Independentemente da questão dos retratos, um aspecto interessante nos romances de Jules Verne, relativo à utilização e naturalização de documentos e discursos na mimese, é o que diz respeito à citação de viajantes e dos discursos científicos que circulavam na sua época. No entanto, antes de entrarmos efetivamente na questão dos diálogos que podemos estabelecer na leitura dos retratos literários em Jules Verne, abordaremos o intertexto num sentido mais amplo, relacionando-o com os romances de Verne, no geral.
Sem pretendermos realizar um resumo do que hoje é a teoria da intertextualidade, antes de tratarmos dos conceitos de intertexto e interdiscurso, parece-nos importante apresentar alguns traços gerais do que entendemos pelo conceito da citação e avaliar até que ponto podemos falar dele na obra verniana. Para uma breve panorâmica da citação, convocamos algumas elucidações que Gérard Genette nos sugere, tendo no horizonte o corpus romanesco que nos interessa.
Segundo Genette80, os textos podem ser lidos, do ponto de vista dos vários contatos que eles estabelecem com outros textos, segundo cinco grandes tipos de relações transtextuais – designação que ele dá ao fenômeno no seu conjunto: 1) a intertextualidade que é, em última análise, a presença efetiva de um texto em outro, se subdivide em três ramificações; a sua forma mais explícita e mais literal é a prática tradicional da citação, com ou sem aspas e tendo ou não referência precisa; a forma menos precisa e menos canônica dessa modalidade que, de um ponto de vista valorativo, quase sempre depreciativo, é o plágio, ou seja, um uso literal, mas não declarado; e a forma menos literal e a mais difusa é a alusão – enunciado cuja plena compreensão só pode ser atingida quando se entende a sua relação com outro enunciado; 2) o segundo tipo é constituído pela relação normalmente menos explícita e mais distante que o texto mantém com seu paratexto, ou seja, os sinais acessórios que o relacionam com os co-textos e contextos – desde o pacto de leitura à referência a gêneros: títulos,
subtítulos, prefácios, notas marginais, epígrafes, ilustrações, títulos de capítulos, comentários de estudiosos ou ainda textos preparatórios do próprio autor; 3) o terceiro tipo é o da
metatextualidade, designação que usa para o caso do “comentário”, processo de
relacionamento textual que une um texto a outro, do qual fala, sem ter necessariamente que citá-lo ou nomeá-lo; 4) o quarto tipo de transtextualidade considerada é a de
hipertextualidade, que une um texto B, designado pelo crítico francês hipertexto, a um texto
A que ele chama de hipotexto. Hipertexto, em outras palavras, é todo texto derivado de um texto anterior seja através de uma transformação simples ou de uma transformação indireta, a imitação. Não sendo essa relação claramente de comentário, o hipertexto distingue-se do metatexto pelo fato de o texto B ser uma transformação do texto A81; 5) o último tipo a considerar nesta perspectiva é a arquitextualidade, ou seja, a relação do texto com as categorias gerais ou transcendentes que formam modelos dentro dos quais os textos singulares se inserem.
Genette menciona ainda que, para a abordagem dos cinco tipos de transtextualidade, duas precisões devem ser feitas. A primeira é que não se deve considerá-los como classes estanques, sem diálogo entre si. Por exemplo, a arquitextualidade genérica se constitui historicamente pela imitação e, portanto hipertextualidade; o pertencimento arquitextual de uma obra é declarado por indícios paratextuais ou ainda, quando o hipertexto tem valor de comentário (metatexto). A segunda observação feita por Genette é que a transtextualidade deve ser considerada, não como classe de textos, mas como aspectos da textualidade. Essas observações serão produtivas na abordagem do corpus proposto já que, por vezes, estaremos diante de exemplos que se coadunam com mais de uma categoria transtextual ou, ao contrário, uma categoria transtextual que não dá conta da integralidade do exemplo.
81
Genette parece reservar os conceitos de hipotexto e hipertexto apenas às relações entre obras. Assim considera
Ulisses, de Joyce e a Eneida, de Virgílio hipertextos da Odisséia de Homero (GENETTE, 1982, p.13). As Confissões, de Rousseau, como hipertexto das Confissões de Santo Agostinho (GENETTE, 1982, p. 18). Para a
produtividade desta pesquisa, usamos os dois conceitos não se referindo a obras como um todo, mas em relação a passagens, excertos, em que reconhecemos uma transtextualidade que une um texto A a um texto B. Assim, mostraremos que Jules Verne se apropria de textos de partida efetuando transformações em vários níveis.
