
Os elementos culturais mestiços encontrados em solo brasileiro foram recortados e traduzidos para as imagens das mulheres brasileiras. Se não encontrados em uma única imagem, esses podem ser facilmente notados ao observarmos uma seleção de imagens acerca das mulheres que viviam no Brasil colonial. Nessas iremos nos defrontar com uma imensa variedade de traços e de cores. Além dos detalhes físicos podemos notar uma interpenetração de diferentes elementos culturais presentes nas vestimentas das mulheres e nos objetos utilizados por elas.