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1.2 Axisymmetric jets

1.2.1 Jet instabilities

A atitude de Karl MARX em relação aos direitos humanos é mal compreendida até hoje. Por um lado, autores liberais insistem em ligar a “negação” (dialética, como veremos) dos direitos humanos por parte de MARX às violações de direitos humanos que de fato ocorreram em experiências do (mal-)chamado “socialismo real”. Por outro lado, um certo “pós-marxismo” corroborou a tese de um suposto “desprezo” de MARX em relação aos direitos humanos33, o que, a nosso entender, está longe de ser a postura marxiana.

Não nos parece tampouco que a posição que será apregoada pelas diversas correntes do marxismo posterior a MARX ajudem muito na interpretação de sua real perspectiva, já que sua herança teórica esteve sujeita a uma má fortuna editorial34, associada a disputas políticas que se refletiram em traduções tendenciosas35, organização de coletâneas que davam mais ou menos destaque a certos textos conforme as posições dos organizadores etc. Além disso, nunca é demais lembrar que, durante quase todo o século XX, o marxismo foi dominado, teórica e politicamente, sobretudo pelo materialismo estalinista e pelo estruturalismo althusseriano, que produziram vários tipos de mistificação sobre as posições de MARX que nos exigem hoje uma leitura muito mais atenta de seus textos originários. Ainda que há muito tempo se reconheça no âmbito do marxismo o papel e a importância da formação filosófica de MARX (como fizera LENIN, 2006), o fato é que poucos marxistas conhecem em profundidade os filósofos que o influenciaram, e

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Vide por exemplo ATIENZA (1983). A má incorporação do pensamento de MARX por este “pós-marxismo” é o que leva à sua aproximação das teorias sociais pequeno-burguesas a la WEBER, PARSONS etc., e que com o chamado “giro linguístico”, terminará como uma mera teoria da argumentação, da ação comunicativa que pensa a relação intersubjetiva a partir de critérios estritamente formais, deixando de lado o conteúdo material (econômico, ecológico, erótico, cultural etc.) dessas relações.

34 Manuscritos fundamentais do pensamento de MARX foram publicados muito tempo após a sua morte, como

por exemplo A Ideologia Alemã (1932) e os Grundrisse (1939), e até hoje o projeto de publicação das obras completas de MARX e ENGELS ainda não foi completado. Vide nesse sentido a nota à edição brasileira da tradução mais recente dos Grundrisse, em MARX (2011, p. 9-13).

35 Não podemos esquecer que as primeiras versões de A Ideologia Alemã e dos Grundrisse foram publicadas na

União Soviética, no auge da ideologia estalinista. No Brasil, as primeiras traduções de apenas algumas das obras de MARX estavam alinhadas com essa perspectiva ideológica, com consequências teóricas e políticas bastante conhecidas. Apenas a partir da década de 1970 – em plena ditadura, portanto – chegarão ao Brasil (com enormes dificuldades, como se pode imaginar) as primeiras traduções mais confiáveis, e apenas a partir dos anos 2000 passamos a ter acesso a textos mais fidedignos às obras originais de MARX, com as novas traduções promovidas por editoras como a Boitempo Editorial e a Editora Expressão Popular. O caminho para a reconstrução do marxismo é de fato longo, mas muito tem sido feito nesse sentido nos últimos anos no Brasil e na América Latina!

muito menos o modo pelo qual o filósofo-economista de Tréveris assimilou criticamente cada uma dessas contribuições para a construção de sua visão complexa e totalizante sobre a sociedade burguesa. Isso sem falar no mais básico, que é o estudo sério e sistemático das obras originais de MARX, despido dos preconceitos e dos diversos “óculos” trazidos pelos diversos “marxismos realmente existentes”.

Diante desse cenário complexo, acreditamos que o resgate da trajetória pessoal, da história de vida do autor pode nos ajudar a construir propostas de interpretação mais fidedignas às reais posições de MARX, até mesmo para que quem discordar de suas opiniões possa criticá-las de forma mais consistente e honesta, sem atribuir ao autor a responsabilidade por posições que na verdade não foram suas, mas daqueles que se afirmam como seus “legítimos herdeiros”.

