Conforme Compagnon (1979/2007), em um período arcaico, a citação tal como a concebemos hoje não era aceita, uma vez que o modelo de discurso predominante era de caráter oral exclusivamente e, nesse sentido, com base no conceito da eficácia da fala inspirada, cada palavra era tida como única e não repetível. Todavia, o poeta Simonide foi o precursor dos retóricos e dos sofistas a descobrir e elaborar sua teoria da imagem, conhecida também por mimésis. Ao romper com a tradição, o modelo do discurso torna-se gráfico e visual e, pela primeira vez, acreditou-se na possibilidade da repetição interdiscursiva. Simonide é um marco na poética por romper com a tradição da palavra como inspiração de base essencialmente oral, conceito sustentado por Platão até então. Para esse último, toda repetição das palavras do outro era um discurso sem denotação, a arte de um simulacro. No entanto, seu posicionamento diante dessa nova concepção era reprovador, pois lutava contra a escrita e a memória na tentativa de revalorizar a fala em relação à escrita.
Enquanto Sófocles e Platão reprovavam a mimésis e a memória, Aristóteles preferia reconhecê-la como um recurso de virtudes positivas. Desde então, os retóricos passaram a preservar tal categoria discursiva e utilizá-la com empenho, pois a estratégia de argumentação do discurso passou a ganhar validade através das repetições que ele operava. Diante de condições sociais tais como a fraca difusão do texto, a predominância do oral sobre o escrito e a não existência da noção do direito do autor, o critério do controle da inclusão de uma
citação era mantido pela tradição, sendo justamente regulado pela causa lógica de sua conformidade com o texto.
Convém registrar ainda que havia, na divisão tradicional da retórica, duas espécies de citação: a repetição do pensamento, repetitio sententiarum, e a repetição das palavras, repetitio verborum. A diferença essencial entre ambas residia na questão da repetição das palavras efetivamente ditas e na sua reformulação. A citação do pensamento era aquela que fornecia o significado enquanto que a repetição das palavras fazia remissão ao significante. A primeira é considerada a citação valorizada em detrimento da segunda, pois é aquela que “fica próxima das coisas, toca o sentido e os sentidos, sobrevive à sua enunciação, pois é antes de tudo conceitual” (COMPAGNON, 1979/2007, p. 87). A repetição das palavras do outro, a vox, foi incessantemente desvalorizada e denegrida no pensamento antigo. Como nos diz Compagnon (op. cit., p. 88), “com a vox, o orador dá a voz, ele se doa, empresta seu corpo, seu órgão a uma ressonância.” Acreditava-se que o orador que se submetia a tal recurso perdia o controle de si mesmo e, por isso, era desqualificado.
De acordo com Compagnon, Platão condenava o DD, porque dar a palavra ao outro resultava em simulação. Isto posto, cumpre refletirmos que, ao contrário do que vemos no imaginário atual, o DD não tem sua gênese no paradigma da verdade, lugar de reprodução fiel do discurso do outro, mas sim no espaço de possibilidades de simulação de um dizer, visto que Platão condenava tal recurso ao encará-lo como uma ilusão que servia para enganar. Tem- se, nesse momento, o prestígio do DI em detrimento do DD, pois Compagnon em suas releituras de Platão constatou que o fenômeno que funcionava como boa cópia era aquele que nomeamos hoje DI.
A transição da escrita medieval à escrita clássica constitui-se em um deslocamento da noção de referência atribuída à citação, uma vez que o critério de causa lógica imanente ao texto exercido pela retórica passa a ter como eixo central o argumento do cogito cartesiano e, nessa nova perspectiva, o sujeito da enunciação deve estar obrigatoriamente situado frente à sua citação. Desse modo, a diferença crucial entre a regulação aristotélica e a regulação clássica no que concerne a repetição interdiscursiva reside no enfoque dado ao enunciado em um primeiro momento e a nova atuação que se estabelece entre o sujeito e sua enunciação.
Como nos apresenta Compagnon (op. cit.), apesar de alguns autores clássicos já exigirem a exatidão da citação, o advento da imprensa é, de fato, o responsável pela regulação do texto citado e pela formalização da pontuação na escrita. A necessidade de submeter a citação a um novo sistema de controle surge com o aumento da produção textual ao longo do
século XVII devido ao questionamento da noção de texto primeiro, que compreendia apenas a Bíblia. O reconhecimento dos escritos de autores pagãos fez surgir um forte movimento de retorno aos textos gregos e latinos da antiguidade e, assim sendo, houve uma transformação quantitativa no que se refere à produção textual no período clássico.
Dentre as diversas regras que moldavam o texto, a regulação inaugurada pela idade clássica que nos interessa aqui é a exigência do uso do sinal tipográfico da citação, as aspas, a fim de delimitar um discurso apresentado em estilo direto. O impressor Guillaume cria, no século XVII, um indicador que equivaleria a “Eu cito” para substituir a simples repetição do nome próprio do autor citado, operação existente anteriormente quando o objetivo era evidenciar que a palavra havia sido dada a um outro.
