Na sua constituição moderna, o colonial representa, não o legal ou o ilegal, mas antes o sem lei. Uma máxima que então se populariza “para além do equador não há pecados”, ecoa no passo famoso dos
Pensamentos de Pascal, escrito em meados do século XVII: “Três graus
de latitude alteram toda a jurisprudência e um meridiano determina o que é verdadeiro...” De meados do século XVI em diante, o debate jurídico e político entre os estados europeus a propósito do novo mundo concentra-se na linha global, isto é na determinação do colonial, não na ordenação interna do colonial. Pelo contrário, o colonial é o estado de natureza onde as instituições da sociedade civil não têm lugar. Hobbes refere-se explicitamente aos “povos selvagens em muitos lugares da América” como exemplares do estado de natureza (1985: 187), e Loke pensa da mesma forma ao escrever em Sobre o Governo Civil: “No princípio todo o mundo foi América” (1946:49). (SANTOS, 2008: 6).
As viagens realizadas pelos naturalistas em expedições científicas pelo território brasileiro (por exemplo: Agassiz em 1850, Hartt em 1870, entre outros) também contribuíram para a construção de uma imagem que mostra o Brasil e a cultura brasileira de maneira exótica e paradisíaca. Os olhares dos cientistas, muitas vezes, evidenciavam o exotismo tanto dos aspectos da fauna e da flora como da etnologia. Essa visão cientificista do Brasil foi amplamente divulgada através dos meios de comunicação existentes naquele período, como cartas, pinturas, aquarelas, livros, palestras em universidades etc.
A própria escolha do termo “Brasil” para a nomenclatura do novo território é um fator importante na construção da imagem do nosso país e da nossa cultura. Essa escolha evidencia traços de uma imagem exótica em formação. Existem várias hipóteses acerca dos fatos que desencadearam a seleção desse termo. Encontrar uma raiz sólida para a origem dessa escolha é algo difícil. Alguns dizem que foi pelo fato de encontrar sobre o nosso solo uma grande quantidade de árvores denominadas pau- brasil, de grande valor comercial. Outra explicação, criada por Adelino José da Silva Azevedo (filólogo), diz que a palavra “Brasil” é de procedência celta e que remete a uma lenda que fala de uma "terra de delícias", vista entre nuvens, relacionando nossas terras e cultura à visão do “Eldorado”.
Durante muitos anos, e ainda nos dias de hoje, existe uma altíssima porcentagem de imagens que foram construídas e traduzidas de maneira a exaltar a natureza selvagem e pré-civilizada do Brasil. Esse processo de decodificação dos textos culturais em imagens de caráter exótico é exemplificado por Gruzinski (2001) como uma atração inerente a todos os seres humanos por um caráter primitivo. Ao entrarmos em contato com uma cultura com especificidades diferentes do nosso contexto cultural, tendemos a observá-la de maneira a exaltar o exotismo.
O Brasil, durante o processo de descobrimento e colonização, também atraiu a atenção dos colonizadores, visitantes e cientistas pela exuberância da natureza, diversidade de elementos e pelo exotismo da cultura indígena.
Além disto he esta Provincia sem contradição a melhor pera a vida dc homem que cada huma das outras de America, por ser commummente de bons ares e fertilissima, e em gram maneira deleitosa e aprazivel á vista humana. O ser ella tam salutifera e livre de enfermidades, procede dos ventos que geralmente cursão nella: [...] E como todos estes procedão da parte do mar, vem tam puros e coados, que nam somente nam dânam; mas recream e acrescentam a vida do homem [...] Esta Provincia he à vista mui deliciosa e fresca em gram maneira: toda està vestida de mui alto e espesso arvoredo, regada com as aguas de muitas e mui preciosas ribeiras de que abundantemente participa toda a terra, onde permanece sempre a verdura com aquella temperança da primavera que cà nos offerece abril e maio. E isto causa não haver là frios, nem ruinas de inverno que offendão as suas plantas, como cà offendem às nossas. Em fim que assi se houve a Natureza com todas as cousas desta Provincia, e de tal maneira se comedio na temperança dos ares, que nunca nella se sente frio nem quentura excessiva. (GÂNDAVO, 1557: 9)
Após um processo exaustivo realizado pelos estudiosos europeus, no qual tinham como objetivo catalogar todas as espécies animais e vegetais existentes na Europa, os cientistas — acreditando terem tido contato com todos os elementos presentes na natureza — chegam ao Brasil e aqui se deparam com um grande número de animais e vegetais desconhecidos, uma abundância de cores, formatos, sabores, odores e espécies. “São tantas e tão diversas, frutas e ervas que existem nessa
província, nas quais podemos notar muitas particularidades, que seriam infinitas para as descrevermos aqui” (GÂNDAVO, 1576: 20)21 .