Antes de entrarmos na leitura propriamente dita da obra marxiana que trata de forma mais sistemática sobre o tema dos direitos humanos – Sobre a questão judaica –, precisamos desfazer algumas confusões e traçar um cenário para uma interpretação possível da perspectiva marxiana, que buscaremos submeter então ao crivo do próprio texto. O resultado será certamente polêmico e surpreendente para muitos marxistas, pois propõe um sentido mais profundo e radical ao materialismo adotado por MARX.

A inspiração para essa proposta de releitura crítica de MARX vem da interpretação construída por Enrique DUSSEL, que durante longos anos durante a década de 1980 esteve em contato com as obras completas originais de MARX e ENGELS, em processo de organização no âmbito do projeto de publicação de suas obras completas36, até hoje não concluído.

Como estudioso da teologia e um dos principais expoentes da Teologia da Libertação, DUSSEL (1993) logrou identificar nos textos de MARX diversas inferências a textos sagrados que o levaram a opinar pela existência de uma teologia “metafórica” implícita na obra marxiana. Tal aspecto constitui um verdadeiro tabu no campo do marxismo, no qual por muito tempo se disseminou a visão althusseriana do MARX “anti-humanista”, ou ainda a visão do materialismo vulgar estalinista de um MARX que propagava um ateísmo jacobino e militante. O fato de

36 Na Nota da Edição presente na versão brasileira recém publicada dos Grundrisse lemos o seguinte: “MEGA é a sigla de Marx-Engels-Gesamtausgabe, projeto que se dedica a editar a obra completa de Karl Marx e Friedrich Engels, com uma abordagem histórica e crítica. Em sua segunda fase, a MEGA planeja a publicação de 114 volumes dos dois pensadores alemães, tendo sido lançados 52 até a presente data.”.MARX (2011, p. 12)

os marxistas desconhecerem o mais fundamental da teologia impediu a possibilidade de se ver a influência da teologia no pensamento de MARX, com reflexos diretos na sua concepção materialista da História.

Não se trata, no entanto de discutir qual era a convicção subjetiva de MARX, mas simplesmente de retratar de forma mais honesta as posições do autor nos temas explicitamente debatidos ao longo de sua vasta obra. De todos os temas por ele tratados ao longo de sua vida, certamente a propagação do ateísmo não foi uma delas, e, como nos lembra DUSSEL (1993, p. 86-88), por diversas vezes MARX rejeitou o pedido de adesão de grupos teológicos (inclusive que propagavam o ateísmo) à Associação Internacional dos Trabalhadores.

Falta ainda à leitura dos textos marxianos uma boa dose de História, que não seja no entanto a velha historiografia eurocêntrica, mas sim uma leitura efetivamente global, totalizante, sobre o processo histórico pelo qual passava a Alemanha e a Europa como um todo no período da formação intelectual de MARX. Desse modo, a dimensão dos problemas tratados pelo autor e por seus interlocutores poderá ser melhor situada, propiciando uma leitura mais adequada sobre cada uma das posições manifestadas nos debates políticos e filosóficos travados, sobretudo no período de sua juventude. Isso para não cair na mais lamentável das interpretações sobre a posição de MARX no tema da questão judaica, que busca situá-lo numa suposta perspectiva “antissemita” em virtude de sua crítica ao judaísmo.

Contra essa posição, basta lembrar que MARX era judeu, sua mãe era judia e sua família paterna tinha longa tradição rabínica37. Converteu-se ao luteranismo ainda jovem, juntamente com seu pai, burocrata do Estado prussiano que foi obrigado a abandonar o judaísmo para assegurar seu emprego neste que era um Estado luterano autoritário, que dominava as demais regiões que futuramente conformariam a atual Alemanha.

Proveniente da tradição judia, MARX conhece os temas, os mitos, as metáforas dessa tradição semita38. Como colaborador de Bruno Bauer, filósofo e teólogo, MARX domina perfeitamente bem o debate teológico, além da própria

37 DUSSEL (1993, p. 28) lembra que: “(…) desde el siglo XV hay rabinos Marx-Levi, y fueron rabinos de Tréveris su abuelo y uno de sus tíos, Samuel Marx, en vida del mismo Marx”.

38 No final dos anos 1960, DUSSEL (1969) publica uma interessante obra sobre o humanismo nas diferentes

tradições semitas. Este vasto estudo é o que lhe permite ver o que o marxismo até hoje não consegue reconhecer: a formação teológica de MARX, e a permanência da teologia em suas obras a partir de diversas formas metafóricas.

filosofia, como tributário do pensamento clássico da Ilustração39.

