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entrevistadas que participaram do discurso livre. As referências à inclusão foram bastante diversificadas, abordando o tema em relação a diferenças entre ensino público e privado, patologias, diagnósticos e socialização dos alunos, entre outros. O tema mais comumente mencionado foi a ausência da família, dos pais ou responsáveis, no processo de inclusão dos alunos.

Paula menciona a inclusão como um marco na educação ou apenas mais uma moda, como tantas outras: “a inclusão está hoje como marco, talvez até como moda, precisa ficar uma coisa assim, mais clara”. A falta de clareza levanta a suspeita diante de uma imposição, a inclusão, que talvez seja um marco que ela não saberá aproveitar como não aproveitou a revolução do início da carreira? Ou seria a inclusão apenas mais uma moda educacional?

Em sua visão mais otimista, Maristela menciona a inclusão para se referir ao ensino público municipal como um todo. Fala sobre suas decepções com o ensino particular, no qual trabalhou por dez anos em uma escola de elite. Pediu demissão do ensino particular e passou a trabalhar no ensino público, tanto no ensino fundamental como na educação infantil. Ela não se arrepende, porque apesar de todos os problemas da educação pública municipal,

acho que eles são ainda mais abertos à mudança... é uma visão mais... inclusiva mesmo, você tem outras possibilidades que numa escola particular você não tem. E a gente aprende muito aqui na escola, né. É uma outra realidade. Os problemas que você tem aqui... jamais eu passaria por eles lá. Em dez anos que eu tive lá, nunca tive metade dessas dificuldades, o que me fez crescer muito profissionalmente, estou sempre buscando novas soluções... então isso me motiva, apesar de eu ficar cansada, como você ouve na sala dos professores que a gente tá cansada... mas ao mesmo tempo acho que a prática é muito positiva. A gente aprende muito... e acho que um pouco a gente ajuda [risos], na medida do possível.

Bem mais adiante na entrevista, ela mantém a coerência no discurso:

Eu gosto de trabalhar mesmo na escola pública. Lógico que a gente podia ser melhor remunerado, que eu não tivesse que trabalhar dois períodos pra dar conta dos compromissos financeiros, mas é muito gratificante, né. Saber que aquela pessoa precisa de você, que você é essencial, faz a diferença. E agora a inclusão que é algo novo pra mim. Eu tô aprendendo, é o que eu tô te falando, sempre tem algo novo [risos]... pra você aprender.

Nem todos os professores, entretanto, têm essa visão. Com Flávia, podemos perceber que o discurso parte de uma visão institucional para a individualização na explicação de um problema. Ela primeiro menciona que um aluno não é apenas do professor que está com ele em sala de aula, mas de toda a escola. Depois, ao fazer referência ao caso de um aluno que agrediu duas professoras em uma excursão – que chegou a quebrar um dente de uma delas e precisou ser contido por um segurança do Shopping Center onde estavam porque foram ao cinema –, lançou mão da patologização e do encaminhamento:

nós tivemos problemas sérios com alunos, não meus, mas o aluno é da escola como um todo. Mas problemas gravíssimos que nós nunca tínhamos enfrentado, como aquele caso dos irmãos, do G. e do L., que nós não... muito difícil de lidar... tínhamos que ter uma direção mais firme para encaminhar com mais rapidez para um tratamento. O menino precisa de tratamento. Ninguém quer o menino fora da escola, quer um menino que esteja em tratamento. Esse caso do L. foi muito difícil pra escola toda, assim, nós aqui nível um.

A questão do fracasso escolar, tanto de aprendizagem como comportamental, ser interpretado como um problema médico ou psicológico está presente também no discurso de outras professoras. Fernanda, a professora do “aluno-problema” citado acima, afirma:

eu defendo a socialização, sim. ... ele se torna mais humanizado... precisa ir em psicólogo, fonoaudiólogo... eu tenho consciência, mas são muitos... os pais que se drogaram e fizeram tudo na gestação, né... tem uma que fala: “eu usei muita droga, tomei bebida alcoólica”.

Essa professora centra seu discurso livre, desde o começo, nas deficiências: “Eu vou falar pra você das dificuldades mesmo, mais dessa... no caso da minha sala, mais dessa deficiência mental”. Do discurso das deficiências, passa à questão

da falta de cuidado dos pais e da carência cultural64:

Então, eu vejo assim, eles têm deficiências sérias e os pais não têm muito cuidado com essas crianças, entendeu? Largou, finge que num viu, sabe... então muitas vezes você chama o pai e aí ele diz: “ah, professora, o problema é seu”. Você tenta ajudar, mas alguns pais, ou por vergonha, né, porque eles também não aceitam... eles também têm preconceito... quanto mais carente é a família, né, no social, maior é o problema. Então eu acho que tem também essa barreira aí...

