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Ao aceitar a definição de atitude como um afeto pró ou contra uma representação, faz-se necessário enunciar a possibilidade de estudo empírico das atitudes. Para tanto, vamos retomar os termos “ideologia”, “atitudes”, “valores” e “opiniões” como aparecem na teoria crítica, na pesquisa sobre a personalidade

autoritária, que também toma a psicanálise como referencial: “empregamos aqui o termo ideologia na acepção que lhe é dada comumente na literatura atual, vale dizer que com ele designamos uma organização de opiniões, atitudes e valores; em suma, uma maneira de pensar sobre o homem e a sociedade” (ADORNO et al., 1965, p. 28)43. Vamos buscar definir alguns desses termos para uma melhor compreensão de nosso método, iniciando por valor: “um valor é uma preferência primitiva por, ou uma atitude positiva para com certos estados finais de existência (como igualdade, salvação, auto-realização ou liberdade) ou determinados modos amplos de conduta (como coragem, honestidade, amizade ou castidade)”. (BEM, 1973, p. 31). Podemos entender melhor a noção de valor, levando em conta os dois usos propostos por Cooper e McGaugh (1966): 1) uma atitude dominada pela interpretação individual com relação ao objeto de estímulo sob a luz dos objetivos do indivíduo. Pode-se pensar no exemplo do rei Midas e no valor que ele dava ao ouro conforme a sua interpretação nos diferentes momentos de sua história; 2) um sistema de valores se relaciona com as aspirações de uma pessoa para sua própria vida, direciona e serve de referência para seu comportamento, assim como para fazer julgamentos.

“Crença” ou “opinião” são afirmações ou juízos sobre determinados objetos. Cooper e McGaugh (1966) definiram crença como uma atitude que incorpora uma grande quantidade de estrutura cognitiva. Bem (1973) define crença como percepção de alguma relação entre duas coisas ou entre alguma coisa e uma das suas características. Existem crenças primitivas, baseadas nos sentidos ou em autoridades reconhecidas (como a mãe, por exemplo), que constituem “axiomas” não-conscientes sobre os quais são erigidas outras crenças. Como no exemplo:

43 Empleamos aquí el término ideología en la acepción que se le da comúnmente en la literatura

actual, vale decir que con él designamos una organización de opiniones, actitudes y valores; en suma una manera de pensar sobre el hombre y la sociedad.

premissa 1, meus sentidos me dizem que as laranjas são redondas; premissa 2, meus sentidos me dizem a verdade; conclusão: as laranjas são redondas. O movimento da segunda premissa para a conclusão está implícito em nossa crença com relação à forma da laranja, não precisamos tomar consciência dele. A partir daí elaboramos crenças de primeira ordem e assim sucessivamente, relacionando crenças segundo nossa própria lógica ou psico-lógica, como diria Bem (1973); ou seja, segundo nossas necessidades emocionais e afetivas vamos relacionando nossas crenças em estruturas complexas, generalizações e estereótipos.

Afinados os termos “atitude”, “valor”, “crença” e “ideologia” podemos começar o contraponto com os autores do estudo sobre a personalidade autoritária e o método de estudo das atitudes pela afirmação de que: “as opiniões, as atitudes e os valores, tal como os concebemos, expressam-se mais ou menos abertamente por meio da palavra; em termos psicológicos, encontram-se ‘na superfície’” (ADORNO et al., 1965, p. 29)44.

A palavra se configura como nosso material de trabalho passível de análise e interpretação. Um esclarecimento a mais sobre a possibilidade de estudo das atitudes em nosso referencial teórico:

As expressões espontâneas dos anti-semitas, seja na entrevista, seja na vida diária, sugerem que cada um tem certas “idéias nucleares” [...] com significação emotiva primordial. Mas essas idéias nucleares parecem despertar no indivíduo uma receptividade para muitas outras idéias. Vale dizer que, uma vez formadas as idéias centrais ou nucleares, elas tendem a “atrair” muitas outras opiniões e atitudes, para assim compor um sistema ideológico geral. (ADORNO et al., 1965, p. 108)45.