Considerando que a formação escolar de MARX ocorre dentro da tradição do luteranismo, DUSSEL acredita que há em seu pensamento mais originário (textos de sua juventude escolar) uma série de influências provenientes da tradição pietista, ala progressista e considerada “radical” no âmbito do luteranismo, que confere grande importância ao tema do “sacrifício” no Novo Testamento, e à afirmação da vida humana contra esse sacrifício (DUSSEL, 1993, p. 30-36):

De todas maneras, pensamos que es del pietismo alemán de donde Marx bebió su doctrina del Anti-cristo, de la prioridad de la praxis; y así como los pietistas se opusieron a un rey católico, y Hegel a un rey sin constitución (el prusiano luterano), de la misma manera Marx se opondrá, primero, al Estado luterano (en su etapa de crítica política como periodista en Alemania), para después lanzar su crítica filosófico-económica contra el capital (desde 1843 en París, posteriormente en Bruselas, y definitivamente en Londres teórica y sistemáticamente a partir de 1857).

Com toda essa formação ética e teológica ao longo de toda a sua juventude, do humanismo semita assimilado de sua família, do Cristianismo luterano e de sua vertente pietista presente em sua formação escolar fortemente influenciada pelo ideário Iluminista, MARX esboça já num de seus primeiros textos um vitalismo que, ao refletir sobre a escolha da futura profissão, coloca em primeiro lugar a vida da comunidade, o “bem da humanidade”40.

Já na Universidade, inicia o curso de Direito em 1836 na Universidade de Bonn, transferindo-se em 1837 para Berlim, onde assiste aulas com Savigny, Gans e outros grandes juristas41. No entanto, seu contato com a filosofia hegeliana o faz desistir da carreira jurídica ainda aos 20 anos de idade para dedicar-se ao estudo da Filosofia.

Torna-se colaborador de Bruno Bauer, professor catedrático de Teologia na Universidade de Bonn, função que MARX preparava-se para assumir após doutorar- se em Filosofia em Berlim, mas seus planos não serão concretizados devido ao recrudescimento da perseguição política imposta pelo Estado prussiano aos integrantes da chamada “esquerda hegeliana”, da qual MARX era um adepto explícito e bastante ativo.

Abortado seu futuro acadêmico como professor de teologia, MARX decide

39 Para uma melhor compreensão deste aspecto “teológico” na vida de MARX, vide DUSSEL (1993, p. 24-58). 40 DUSSEL (1993, p. 31-32) dá o devido destaque à importância do tema da vida na obra de MARX, desde sua

juventude até O Capital.

investir no trabalho de jornalista, chegando ao posto de editor-chefe da Gazeta Renana, importante jornal da pequena burguesia da região de Colônia, capital da Renânia, naquela época uma das economias mais desenvolvidas da futura Alemanha. Os poucos meses como editor-chefe do jornal (no qual inicia como colaborador eventual, com textos apócrifos bastante ácidos contra o governo prussiano) serão fundamentais para que MARX se colocasse a par de temas e problemas de política e de economia, que não eram tratados por seus companheiros filósofos e teólogos da esquerda hegeliana, dos quais inicia um processo de afastamento em virtude da radicalização de suas opiniões políticas.

Vítima da perseguição do Estado prussiano na Universidade como acadêmico, e depois como jornalista vítima da censura (contra a qual se insurge em diversos textos reunidos em MARX, 2001), sua indignação ética chegará ao ápice na análise sobre as leis autoritárias que passavam a criminalizar os camponeses pelo uso da madeira caída naturalmente em propriedades privadas (MARX, 1982). Esse caso será paradigmático, pois motivará MARX a iniciar uma crítica teórica ao Estado prussiano, que representará um verdadeiro “acerto de contas” com o principal filósofo de seu tempo: HEGEL, professor de filosofia da Universidade de Berlim, que tanto influenciara a MARX e a seus jovens colegas “hegelianos de esquerda”.

