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Assim como Maingueneau (1993), acreditamos que seja importante não negligenciar os verbos destinados a introduzir o discurso relatado, pois em função do verbo escolhido toda a citação será afetada. O autor cita Charolles ao enumerar os verbos dicendi, ressaltando os verbos que incidem sobre o valor de verdade do enunciado citado, sobre o ponto de vista atribuído ao enunciador com relação ao que diz e sobre a posição cronológica obtida pelo uso de determinados verbos (CHAROLLES, M. , apud: MAINGUENEAU, 1993, p.88). Ou seja, verbos que se comportam como avaliativos ou descritivos.

O verbo é classificado por Cunha (2001, p.379) como “uma palavra invariável que exprime o que se passa, isto é, um acontecimento no tempo”. Para Bechara (2006, p.194) entende-se por verbo “a unidade que significa ação ou processo e organizada para expressar o modo, o tempo, a pessoa e o número”. Dardano e Trifone (1999, p.305) definem o verbo como “il centro sintattico della frase, attorno al quale si organizzano i diversi elementi che la compongono” e citam a obra Discorso e dialogo intorno alla nostra lingua de Niccolò Machiavelli , no qual o verbo é definido como “catena e nervo della lingua” . Benveniste (2005, p.166) prefere defini-lo como um “elemento indispensável à constituição de um enunciado assertivo finito”.

A partir destas definições, cabe destacar que o verbo, assim como o pronome, é a única classe de palavras submetida à categoria de pessoa, pois segundo Benveniste (2005) em todas as línguas que possuem um verbo, as

formas de conjugação são classificadas de acordo com a referência de pessoa. O verbo, então, apresenta três relações que o institui, provido de um índice pessoal : “há três pessoas e não há senão três” (BENVENISTE, 2005, p.248). Assim, afirma que não há conhecimento sobre uma língua composta por verbos em que as distinções de pessoa não sejam marcadas de um ou de outro modo nas formas verbais.

Para compreender melhor a distinção entre tais pessoas, julgamos ser pertinente a definição empregada pelos gramáticos gregos, segundo Benveniste (2005, p.250). Estes classificam a primeira pessoa como “aquele que fala” e a segunda pessoa como “aquele a quem nos dirigimos”. Já a terceira pessoa é definida como “aquele que está ausente”. Estas definições salientam a disparidade entre a terceira pessoa e as duas primeiras e destacam a sua heterogeneidade.

Ocorre que entre as duas primeiras pessoas, há ao mesmo tempo uma pessoa implicada e um discurso que atua sobre essa pessoa. Assim, a segunda pessoa, o tu, é designado pelo eu, pensado dentro de uma situação proposta a partir deste eu que enuncia algo como um predicado de tu. Com a terceira pessoa, o predicado é enunciado fora dessa dicotomia “eu/tu”. Há , portanto, uma terceira pessoa que contém uma indicação de enunciado sobre algo ou alguém, mas que não é referida a uma “pessoa” específica, por isso é denominada pelos gramáticos árabes como ausente.

A terceira pessoa, então, revela a forma verbal que tem por fim exprimir a “não-pessoa”. Destarte Benveniste (2005) explica:

“Muito geralmente, a pessoa só é própria às oposições “eu” e “tu”. A terceira pessoa é, em virtude da sua própria estrutura, a forma não pessoal da flexão verbal. De fato, serve sempre quando a pessoa não é designada e principalmente na expressão dita impessoal. (...) Uma característica das pessoas “eu” e “tu” é a sua unicidade específica: o “eu” que enuncia, o “tu” ao qual “eu” se dirige são cada vez únicos. “Ele”, porém, pode ser uma infinidade de sujeitos – ou nenhum.” (BENVENISTE, 2005, p.252-253)

Cabe destacar que eu e tu permitem inversões, posto que na relação em que eu se remete a um tu, este pode converter-se em eu e o eu transformar-se em um tu. Porém, nenhuma relação paralela é possível entre uma dessas duas pessoas e o ele devido ao fato de que não implicando nenhuma pessoa, pode tomar qualquer sujeito ou não comportar nenhum, e tal sujeito, manifestado ou não, não pode ser proposto como pessoa.