Numa perspectiva discursiva, Dominique Maingueneau e Patrick Charaudeau exploram, a partir de outros autores como Kristeva e Genette, a distinção existente entre intertexto e interdiscurso82. Primando pelo interdiscurso sobre o discurso, Maingueneau afirma que todo discurso é atravessado pela interdiscursividade e que tem a propriedade de estar em relação multiforme com outros discursos; este está para o discurso como o intertexto está para o texto. Restritivamente, Maingueneau trata do interdiscurso como um espaço discursivo, um conjunto de discursos (de um mesmo campo discursivo ou de campos distintos) que mantêm relações de delimitação recíproca uns em relação aos outros. Num sentido mais amplo, chama de interdiscurso o conjunto das unidades discursivas (que pertencem a discursos anteriores do mesmo gênero, de discursos contemporâneos de outros gêneros) com os quais um discurso particular entra em relação implícita ou explícita. Citando Jean-Michel Adam, Dominique Maingueneau fala de intertexto para os ecos livres de um (ou de vários) texto(s), independentemente de gênero, e de interdiscurso para o conjunto dos gêneros que interagem em uma dada conjuntura. Por sua vez, Charaudeau vê no interdiscurso um jogo de reenvios entre discursos que tiveram um suporte textual, mas de cuja configuração não se tem memória. Para ele a noção de intertexto seria um jogo de retomada de textos configurados e ligeiramente transformados. Maingueneau adiciona a essas ideias a diferença entre intertexto e intertextualidade: o primeiro sendo um conjunto de fragmentos evocados (citações, alusões e paráfrases), como já vimos; já a intertextualidade deve ser compreendida como o sistema de regras implícitas que subtendem esse intertexto; o modo de citação que é julgado legítimo na formação discursiva; o tipo ou o gênero de discurso. Assim, Maingueneau exemplifica que a intertextualidade do discurso científico não é a mesma que aquela do discurso teológico. O linguista ainda distingue dois tipos de intertextualidade: a interna, entre
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Cf. CHARAUDEAU, Patrick & MAINGUENEAU, Dominique. Dictionnaire d’analyse du discours. Paris: Seuil, 2002, p. 324-329.
um discurso e aqueles do mesmo campo discursivo e a intertextualidade externa, com os discursos de campos discursivos diferentes.83
Às definições de Genette no que tange às relações transtextuais e suas nuanças e aquela de intertextualidade apresentada por Maingueneau e Charaudeau, acrescentamos a noção de interdiscurso, que também é produtiva nesta dissertação, para mostrar que na construção dos retratos dos seus personagens, Jules Verne dialoga com discursos da sua época. Para arquitetar seus romances e, como veremos, os retratos de seus personagens, notamos que a preocupação de Verne, diante da realidade de que tinha que dar conta e dos objetivos pedagógicos impostos pelo contrato editorial, aproxima-se muito da do historiador que tem de recorrer, muitas vezes, à fontes documentais escritas. Quando trazemos a noção genetiana de citação, temos a intenção de mostrar que, no caso de Verne, não é apenas uma atitude de honestidade intelectual: é uma necessidade de obter um mínimo de efeito de credibilidade perante os leitores. A esse respeito, referimo-nos a Ginzburg que, num texto publicado em 1989 e intitulado “Ekphrasis e citação”, constata que não é novidade a aproximação entre as narrativas fictícia e histórica, porque o importante é indagar de que modo se encaram como reais fatos contidos num texto histórico. Este efeito é, normalmente, produzido por elementos que podem ser tanto extratextuais quanto textuais, podendo estes últimos apresentar alguns dispositivos, sugeridos por convenções literárias, com os quais os historiadores clássicos e os historiadores modernos procuraram produzir o effet de vérité, encarado como elemento inerente ao seu trabalho.84
No romance Cinq semaines en ballon temos nitidamente um desses casos de intertextualidade. Logo no primeiro capítulo, quando o personagem Samuel Fergusson aceita viajar a bordo do balão Victoria com o objetivo de explorar o norte africano em busca das fontes do Rio Nilo, brindes são feitos ao futuro viajante que terá seu nome inscrito ao lado dos outros célebres viajantes africanos:
83
Cf. CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2002, p. 324-329.
