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Contra el silencio y el bullicio invento la Palabra, libertad que se inventa y me inventa cada día.

Octavio Paz

O projeto literário de Goytisolo parte do questionamento da identidade espanhola e propõe uma renovação através do conhecimento e da ruptura da tradição. O autor critica os cânones vigentes pois acredita que o processo criativo não deve submeter- se a regras ou padrões pré-determinados, o que comprometeria a própria natureza

da obra literária. Uma leitura atenta de suas obras permite identificar um dos aspectos centrais de seu projeto literário essa preocupação permanente em questionar a legitimidade dos cânones e os valores que constituem a entidade denominada Espanha. Identifica, também, a existência de uma História feita sob medida para aquele país.

Vários estudiosos da obra de Goytisolo propõem distintas etapas em seu processo criativo. Será adotada nesta pesquisa a divisão proposta por Gonzalo Navajas em La novela de Juan Goytisolo (NAVAJAS, 1979, p.13 -14). Assim, a primeira fase de sua obra “Primera crítica de España” (NAVAJAS, 1979, p.13) abarca sua produção de 1949 a 1958 e compreende as obras: Juegos de manos, Duelo en el paraíso, El circo, Fiestas, e La resaca. Caracterizam-se pela atenção dada mais ao conteúdo que à forma, o que as insere na narrativa realista e, mesmo presente a crítica à sociedade espanhola, esta se manifesta de forma subjetiva, permeada por questionamentos pessoais ligados à infância e à adolescência do autor.

À segunda etapa de sua produção, denominada “Testimonio de España”, correspondem as obras escritas entre 1958 e 1962, a saber: Problemas de la novela, Campos de Níjar, Para vivir aquí, La isla, Fin de fiesta, La Chanca, Pueblo en marcha. Existe nelas uma crítica mais objetiva da realidade do país e sua análise se centra na visão da Espanha dividida em classes sociais antagônicas claramente definidas: a burguesia dominante e a classe operária, o proletariado e os camponeses alijados e excluídos. Nessa fase sua obra revela a influência do marxismo. Segundo Navajas, Goytisolo: “[...] elige el marxismo por dos razones: es el modo más adecuado para explicar e interpretar la realidad española y [...] el más

adecuado para transformarla.[...] significa justicia y sentido común” (NAVAJAS, 1979, p.99).

O posicionamento ideológico a favor do socialismo motivou sua aproximação com Cuba e, de certa forma, deu-lhe a oportunidade de uma reparação moral, já que condenava veementemente o modo como, no passado, sua família paterna enriquecera naquele país. Mas a simpatia que cultivara pela doutrina marxista se desfez e sua crítica posterior alcançaria também o malogro da revolução socialista, lançando-o de vez em uma atitude de total descrença e pessimismo.

De acordo com a conceituação de Navajas (1979, p.14), na terceira fase de seu processo criativo – Demitificación de España - o autor rompe radicalmente com as técnicas narrativas tradicionais ao buscar, pelo experimentalismo, novas formas de expressão. Pertence a esse período a sua produção realizada a partir de 1962, destacando-se Señas de identidad (1966), Reivindicación del conde don Julián (1970), Juan sin Tierra (1975), Makbara (1980), Paisajes después de la batalla(1985), Coto vedado (1985), En los reinos de taifa (1986), Las virtudes del pájaro solitario (1988), La saga de los Marx(1993), Las semanas del jardín. Un círculo de Lectores (1997).

Goytisolo associa, em sua produção literária, a discussão sobre a alteridade à crítica ao eurocentrismo e à crença na superioridade da cultura ocidental. O autor mostra como, historicamente, na cultura ocidental a figura do “outro” - principalmente do árabe - tem sido sempre associada a aspectos negativos. Exemplos dessa constatação são discutidos em España y los españoles (2002) ensaios de conteúdo crítico, histórico e político, onde analisa o que considera falacioso na história da

Espanha: “[...] Para explicar la presencia en España del invasor musulmám es preciso haber ofendido al cielo, y eso por lo que el hombre tiene de más vil, según la óptica de los doctores de la Iglesia: el sexo... El árabe representa para el español el castigo impuesto a su falta” (GOYTISOLO, 2002,p.48-49).