Sobre a oposição “pessoa-eu” (eu) e a “pessoa não-eu” (tu) torna-se oportuno acrescentar que o par denominado eu/tu configura-se dentro de uma correlação chamada por Benveniste (2005) de correlação de subjetividade. E que o diferencial entre eu e tu dá-se, em primeiro lugar, ao fato desse eu ser interior ao enunciado e exterior ao tu, porém trata-se de uma exterioridade que não suprime a existência do diálogo. Assim, o tu pode ser definido como a pessoa não subjetiva, em contraposição à pessoa subjetiva que o eu representa. Tais “pessoas”, não subjetiva e subjetiva, opõem-se à forma de “não-pessoa”, isto é, ao ele.

Enfim, buscamos através destas exposições ressaltar em que consiste a oposição entre as duas primeiras pessoas do verbo e a terceira. Benveniste

(2005) classifica esta como uma oposição entre partes de uma correlação que chama de correlação de personalidade em que eu e tu possuem marca de pessoa, mas o ele é privado desta marca. Por isso, a terceira pessoa possui a característica e a função constante de representar, sob a ótica da própria forma, uma variação não pessoal.

Assim, citamos a teoria de Benveniste com o intuito de ressaltar a relação da terceira pessoa num discurso, haja vista os verbos dicendi que são apresentados no discours rapporté sempre na terceira pessoa.

Sobre os verbos dicendi, pode-se afirmar que, segundo o postulado por Maingueneau (1993), existem duas classes de informação que são veiculadas por esses dicendi. Há aqueles verbos que apresentam um valor descritivo e os que revelam-se como avaliativos. Nesse caso, é excetuado o verbo dizer por representar certa neutralidade em relação as duas classes citadas.

No primeiro grupo, encaixam-se os verbos que inscrevem o discurso reportado em uma cronologia discursiva. São eles: acrescentar, prosseguir, continuar, completar, finalizar, concluir, etc.

Alocam-se, também, neste grupo os verbos que ressaltam o tipo de discurso do interlocutor, como os verbos perguntar, responder, descrever, enumerar, contar, relatar, etc.

Ainda sob a ótica dos verbos descritivos, cabe mencionar os verbos que funcionam, em determinado discurso, como metalinguístico, servindo-se, desta maneira, para dar destaque ao modo de realização fônica do enunciado, como é o caso dos verbos sussurrar, gritar, murmurar, etc.

Porém, cumpre ressaltar que tais verbos descritivos citados acima podem ser utilizados para reforçar a ironia em um texto, ou mesmo, a indignação de alguém sobre determinado acontecimento, sendo então classificados como avaliativos e não como descritivos, de acordo com a proposta exposta por Maingueneau.

Já o segundo grupo, avaliativo, que constitui nosso objeto de estudo na presente pesquisa, abrange os verbos que implicam o julgamento bom/ mal; verdadeiro/ falso ao enunciador do discurso citado como, também, ao próprio discurso em si.

Há, assim, os verbos que valorizam de forma positiva o enunciado e, mesmo, a imagem do enunciador, cujo discurso foi citado. Nesse caso, a posição social do entrevistado é, por vezes, enaltecida. Comportam-se neste grupo os verbos explicar, analisar, ensinar, pontificar, diagnosticar, afirmar, advertir, etc.

Existem, por outro lado, aqueles verbos que ressaltam o menosprezo ou a falta de credibilidade para com o discurso citado. São eles jurar, tentar justificar, eximir-se, desconversar, fugir, etc.

Encontram-se, também, dentre os verbos avaliativos os que tendem a direcionar o discurso à polemização, posto que são utilizados, frequentemente, em contextos políticos e visam a ressaltar embates. Assim, são habitualmente encontrados os verbos atacar, denunciar, discordar, ironizar, etc.

Torna-se válido ressaltar que há, ainda, os verbos que buscam o engajamento do co-enunciador e a sua sensibilização frente ao discurso citado. É o caso dos verbos indignar-se, queixar-se, lamentar e desabafar, etc.

Julgamos imprescindível destacar que é sempre o narrador quem traduz os propósitos do locutor. Isto equivale a dizer que é ele quem atribui ao enunciador do discurso citado uma intenção.

Por isso acreditamos que seja pertinente a análise dos corpora que compõem a nossa pesquisa a fim de verificar a ausência/ presença de neutralidade, com o intuito de contribuir para o aprofundamento sobre o tema da subjetividade na enunciação e estimular posteriores pesquisas.