A tradição brasileira de ensino superior é de tempo parcial, professores e estudantes de tempo parcial, unidos em curtos períodos diários, para um curso de conferências (aulas), que se previam boas, se não notáveis. [...] A lei, o governo e a opinião pública davam a esse professor uma posição de extremo prestígio, para o que lhe concediam horas e privilégios especiais. A remuneração era pouco mais que simbólica, mas isto visava sobretudo caracterizar a função como mais de honras do que de proveitos. (TEIXEIRA: 1999, p.279)
Tecer sobre a trajetória do professor na Universidade brasileira e como as atividades pertinentes à sua função foram se desenvolvendo ao longo dos anos nos pareceu necessário para compor os estudos sobre a representação de docência que os sujeitos de nossa pesquisa possuem.
Primeiro porque desde as escolas de estudos superiores jesuíticos até a Universidade, o professor sempre foi colocado como um sujeito catalisador de interesses: atender à demanda institucional e atender aos interesses da classe de alunos que se submetiam aos cursos.
Segundo porque diante das mudanças em torno das idéias sobre a Universidade, o professor de alguma forma teve que se ajustar às novas realidades para continuar na sua condição de docente. Nesse percurso ele tanto assistiu às mudanças substanciais de sua função quanto participou ativamente delas, o que vale para a permanência do ensino em sala de aula,
e do acréscimo em sua função com a chegada da pesquisa, da extensão, da orientação e de tantas outras funções que uma Universidade pública atual possibilita/requer de um docente.
Dessa forma, a nossa intenção é apontar alguns percursos que por si trouxeram para a ação e para a linguagem a forma como se percebe o trabalho desse professor, por conseguinte a docência.
Os primeiros professores que marcaram espaços na Universidade da Idade Média foram originários dos cleros locais, como apontado na obra de Charle e Verger (1996). A sua condição estava mais ligada à manutenção de estudos vinculados à existência da igreja e de sua vocação do que para a produção de conhecimento, tão presente na Universidade atual.
Isso porque o ensino de época era concebido como transmissão dos conhecimentos acumulados até então pela humanidade e, sendo assim, era função do professor transmitir o saber sem maiores contestações frente ao estabelecido como conhecimento acumulado pela humanidade.
Como a base do conhecimento estava voltada para o que já existia: o trivium e o
quatrivium, o que se exigia não era mais do que repetir o que por hora já se conhecia, como garantia de que o saber seria perpetuado.
A inexistência de livros em abundância para o estudo mais dirigido e até mesmo questionador foi um traço marcante no começo das universitas. As aulas dadas através da retórica faziam com que o conhecimento se bastasse em anotações que os alunos faziam e passavam entre eles.
Na medida em que a concepção de Universidade vai se modificando perante a sociedade e a crise do conhecimento se instaura (conhecimento erudito e conhecimento profissional/técnico/científico), a função do professor universitário também vai sendo redimensionada.
A crise da Universidade com o seu dilema de profissionalizar ou transformar o aluno num erudito, ocasionada pela mudança da estrutura econômica a partir do século XVI, proporcionou a modificação das atividades exercidas pelo professor no interior da Universidade.
O modelo humboldtiano (Casper; Humboltdh, 1997), que amplia a função da instituição universitária para além do ensino trazendo a pesquisa para o interior da Universidade, reposiciona a função do professor. A necessidade de se conduzirem estudos mais avançados para o entendimento da sociedade e seu desenvolvimento, possibilita inclusive a mudança de regime de trabalho. Se antes o ensinar era algo limitado a um convite, esse mesmo ensinar passa a carecer de uma dedicação maior.
É nesse contexto que a Universidade de Berlim promove uma divisão de atividades e passa a conceber a atividade acadêmica como algo que requer tempo, seriedade, e apoio do estado32.
O ensino ainda será o status do estar Universidade, porém a dinâmica interna a ela sugerida indicará uma ruptura da sua condição inicial. Desta forma, a idéia do intelectual que emerge no seio da universitas, agora também caminhará com a idéia de pesquisador e de produtor de conhecimento.
A mudança de foco ou ainda a mudança de função social da Universidade obriga a direcionamentos outros na vida do professor. A sua estatização frente à profissão, já que seus salários passam a fazer parte do orçamento do governo (isso já no início da sociedade moderna), também será uma forma de organizar e direcionar sua vida profissional.
A organização da cátedra, a organização das classes e níveis de professores dentro da Universidade indicará uma idéia de percurso do docente na vida universitária que mais tarde será reconhecido como carreira universitária.
Na Alemanha isso será visto de forma mais ampliada, por ser nessa Universidade que se inicia uma classificação docente segundo suas funções e nível de formação: Professores
Extraordinários, Privat-docenten sub-remunerados e os não-titulados33. Essa forma de conceber o professor pelo seu grau de conhecimento e responsabilidades acadêmicas servirá de exemplos para os desdobramentos, segundo Cunha (2003), em outros sistemas como o francês, americano, japonês e posteriormente aqui no Brasil.
No Brasil, como aponta Fávero (2000, p.48),
os privilégios do professor catedrático constituem uma aquisição histórica, apresentando-se o regime de cátedra como núcleo ou alma mater das instituições de ensino superior, a partir de 1808, quando o príncipe D. João VI, aqui chegando, determina a criação, entre outras, das cadeiras de Anatomia, no Rio de janeiro, de Cirurgia, no Rio de Janeiro e na Bahia.
Assim, os primeiros passos serão dados na organização da carreira e atividade docentes. Essa cátedra, dentre outras coisas, proporciona ao professor vitaliciedade em seu cargo e autonomia para promover discípulos. A carreira acadêmica nesse sentido, segundo Doria (1998), fica comprometida já que o catedrático era quem determinava quem iria acampanhá-lo.