como inscrito no domínio do metadiscurso. Sob a ótica enunciativa, a noção de metadiscursividade é denominada por Authier-Revuz como metaenunciação reflexiva e diz respeito às marcas que surgem no fio do discurso durante a interlocução decorrente de ações reflexivas dos sujeitos sobre a linguagem e sobre a própria interação em curso. Isto é, ao mesmo tempo em que o sujeito é capaz de usar a língua, ele reflete acerca do próprio uso que faz da linguagem. Essas formas metaenunciativas existem devido a dois fenômenos linguístico-cognitivos interligados: o da enunciação e o da metalinguagem.
É nessa capacidade de não limitar a linguagem à representação do mundo, mas em produzir “significância sobre significância”, em fazer proliferar a linguagem sobre si mesma em “estágios” de linguagem desconhecidos das comunicações animais, que reside o “poder maior” da linguagem humana, e o específico da relação humana – marcada por uma distância interna – com a linguagem, em que se opera uma parte crucial da subjetividade. (AUTHIER- REVUZ, 2004, p.43)
Conforme esclarece a autora, uma das propriedades essenciais da linguagem humana é a sua reflexividade natural, ou seja, a capacidade de o sujeito fazer “voltas reflexivas” enquanto a sua fala está sendo produzida. Isso ocorre porque em diversos momentos o dizer apresenta-se como não óbvio para o próprio enunciador devido ao fato de ele perceber que as palavras faltam. Para ilustrar esse retorno sobre o dizer, Authier-Revuz (2008, p.35) nos apresenta alguns enunciados em que o enunciador hesita sobre algumas palavras.
(1) É um serviço de ordem bem forte que eles têm, se vocês percebem o que quero dizer com isto.
(2) Ele carregava muito desses, como é mesmo que vocês dizem, /mosquetões presos em toda a cintura.
34 Estes quatro níveis de heterogeneidade são apontados por Authier-Revuz (2004) sob as seguintes
denominações: (1) L’hétérogène au principe de constitution du champ dans la métadiscursivité; (2) Um champ
hétérogène au plan des formes; (3) Langage et discours: un écart à maintenir ; (4) hétérogénéités représentée et constitutive : articulation et frontières.
A autora compreende estas posições metaenunciativas como desdobramentos opacificantes, visto que o sujeito deixa perceber a incompletude da língua a partir destas atitudes metaenunciativas.35 Sendo a RDO entendida por Authier-Revuz como um dos casos desta reflexividade enunciativa, o que nos interessa aqui é situar a RDO como uma vertente do metadiscurso que a difere da ARD. A fronteira entre a ARD e RDO encontra-se na oposição dos parâmetros enunciativos que constituem essas duas seções. A ARD é a representação que o enunciador faz, através do seu dizer, da sua própria enunciação, enquanto que a RDO é a representação que o enunciador projeta sobre a enunciação do outro, uma vez que o objeto apresentado como dizer é um outro dizer.
No que tange às reflexibilidades linguageiras de maior relevância para os estudos de RDO, Authier-Revuz destaca a “produção da paráfrase” e a “mostração de palavras36” como sendo duas formas operacionais capazes de produzir efeitos distintos. Estas operações intervêm na natureza da imagem do discurso outro produzido à medida que a primeira recai sobre uma reformulação, isto é, uma reprodução por equivalências em termos de “significado” conforme o contexto de sua utilização e a segunda realiza-se pela remissão ao discurso outro através do recurso da menção autonímica, ou seja, recuperação das próprias palavras que constituem a mensagem outra.
Na concepção enunciativa de Authier-Revuz (2004), a paráfrase é percebida como um fato de discurso que recorre ao conjunto dos mecanismos de produção e de recepção das sequências discursivas. Assim sendo, devemos considerar que a reformulação compactua obrigatoriamente com o interdiscurso, com os elementos pré-construídos dispostos na memória e formação social do enunciador e, no caso específico da “produção da paráfrase” da RDO, faz-se necessário levar em conta a relação entre dois espaços enunciativos distintos, o que implica em uma gama de pontos de perspectiva.
Ao recorrer à proposta de Benveniste (1966/2005), na qual a enunciação é entendida como este colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização, Authier- Revuz explica que todo enunciado representado se define na confluência dos elementos que constituem dois atos enunciativos. Esta interface com a teoria da enunciação é responsável pela forma como Authier-Revuz concebe a singularidade que caracteriza todo ato enunciativo.
35 Authier-Revuz(1998a) classifica as diferentes reflexões do enunciador sobre sua própria enunciação,
nomeando-as “não coincidências do dizer”. As categorias são subdividas em (1) não coincidência interlocutiva; (2) não coincidência do discurso consigo mesmo; (3) não coincidência entre as palavras e as coisas e (4) não coincidência entre as palavras consigo mesmas.
36 Interessante ressaltar que a expressão “mostração de palavras” é uma proposta nossa de tradução para o
No que diz respeito ao estudo da RDO, a autora destacar a essencial relevância da interpretação dos parâmetros que constituem as duas facetas do discurso representado.
O sistema tipográfico utilizado por Authier-Revuz visando distinguir de forma esquemática os elementos envolvidos em toda RDO é estabelecido pela oposição de abreviações de letras maiúsculas e minúsculas. Em relação ao ato de enunciação em curso sob a forma de RDO, temos A (ato de enunciação), E (enunciado), L (locutor-enunciador), R (receptor), T (tempo), Loc (lugar) e C (contexto). Os parâmetros que correspondem ao ato de enunciação outro de representação de um referente real, imaginado, passado, futuro, etc são apresentados como a (ato de enunciação), e (enunciado), l (locutor-enunciador), r (receptor), t (tempo), loc (lugar) e c (contexto).37
Considerando que o estudo da RDO se apoia na concepção de que todo ato enunciativo envolve uma instância singular de produção de sentido, Authier-Revuz afirma ser necessário levar em conta todos os parâmetros que envolvem o contexto singular da enunciação para compreendermos os efeitos de sentido produzidos pelos enunciados caracterizados como constituindo uma RDO. À luz desta reflexão, a autora propõe a articulação destes dois planos enunciativos - representante e representado – de modo a considerar as dimensões interdiscursivas que determinam cada um de seus contextos.
Quanto à “mostração de palavras” da RDO, é válido destacar que embora uma sequência de língua possa ser repetida de forma idêntica, sua singularidade escapa a qualquer possibilidade de reconstituição exata de sentido, uma vez que a própria seleção do fragmento escolhido e sua consequente recontextualização interferem no sentido da mensagem representada. É nesse sentido que Authier-Revuz (2011) prefere partir do “sentido em contexto” para desenvolver os estudos da RDO. Para a autora, o sentido dos enunciados é especificamente atrelado ao seu contexto e, desse modo, tanto o fenômeno metalinguístico da paráfrase quanto o da mostração das palavras da RDO, não escapam ao domínio da interpretação. Nas palavras da referida pesquisadora:
É preciso destacar que o sentido de um enunciado é função de seu contexto e que, consequentemente, por mais mecânica que seja a reprodução em e, é ainda e sempre L que puxa os cordões do sentido do e que ele relata, já que é ele que lhe constrói um contexto na representação... – inevitavelmente parcial e subjetiva – que ele propõe de a. (Authier-Revuz, 2001, p.198)
37 Sobre esta base de distinção dos dois atos de enunciação – assinalados por Maiúsculas e minúsculas – faremos