Esta temática será recorrente em Juan Goytisolo, que parte de uma visão inicialmente otimista para, em seguida, aprofundar-se tanto em sua compreensão do problema quanto na exacerbação de sua crítica. Assim, serão mencionados, além dos judeus e árabes, que ele reconhece e defende como formadores da cultura espanhola, todos os outros grupos que, ao longo da História do Ocidente têm sido penalizados por uma exclusão que lhes é imposta. Desde categorias de etnia e gênero em que o autor aborda a questão dos ciganos, palestinos, negros, croatas, homossexuais, até, de forma geral, todos aqueles que são perseguidos e vilipendiados por uma alteridade fabricada, que tem papeis sociais pré-definidos e circunscritos em um contexto periférico e marginalizado social e culturalmente:

La Europa a la que pertenezco y de la que me siento hijo no olvida las palabras de nuestro poeta: [...].Consciente de ello, ese europeo en menos compensará su inevitable carencia con un interés y preocupación reflexivos, embebidos de indignación y solidaridad con los dramas que asuelan el mundo extramuros de su continente arracimado y pequeño: hambre, explotación, guerras, racismo, opresiones totalitarias, [...] el horror del

apartheid, la diáspora del pueblo palestino, la ocupación de Afganistán, los

genocidios sucesivos de Indochina, la política norteamericana en Centroamérica, el derecho a la autodeterminación de las naciones del Este sojuzgadas por los acuerdos de Yalta. (GOYTISOLO, 1995, p.175 -176).

Goytisolo questiona sistematicamente as bases de uma cultura que, a exemplo do mito bíblico do deus de ouro com pés de barro, não encontra sustentação e, por isso, fecha-se em sua própria decadência. O autor alerta para o fato de que as

asseguram um espaço legitimador ao discurso da exclusão e reconhece que essa conjuntura não se distancia tanto daquela em que as convicções religiosas determinavam as questões étnicas e que a Igreja, por sua vez, legislava sobre o direito à vida. Ilustra sua análise ao falar da exclusão que lhe foi imposta pelo mercado editorial que privilegia o produto comercial – o best seller - em detrimento da obra de qualidade literária.

A abrangência de sua análise, ao tratar temas como a alteridade dentro da sociedade espanhola, colabora para o entendimento do que ele considera como modernidade. Em 25 de janeiro de 1993 Goytisolo declarou ao jornal El País: “[...] a cultura não pode ser hoje exclusivamente francesa, inglesa, alemã e nem sequer europeia, mas plural, mestiça, e bastarda, fruto do intercâmbio e da osmose, fecundada pelo contato com mulheres e homens pertencentes a horizontes distantes e diversos [...]”.(GOYTISOLO,1993) Goytisolo aponta para duas questões que ele considera fundamentais na literatura – a desterritorialização da cultura e a amplitude da modernidade, questões que, para ele, definem o caráter de universalidade e atualidade de uma obra literária.

Nesse sentido o escritor cita, como exemplos, Cervantes, Quevedo, Juan Ruiz, Fernando de Rojas, Luis Cernuda e Blanco White. Referindo-se à influência que esses autores exercem sobre sua obra, afirma: “No es una simple casualidad si los dos escritores que más me han interesado, y cuya obra ha influído más profundamente en mí durante los últimos tiempos son dos malditos: Blanco White y Cernuda” (GOYTISOLO, 1997, p. 290 -291).

A complexa dinâmica que configura a modernidade, sempre em contínua e veloz transformação, afeta a todos indistintamente e dificulta, inclusive, o estabelecimento de pressupostos. Essa conjuntura,de certa forma,obstaculiza uma definição que contemple de modo abrangente e completo o próprio tema da modernidade. Sua natureza transitória, cambiante e volátil demanda novos ângulos de análise que considerem, em seu conjunto, a época, a estrutura social, a experiência individual e o discurso.

Essa confluência de fatores forma as bases da experiência literária de Goytisolo. Pensar a modernidade, inclusive como uma espécie de sensibilidade estética e estratégica frente a determinadas conjunturas, extrapolando épocas históricas, períodos políticos, e subvertê-los, é parte de seu fazer literário. Seu olhar se dirige para o sujeito que tenta sobreviver e imprimir sua marca pessoal em um contexto caracterizado pela conformidade e a obediência ao convencional e canônico. O autor conjuga em sua narrativa os elementos de uma busca de inovação e criação estética que, mesclados a uma profunda sensibilidade e agudeza crítica, abraçam tempo, espaço e o ser. A abrangência de sua análise confirma o seu conhecimento da sociedade espanhola e conferem à sua obra um valor quase testemunhal. Seu alinhamento ideológico, com breve passagem pelo socialismo,caracteriza-se pela independência e seu projeto de reforma social e cultural pressupõe a destruição de uma tradição falaciosa e mítica em favor de uma arte crítica e renovada.