Des toasts nombreux furent portés avec les vins de France aux célèbres voyageurs qui s’étaient illustrés sur la terre d’Afrique. On but à leur santé et à leur mémoire, et par ordre alphabétique, ce qui est très anglais: à Abbadie, Adams, Adamson, Anderson, Arnaud, Baikie, Baldwin, Barth, Batouda, Beke, Beltrame, du Berba, Bimbachi, Bolognesi, Bolwic, Bolzoni, Bonnemain, Brisson, Burton, Caillaud, Caillié, Campbell, Chapman, Clapperton, Clot-Bey, Colomieu, Couval, Cumming, Cuny [...] Saugnier, Speke, Stneider, Thibaud, Thompson, Thornton, Toole, Vaudey, Veyssière, Vincent, Vinco, Vogel, Wahlberg, Warington, Washington, Werne, Wild et enfin au Docteur Fergusson qui, par son incroyable tentative, devait relier les travaux de ces voyageurs et compléter la série des découvertes africaines.85
Paralelamente à necessidade de hiperbolizar os feitos dos viajantes como modelos heróicos que tematizam a viagem cartográfica, geográfica e testemunhal, enquanto feito épico, narrativo por excelência, a alusão a esses viajantes e seus trabalhos, na modalidade em que é feita, assegura uma referencialidade, validando seu discurso ao referir-se às regiões exóticas, à topografia, à cartografia e, o que nos interessa mais particularmente, à etnografia.
Nesta passagem, a alusão ocorre como menção a nomes próprios. A rigor, o que quase sempre aparece como alusão é o nome do viajante, autor de relatos de sua própria viagem. Estes nomes aparecem como elementos textuais, fazendo-se acompanhar por designações de regiões, de topônimos. Por trás dos nomes dos viajantes inferem-se seus relatos de viagem.
Em Les enfants du capitaine Grant, a justificativa para a alusão aos nomes de viajantes e a seus feitos ocorre quando os personagens estão adentrando o Estreito de Magalhães e o geógrafo Paganel resume as descobertas de Cristóvão Colombo:
- Je veux vous croire, mon cher Paganel, répondit Glenarvan; cependant vous me permettrez d’être surpris, et de vous demander quels sont les navigateurs qui ont reconnu la vérité sur les découvertes de Colomb? - Ses successeurs, Ojeda, qui l’avait déjà accompagné dans ses voyages, ainsi que Vincent Pinzon, Vespuce, Mendoza, Bastidas, Cabral, Solis, Balboa. Ces navigateurs longèrent les côtes orientales de l’Amérique; ils les délimitèrent en descendant vers le sud, emportés, eux aussi, trois cent soixante ans avant nous, par ce courant qui nous entraîne! Voyez, mes amis, nous avons coupé l’équateur à l’endroit même où Pinzon le passa dans la dernière année du quinzième siècle, et nous approchons de ce huitième degré de latitude australe sous lequel il accosta les terres du Brésil. Un an après, le Portugais Cabral descendit jusqu’au Port Seguro. Puis Vespuce, en 1502, alla plus loin encore dans le sud. En 1508, Vincent Pinzon et Solis s’associèrent pour la connaissance des rivages américains, et en 1514, Solis découvrit l’embouchure du Rio de la Plata, où il fut devoré par les
indigènes, laissant à Magellan la gloire de contourner le continent. Ce grand navigateur, en 1519, partit avec cinq bâtiments, suivit les côtes de la Patagonie, découvrit le port désiré, le port San-Julian, où il fit de longues relâches, trouva cinquante-deux degrés de latitude ce détroit de Onze- Milles-Vierges qui devait porter son nom, et, le 28 novembre 1520, il déboucha dans l’Océan Pacifique. Ah! Quelle joie il dut éprouver, et quelle émotion fit battre son coeur, lorsqu’il vit une mer nouvelle étinceller à l’horizont sous les rayons du soleil!
