1.2 Historical Background
1.2.1 Georgia under the Russian Empire
Pretende-se, neste estudo, descrever e sistematizar de que maneira os elementos que compõem o sistema da prosódia visual atuam e interagem com a prosódia auditiva. Para esse fim, utilizamos o software ELAN (Eudico Linguistic Annotator), desenvolvido na Holanda pelo Instituto de Psicolinguística Max Planck. Esse software permite a criação, edição, visualização e busca de anotações através de dados de vídeo e áudio.
O uso da ferramenta ELAN permite que seja feito um número ilimitado de anotações em um arquivo de áudio e vídeo. O programa permite a anotação alinhada ao tempo em que o gesto transcorre. O programa possibilita a análise da interação dos elementos que configuram os gestos e, ao mesmo tempo, a associação entre esses movimentos e as modulações melódicas que configuram um padrão entonacional.
Para descrever, ainda que de forma preliminar, os gestos faciais que se associam às marcas prosódicas na manifestação das atitudes proposicionais, utilizamos o sistema FACS (Facial Affect Coding System). O FACS, criado por Ekman, Friesen e Hagen (2002), é um sistema de descrição dos movimentos faciais, que possibilita rotular manualmente praticamente qualquer expressão facial, desconstruindo-as em unidades de ação (action units). A unidade de ação (U.A.) corresponde ao movimento de contração ou relaxamento de músculos individuais ou de grupos de músculos.
Com o sistema FACS, Ekman et al. (2002) descrevem os movimentos da face, da cabeça e dos ombros a partir de um inventário de mais de 80 unidades de ação e códigos suplementares. Para a descrição dos movimentos faciais das atitudes proposicionais estudadas neste trabalho, utilizamos 7 unidades de ação (action unit-AU), 5 códigos de movimento (movement-M) e 1 código de comportamento bruto (gross behavior code) descritos pelo sistema FACS.
Na parte superior da face, observamos o comportamento das sobrancelhas: levantamento da parte interna e levantamento da parte externa; e o comportamento das pálpebras: levantadas e apertadas. Na parte inferior da face, observamos o comportamento dos lábios: canto do lábio levantado ou lábio esticado; e da mandíbula: caimento. Consideramos também o movimento da cabeça: inclinação para a direita ou esquerda, movimento para baixo, movimento horizontal e projeção; e o movimento dos ombros: encolhimento (cf. Quadro 3).
No FACS, os gestos, realizados na parte superior e inferior da face, aparecem acompanhados do prefixo AU (action unit), pois representam unidades de ação. Os gestos realizados com a cabeça aparecem acompanhados do prefixo M (movement), pois representam a descrição de um movimento.
UNIDADES DE AÇÃO CÓDIGOS
COMPLEMENTARES
PARTE SUPERIOR DA FACE
PARTE INFERIOR
DA FACE CABEÇA OMBROS
Levantamento da parte interna da sobrancelha (a) Levantamento do canto do lábio (e) Inclinação para a direita (h) Encolhimento (m) Inclinação para a esquerda (i) Levantamento da parte externa da sobrancelha (b) Estiramento do lábio (f) Movimento para baixo (j) Levantamento da pálpebra superior (c) Movimento horizontal (k) Caimento da mandíbula (g) Pálpebras apertadas (d) Projeção para frente (l)
Quadro 3: Unidades de Ação e Códigos Complementares do FACS (EKMAN et al., 2002)
Apresentaremos a seguir a descrição feita pelo manual FACS para as unidades de ação e códigos complementares considerados neste trabalho, bem como as imagens das fotos e dos vídeos que são apresentados pelos autores como exemplo da realização desses movimentos.
a) Levantamento da parte interna da sobrancelha (inner brown raiser-AU1): nesse movimento um grande músculo do couro cabeludo e da testa levanta as sobrancelhas. A parte média da sobrancelha e o centro da testa são puxados para cima (cf. Fig. 19).
