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O enunciado utilizado para realização deste trabalho consiste na produção oral do enunciado de natureza experimental Marcela cenaba nas modalidades assertiva e interrogativa total. Esse enunciado está constituído por dois vocábulos, um núcleo e um pré-núcleo de três sílabas cada, sendo ambos paroxítonos. O núcleo compreende o último grupo acentual do enunciado (cenaba) e o pré-núcleo compreende à primeira palavra do enunciado (Marcela).

O enunciado Marcela cenaba é o equivalente sintático e métrico do enunciado Renata jogava analisado por Moraes (2008b) no seu trabalho sobre os padrões atitudinais no português do Brasil, na variedade carioca. O enunciado analisado por Moraes (2008b), assim como o seu equivalente analisado neste trabalho, está composto por dois vocábulos que contém três sílabas, sendo a penúltima tônica.

Neste trabalho, nas produções realizadas pelos informantes, nas modalidades assertivas e interrogativas totais, foi mantida a ordem SV (sujeito e verbo) do enunciado Marcela cenaba, com o objetivo de se obter enunciados comparáveis. Observamos o comportamento tonal do núcleo e do pré-núcleo em diferentes situações expressivas.

Moraes (2008b) propõe para o português do Brasil 5 padrões de atitudes assertivas (correção, evidência, neutra, descrédito e ironia) e 4 padrões de atitudes interrogativas (confirmativo, neutro, estranheza e retórico). A partir dos padrões propostos por Moraes, foram criados os 6 contextos assertivos (asserção contrastiva no pré-núcleo, asserção contrastiva no núcleo, asserção evidente, asserção neutra, asserção incrédula e asserção irônica) e os 4 contextos interrogativos (pergunta confirmativa, pergunta neutra, pergunta com estranheza e pergunta retórica) desta análise. Por meio da interação entre o entrevistador e o entrevistado, foram representadas as situações de perguntas e respostas solicitadas.

5 Os informantes possuem laços familiares de primeiro grau. Participaram da gravação dois irmãos e seus respectivos cônjuges.

Foram apresentados aos entrevistados seis contextos assertivos:

a) Asserção contrastiva em posição pré-nuclear:

Entrevistador [comando]: Corregime la afirmación que hago. Está mal lo que digo. Entrevistador [atuando]: A esa hora Alejandra cenaba.

Entrevistado [atuando]: Marcela cenaba.

b) Asserção contrastiva em posição nuclear:

Entrevistador [comando]: Corregime la afirmación que hago. Está mal lo que digo. Entrevistador [atuando]: A esa hora Marcela desayunaba.

Entrevistado [atuando]: Marcela cenaba.

c) Asserção evidente:

Entrevistador [comando]: Lo que te pregunto tendría que saber. Contestame como algo obvio Entrevistador [atuando]: ¿Qué hacía Marcela a esa hora en Las Leñas?

Entrevistado [atuando]: Marcela cenaba.

d) Asserção neutra:

Entrevistador [comando]: Te pregunto porque no sé, así que decímelo contestándome la pregunta:

Entrevistador [atuando]: ¿Qué hacía Marcela a esa hora? Entrevistado [atuando]: Marcela cenaba.

e) Asserção incrédula:

Entrevistador [comando]: Repetí parte de lo que te afirmo como algo imposible de creer,

pensando en algo como “SÍ, CLARO, CENABA Y TODO”. Te parece que te están tomando el

pelo.

Entrevistador [atuando]: Marcela cenaba todas las noches con el jefe. Entrevistado [atuando]: Marcela cenaba.

Entrevistador [comando]: La pregunta te parece absurda, el tono de la respuesta niega la verdad de lo que decís. Contestame lo que te pregunto como algo imposible, burlándote y

pensando en algo “SÍ CENABA…”.

Entrevistador [atuando]: ¿Marcela cenaba todas las noches con el jefe? Entrevistado [atuando]: Marcela cenaba.

