4. Theoretical perspectives
4.1 Immigration and dietary acculturation
Creo en el hombre. He visto Espaldas astilladas a trallazos, Almas cegadas avanzando a brincos (españas a caballo
del dolor y del hambre) y he creído. Blas de Otero
Em Coto vedado o questionamento da realidade histórica espanhola não conduz apenas à desmitificação da própria Espanha como entidade mítica, mas mostra também que conceitos como modernidade, nacionalismo e alteridade estão relacionados. A crítica de Goytisolo destaca a necessidade de desconstruir a tradição e (re) criar novas possibilidades que possam responder adequadamente aos desafios de uma realidade extremamente complexa e farta de ambiguidades. Se por um lado a modernidade marca a época em que o homem ascende à sua maioridade e passa a fazer uso da razão, por outra parte Goytisolo aponta, na cultura espanhola, a manutenção das formas arcaicas de pensamento e as mesmas práticas ultrapassadas: “[...]. La historia española de los últimos cien años es un perpetuo regateo entre los intereses encontrados de la clase latifundista, la burocracia y la administración madrileñas, y las burguesías ‘avanzadas’ de Cataluña y el País Vasco [...]” (GOYTISOLO, 2002 p.114).
A modernidade trouxe consigo, entre outras transformações, a criação do estado nacional moderno. Nessa nova modalidade político-administrativa, o conceito de identidade ganha contornos mais definidos, nutridos pela questão do nacionalismo. Na formação do estado nacional espanhol, esse processo se dá com forte influência da Igreja, o que confere à identidade um caráter mais religioso que civil. Tal
peculiaridade repercutiu, como se afirmou no primeiro capítulo, no modo como a Espanha viveu a modernidade.
A desvinculação da experiência do homem da tutela religiosa, ocorrida a partir do século XVII, com a consequente separação entre a Igreja e o Estado, traz consigo uma das marcas da modernidade: o idealismo em relação à tolerância como norma de convívio entre os homens, apesar das crenças e das opiniões diferentes. Goytisolo questiona essa prática de tolerância na sociedade espanhola, assim como a prática disseminada em escala mundial. A Guerra Civil espanhola, as duas Grandes Guerras, as guerras de Sarajevo, os conflitos étnicos e religiosos, o tratamento humilhante aos imigrantes em países europeus, os regimes totalitários, a coerção física e a coação psicológica que excluem e negam o direito ao exercício da cidadania a muitos povos são contradições apontadas pelo autor na conjuntura da modernidade e que merecem uma revisão.
O ideal moderno de tolerância e a supressão das referências mítico-religiosas que sustentavam a tradição deveriam apontar novos rumos na vida do país. O progresso tecnológico, a intensificação das descobertas científicas, a autonomização e a compartimentalização dos saberes, a invenção da imprensa, entre outros acontecimentos que marcam o período, não tiveram, na Espanha, a mesma repercussão que nos demais países da Europa. Também do ponto de vista histórico, Goytisolo observa certa resistência por parte de alguns escritores à questão da modernidade. O autor ilustra esta circunstância quando cita autores de distintas épocas, como se depreende do fragmento abaixo:
apreciaciones negativas de la sociología (‘Hay algo más horrendo, más grotesco, más bufo que eso que suelen llamar sociología?’), de las invenciones mecánicas y de lo que él denomina ‘la peste de la lógica’. La historia deviene a sus ojos una agitación inútil y el progreso moderno le merece los más vivos sarcasmos: Deja la civilización con el ferrocarril, el teléfono, el water-closed, y lleva la cultura en el alma... El desprecio a la comodidad es aún una de las evidentes superioridades de los pueblos de casta ibérica [...] (GOYTISOLO, 2002, p.92).
Goytisolo rejeita esse conceito da modernidade situada em um período especifico da história. Para o autor, a modernidade se associa ao livre uso da razão em qualquer época e, a qualidade de experiência estética está caracterizada pela ruptura com a tradição, manifestando-se sempre que os pressupostos (fundamentos, valores e normas) da experiência tradicional atingem seu apogeu, seu sentido, quando perdem seu caráter inquestionável e seu status canônico. Ao situar a modernidade em uma dimensão atemporal, Goytisolo a identifica como uma sensibilidade estética presente na literatura. O escritor esclarece que, para ele, tradição e modernidade não são termos que se auto-excluem nem são antagônicos. Na verdade, são complementares e amplos. Em suas palavras: “Si algo define o simboliza ésta (a modernidade) es su visión múltiple, simultánea y abierta del hormigueo vital, improvisación creadora de ese espacio fluido, en perpetuo movimiento que denominamos urbe, ciudad o medina” (GOYTISOLO, 1995,p.170).