Chamam atenção as afirmações de que os pais também não aceitam,

também têm preconceito. Podemos entender que junto ao “eles também” há uma

denúncia de um “nós também”, ou seja, a professora estaria expressando sua dificuldade de aceitação da deficiência. Nesse sentido, Flávia também lança mão da explicação familiar para o fracasso escolar:

É problemas, muitos problemas, familiares mesmo, que interfere porque... a criança é, na minha opinião, a criança é espelho da casa. Ela é a casa dela. Se você tem uma casa organizada, a criança é organizada. Então você tem uma série de problemas pra lidar e o conteúdo pra passar...

Fernanda relata ter muitos alunos com problemas, infantilizados. Dos dois alunos mencionados na lista oficial da escola, ela diz que, na verdade, tem mais outros seis com necessidades educacionais especiais. No decorrer da entrevista, ela aumenta o número para treze.

Então, são crianças que se encontram na sala de aula e têm vários problemas. Eu tenho uns oito, você deve ter percebido que eu tinha65. [...] Daí você vê crianças enormes, só brincando, como se tivesse dois, três anos, e aí a professora vai fazer o que? E a matéria, e o conteúdo da quarta série? Tenho crianças maravilhosas, tenho trinta e oito, onde vinte e cinco andam, e o restante? [...] Eu acho que a escola tem que ter... ao lado da escola, outro turno pra ajudar essas crianças, pra elas também evoluírem, têm assim, potencial pra outras coisas.

Na esteira das relações entre inclusão e patologia, Rafaela associa inclusão à esquizofrenia. A primeira vez que ela usa o termo “inclusão” é num momento

64 Segundo Patto (2000), as teorias sobre a carência cultural, desenvolvidas a partir dos anos trinta e

quarenta do século vinte, disfarçam um preconceito de classe que se torna uma ideologia dominante graças a seu caráter supostamente neutro de verdade científica, de discurso competente. Por meio dessas teorias, o fracasso institucional da escola é deslocado para as famílias pobres, vistas de forma preconceituosa como promíscuas e desinteressadas, e para seu ambiente, considerado carente de cultura e estimulação para as crianças. Para um aprofundamento no tema, conferir Patto (2000) e Chaui (2007).

bastante avançado de seu discurso livre, quase no final, e ela falou livremente por aproximadamente vinte minutos. Falou de patologias que acompanhava naquele ano, mas após o primeiro uso do termo “inclusão” mencionou a esquizofrenia e o sofrimento:

quando começou o negócio de inclusão, a comunidade não sabia que os filhos podiam estar na sala de aula. Aí a gente começou com um... eu tinha o ano passado, ano passado não, há dois anos atrás uma menina que tinha esquizofrenia. Ela tinha a sensação de que tinha alguém do lado dela o tempo todo, e ela gritava, então foi outro desafio pra mim. Com ela, eu consegui, né, fazer o que... que ela acalmasse, muitas vezes ela tinha crise forte, a mãe não aceitava, achava que ela ia melhorar, que ia acontecer um milagre e ela ia melhorar. Então ela ficou um ano comigo, foi um ano de muito sofrimento pra mim... e ela acabou indo pra outra escola, não sei pra que escola ela foi, disseram que era uma escola mais especializada, porque ela tinha uma esquizofrenia muito acentuada. Gritava muito, se batia toda na sala... isso eu tinha uma. Esse ano, eu to tendo, acho que, desses que eu falei, tenho uns quatro, com diagnóstico e em fase de exame. Então eu percebo assim, que a quantidade de crianças que está vindo é muito grande, fora as crianças que você tem com dificuldade... uma cri... duas crianças em cada classe, seria o ideal. Mas mais do que isso fica inviável, porque você tem que mudar totalmente a sua dinâmica e esse apoio a gente não tem. Então eu acho que é isso que a gente precisa, de apoio, não tem discriminação nenhuma quanto a essas crianças, não tem... eu procuro até estar ajudando... mas tem hora que me falta é... embasamento teórico, embasamento científico, do que fazer e do que não fazer... e às vezes você pode até estar agindo de maneira errada, de maneira certa... eu nunca sei se o que eu to fazendo é certo ou errado... eu fico insegura na sala.... então a comunidade está vindo, está trazendo cada vez mais suas crianças pra escola... por quê? Por conta de não ter assim um... hospital que faça um tratamento, porque é muito longe, depois a mãe não pode pagar pra ir, entendeu? Que mais... assim... esse menino mesmo que tá na minha sala, a mãe não conseguiu até hoje arranjar um psicólogo pra tar acompanhando ele. Ele precisa de terapia e até uma medicação, eu sinto isso... não sei... [...] eu sinto que é muita criança que tá chegando, alguns pais não percebem, né, que essa criança tem problema, só percebem quando você... o médico fala e dá o diagnóstico. [...] Esse menino mesmo... eu conversei com a avó dele e sabe o que ela me disse? Pra eu pôr ele ajoelhado no milho... então, que tipo de apoio eu vou ter dela? Eu achei isso o fim do fim... porque ela tá mais perdida, ainda mais do que eu viu... então eu fiquei assim, abandonada mesmo...

