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Para a constituição desse tópico, nos valemos não só de material produzido no ano de 2000 pela professora Ana Maria Coelho Carvalho – ex-aluna e professora aposentada do Instituto de Biologia – IB, e também atual aluna do doutorado em Ecologia, como recorremos também ao trabalho de mestrado da professora do mesmo instituto, Nora-ney Santos Barcelos, produzido em 1991 e aos projetos de reforma curricular do próprio Instituto.

Acreditamos que esse material nos fornecerá possibilidades de reflexões sobre a forma como o IB foi se solidificando como lugar de produção de conhecimento e formação de profissionais. Acreditamos ainda que conhecer sua história, sua estrutura e a composição de seus cursos e de seu quadro docente será uma ponte entre o que temos hoje como Universidade Pública Federal de Uberlândia e os desdobramentos sobre a docência que vem sendo concebida/ representada no cotidiano desses sujeitos.

O percurso de federalização da UFU, como posto anteriormente, se deu através da agregação de cursos ora existentes na cidade de Uberlândia. O curso de Ciências – Licenciatura Curta – como era chamado, foi um deles, como nos aponta Carvalho (2000, p.1):

O curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Uberlândia teve seu início como curso de Ciências-Licenciatura Curta, em 1970, na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal de Uberlândia. A faculdade era dirigida pela Madre Ilar Garotti e Irmã Odélcia Leão Carneiro, e funcionava no Colégio Nossa Senhora, na Praça Coronel Carneiro. O regime do curso era anual, noturno e com duração de 3 anos, formando o professor de Ciências e Matemática.

O primeiro vestibular para o curso de Ciências – Licenciatura Curta foi realizado em 1970. Em 1973, passou a oferecer a habilitação em Biologia, criando assim a Licenciatura Plena. Esse novo curso, como afirma Barcelos (1991, p.23),

Deveria formar professores de Ciências e Biologia para o magistério de 1o e 2o

graus, respectivamente. Responde-se desse modo, à urgência de profissionais também reclamados pelo ensino de 2o grau, em crescente processo de expansão.

Esse curso funcionava assim como o anterior, à noite, e vigorou durante os anos de 1972 a 1974. Foi em 1975 que, segundo Barcelos (1991, p. 25-26):

em substituição ao Curso de Ciências Biológicas – Licenciatura Plena, começou a funcionar um terceiro curso na área de Ciências – Licenciatura, agora chamado de Curso de Ciências - habilitação em Biologia ou Matemática ou Química, nos termos da Resolução 30/74 do CFE..

O curso de Ciências Biológicas foi reconhecido pelo Decreto 77.427 de abril de 1976, que objetivava formar profissionais capazes de atuar como professores da Educação Básica, como também do Ensino Superior, assim como de formar profissionais capazes de exercer a pesquisa científica relacionadas à preservação, saneamento e melhoramento do meio ambiente. Esse objetivo se faz ainda presente na proposta atual.

Com a federalização da UFU em maio de 1978, algumas alterações curriculares aconteceram e o curso passou a ser de anual para semestral e de noturno para tempo integral, com aulas realizadas no período da manhã e da tarde.

Com a regulamentação da profissão do Biólogo em 1979, “conferindo ao licenciado e bacharel em História Natural ou Ciências Biológicas o título de Biólogo” (Barcelos, 1991, p.27), o campo de atuação desse profissional mudou, confluindo assim para algumas alterações curriculares importantes, dando singularidade ao curso, pois antes a base comum do currículo atendia a três cursos: Ciências, Química e Matemática, o que do ponto de vista de Barcelos (1991) representou um avanço, vez que essa base comum oferecida a tais cursos prejudicava muito a formação dos licenciados nas três habilitações.

Sendo assim, se antes a escolha da habilitação era feita posterior ao ingresso no curso, agora o aluno fazia sua escolha antes de prestar vestibular. Em 1987 foi extinta a Licenciatura Curta, mantendo-se apenas a formação do Licenciado Pleno em Ciências e Biologia, ambos com a duração de quatro anos. Com isso,

A habilitação de Bacharelado foi implantada com a reforma curricular de 1992. O aluno passou a ter oportunidade de se formar em dois cursos, em quatro anos ou em quatro anos e meio, obtendo assim dois diplomas, de bacharel e licenciado. Assim, foi implantada a monografia de final de curso e o aluno passou a desenvolver pesquisa nas mais diferentes áreas da Biologia: zoologia, genética, botânica, ecologia, educação, microbiologia, citologia, anatomia e tantas outras. A implantação do Bacharelado, como conseqüência natural do estímulo à pesquisa, culminou na implantação, em 1998, do mestrado em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais. (CARVALHO, 2000: p. 2)

Percebe-se com isso que não fugindo à regra da organização universitária, o IB nasce com uma vocação (para o ensino) destinada a formar o professor para atuar na educação básica. Posteriormente, na medida em que o currículo do curso se modifica e que a profissão de biólogo se solidifica no mercado, uma outra vocação aparece – a pesquisa, começando pela monografia de final de curso e se prolongando/afirmando/consolidando no curso de mestrado e posteriormente no doutorado.