Apesar de os autores se referirem aos anti-semitas, pode-se admitir que o

44 Las opiniones, las actitudes y los valores, tal como los concebimos, se expresan más o menos

abiertamente por medio de la palabra; en términos psicológicos, se encuentran “en la superficie”.

45 Las expressiones espontáneas de los antisemitas, sea en la entrevista, sea en la vida diaria,

sugieren que cada uno tiene ciertas 'ideas nucleares' (...) con significación emotiva primordial. Pero estas ideas nucleares parecen despertar en el individuo una receptividad hacia muchas otras ideas. Vale decir que, una vez formadas las ideas centrales o nucleares, éstas tienden a 'atraer' muchas otras opiniones y actitudes, para así componer un sistema ideológico general.

mecanismo descrito se aplica a pessoas comuns, como veremos nos próximos parágrafos, o que torna a entrevista de discurso livre uma técnica privilegiada para o estudo das atitudes. O mecanismo baseado nas idéias nucleares pode ser generalizado às pessoas comuns se o relacionarmos com a idéia de “representação- meta” freudiana:

termo forjado por Freud para exprimir o que orienta o curso dos pensamentos, tanto conscientes como pré-conscientes e inconscientes. Em cada um destes níveis existe uma finalidade que assegura entre os pensamentos um encadeamento que não é apenas mecânico, mas determinado por certas representações privilegiadas que exercem uma verdadeira atração sobre as outras representações (por exemplo, tarefa a realizar no caso de pensamentos conscientes, fantasia inconsciente nos casos em que o sujeito se submete à regra da associação livre). (LAPLANCHE; PONTALIS, 1992, p. 451-452).

Em uma nota de rodapé acrescentada à Interpretação dos Sonhos, em 1914, Freud afirma:

a associação de idéias é regida por representações-meta inconscientes [...] o papel desempenhado pelo interesse consciente é estimular o inconsciente a selecionar a mais apropriada entre as incontáveis representações possíveis. É o inconsciente que faz a escolha apropriada de uma finalidade para o interesse, e isso é válido tanto para a associação de idéias no pensamento abstrato quanto para a ideação sensível [...] é impossível sustentar uma limitação da associação de idéias a uma representação provocadora e uma representação provocada (no sentido de uma psicologia associacionista pura). Tal limitação seria justificável apenas se houvesse na vida humana condições em que o homem estivesse livre não só de qualquer objetivo consciente, mas também da influência ou cooperação de qualquer interesse inconsciente, qualquer estado de ânimo passageiro. Esse, no entanto, é um estado que dificilmente pode ocorrer, pois mesmo que, na aparência, alguém deixe inteiramente entregue ao acaso sua cadeia de pensamentos, ou se abandone por completo aos sonhos involuntários da fantasia, outros interesses principais, sentimentos e estados de ânimo dominantes sempre prevalecerão mais num dado momento do que em outro e exercerão sempre uma influência na associação de idéias. (FREUD, 1900/1980, p. 485).

Muito provavelmente, as crenças que são atraídas por uma representação central com relação a um objeto formam uma cadeia associativa que aciona um afeto, ou atitude, comum. Isso foi explicitado nos estudos de associação de palavras de Jung (1906, apud FREUD, 1900/1980, p. 487). Portanto, podemos entender as crenças como uma construção associativa sobre uma atitude ligada a uma representação-meta, ou representação nuclear.

As falas de nossos sujeitos de pesquisa são, portanto, material privilegiado para o estudo das atitudes. Não se deve, porém, esquecer que estão na superfície. Mesmo que seja possível ler algo das atitudes e representações por meio do discurso, descrevendo cadeias associativas, o nível mais profundo, que leva em consideração os mecanismos de recalque e repressão do afeto não podem ser evidenciados com facilidade, ou nem mesmo podem ser trabalhados em um método que não seja psicanalítico strictu sensu.

Como vimos até aqui, representações e afetos podem se agrupar em torno de núcleos representativos, possibilitando a formulação de uma hipótese que trata da mudança de atitudes diante de novas experiências. Estando as atitudes em relação com fantasias e valores, estes podem servir como forças para a modificação das atitudes contrárias à educação inclusiva. Na próxima seção, estudaremos o preconceito, como um agente de enrijecimento do deslizamento dos afetos e das fantasias para novas representações.