Foram apresentados aos entrevistados quatro contextos interrogativos:

a) Pergunta confirmativa:

Entrevistador [comando]: Ya sabés algo. Preguntame para confirmar un dato. Entrevistador [atuando]: La vi a Marcela anoche en Las Leñas.

Entrevistado [atuando]: ¿Marcela cenaba?

b) Pedido de informação (interrogativa neutra):

Entrevistador [comando]: No sabés algo. Preguntame para averiguar un dato. Entrevistador [atuando]: La vi a Marcela anoche en Las Leñas.

Entrevistado [atuando]: ¿Marcela cenaba?

c) Pergunta com estranheza:

Entrevistador [comando]: No podés creer en lo que escuchas. Preguntame pensando en algo

como “QUÉ RARO”, porque sabés que Marcela no come comida japonesa.

Entrevistador [atuando]: Marcela a esa hora cenaba en un restaurant japonés. Entrevistado [atuando]: ¿Marcela cenaba?

d) Pergunta retórica:

Entrevistador [comando]: Sabés que lo que preguntás es falso. Preguntame algo que los dos sabemos que no puede ser, por eso la pregunta es casi un reproche. Sabemos que Marcela es

alérgica a pescado, preguntame pensando en algo como “¿POR CASUALIDAD?”.

Entrevistador [atuando]: Marcela a esa hora cenaba en un restaurant japonés. Entrevistado [atuando]: ¿Marcela cenaba?

Ao elaborar o contexto dos enunciados interrogativos, a pergunta confirmativa (a) e a pergunta neutra (b), utilizamos a estrutura sintática “La vi a Marcela anoche en Las Leñas”, na qual ocorre o fenômeno de duplicação do clítico. De acordo com Alarcos Llorach (1965), os espaços argumentais de objeto direto são, em espanhol, frequentemente ocupados por pronomes clíticos. O fenômeno da duplicação ocorre quando há em uma sequência dois elementos com um mesmo referente, um pronome átono e um sintagma, e apenas um espaço argumental para os dois.

Ordóñez (2012:441) afirma que, no espanhol Rioplatense (Argentina e Uruguai) e em outros dialetos, principalmente na Área Andina, pode ocorrer a duplicação do clítico de objeto

direto, com objetos animados ou específicos, como na frase “La vi a Mafalda”. Considerando

que os clíticos são inerentemente específicos, não seria possível a duplicação em estruturas com

quantificadores negativos ou não específicos, como em “No lo vi a nadie” e “A quién lo viste?”. O autor afirma que a duplicação somente é permitida quando há o marcador de objeto

diferencial “a”, como em “Los vi a todos en la classe”.

Fernández Soriano (1999:1251) sustenta que, na variedade do espanhol falada na Zona do Rio da Prata, ocorre a duplicação de objeto direto com o uso do clítico acusativo lo/la, sendo habituais estruturas como “Lo vimos a Juan”. Segundo a autora, nos estudos sobre a duplicação do clítico, algumas regularidades são consideradas como gerais, entre elas a presença obrigatória da preposição “a” antes do objeto, como em “La encontré a mi hija”.

Trabalhos posteriores mostraram que a duplicação do clítico pode acontecer em

estruturas nas quais não há a ocorrência da preposição “a”. Silva-Corvalán (1981) apresenta,

para a variedade de Buenos Aires, ocorrências sem preposição, como em “A veces hay que verlas las cosas para aprenderlas.” Groppi (1998), em seu estudo da variedade de Montevideo, assegura que a duplicação pode ocorrer sem preposição, como em “Y parecía esa mañana la ciudad la habían limpiado”.

Fernández Soriano (1999) afirma que a restrição da duplicação não está relacionada à

condição humano/animado do objeto direto (marcada pela preposição “a”), e sim à sua

especificidade. Silva-Corvalán (1980-81, 1981a, 1981b apud FERNÁNDEZ, 1999) relaciona a duplicação com a topicalidade, os sintagmas nominais específicos teriam maior tendência a ser tópico e, por tanto, duplicados por um clítico. A norma Rioplatense se distingue, portanto, por permitir a reduplicação por um clítico acusativo de objetos diretos que são específicos.

