“Ignorar a natureza do enunciado e as particularidades de gênero que assinalam a variedade do discurso em qualquer área do estudo linguístico leva ao formalismo e a abstração, desvirtua a historicidade do estudo, enfraquece o vínculo entre a língua e a vida.”
(BAKHTIN, 1979/1997, p.283)
Foi com o objetivo de investir na compreensão do gênero discursivo com o qual nosso corpus se identifica que resolvi recorrer aos trabalhos de Bakhtin (1979/1997). Para desenvolver seu conceito de gênero discursivo, o autor parte da premissa de que os enunciados, entendidos como manifestações do uso da língua, são marcados pela especificidade das diferentes esferas de comunicação da atividade humana, isto é, os modos de utilização da língua variam de acordo com as próprias ramificações que constituem cada sociedade. Nessa perspectiva, qualquer comunicação verbal reflete as condições específicas dessas diferentes esferas, o que nos permite entender que os enunciados se dão obrigatoriamente por gêneros do discurso. Como apresenta o autor:
“Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso.” (BAKHTIN, 1979/1997, p. 281)
Com efeito, Bakhtin evidencia que o estudo da natureza e diversidade dos enunciados tem relevância fundamental para a compreensão das unidades da língua. Ao acreditar que as palavras e orações isoladas carecem de expressividade, o autor considera o enunciado como unidade da comunicação verbal.
As pessoas não trocam orações, assim como não trocam palavras (numa acepção rigorosamente linguística), ou combinações de palavras, trocam enunciados constituídos com a ajuda de unidades da língua – palavras, combinações de palavras, orações; mesmo assim, nada impede que o enunciado seja constituído de uma única oração, ou de uma única palavra, por assim dizer, de uma única unidade de fala. (op. cit., p. 299)
O enunciado, por sua vez, é marcado pela alternância dos sujeitos falantes, que determina a fronteira entre os enunciados e satisfaz a unidade real da língua. Parte-se do princípio que ambos os locutores assumem significação nas trocas comunicacionais no momento em que o coenunciador passa a assumir uma postura determinante na interação verbal.
O enunciador não é mais visto como origem de uma dada comunicação verbal. Essa noção se funda na crença da réplica do diálogo desenvolvida por Bakhtin. Toda tomada de palavra visa a resposta do outro, uma compreensão responsiva ativa, que determina o querer- dizer do locutor, caracterizando uma dada esfera comunicacional. E esse enunciado também se relaciona com outros diálogos anteriores que estão ligados às formas típicas de estruturação de um gênero discursivo específico.
Segundo Bakhtin, o que determina a forma do gênero em que o enunciado será estruturado é a fusão de três conceitos: o conteúdo temático que varia conforme as esferas da comunicação e os locutores nelas inseridas, o estilo verbal determinado não só pela adequação ao objeto do discurso, mas também pelo modo como o locutor percebe seu destinatário e a construção composicional das unidades que definem cada tipo de enunciado. Interessante destacar que Bakhtin destaca esses conceitos a fim de elucidar a importância essencial do outro no processo da comunicação verbal.
É ancorado no ponto de vista da associação temática, composicional e estilística que Bakhtin se apoia na estabilidade relativa dos enunciados como sendo a condição de realização de qualquer comunicação verbal. Ainda que na prática os locutores ignorem totalmente essa fundamentação teórica, Bakhtin nos faz refletir que todo enunciado se realiza com base na escolha de um gênero discursivo.
Para falar, utilizamo-nos sempre dos gêneros do discurso, em outras palavras, todos os nossos enunciados dispõem de uma forma padrão e relativamente estável de estruturação de um todo. (BAKHTIN, 1979/1997, p. 302)
Vale retomar aqui a considerável importância dada ao papel do destinatário na troca comunicacional desenvolvida por Bakhtin (1979/1997) no momento em que o autor elabora sua descrição dos tipos relativamente estáveis de enunciados. No caso desta tese, o público leitor deve ser entendido como um dos principais responsáveis pela delimitação do gênero discursivo, uma vez que o texto jornalístico deve suscitar sua apreciação e, por essa razão, o
jornalista postula, como preferiu chamar Bakhtin, uma compreensão responsiva ativa capaz de garantir a adesão de sua produção textual.
Como foi apresentado nos parágrafos precedentes, Bakhtin acredita que entender a noção de gênero é o mesmo que compreender a própria noção de língua. Para a realização de toda tomada de palavra faz-se necessária a utilização de um gênero discursivo, visto que todos os enunciados dispõem de uma forma padrão e relativamente estável de estruturação de um modo. Assim sendo, antes de se preocupar em classificar os diferentes gêneros discursivos, Bakhtin acentua a relevância da diversidade que envolve cada gênero ao acreditar que eles evoluem e modificam à medida que as esferas da atividade humana se ampliam e se redefinem. Dito de outra forma, o gênero é um certo modo de agrupar ideias e recursos expressivos que contribuem para a estruturação e organização da comunicação. Ainda que os gêneros garantam uma certa estabilização, eles estão em contínua mutação, devido a sua característica historicamente variável. Quanto à amplitude da quantidade dos gêneros, Bakhtin afirma:
A riqueza e variedade dos gêneros do discurso são infinitas, pois a variedade virtual da atividade humana é inesgotável, e cada esfera dessa atividade comporta um repertório de gêneros que vai diferenciando-se e ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa. (BAKHTIN, 1979/1997, p. 280)
Diante da problemática relativa à heterogeneidade dos gêneros discursivos, o autor propõe uma caracterização tipológica para esses gêneros, a saber, o gênero primário e o gênero secundário. Enquanto os gêneros primários são aqueles que emanam das situações de comunicação verbal espontâneas como, por exemplo, as conversas cotidianas, as cartas informais, etc, o gênero secundário é mais complexo e relativamente mais evoluído, configurando o discurso científico, político, ideológico, etc.
Na ótica de Bakhtin o gênero textual é a materialidade enunciativa caracterizada especialmente pela sua função, formando uma listagem muito mais abrangente do que aquela tradicionalmente apresentada pelas gramáticas como modos de organização textual - narração, argumentação, descrição, injunção e exposição. Privilegia-se nos estudos dos gêneros o princípio de classificação que leva em conta o funcionamento dos discursos e a integração de forças institucionais, históricas e sociais. Isto não significa que o aspecto formal de sua realização será excluído, mas apenas será percebido diferentemente, uma vez que para os estudos discursivos a sistematicidade linguística constitui a condição material de base sobre as quais o discurso se desenvolve.
Ao criticar os estudos tradicionais das tipologias formais por não explorar a articulação da função e finalidade históricas dos discursos vigentes nas diferentes esferas da atividade humana com os consagrados tipos textuais, Bakhtin (1979/1997) insiste que antes de essas formas prototipicamente definidas serem usadas, elas devem ser compreendidas como manifestações de enunciados que refletem os propósitos sócio-históricos de sua realização comunicacional. Nesta mesma direção, acreditamos que a caracterização dos tipos textuais tal como descreve a tradição não acompanha a lógica da inscrição social dos enunciados, constituindo apenas uma forma de entrada para qualquer análise, mas nunca seu foco principal.
Partindo do princípio que nesta tese fazemos a análise de um corpus que se encaixa nas coerções do gênero discursivo notícias jornalísticas, desenvolveremos, no próximo item, um estudo voltado para o funcionamento desta configuração discursiva. Para tanto, apoiar- me-ei nos estudos de Charaudeau no que concerne ao discurso das mídias.
4.2 CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DO TEXTO JORNALÍSTICO COM ENFOQUE