A Crítica da Filosofia do Direito de Hegel é, portanto, um primeiro intento de crítica do Estado por parte de MARX (2005), não só como uma crítica do Estado prussiano em todas as suas deformações particulares, mas já com elementos de crítica do Estado em geral. Apesar disso, a posição de MARX na redação da obra durante meados de 1843 será ainda de democrata radical, filósofo pequeno-burguês para quem o comunismo era uma pura “abstração dogmática”42.

Em outubro deste mesmo ano, pouco tempo após escrever o livro ainda não publicado, MARX irá a Paris e terá contato com o proletariado parisiense e com as sociedades secretas socialistas e comunistas. Essa “vivência” pessoal e concreta leva MARX a mudar completamente seu modo de crítica a HEGEL: seu locus de enunciação muda radicalmente, do ponto de vista da pequena burguesia “humanista” e democrata-radical para uma perspectiva comunista, desde o ponto de vista do proletariado. Essa mudança será decisiva e definitiva, pois marcará o lugar

42 DUSSEL (1993, p. 42) traz o seguinte trecho de carta de MARX a seu amigo Arnold Ruge, escrita em

setembro de 1843 em Kreuznach: “el comunismo es una abstracción dogmática [...] (y) la religión y luego

la política constituyen temas que atraen el principal interés de la Alemania actual”.Em outubro MARX irá

a Paris e terá contato com o proletariado parisiense e com as sociedades secretas socialistas e comunistas, mudando radicalmente de opinião.

de enunciação do discurso crítico de MARX até o final de sua vida, e é o que explica a diferença brutal – apesar dos poucos meses de distância – entre o texto da crítica a HEGEL, e a sua Introdução, escrita após os contatos feitos em Paris.

Qual é a essência da crítica a HEGEL, que leva MARX também ao rompimento com a “esquerda hegeliana” representada pelos irmãos Bauer, por Max Stirner e tantos outros filósofos alemães de sua época? O único elemento evidenciado pelo marxismo standard foi a famosa metáfora do sistema hegeliano “de cabeça para baixo”, da pura e simples mudança do sistema hegeliano “de idealista para materialista”. Seguimos no entanto a perspectiva de DUSSEL (2007b, p. 334- 385), que mostra que esse rompimento (que certamente não será absoluto, e sim uma subsunção, superação, como negação da negação43) é muito mais radical, pois subsume o materialismo de FEUERBACH (rompimento mais conhecido, mas de dimensões não totalmente reconhecidas), e, indiretamente, também a filosofia da criação de SCHELLING (algo inteiramente novo e ainda bastante controverso no campo do marxismo).

Em apertada síntese, DUSSEL explica o modo de subsunção dos pensamentos de HEGEL, SCHELLING e FEUERBACH por parte de MARX, que buscaremos explicitar no presente item, demonstrando a sua validade para a interpretação da crítica marxiana aos direitos humanos, presente sobretudo em Sobre a Questão Judaica (DUSSEL, 1986, p. 151):

Para Hegel, o real é o pensar e o pensado; Schelling propõe ir além da ontologia da identidade do ser e do pensar e descobre a transversalidade da revelação; Feuerbach vai além da ontologia do ser como pensar, abrindo-se ao âmbito da sensibilidade, da afetividade, da relação eu-tu, homem-homem. Agora Marx vai além do âmbito feuerbachiano (tanto da sensibilidade como do eu-tu), descrevendo o real como o produzido, o trabalhado; e a relação abstrata eu-tu, homem-homem, como a de senhor (possuidor do capital) e explorado (vendedor espoliado de seu próprio trabalho).

Após tanto tempo de dominação do dogmatismo anti-dialético estalinista44, nos parece justa e necessária a ênfase que o “marxismo sobrevivente” (sobretudo a

43 MARX (2013a, p. 129) afirma explicitamente no posfácio da segunda edição d’O Capital: HEGEL não é um

“cachorro morto”! Daí o problema de tentar representar o ideário de MARX sem a presença de HEGEL, como pretende fazer Antônio NEGRI (1991), ao buscar uma reconstrução da perspectiva marxiana a partir de SPINOZA. Veremos adiante que, na verdade, hoje o resgate mais importante do pensamento de MARX precisa ocorrer por meio da compreensão da filosofia de FEUERBACH.