Seu vasto conhecimento sobre a literatura espanhola e, especialmente, os autores medievais lhe asseguram uma sólida base, a partir da qual realiza uma análise profunda que detalhada e oferece ao leitor, além da possibilidade de conhecer uma produção literária importante no contexto cultural espanhol, elementos para desenvolver o senso crítico em relação às condições históricas em que essa literatura foi produzida. E, ao propor uma nova forma de entender a modernidade, o
autor estimula seu leitor a explorar novos ângulos de visão e participar de forma ativa na busca de novos saberes.
Algumas teorias modernas sobre nação e nacionalismo contribuem para o entendimento da forma como o nacionalismo foi vivenciado na Espanha e fundamentam a crítica de Goytisolo. Se em sua etimologia a palavra nacionalidade está relacionada ao nascimento em um determinado lugar, Goytisolo propõe que se questione o fato de que pessoas nascidas em um mesmo país não tenham assegurados os mesmos direitos de cidadania. Por outro lado pesa o fato de que, na sociedade espanhola, o mito tenha sempre desempenhado um papel muito determinante no comportamento coletivo. Nesse sentido, Goytisolo cita o mito de Covadonga, local onde teria ocorrido uma batalha decisiva entre árabes e cristãos. Para o autor, trata-se de um mito nacionalista católico, de origem grega que, adotado pela cultura espanhola, foi usado por caudilhos e políticos em distintas épocas. Sua opinião sobre a origem desse mito é respaldada por García Pérez, que explica:
La etimología 'oficiosa' –generalmente aceptada– de Covadonga se basa en un error de lectura. Onga es el nombre fenicio de la diosa-madre, fundadora de la civilización griega y, por consiguiente, occidental. Este nombre es conocido como poco desde mediados del siglo VIII AC (La Tebaida). Está registrado desde el año 467 a. d.n.e. (Los siete contra Tebas). Y procede, al parecer, de la Edad de Bronce (fundación de Tebas, 1585; &c.). Una tradición discontinua, y mal conocida, pero efectiva, ha permitido que llegase hasta nosotros por distintos caminos (toponimia, onomástica personal, literatura clásica). En la España medieval existen por lo menos entre tres y cinco lugares de origen prerromano llamados Covadonga o Celladonga. El habla de los naturales, los primeros documentos conocidos, los autores medievales y modernos más solventes, y el análisis lógico e histórico del fenómeno indican que, en nuestro caso, la lectura más correcta es Cova-d'-Onga, que interpreto como Cueva dedicada a la diosa Onga. Onga, La Antigua, La ‘Señora', 'Nuestra Señora',
Isis, Astarté, Tanit, Pallas, Athenea, Minerva, Afrodita... Venus... Santa María (GARCÍA PÉREZ, 1992, p.129 -161).
O tema do nacionalismo é por si mesmo bastante polêmico, e nem sempre há consenso entre os teóricos. Entretanto, algumas teorias desenvolvidas por Benedict Anderson (1989) e Eric Hobsbawm (2002) colaboram no entendimento desse assunto em Goytisolo. Anderson parte do princípio de nação como: “[...] uma comunidade política imaginada – e imaginada como implicitamente limitada e soberana” (ANDERSON, 1989, p.14), ou seja, um conceito construído socialmente com base em valores culturais, étnicos, religiosos e territoriais. Hobsbawm vê nas tradições uma invenção das elites para legitimar a existência e assegurar importância à suas nações, o que parece adequar-se à cultura espanhola pelo seu forte componente de culto à tradição, alimentada pelos mitos.
Nessa mesma direção se desenvolve o pensamento de Stuart Hall que comenta o discurso da cultura nacional:
Ele (o discurso) constroi identidades que são colocadas, de modo ambíguo, entre o passado e o futuro. [...]. As culturas nacionais são tentadas, algumas vezes, a se voltar para o passado, a recuar defensivamente para aquele ‘tempo perdido’, quando a nação era ‘grande’; são tentadas a restaurar as identidades passadas. [...]. Mas freqüentemente esse mesmo retorno ao passado oculta uma luta para mobilizar ‘as pessoas’ para que purifiquem suas fileiras, para que expulsem os ‘outros’ que ameaçam sua identidade e para que se preparem para uma nova marcha para frente (HALL, 2003, p.56).
Segundo Benedict Anderson (1989), essas comunidades coexistem em função de uma convivência que se estabelece muito mais em termos de construção cultural que política ou coercitiva. Na sociedade espanhola, dividida em castas segundo o credo religioso, o conceito de nação assume um caráter controverso e pouco consistente, , pois tanto os judeus quanto os árabes, que compartilharam o mesmo
território por vários séculos, não eram considerados como integrantes da mesma nação; não participavam do mesmo projeto comum que, segundo Anderson, caracteriza-se como comunidade. Como afirma Américo Castro, “[e]l problema de los problemas en aquel tiempo (siglos XVI y XVII) era justamente de quienes tenían derecho a existir de veras como españoles, lo cual es distinto de si hubo una o más de una España” (CASTRO, 1961, p.12).