Hoje o IB está constituído por quatro áreas específicas de conhecimento: Zoologia, Botânica, Ecologia e Educação em Ciências. O Mestrado e o Doutorado também já constituem-se realidade do Programa de Pós-Graduação na Área de Ecologia e Conservação de Recursos Naturais. Além da formação Strictu Sensu, ele oferece cursos de Especialização em Orientação Sexual, Ecologia e Meio Ambiente; Ensino de Ciências e Biologia – com ênfase em Educação Ambiental.

Assim, temos um instituto que cresceu sob os mesmos movimentos pelos quais tanto as Universidades de uma maneira geral, quanto a UFU em particular cresceram – é a micro- realidade dialogando com a macro-realidade, nos proporcionando pensar que as questões que envolvem a prática docente do IB até a constituição da representação de docência dos professores que o constituem – interesse do nosso estudo, não podem ser pensadas de forma isolada.

Os fios que se cruzam e as teias ou tecidos que se formam nesse movimento é que de fato materializam ou até mesmo cristalizam imagens que construímos sobre a realidade e sobre o nosso fazer diante dessa realidade.

CAPÍTULO 2

DOCÊNCIA:DOSFIOSQUESECRUZAM...AOSTECIDOSQUESE

FORMAM

O capítulo anterior nos apresentou a forma como a Universidade vem dialogando com a história das sociedades, como os fios que se encontram, terminam por tecer estruturas de poder e, ao mesmo tempo, nos mostrou como as estruturas de poder interferem diretamente na constituição das concepções sobre a Universidade pública e sua autonomia.

Apresentou também a dinâmica determinante do comportamento da Universidade no sentido de continuar existindo como tal, o que é um paradoxo frente à sua condição político social – afinal é considerada como autarquia, por isso autônoma e, ao mesmo tempo, financiada/mantida por um estado que dita as regras para sua sobrevivência como bem público e a serviço do social e da manutenção do poder.

Esse movimento em torno do estudo da Universidade e de sua história ganha mais sentido neste trabalho quando pensamos que para entender como a representação de docência vem sendo tecida pelos professores que fazem a Universidade (no nosso caso os professores do IB) é necessário pelo menos entender de que Universidade pública estamos falando, de que lugar se fala.

Isso se deve ao fato de que em nossas reflexões acerca desse estudo, percebemos que ao considerarmos as concepções como algo construído e representado nos diálogos entre/com sujeitos num espaço social e de trabalho, ao entendermos sob quais condições históricas/materiais e sociais as Universidades brasileiras se constituíram, constituíram seus

trabalhos acadêmicos e formaram seu corpo de professores, tudo isso pode nos apontar os eixos produtores dessas representações.

Valendo-nos dessa reflexão é que prosseguimos na idealização de um capítulo que trabalhasse então com as relações mantidas no cotidiano de se fazer a Universidade, através da prática pedagógica.

Dessa maneira, o presente capítulo chega com um propósito de, à luz das idéias tecidas sobre a Universidade, discutir sobre a docência, essa, encontrada nos discursos, nas formas, nas idéias, no imaginário de quem é professor, de quem forma o professor, de quem pensa o professor.

Partindo deste ponto, refletiremos sobre a condição da docência na Universidade ontem e hoje, buscando entender os aspectos que ainda se aglutinam e que se distam na contemporaneidade da prática universitária dos professores.

O capítulo foi organizado da seguinte forma: apresentar uma trajetória sobre a forma como adocência no ensino básico e superior vem sendo tecida na constituição das produções cientificas em torno do termo. Esse tópico tem como propósito vislumbrar como a palavra vem sendo referenciada, os sentidos/significados a ela dedicados pelos autores em suas produções e a nossa percepção acerca da amplitude da palavra; discutir sobre a formação oferecida para se tornar professor universitário; os problemas e limitações dessa formação; discutir a organização do trabalho docente do professor da Universidade pública, e como tais atividades confluem para a compreensão sobre docência.