44 A “derrota da dialética” no âmbito do movimento comunista será produto da má compreensão da filosofia

hegeliana e da sua influência sobre MARX, como bem mostrará o professor recém-falecido Leandro KONDER (2009).

perspectiva lukacsiana) confere hoje à influência hegeliana ao longo de toda a obra de MARX. No entanto, é igualmente necessário lembrar que MARX efetivamente rompeu com a filosofia hegeliana, e que o filósofo mais importante que o influenciou nesse rompimento foi FEUERBACH, sobretudo na obra A essência do cristianismo, que lança as bases de um materialismo antropológico que há que resgatar.

Isso significa que, apesar de parcialmente correta, a velha metáfora marxista da “inversão” da dialética “de idealista para materialista” no pensamento de MARX será ainda insuficiente se não se compreender as características fundamentais deste materialismo, cujas origens estão na obra de FEUERBACH. Isso é o que o próprio ENGELS reconhece em texto de sua autoria publicado em A sagrada família (MARX e ENGELS, 2011, p. 111):

Mas quem descobriu, então, o mistério do “sistema”? Feuerbach. Quem destruiu a dialética dos conceitos, a guerra dos deuses, a única que os filósofos conheciam? Feuerbach. Quem pôs, não certamente o “significado do homem” – como se o homem pudesse ter outro significado, além do de ser homem! –, mas “o homem” no lugar da velha quinquilharia, inclusive no lugar da “autoconsciência infinita”? Feuerbach, e apenas Feuerbach. E ele ainda fez bem mais que isso. Destruiu há tempo as mesmas categorias que a “Crítica” agora agita em volta de si, a “riqueza real das relações humanas, o mesmo conteúdo da História, a luta da História, a luta da massa contra o espírito” etc. etc.

É interessante notar que a importância de FEUERBACH para a construção do materialismo de MARX é ainda hoje negado pelo marxismo crítico. Nesse sentido, nos diz o tradutor da obra, o professor Marcelo BACKES em nota que comenta este trecho engelsiano (MARX e ENGELS, 2011, p. 111, nota do tradutor nº 17):

Quando voltou a ler seus escritos precoces, Marx disse ter se sentido “agradavelmente surpreso por descobrir que nós dois não precisamos nos envergonhar do nosso trabalho, ainda que o culto a Feuerbach tenha um efeito bastante humorístico sobre mim hoje em dia” (Carta a Engels, 24.4.1867). Se Marx chega a defender o nome de Feuerbach diante dos abusos de “Bruno Bauer e consortes” em algumas passagens, Engels exalta-o na presente com um entusiasmo que está longe de ser tão grande em Marx.

Não nos parece, no entanto, que a defesa de FEUERBACH feita por MARX e por ENGELS contra Bruno Bauer e companhia ocorra apenas em “algumas passagens” desta que foi a única obra sistemática publicada pelos autores para demarcar suas posições filosóficas que levavam ao rompimento com a filosofia

hegeliana e pós-hegeliana. Na obra traduzida pelo próprio BACKES, encontramos nada menos que 8 (oito) páginas com referências explícitas a FEUERBACH de ambos os autores, e nenhuma delas faz qualquer menção negativa à perspectiva feuerbachiana (cf. MARX e ENGELS, 2011, pp. 111-113, 145, 147, 160, 162 e 169).

Por outro lado, as críticas a FEUERBACH, presentes em A ideologia alemã (MARX e ENGELS, 2007a), serão redigidas mais para fins de autoesclarecimento, como reconhecerá ENGELS em 1886 no pequeno texto (nada condescendente com o materialismo feuerbachiano, por sinal) intitulado Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã (ENGELS, 1975). A obra trará pela primeira vez a público as famosas Teses sobre Feuerbach, escritas por MARX em 1845 e que serviram como base para a construção de uma teoria materialista mais consequente, que o levará diretamente à crítica da economia política.

Jamais houve, portanto, por parte MARX e de ENGELS (ou, deste último, até 1886) o interesse em manifestar publicamente suas discordâncias com o materialismo feuerbachiano. Tratava-se na verdade de superá-lo a partir da própria práxis, da participação direta no movimento socialista e comunista na França, na Inglaterra e, na medida do possível, também na própria Alemanha (MARX e ENGELS, 2007a, p. 535):

10. O ponto de vista do velho materialismo é a sociedade burguesa; o ponto de vista do novo é a sociedade humana, ou a humanidade socializada.

11. Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo45.

Longe de qualquer pretensão no sentido de apresentar uma leitura “definitiva”