Tanto a teoria de Anderson quanto a observação de Américo Castro sobre a polêmica da nacionalidade espanhola coincidem com o pensamento do jurista José Luiz Quadros de Magalhães. Em seu artigo “Identidades e identificações na crise da modernidade: o antagonismo social, econômico e religioso como gerador do não reconhecimento do Estado democrático e social de Direito” (2008), o autor afirma que, para a instauração de uma nacionalidade, alguns valores comuns devem ser assumidos, pacificamente ou por imposição, por um grupo de pessoas. Em sua análise do caso da formação da nacionalidade espanhola, o autor aponta os valores iniciais que prevaleceram para que se constituísse essa nacionalidade:
Um inimigo comum (na Espanha do século XV os mouros, o império estrangeiro), uma luta comum, um projeto comum, e naquele momento, o fator fundamental unificador: uma religião comum. Assim a Espanha nasce com a expulsão dos muçulmanos e posteriormente judeus. É criada na época uma polícia da nacionalidade: a Santa Inquisição. Ser espanhol era ser católico e quem não se comportasse como um bom católico era excluído (MAGALHÃES, 2008).
Para Goytisolo, no contexto cultural espanhol, uma tentativa de definição do termo nação, levaria ao questionamento de um mito. O mito Espanha, enganoso, porém verossímil. Nessa realidade tão singular quanto emblemática, o autor sugere que: “[...] ¿en lugar de hablar de España, no sería mejor hablar de las Españas? El
camuflado bajo la ambigüedad genérica de una etiqueta común. [...]” (GOYTISOLO, 2002, p.18 -19). E no debate que o tema enseja Goytisolo adverte:
Todos conocemos las consecuencias de los nacionalismos excluyentes y racistas que [...] conducen al infame campo de concentración de Sarajevo y a los pogromos, linchamientos e incendio de viviendas de gitanos, turcos, árabes y otros inmigrados ‘inasimilables’ en el propuesto espacio común, limpio y homogéneo (GOYTISOLO, 2002).
Na realidade histórica da Espanha, Goytisolo associa o nacionalismo à crença em mitos e em santos do cristianismo. O autor vê nas atrocidades cometidas na sociedade espanhola uma forma deturpada de nacionalismo:
[...] Compostela pasa a ser el punto de convergencia de la cristiandad militante en oposición a La Meca, y la popular romería del Camino de Santiago.[...] La Providencia concederá en adelante la victoria al jinete en «níveo e impetuoso» caballo no sólo sobre los moros de la Península, sino también, en un extraordinario vuelo transoceánico, sobre los aztecas, inclinando el fiel de la balanza, en plena batalla, en favor de Hernán Cortés y los suyos (GOYTISOLO, 1996).
É oportuno destacar que a força do mito de Santiago na história da sociedade espanhola foi tão decisiva que Américo Castro assim comenta:
La historia de España sería impensable sin el culto dado a Santiago Apóstol y sin las peregrinaciones a Santiago de Compostela[...]. La fe en la presencia del Apóstol sostuvo espiritualmente a quienes luchaban contra los musulmanes; su culto determinó la erección de maravillosos edificios en Santiago [...] y tuvo consecuencias literarias dentro y fuera de España [...] (CASTRO, 1948, p.107).
Goytisolo destaca o uso desses mitos espanhois e, nesse ponto, sua crítica estende-se aos contextos atuais. O autor comenta os conflitos étnicos, religiosos, o uso da força em muitos países, a inação dos organismos internacionais e, ainda, a omissão da mídia. Destaca, também, no próprio conceito de nacionalismo, outro aspecto mítico que precisa ser discutido: a superioridade ocidental, a pureza de
sangue, a essência genética de uma etnia. Em sua escrita, estes são temas cuja única importância reside, de acordo com seu pensamento, no fato de que devem ser questionados e desconstruídos.
A respeito do nacionalismo, Goytisolo declarou em 21 de março de 2006 à Confederación Nacional del Trabajo em Málaga: “Soy contrario a todos los nacionalismos [...]. Cuando leo la prensa me quedo aterrado. Azaña, que supuso un hilo conductor del pensamiento federal de Pi y Margall, no ha sido superado por estos nacionalismos aterciopelados”. A História tem testemunhado as piores atrocidades cometidas pelo homem que acreditou, ou fez com que se acreditasse nessas falácias. Nesse sentido e direção caminha a crítica de Goytisolo.