- J’aurais voulu être là, s’écria Robert Grant.
- Moi aussi, mon garçon, et je n’aurai pas manqué une occasion pareille, si le ciel m’eût fait naître trois cents ans plus tôt!
- Ce qui eût été fâcheux pour nous, monsieur Paganel, répondit lady Helena, car vous ne seriez plus sur la dunette du Duncan à nous raconter cette histoire.
- Un autre vous l’eût dite à ma place, madame, et il aurait ajouté que la reconnaissance de la côte occidentale est due aux frères Pizarres. Ces hardis aventuriers furent de grands fondateurs de villes. Cusco, Quito, Lima, Santiago, Villarica, Valparaiso et Conception, où le Duncan nous mène, sont leur ouvrage.86
De fato, os narradores ou heróis-observadores vernianos são descritores que, documentalmente, se guiam pelas indicações dos viajantes. Ora, os autores citados transformam-se assim nas autoridades mais importantes no nível do efeito de real da narrativa – são autores da travessia, do percurso, atores de feitos que servem de guia, de orientação, como precursores do percurso que os heróis vernianos farão; através de seus nomes, surgem as evocações das próprias coisas que viram, tomaram nota, descreveram e tiveram publicadas em boletins de sociedades de geografia ou em revistas especializadas em relatos de viajantes, como por exemplo as revistas L’Univers pittoresque e Le Tour du monde que, segundo o inventário feito por Magda Kiszely e publicado no boletim da Sociedade Jules Verne no segundo trimestre de 1996, figuravam na biblioteca pessoal do autor.87 Isto constitui um forte argumento para estabelecermos relações intertextuais e interdiscursivas entre a literatura de Verne e o discurso cientifico e o histórico, o que será abordado adiante.
Ainda que no escopo do nosso trabalho não possamos confirmar todos como autênticos viajantes registrados pela história da “expansão científica”, cremos nas palavras de Carlos J. F. Jorge que afirma que, na primeira lista apresentada em Cinq semaines en ballon,
86 VERNE, Jules. Les enfants du capitaine Grant. Paris: Michel de l’Ormeraie, 1975b, p. 53. 87
Cf. KISZELY, Magda. “La bibliothèque de Jules Verne”. Bulletin Société Jules Verne, nº 118, 2e trimestre, 1996, p. 45.
contando com um número excessivo de nomes, uma dezena, pelo menos, são célebres viajantes que muito contribuíram para a penetração colonial no continente africano, desde finais do século XVIII até meados do século XIX.88 A menção aos nomes dos viajantes e a exaltação dos seus feitos não devem ser lidas somente como fazendo parte do objetivo, por parte do escritor, de traçar o trajeto que será percorrido pelos seus personagens, mas também como um dado da adesão de Jules Verne às expansões colonialistas. A colonização é considerada como um fenômeno positivo para o escritor e o argumento do desenvolvimento científico deixa ainda mais convincente essa ideia: cultivar, fazer um território render frutos e civilizar são palavras-chave na obra verniana. A importância referencial desses nomes, em Jules Verne, é enfatizada pelo fato de serem aludidos no primeiro romance que escreve – e logo no primeiro capítulo. No segundo capítulo, a viabilidade do projeto de Samuel Fergusson é discutida pelos jornais, fazendo-se uma resenha das explorações africanas, das quais se destacam as de Livingstone, de Burton e de Speke. A propósito, uma lista de jornais e revistas geográficas, cuja autenticidade histórica pode se verificar facilmente, é apresentada no mesmo capítulo. No capítulo IV, antes da viagem, o narrador afirma que Fergusson, para dar peso e valor ao seu projeto, traça a rota viável da travessia que fará, numa sinopse, evocando a rota de viajantes conhecidos:
La ligne aérienne que le docteur Fergusson comptait suivre n’avait pas été choisie au hasard; son point de départ fut sérieusement étudié, et ce ne fut pas sans raison qu’il résolut s’élever de l’île de Zanzibar. Cette île, située près de la côte orientale d’Afrique, se trouve par 6º de latitude australe, c’est-à-dire à quatre cent trente milles géographiques au-dessous de l’équateur.
De cette île venait de partir la dernière expédition envoyée par les Grands Lacs à la découverte des sources du Nil.