Sua condição de exilado lhe permite ver sua cultura desde uma perspectiva privilegiada, ou seja, a partir de novos paradigmas culturais, que talvez estejam muito mais coerentes com a sua proposta literária, uma vez que:

El exiliado puede ver su lengua a la luz de otras lenguas, puede advertir enseguida que la escala de valores consensuada por la tribu es falsa. Me explico: cuando uno vive sumergido en un determinado medio no tiene puntos de comparación con respecto a otros idiomas y a otras culturas y lo descubrí poco a poco en España, me refiero desde el comienzo de la literatura castellana hasta el siglo XX, lo que a veces estaba considerado como muy importante, era, de hecho, una imitación de algo que ya existía

fuera (GOYTISOLO, 1989, p. 40).

Quando se refere ao seu processo criativo, o autor enfatiza a importância de romper com os cânones literários dominantes e toma a tarefa da escritura como uma possibilidade única de questionar a validade desses cânones. Dessa forma, questiona também a realidade histórica que, em um dado momento, outorgou-lhes tal status. Goytisolo aponta em autores como San Juan de la Cruz, , Góngora e Francisco Delicado, os aspectos de um processo criativo em que se comprova a marca da modernidade. Essa característica faz com que tais autores sejam sempre atuais e que suas obras requeiram releitura. Para o autor reside aí a grandeza e o vigor da literatura.

A questão da identidade e da alteridade, temas fundamentais no contexto da modernidade, tem, em Goytisolo, um amplo espaço de reflexão e debate. Como na maioria de suas obras, o autor aborda também esses temas em viagens, palestras, cursos, conferência e entrevistas. Em nível mundial, é considerado como um dos escritores mais comprometidos com as questões humanas. Consciente da responsabilidade assumida, Juan Goytisolo se coloca como um intelectual em sintonia com as questões do seu e de todos os tempos, e enfrenta uma realidade em que a crítica social de Fernando de Rojas, “egoísmo, soledad, incomunicación, guerra, litigio: la negación del prójimo pasa por encima de las reglas sociales de respeto y amistad y no se detiene ante ningún límite” (GOYTISOLO, 1978. p.27) se

atualiza e toma corpo nos conflitos sangrentos de Sarajevo, Chechênia, Palestina, Iraque, entre tantos outros.

Se Dom Quixote se põe a serviço de Cervantes para ilustrar as diversas perspectivas que a realidade pode apresentar, Goytisolo, por sua vez, exercita sua “nacionalidade cervantina” e complementa que aquele que observa a realidade a partir de uma posição periférica em relação ao centro pode ter uma visão mais real do mundo:

El relativismo, la pluralidad de perspectivas y experiencias, facilitan el abandono de las escalas de valores consensuadas, una percepción mucho más neta de los elementos y rasgos originales de la cultura propia, una saludable afirmación de los principios personales del creador frente a las modas de su sociedad y de la época (GOYTISOLO, 1995,p.199).

Ao questionar, da forma como o faz, a identidade espanhola e passar em revista sua própria identidade, o autor de certa forma, desestabiliza estruturas, valores e hierarquias que se supunham firmes e intocáveis. Com tal atitude confirma o que diz Cervantes pela boca do cavaleiro manchego: “[...] no es un hombre más que otro si no hace más que otro” (CERVANTES, 1994, p.170).

Sua obra se configura como uma tomada de consciência, frente a uma realidade que, muitas vezes, ocultou sua face mais real. Talvez por isso, tenha favorecido o surgimento de escritores que, desde Cervantes, ensinam que o real nem sempre está no aparente. Desmitificar, dessacralizar pode ser uma alternativa para a construção do diálogo e o respeito ao diferente. Alienação, manipulação, perda da liberdade e da capacidade de raciocínio podem traduzir a ação nefasta de um mito. A interpretação de Goytisolo sobre esse tema e suas falácias é o objeto do capítulo