Essa transformação no universo textual fez surgir ao longo do século XVII uma nova noção de autor do texto. O autor da idade clássica é aquele que responde pelos seus atos e registros, visto que ele assume a responsabilidade daquilo que ele produz. A escrita, com base na noção de sujeito cartesiano, é a propriedade de um único sujeito e a ele se atribui as consequências daquilo que fabrica. Ao fazer uma leitura dessa concepção, Compagnon (1979/2007, p.111) nos diz que sua assinatura na capa de um livro “testemunha o engajamento de sua pessoa, único fator comum e único referente, em última instância, da variedade das enunciações pelas quais ele se reconhece responsável”.
No período clássico, como nos apresenta Laurence Rosier (2008), a correlação entre oratio recta e oratio obliqua, termos entendidos hoje por DD e DI, era realizada a partir da oposição de ordem retórica, isto é, do antagonismo usado para diferenciar gêneros discursivos. A autora, apoiando-se em uma perspectiva diacrônica, nos faz entender que devido à exigência lógica do século XVII, o DR, que era tratado no caso das figuras de narração, passa a ganhar um estatuto gramatical. Todavia, a supremacia do DD sobre o DI presente hoje nas gramáticas ainda não existe na gramática de Port-Royal. Ainda que apresentado como um fato gramatical - DI como forma derivada do DD - o DD continua condenado, uma vez que tal prática é considerada pelos autores da referida gramática como um arcaísmo que implicava na destruição da harmonia do texto, promovendo um rompimento na cadeia discursiva. Conforme Rosier:
As primeiras menções dos DD e DI como par gramatical se encontram na Grammaire générale et raisonée de Port-Royal, no século XVII. Os Senhores de Port-Royal privilegiam a forma indireta. Porque essa preferência? Por que a forma direta (sem vínculo sintático explícito) justapõe duas enunciações e ameaça a unidade da predicação. (ROSIER, 2008, p. 12)
Dando continuidade a esse estudo, a autora busca entender a mudança de estatuto conferida ao DD. Desse modo, Rosier afirma que a fundamental mudança ocorre devido à entrada em cena do discurso indireto livre no século XIX 32. Tradicionalmente, o DIL distingue-se das demais categorias de relato devido ao fato de as demarcações entre o dizer do narrador e do personagem serem imperceptíveis. Para explicar tal questão, Rosier (ROSIER, 2008. p. 13) diz: “Quando o estilo ou discurso indireto livre é percebido nos romances de Zola e Flaubert pelos gramáticos no final do século XIX, a dicotomia DD/DI se estabelece”. Dito de outra forma, os fatores que permitiram a mudança do estatuto do DD resultam do surgimento das aspas e do reconhecimento do DIL na literatura do século XIX. A função linguística das aspas, que serve para relatar diretamente as palavras do outro, permite o reconhecimento da autonomia sintática do DD. Ao encarar as aspas como uma marca tipográfica que possibilita a manutenção do discurso do outro, o DD passa a funcionar como forma autônoma e, desse modo, é reconhecido como forma que possibilita a reprodução fiel das palavras do outro. De acordo com Rosier, “O DD usa marcas próprias para uma reprodução fiel tal como a citação e se constrói como verdadeiro ou fazendo a verdade. O DI se torna a partir daí discurso da transposição, do falso.” (op. cit., p. 43)
Pensando discursivamente, observamos que o efeito de verdade que se faz presente hoje nas gramáticas não é o mesmo que aparecia na antiguidade clássica, o que nos faz compreender que os sentidos modificam com o tempo. E, através do estudo proposto por Antoine Compagnon e Laurence Rosier, percebemos que o DR significou diferentemente em épocas distintas. Segundo Laurence Rosier, é Authier-Revuz quem inaugura uma nova perspectiva para o DR, a partir dos estudos da modalização autonímica.
Com o intuito de explicitar a heterogeneidade que constitui as aspas da RDO, Authier- Revuz recorre ao trabalho de Rey-Debove, especialmente à noção de conotação autonímica, para elaborar seu próprio conceito de Modalização Autonímica. O uso das aspas da conotação autonímica recai sobre a necessidade de o locutor marcar seu distanciamento mediante a uma palavra ou expressão que ele faz, ao mesmo tempo, uso e menção. No caso da conotação autonímica de Rey-Debove, os elementos pontualmente localizados que indicam o discurso do outro são percebidos como marcas de exterioridade concreta, já na abordagem desenvolvida por Revuz essas marcas são entendidas como uma das manifestações da alteridade enunciativa, uma vez que ao indicar esse outro como algo que lhe exterioriza, tem-
32 Ainda que Rosier nos diga que encarar o DIL como tendo surgido no século XIX é bastante ingênuo, a autora
nos mostra que a forma canônica de uso do DIL presente nos textos de Flaubert não é a mesma do DIL que encontramos, por exemplo, em La Fontaine, nem mesmo nos textos medievais e da antiguidade. (op. cit., p. 15)
se a reafirmação da unidade e consequente ilusão da homogeneidade do discurso. É através destes elementos autonímicos pertencentes ao outro que Authier-Revuz acredita poder depreender o ponto de vista do falante em relação a esse outro que interfere no seu discurso. Conclui-se, assim, que essa exterioridade localizável resulta em uma interioridade, ou seja, percebe-se que o exterior está no interior do sujeito necessariamente33.