Mais il est bon d’indiquer quelles explorations le docteur Fergusson espérait rattacher entre elles. Il y en a deux principales: celles du docteur Barth en 1849, celle des lieutenants Burton et Speke en 1858.89
Somando-se à discussão das relações intertextuais, cabe-nos mencionar um extenso trabalho de pesquisa que Verne fez em colaboração com Gabriel Marcel, geógrafo e
88 Cf. JORGE, Carlos J.F. Jules Verne: o espaço africano nas aventuras de travessia. Lisboa: Cosmos, 2000, p.
82.
representante da Biblioteca Nacional da França. Esse trabalho fora encomendado pela editora de Hetzel e intitulou-se Histoire des grands voyages et des grands voyageurs, publicado em dois volumes em 1878 e 1880, respectivamente. O primeiro trata das viagens de navegadores feitas no século XVIII e o segundo, de navegadores do século XIX. O mapa abaixo, publicado no primeiro volume, mostra, em intenção didática, as regiões do planeta pouco conhecidas ou desconhecidas à época, como indica a legenda. É curioso notar que serão estes espaços mais percorridos e explorados nos romances vernianos que, em conjunto, receberam do editor o nome de Voyages extraordinaires aux mondes connus et inconnus – informação paratextual que figura na capa das edições originais e nas edições usadas nesta dissertação.
“Mondes connus et inconnus à la fin do XVIIIe siècle”
VERNE, Histoire des Grands voyages et des grands voyageurs, 1997a, p. 628-629.
Com as Histoire des grands voyages et des grands voyageurs, Verne, dizendo ter o objetivo “de resumir a história da descoberta da Terra”90 apresenta os percursos de viajantes de modo muito semelhante ao que utiliza em seus romances: sem fazer referências bibliográficas, com intromissões paratextuais através de mapas, de explicações em notas, de referências a artigos de jornais relativos a outras viagens, com comentário metatextual avaliando os percursos, os erros e atos de heroísmo dos viajantes. Essa forma de construção
90 “L’Histoire des grands voyages et des grands voyageurs devait avoir pour but de résumer l’histoire de la
découverte de la Terre.” VERNE, Jules. Histoire des Grands voyages et des grands voyageurs. Paris: Diderot Éditeur, Arts et Sciences, 1997a, p. 3.
faz desses relatos de viagem modelos do gênero em que as viagens extraordinárias se inscrevem. Em suma, a citação evoca a viagem precursora como ato modelo. A título de exemplo em Cinq semaines en ballon, veja-se como o relato de Speke é reduzido apenas à fonte de informação, sem referência textual: “Ce lac a été nommé Nyanza Victoria par le capitaine Speke. En cet endroit, il pouvait mesurer quatre-vingt dix milles de largeur; à son extrémité méridionale le capitaine trouva un groupe d’îles qu’il nomma archipel de Bengale.”91 Neste exemplo, o lugar visitado pelo viajante precursor emerge através das nomeações (do pantônimo - “Le lac Nyanza Victoria” - como designa Philippe Hamon e veremos mais adiante) e o potencial hipotexto é notado pelos nomes citados, pela referência aos fenômenos ou elementos geográficos observados. Nesse processo, Verne se apropria do hipotexto, condensando as ideias principais do texto de origem, sem citá-lo.
Caso semelhante acontece no romance Les enfants du capitaine Grant quando os personagens aportam nas Ilhas Madeira e avistam ao longe o pico de Tenerife. Desejando escalá-lo, Paganel exclama e evoca os nomes de Humboldt e Bonplan:
Oh! Le gravir! le gravir, mon cher capitaine, à quoi bon, je vous prie, après MM. de Humboldt et Bonplan? Un grand génie, ce Humboldt! Il a fait l’ascension de cette montagne; il en a donné une description qui ne laisse rien à désirer; il en a reconnu les cinq zones: la zone des vins, la zone des lauriers, la zone des pins, la zone des bruyères alpines, et enfin la zone de la stérilité. C’est au sommet du piton même qu’il a posé le pied, et là, il n’avait même pas la place de s’asseoir. Du haut de la montagne, sa vue embrassait un espace égal au quart de l’Espagne. Puis il a visité le volcan