A esquizofrenia66 da inclusão parece se estender do caso concreto de uma aluna para o simbólico, para a representação que a professora faz da inclusão como um todo. O ato falho que revela o desejo de ter apenas uma criança com

66 Trechos da descrição feita por Laplanche e Pontalis (1992, p. 158) da esquizofrenia ilustram, por

analogia, a descrição que as professoras fazem da inclusão escolar: “incoerência do pensamento, da ação e da afetividade [...], o afastamento da realidade com um dobrar-se sobre si mesmo e predominância de uma vida interior entregue às produções fantasísticas (autismo), uma atividade delirante mais ou menos acentuada e sempre mal sistematizada”.

necessidades educacionais especiais na sala de aula – “uma cri... duas crianças” – a denúncia da falta de apoio, do abandono e a negativa defensiva67 em relação à discriminação revelam o mal-estar da professora diante da situação com a qual se depara. A medicalização e a institucionalização aparecem como a solução dos problemas, mas, como faltam médicos e instituições, a comunidade, por não ter hospital e psicólogo, leva a criança para a escola. A pedagogia vai perdendo espaço para uma concepção terapêutica de escola.

Diante da falta de apoio, resta a Rafaela a intuição, tanto para diagnosticar e encaminhar como para encontrar soluções pedagógicas. A frase citada acima: “ele precisa de terapia e até uma medicação, eu sinto isso... não sei...”; pode ser relacionada com outros momentos de seu discurso livre. Logo no início da entrevista, ela menciona coisas do dia-a-dia pautadas pela intuição e diz:

Tem outra criança que eu não sei ainda o diagnóstico, já tô encaminhando ela pro psicólogo e tal, só sei que ela tem muita dificuldade, ela troca a letra, tem problema de fono... Isso, pra mim, chegar até a mãe... a mãe, geralmente, ela não gosta de ouvir. Eu nunca chego num pai ou numa mãe e digo que essa criança tem problema. Eu sempre mando ela procurar um profissional e fazer uma investigação. Se tiver alguma coisa, a gente vai cuidar e tal, se não, pelo menos a gente investigou, né? Então sempre eu chego e abordo a mãe nesse sentido, né. Eu não sou assim o profissional pra estar fazendo um diagnóstico... então essa criança teve alguns problemas em relação ao nascimento, nasceu de seis meses, tem um probleminha no nariz, ela tem vários problemas assim, do nascimento até aqui... O outro, ele tá fazendo, já tem diagnóstico, só que essa mãe não trouxe até hoje o diagnóstico. O que ela tá fazendo... ela não tá encontrando vaga pra fazer o acompanhamento desse aluno, mas ele tem problema... eu não sei que problema que é, mas só que é um problema mental.

Levantamos a hipótese interpretativa de essa professora fazer bastante uso da negativa para não reconhecer seus verdadeiros sentimentos. Em diversos momentos, ela nega o que acaba por realizar. Quando diz que nunca fala aos pais que a criança tem problema, mas manda eles procurarem um profissional para fazer uma investigação, não seria uma forma de dizer que a criança tem problemas na

67 “Processo pelo qual o sujeito, embora formulando um dos seus desejos, pensamentos ou

sentimentos até então recalcado, continua a defender-se dele negando que lhe pertença” (LAPLANCHE; PONTALIS, 1992, p. 293).

sala de aula? Depois diz não fazer diagnóstico, não saber qual é o problema, mas afirma ser problema mental.

Ela também atribui à intuição os avanços conquistados com um aluno problema:

Então ia ser um desafio enorme pra mim... e pra ele também. Então eu comecei a colocar assim, algumas coisas que ele conseguisse fazer em curto prazo e me desse isso de volta. Ele queria muito ir ao banheiro, ele tinha dificuldade, ia ao banheiro... então comecei a dar lições pequenas, bem pequenas. Então terminando aquela tarefa eu deixava ele ir ao banheiro. E ele começou a fazer... foi assim que eu comecei agora, faz um mês e meio mais ou menos, botei ele na minha frente e coloquei um colega do lado dele. Esse colega, qual que era a tarefa... eu pedia pra quem quisesse ajudar... cada colega que vinha era confusão, brigava com ele, e eu, pra mim acertar esse colega, eu fui mudando, fui mudando, até que eu consegui uma menina e... que ajudou bastante ele nesse sentido, né. Então a colega fica ali como ajuda pra ele tentar conseguir as metas dele. E aí eu consegui, ele hoje, não sei se você... daquelas fases da escrita... pré- silábica, silábica... a gente parte de garatujas, desenhos para começar a diminuir a letra, colocar na margem do caderno... organização, porque ele não tinha organização no caderno dele, o caderno dele era todo rasgado. Uma vez eu pedi pra ele trazer pra comparar, pra ele mesmo, como ele tinha melhorado, né. E eu acho que ele deu uma melhorada boa! Eu dei um passo com ele. Mas tudo isso foi a partir da minha intuição.

A falta de clareza sobre o que seja a inclusão, que chega como uma obrigação para as professoras acaba por se nutrir do improviso profissional, da intuição. Essa dinâmica aciona mecanismos defensivos e uma aderência mais fácil a preconceitos já conhecidos do cotidiano escolar como a teoria da carência cultural e algumas explicações medicalizadas do fracasso escolar.