Como esta Provincia seja tão grande e a maior parte della inhabitada e cheia de altissimos arvoredos, e espessos matos, nam he d'espantar que haja nella muita diversidade de animaes, e bichos mui feros e venenosos, pois cá entre nós, com ser terra já tam cultivada e possuida de tanta gente, ainda se crião em brenhas cobras mui grandes de que se contão cousas mui notaveis, e outros bichos e animaes mui danosos, esparzidos por charnecas e matos, a que os homens com serem tantos e matarem sempre nelles, nam podem acabar de dar fim, como sabemos. (GÂNDAVO, 1576: 21)
21 “São tantas e tam diversas as plantas, fruitas, e hervas que ha nesta Provincia, de que se podiam notar
A variedade e o exotismo da fauna e flora aparecem em diversas representações do Brasil e de suas mulheres. As imagens das brasileiras inúmeras vezes dialogam com elementos vindos da natureza. Na mídia contemporânea vivemos uma moda na qual as mulheres, para atrair a atenção do público, não só aparecem inseridas na natureza, entre árvores e rios, como recebem nomes exóticos como “Mulher Samambaia”, “Mulher Melancia”, “Mulher Pera” (...)
Site: //farm2.static.flickr.com/1182/963648426_62c10e42fb (acesso:19/01/2010 às 10:15 h)
Uma artista que ressignificou e explorou esse aspecto exótico com grande maestria foi Carmen Miranda, de origem portuguesa, mas que ainda criança veio para o Brasil. Sua imagem carregava a simpatia, a comicidade, a malandragem, o gingado e a sensualidade das nossas mulheres. Junto com a excelência artística de sua obra, Carmem conseguiu explorar os estereótipos da cultura brasileira, atraindo e fascinando os olhares estrangeiros de modo a impulsionar a sua carreira no exterior. Sua expressão continha os elementos do Brasil que fascinavam o mercado externo. Ela trazia em suas roupas, em seu gestual e em sua música o exotismo do Brasil. Compôs seu figurino com turbantes que, além de serem uma mestiçagem do cocar das índias e dos turbantes das mulheres africanas, eram constituídos por uma composição de elementos encontrados na natureza e na sociedade brasileira, como frutas, cores, penduricalhos e balangandãs.
Site: www.thedailydish.files.wordpress.com/2009/05/carmen_miranda.jpg (acesso: 13/01/2010 às 9:00 h)
Esses olhares possibilitam a construção de representações em que a diferença cultural é destacada, explorada e recriada através da exacerbação e caricaturização dos elementos exóticos. Atualmente foi lançada uma campanha da marca Azaleia, cujo objetivo era homenagear a diversidade da mulher brasileira. Para esta homenagem foram criadas propagandas (impressas e digitais) que ressaltam três grandes estereótipos que compõem as representações da brasileira — a índia, a negra (mulata) e a loira.
