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Georgia under the Soviet Union

1.2 Historical Background

1.2.2 Georgia under the Soviet Union

Tendo a França tomado a Argélia como parte integrante de seu território desde 1830, ainda que a obtenção efetiva só se dê no século XX, a sociedade argelina sofre mudanças radicais e passa a vivenciar uma instabilidade nunca experimentada. Como em todo sistema colonial, busca-se garantir e assegurar a autoridade e os interesses da potência dominante. No caso Argelino, leis francesas foram criadas para propiciar a desagregação e a aculturação das estruturas fundamentais da economia e da sociedade nativa. Das diversas transformações resultantes do contato entre duas civilizações socialmente e economicamente distintas, aquela que mais afeta a sociedade argelina é a imposição de um novo estilo de vida atrelado a um sistema de valores desconhecido até então.

A política agrária implantada pelos franceses, por exemplo, é algo marcante para o país, uma vez que a nova prática desrespeita os princípios assiduamente respeitados pelas tradições argelinas. A mudança se dá na medida em que terras indivisas passam a ser instituídas como bens individuais. O conceito de “terra” como propriedade privada não fazia parte do imaginário argelino. A relação de um camponês com o seu superior, por exemplo, era encarada como um pacto de proteção e de prestígio, não havendo demarcação do espaço de colheita, uma vez que todos se beneficiavam daquela produção.

Tal ruptura facilita aos franceses, por meio de licitações, a obtenção das melhores partes, rompe com as unidades sociais e econômicas tradicionais e, além disso, faz surgir um proletariado rural de mão de obra barata. A crise aumenta e o modo de vida se inova. Assim, a relação com a terra se modifica, a significação ritual que se estabelecia anteriormente perde seu valor, o que passa a ser expandido é a visão “materialista” da terra, na qual os antigos valores de prestígio e de honra são efetivamente substituídos pelo valor monetário, impessoal

e abstrato. Ao anular seus princípios, a sociedade rompe radicalmente com suas crenças de sociedades comunitárias, pois agora ela passa a ser submetida a uma economia individualista, na qual o salário é o que garante ao indivíduo sua independência econômica.

Com o surgimento da economia moderna e de novas práticas capitalistas, os argelinos conhecem a utilização racional da moeda, o crédito, as poupanças, os juros, etc. A mudança é realmente brusca afetando não somente a economia do país como também anulando tradições culturais pré-existentes. O dote, por exemplo, passa a ser interpretado diferentemente, deixando de ser um laço de honra que se fazia entre as famílias para ser visto como uma simples relação capitalista. Tudo isso faz surgir uma mudança radical que atinge a mentalidade do país como um todo.

Os colonos se instalam nos grandes centros e transformam a paisagem das principais cidades. Embora bastante rudimentar, toda a estrutura arquitetônica que representava a cidade natal passa a ser destruída e reconstruída, eliminando definitivamente traços que caracterizam as origens da civilização argelina.

Aos poucos o colonizador cria um ambiente que reflete sua imagem e que é a negação do universo antigo, um universo no qual ele se sente em casa, lugar este que, por uma inversão natural, o colonizado passa a se configurar como estrangeiro. (BOURDIEU, 1958/2001, p. 115)

Após tomarmos consciência da importância e representatividade das tradições passadas para a vida de cada cidadão argelino, percebemos o quanto tal urbanização pode ter repercussões negativas. Além deste aspecto, em razão do novo contexto e consequente aglomeração dos europeus nas cidades, um grande êxodo rural toma conta dos centros econômicos. A migração desmedida e precária dos camponeses para os centros urbanos destrói a unidade familiar e cria uma grande miséria periférica, visto que, na maioria dos casos, a vinda do proletariado era feita sem qualquer segurança e garantia.

Outro aspecto que deve ser mencionado é o crescimento demográfico decorrente deste sistema colonial apontado por Bourdieu. Devido ao desequilíbrio econômico e social, a taxa de natalidade é altíssima e, por outro lado, a taxa de mortalidade é baixa, uma vez que a ação sanitária implantada pelos colonos é bastante eficaz, reduzindo sobretudo a mortalidade infantil. Com isso, nota-se que a população cresce rapidamente e o desequilíbrio econômico também se agrava. Segundo dados recolhidos por Bourdieu (op. cit, p.113), os europeus, “minoria majoritária”, produzem 55% da renda bruta total do país em 1954, enquanto que os argelinos ficam com apenas 45%.

Ora, vale ressaltar também que toda tradição cultural dos “Árabes argelinos” passa a não ser reconhecida neste período. Era preciso remodelar a tradição, logo uma série de negações e rejeições se cria para que o colonizado jamais seja considerado positivamente, ou seja, uma espécie de racismo surge a fim de garantir a supremacia francesa. E, graças a esta ideologia racista, a sociedade europeia transforma privilégios em direitos. A sustentação destes ideais era feita através da escola, do rádio, do cinema e do jornal, meios de divulgação controlados pela elite francesa. Como nos diz Albert Memmi (1985/2007a), trata-se de um preconceito favorável, uma vez que os valores que reinam neste momento beneficiam apenas os colonizadores.

“O país é ritmado por suas festas tradicionais, até mesmo religiosas, e não pelas do habitante; o dia do descanso semanal é o do seu país de origem, é a bandeira de sua nação que paira sobre os monumentos, é sua língua materna que permite as comunicações sociais; até mesmo suas roupas, seu acento, suas maneiras acabam se impondo à imitação do colonizado.” (op. cit., p. 46).

Entretanto, na medida em que os europeus se distanciam dos árabes, os mesmos se contradizem, visto que a ideologia liberalista em que a França vive vai de encontro às práticas dos mesmos em solos argelinos. Com isso, a imagem de uma França ideal, portadora de novos e modernos ideais liberalistas, passa a ser questionada pelas diversas classes da sociedade argelina.

A implantação e legitimação da língua francesa no período colonial são, por exemplo, pontos importantes e, ao mesmo tempo, contraditórios. Se, por um lado, os argelinos passam a falar francês, pois as disciplinas escolares são lecionadas neste idioma, por outro, isso implica numa descoberta revolucionária. O acesso aos romances e às literaturas de língua francesa estimula a descoberta de todos os novos ideais franceses atrelados ao conceito de identidade nacional e, consequentemente, determinam um profundo desapreço às práticas francesas implantadas na colônia, fazendo surgir nesse momento o resgate e valorização da cultura local e os crescentes movimentos reivindicatórios de libertação nacional.

Os aspectos de suas tradições e de sua personalidade foram abalados com o sistema colonial. É neste ponto que o colonialismo encontra sua própria contradição, pois a própria colonização cria o patriotismo no colonizado. O republicanismo francês fez surgir uma consciência de personalidade nacional. A memória coletiva de um país rico em dogmas e tradições é aguçada e reivindicada em detrimento da doutrina desenvolvida pela própria metrópole. O que era um ideal francês não se praticava em terras argelinas, logo um sentimento de revolta se constrói dando início a uma série de rebeliões. Os argelinos, através

de diversos projetos, fazem reivindicações coerentes e criam revolucionários protestos que culminam na Guerra de Independência.