Figura 19: AU1- FACS (EKMAN et al., 2002, p.20)
Esse movimento produz, em muitas pessoas, uma forma oblíqua nas sobrancelhas e faz com que a pele no centro da testa se enrugue horizontalmente. Estas rugas normalmente não atravessam toda a testa, limitando-se ao centro. As rugas podem não aparecer em bebês ou crianças. (EKMAN et al., 2002, p. 20, tradução nossa)
b) Levantamento da parte externa da sobrancelha (outer brown raiser-AU2): o músculo do couro cabeludo e da testa levanta as sobrancelhas. A porção externa da sobrancelha e da testa são puxadas para cima (cf. Fig. 20).
Figura 20: AU2- FACS (EKMAN et al., 2002, p.22)
Esse movimento produz, em muitas pessoas, uma forma arqueada nas sobrancelhas e faz com que a pele da testa se enrugue horizontalmente. Estas rugas normalmente atravessam toda a testa. Algumas vezes, ao levantar-se o canto externo das sobrancelhas, o canto interno das sobrancelhas pode mover-se um pouco. (EKMAN et al., 2002, p. 22, tradução nossa)
c) Levantamento da pálpebra superior (upper lid raiser-AU5): a pálpebra realiza um movimento de contração maior do que é realizado normalmente, ficando mais para trás na cavidade ocular (cf. Fig. 21).
Figura 21: AU5- FACS (EKMAN et al., 2002, p.25)
Nesse movimento, a pálpebra superior fica mais escondida ou até mesmo desaparece. A abertura do olho aumenta e, em alguns casos, pode parecer que a pessoa está olhando fixamente em uma direção. (EKMAN et al., 2002, p. 25, tradução nossa)
d) Pálpebras apertadas (lidtightener-AU7): o músculo que circunda o olho é contraído e puxa ambas as pálpebras (cf. Fig. 22).
Figura 22: AU7- FACS (EKMAN et al., 2002, p.28)
O movimento da pálpebra inferior pode ser mais percebido do que o da pálpebra superior, porque a pálpebra inferior, ao se levantar, cobre o glóbulo ocular mais do que o normal. Há uma redução da abertura dos olhos e pode haver a formação de uma linha ou ruga na pálpebra inferior. (EKMAN et al., 2002, p. 28, tradução nossa)
e) Levantamento do canto do lábio (lipcornerpuller-AU12): o músculo localizado na parte inferior da face puxa o canto dos lábios em direção ao osso da bochecha (cf. Fig. 23).
Figura 23: AU12- FACS (EKMAN et al., 2002, p.179)
Nesse movimento, o canto dos lábios são puxados obliquamente, para trás e para cima. Há uma abertura estreita dos olhos, empurrando-se a bochecha e a pele embaixo das pálpebras inferiores. Produz-se “pés de galinhas” no canto dos olhos e as narinas podem parecer maiores e mais largas. (EKMAN et al., 2002, p. 179, tradução nossa)
f) Estiramento dos lábios (lip stretcher-AU20): o músculo próximo da parte de trás da mandíbula puxa os lábios lateralmente, em direção às orelhas (cf. Fig. 24).
Figura 24: AU20- FACS (EKMAN et al., 2002, p.146)
Nesse movimento, os lábios são puxados para trás, achatando-se e esticando-se, podendo aparecer rugas no canto dos lábios. Há o alongamento da boca. As narinas podem se estender lateralmente, ocasionando o aumento da abertura. (EKMAN et al., 2002, p. 146, tradução nossa)
g) Caimento da mandíbula (jawdrop-AU26): ocorre o relaxamento do músculo que age para fechar a mandíbula (cf. Fig. 25).
Figura 25: AU26- FACS (EKMAN et al., 2002, p.104)
Esse movimento reflete uma mudança na aparência a partir de uma posição neutra. A mudança é produzida por um relaxamento muscular e não um movimento de contração. Ocorre a separação dos dentes. (EKMAN et al., 2002, p. 104, tradução nossa)
h) Inclinação da cabeça para a direita (headtildright-M56): a cabeça é inclinada para o lado direito (cf. Fig. 26).