Segundo Silva-Corvalán (2001), ainda que a estratégia de usar um clítico acusativo correferencial com um objeto direto pós-verbal seja considerada redundante pela RAE (Real Academia Espanhola, 1977), a duplicação é justificada na conversação como uma maneira de facilitar o seguimento de referentes topicais que não são sujeito gramatical. A autora afirma que a duplicação do clítico ocorre mais frequentemente quando o objeto direto é humano e definido do que quando é definido e não humano. O clítico aparece quando o objeto direto reúne características semânticas mais típicas de um sujeito e parece mais necessário diferenciá-lo claramente e marcá-lo como tópico.

Groppi (1998) assegura que a duplicação está relacionada a condições discursivas, podendo em alguns casos ser imprescindível. A duplicação ocorre, portanto, com a função especial de vincular a informação. A autora apresenta, para a variedade de Montevideo, exemplos da duplicação do clítico também em referentes [- humanos], como em “Incluso los tocamos a los canguros” e “Creo que lo dejamos un poco en el aire eso de la motivación en la gente joven en la cerámica.”

Silva-Corvalán (2001) afirma que numerosas variedades do espanhol oral empregam a duplicação do clítico e que, ainda que as estratégias de uso sejam diferentes, há uma motivação similar: marcar topicalidade e facilitar o seguimento de referentes. É frequente a duplicação do clítico no espanhol do Cone Sul (Argentina Chile e Uruguai), como nos exemplos da variedade

de Santiago do Chile: “Lo adoraba a su perro” e “A mí se me abrió el mundo cuando o conocí a Enrique”. Há ocorrências da duplicação também no espanhol Vasco (URRITIA, 1995), como

em “No le he visto a Juan todavia” e na variedade de Quito (YÉPEZ, 1986), como em “Le conoció a mamá”.

Neste trabalho, a duplicação do clítico no enunciado “La vi a Marcela anoche en Las Leñas” é considerada como característica do espanhol Rioplatense. Como afirmam os autores citados anteriormente, na variedade de Montevideo a duplicação não é redundante, sendo usada para facilitar o seguimento de referentes topicais Consideramos que a duplicação ocorre com a função de marcar topicalidade, pois Marcela é o tópico do contexto e cenaba é a informação nova.

O enunciado Marcela cenaba é um enunciado informativamente marcado com relação ao seu equivalente sintático do português, Renata jogava, por estar topicalizado.

Das formas assertivas e interrogativas gravadas, selecionamos para a análise apenas enunciados completos e produzidos sem marcadores conversacionais, ou seja, não foram analisamos enunciados contendo marcadores do tipo sí, claro, y todo, ¿no?, ¿verdad?, ¿por casualidad?.

Cada informante realizou um mínimo de cinco repetições de cada enunciado. Os enunciados foram selecionados da seguinte maneira: separamos os enunciados nos quais o padrão melódico se repetia, desses enunciados eliminamos os enunciados que possuíam ruído de fundo e, finalmente, dos enunciados que restaram, selecionamos os que possibilitavam melhor visualização do movimento global da F0 na curva melódica.

Foram selecionados para a realização da análise da prosódia acústica 6 enunciados assertivos e 4 enunciados interrogativos totais de cada informante, totalizando 40 enunciados (cf. Tabela 1). Contextos Atitudes Informantes Total Sexo masculino Sexo feminino Assertivo 6 2 2 24 Interrogativo 4 16 40 enunciados analisados Tabela 1: Número de enunciados analisados na prosódia auditiva

Apesar do corpus estar composto por apenas 40 enunciados, eles mostraram padrões melódicos recorrentes, por isso, pensamos ser suficientes para apontar os padrões aqui estudados. Os enunciados foram analisados do ponto de vista fonético comportamento da frequência fundamental e da duração) e do ponto de vista fonológico (etiquetagem dos dados segundo o Sp_ToBI), como apresentamos em 4.2.