Site: //img126.imagevenue.com/img.php?image=41770_07914168373EXH800 (acesso: 10/02/2010 às 14:34 h)
Alguns artistas enfatizavam o exotismo das culturas indígenas, outros o exotismo da natureza e ainda o exotismo da nudez indígena. As imagens criadas em 1557 por Theodore de Bry, um ourives e editor belga especialista em gravuras de cobre, ressaltam de maneira estereotipada e deturpada os costumes canibais. Seu olhar estrangeiro mostra os índios como seres selvagens e aculturados. Essas imagens foram elaboradas através de relatos de viajantes que participaram das primeiras expedições que vieram para o Brasil. Theodore de Bry nunca visitou nossas terras, portanto suas imagens tentam traduzir visualmente relatos orais e escritos elaborados por viajantes. Na imagem a seguir podemos observar que a representação do índio funde-se com a do cidadão europeu vindo da cultura civilizada.
Autor: Teodore de Bry, 1598
site: www.abrale.com.br/biblioteca/001.htm (acesso: 10/02/2010 às 14:00 h)
Assim, observamos nesta obra a fusão entre referências provindas da cultura na qual Teodore de Bry vivia e as dos relatos de viajantes traduzidas pela imaginação do artista. Nesse entrelaçar imagético podemos notar que os traços faciais e corporais não condizem com o fenótipo dos índios brasileiros e sim com o fenótipo europeu. O ritual canibal desconfigurado perde seu caráter ritualístico e mostra uma devoração desenfreada de corpos humanos por índios famintos, que exibem pedaços de braços e de coxas.
Huma das cousas em que estes Indios mais repugnam o ser da natureza humana, e em que totalmente parece que se extremam dos outros homens, he nas grandes e excessivas crueldades que executam em qualquer pessôa que podem haver ás mãos, como nam seja de seu rebanho. Porque nam tam somente lhe dam cruel morte em tempo que mais livres e desempedidos estam de toda a paixão; mas ainda depois disso, por se acabarem de satisfazer lhe comem todos a carne usando nesta parte de cruezas tam diabolicas, que ainda nellas excedem aos brutos animaes que nam tem uso de razam nem foram nascidos pera obrar clemencia. (GÂNDAVO, Cap. XII)
Na próxima imagem, também elaborada por Theodore de Bry, destaca-se um olhar idealizado acerca dos índios. Aparece um índio, ainda com traços europeus, porém seus gestos são suaves. Ele se encontra munido de um arco e flecha com o qual caça o alimento e proteje a família. Atrás da figura do caçador notamos a imagem de
uma linda índia de cabelos longos e com uma criança no colo. Aqui os traços do índio selvagem e canibal diluem-se e ressalta-se a idealização de uma vida tranquila e sem preocupações dos bons selvagens.
Autor: Theodor de Bry
Site: www.lyc-arsonval-brive.ac-limoges.fr/site/spip.php?article768 (acesso: 08/02/2010 às 10:00 h)
Após o desvio da rota portuguesa que se dirigia a Calcutá22, dando origem ao
“descobrimento” do nosso território, o Brasil se transformou em um ponto central entre Oriente e Ocidente. “O Brasil foi lugar de fluxo e refluxo de povos e conhecimentos que
não tardou em assimilar e transformar” (ALFONSO-GOLDFARB, 1993: 123)23. As naus
que passavam pelo Brasil não traziam apenas descendentes de origem europeia, mas também muçulmanos e elementos da cultura indiana — região para a qual as naus se dirigiam com o objetivo de adquirir especiarias. Esses marinheiros compunham grande parte das tripulações das navegações portuguesas. Esse fluxo cultural trazia para o território brasileiro a diversidade de elementos e costumes do Oriente.
O exotismo da natureza e dos povos indígenas, unido aos objetos e costumes orientais e à propensão que o ser humano tem de compreender o estranho, o
22 Sobre a intencionalidade ou não do descobrimento do Brasil ler “Novo mundo dos trópicos” (Freyre,
1971: 233).
23 “O Brasil fue lugar de flujo y reflujo de pueblos y conocimientos que no tardo em assimilar y
desconhecido, de maneira exótica (GRUZINSKI) foram elementos importantíssimos que permitiram a formação de uma imagem exótica do povo, dos costumes e da natureza brasileira.