Figura 26: M56- FACS (EKMAN et al., 2002, p.337)
i) Inclinação da cabeça para a esquerda (headtildleft-M55): a cabeça é inclinada para o lado esquerdo (cf. Fig. 27)
Figura 27: M55- FACS (EKMAN et al., 2002, p.338)
j) Movimento da cabeça para baixo (headdown-M54): a cabeça é inclinada para baixo (cf. Fig. 28).
Figura 28: M54- FACS (EKMAN et al., 2002, p.335)
k) Movimento horizontal da cabeça (head shake side to side-M60): a cabeça se agita para um lado e para o outro, num eixo horizontal (cf. Fig. 29).
l) Projeção da cabeça para frente (head forward-M57): a cabeça é inclinada para a frente do corpo (cf. Fig. 30).
Figura 30: M57- FACS (EKMAN et al., 2002, p.339)
Nesse movimento, a cabeça se move acentuadamente para frente e um pouco para baixo e o pescoço se estende para a frente.
m) Encolhimento dos ombros (shoulder shrug- 83): os ombros se elevam, encolhendo o pescoço. Ekman et al.(2002) classificam esse código como “código de comportamento bruto” (gross behavior code) e afirmam que este movimento deve ser considerado quando é relevante para a ação facial que está sendo descrita. Ekman et al. (2002) não apresentam nenhuma imagem para este movimento.
Além de analisar os movimentos da face, da cabeça como um todo e dos ombros, seguindo o modelo de análise proposto pelo sistema FACS, observamos o comportamento das mãos, como feito por Cestero Mancera (1999) no seu estudo sobre os signos não verbais em espanhol. A autora, ao apresentar o inventário básico de signos não verbais em espanhol, ressalta a importância do movimento das mãos para expressar graus de certeza em espanhol.
Segundo Cestero Mancera (1999), na expressão da certeza (‘estoy totalmente seguro’
e ‘estoy seguro’) se levanta o braço direito a partir do repouso, flexionando-o lateralmente para a esquerda até a altura do peito. A mão se mantém aberta, na vertical, com a palma da mão para frente, ou na horizontal, com a palma da mão para baixo, e os dedos separados ou juntos, com exceção do polegar (cf. Fig.31).
Figura 31: Expressão de certeza. (CESTERO MANCERA, 1999, p. 122)
Na expressão da ‘quase’ certeza (‘estoy casi seguro’ e ‘estoy más o menos seguro’), se levanta o braço direito não flexionado, a partir do repouso, uns 90 graus. A mão se mantém aberta, na horizontal, com a palma da mão para baixo e os dedos separados ou juntos, com exceção do polegar. O pulso realiza um movimento giratório semicircular para cima e para baixo (cf. Fig. 32).
Figura 32: Expressão de ‘quase’ certeza. (CESTERO MANCERA, 1999, p. 123)
Cestero Mancera (1999) afirma que a dúvida ou desconhecimento pode ser acompanhados por gestos corporais de dois tipos.
a. Os braços são levantados a partir do repouso e flexionados para frente até a altura do peito. As mãos se mantêm abertas, na vertical, com as palmas das mãos para frente e os dedos separados ou juntos, com exceção do polegar (cf. Fig. 33).
b. Os braços são levantados a partir do repouso e flexionados para frente até a altura do peito. As mãos se mantêm abertas, na horizontal, ou ligeiramente para o lado, com as palmas das mãos para cima e os dedos separados ou juntos, com exceção do polegar (cf. Fig. 34).
Figura 34: Expressão de dúvida 2 (CESTERO MANCERA, 1999, p. 124)
Neste trabalho, não descrevemos o comportamento dos braços, dos dedos e das palmas das mãos, como feito por Cestero Mancera (1999). Observamos o comportamento das mãos, considerando somente um tipo de movimento: levantamento da(s) mão(s).
Em síntese, como base no manual FACS (EKMAN et al., 2002) e nos estudos feitos por Cestero Mancera (1999), consideraremos os movimentos do rosto, da cabeça, dos ombros e das mãos, num total de 14 tipos de gestos, para a descrição da prosódia visual de 10 atitudes proposicionais em espanhol, na variedade de Montevidéu.