Escolhida a entrevista como técnica de coleta de dados, a especificidade de nosso objeto conduziu a uma adaptação de diferentes modelos. Selltiz et al. (1974, p. 272) já apontavam que
a entrevista é a técnica mais adequada para a revelação de informação sobre assuntos complexos, emocionalmente carregados ou para verificar os sentimentos subjacentes a determinada opinião apresentada. Para que uma descrição verbal seja aceita por seu valor aparente, precisa ser provocada em circunstâncias que estimulem a maior liberdade possível e a honestidade de expressão.
Estudos sobre questões delicadas como o preconceito e o racismo demonstraram que a estratégia de entrevista semi-dirigida comumente utilizada, acompanhada de
um roteiro, tem se revelado insuficiente para a apreensão de aspectos psicológicos, principalmente inconscientes (BARAÚNA, 2002).
Por orientação da Professora Doutora Iray Carone, entramos em contato com a estratégia do discurso livre, desenvolvida pela Professora Doutora Arakcy Martins Rodrigues, indicada também por Baraúna (2002) e pela Professora Doutora Leny Sato na disciplina sobre metodologia de pesquisa ministrada no programa de pós- graduação do Instituto de Psicologia da USP. Também por indicação de Leny Sato, entramos em contato com o pesquisador Mário de Souza Costa, que trabalhou como assistente de Rodrigues54 em uma de suas últimas pesquisas.
A estratégia do discurso livre demonstra-se adequada por seus pressupostos e fundamentação, ainda que tenha passado por algumas adaptações por conta da situação específica e do referencial teórico desta pesquisa.
O principal pressuposto da técnica do discurso livre é a existência de um significado latente no discurso. Este expressa tanto fantasias inconscientes como uma estrutura de organização perceptual gerada pela classe social. São duas leituras do inconsciente, baseadas uma na psicanálise e outra na teoria sociológica de Pierre Bourdieu. Não cabe aqui uma explanação sobre a teoria de Bourdieu55,
54 Não foi possível entrar em contato com a professora Arakcy Martins Rodrigues (1936-2000)
quando elaboramos o método da pesquisa. As raízes da entrevista de discurso livre estão na década de sessenta, quando a pesquisadora fazia sua formação em psicanálise e trabalhava em uma pesquisa multidisciplinar sobre fertilidade e reprodução humana no Centro de Dinâmica Populacional (CEDIP) da Faculdade de Saúde Pública. Aproximadamente de 1969 a 1974 a pesquisadora trabalhou no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) e a partir de 1974 se dedicou ao tema do trabalho feminino, como pesquisadora do Núcleo de Pesquisas e Publicações da Fundação Getúlio Vargas. Umas dessas pesquisas, já utilizando o discurso livre, foi publicada em 1978 (cf. RODRIGUES, A., 1978). (ENTREVISTA..., 1999). O modelo que utilizamos, baseado em instruções e textos mimeografados fornecidos pelo pesquisador Mário de Souza Costa, é da década de 1990, elaborado para uma pesquisa sobre AIDS entre estudantes universitários.
55 Há uma passagem de Arakcy Rodrigues que levantou uma questão interessante a ser verificada
na interpretação das entrevistas: “Sendo a história do indivíduo nada mais que uma certa especificação da história coletiva de seu grupo ou de sua classe, podemos ver nos sistemas de disposições individuais variantes estruturais do habitus de grupo ou de classe, sistematicamente organizadas nas próprias diferenças que as separam e onde se expressam as diferenças entre as trajetórias e as posições no interior ou no exterior da classe: o estilo pessoal, isto é, aquele selo particular que trazem todos os produtos do mesmo habitus, práticas ou obras, nunca é mais que um
que não é um referencial aprofundado neste trabalho. Interessa-nos a técnica baseada na psicanálise e a consideração não apenas de variáveis sócio-econômicas e biológicas, mas principalmente de variáveis intermediárias: atitudes e valores, um “correlato intrapsíquico” que se relaciona com as determinações objetivas e se exterioriza pelo comportamento:
para influir sobre seu comportamento, tais determinismos devem por força gerar um correlato intrapsíquico nos indivíduos, constituído de um dado tipo de organização, que inclui desde a percepção imediata do mundo exterior até as explicações para todos os eventos existentes no espaço de vida. (RODRIGUES, A. 1978, p. 21).
Conta-se, portanto, com um padrão de organização psíquica que pode ser lido na fala livre do entrevistado, por meio de suas explicações, conforme sua apreensão do mundo. Assim, mesmo que os entrevistados não entrem diretamente no assunto investigado, é possível captar uma estrutura do discurso.
Essa técnica de entrevista tem como pressuposto a existência de fantasias inconscientes e um método eficiente para o acesso a elas.
A fantasia é definida por Laplanche e Pontalis (1997, p. 169) como um “roteiro imaginário em que o sujeito está presente e que representa, de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos, a realização de um desejo e, em última análise, de um desejo inconsciente”. Há uma grande proximidade entre a fantasia inconsciente e as fantasias conscientes ou sonhos diurnos, graças ao processo de elaboração psíquica, que integra as excitações psíquicas estabelecendo conexões associativas.
Desse mecanismo, derivam as técnicas psicanalíticas, destacando-se em nossa abordagem a regra da associação livre. Baseado na convicção “de que todos os fatos mentais são completamente determinados” (FREUD, 1920/1980, p. 316),
desvio, ele próprio regulado e por vezes codificado, em relação ao estilo próprio a uma época ou classe”. (RODRIGUES, A., 1978, p. 23; grifo da autora). Segundo essa concepção, encontraremos uma estrutura comum nos discursos das entrevistadas, seguida de desvios pessoais, já que entrevistamos pessoas, a princípio, de uma mesma classe profissional e social.
Freud construiu uma regra simples que permitiria ao psicanalista acessar os conteúdos inconscientes do analisando por meio das associações deste. Para isso, porém, seria necessário que o senso crítico ou a seleção consciente fossem enfraquecidas, daí a regra: “comunique tudo o que lhe ocorre, sem crítica ou seleção” (FREUD, 1912/1980, p. 150).
Passemos agora à descrição do método do discurso livre, apresentando resumidamente as suas etapas, adaptadas dos roteiros mimeografados de Arakcy Martins Rodrigues ([199-?]a, [199-?]b, [199-?]c), que são: a abordagem; o discurso livre; e as perguntas56.
A abordagem original foi elaborada para pesquisas em que o entrevistador não conhece o entrevistado, o que não se aplica ao presente caso, pois o contato com os professores se deu desde o início da pesquisa e na participação do pesquisador em algumas reuniões de professores para apresentar a pesquisa e seu método, marcando com os professores os dias e horários em que a entrevista seria realizada. Por isso alguns elementos como as explicações sobre como o sujeito foi encontrado e o argumento de que existem mais pesquisadores trabalhando na pesquisa foram desconsiderados. O texto inicial de abordagem, já adaptado, foi expresso na seguinte forma:
Eu estou fazendo uma pesquisa e gostaria muito de fazer uma entrevista com você. A pesquisa é sobre a vida das professoras. Vou fazer outras entrevistas, depois analisar o que as pessoas disseram e fazer um estudo. É uma entrevista longa, e eu gostaria de marcar uma hora para a gente se encontrar num lugar tranqüilo, que desse para a gente conversar.
As entrevistas foram marcadas individualmente, aproveitando os horários remunerados da Jornada Especial Integral (JEI), quando normalmente os professores participam do trabalho coletivo da escola. Foram utilizadas salas de
56 No formato original do “discurso livre”, segundo as instruções adicionais (RODRIGUES, A., [199-
]a), essa etapa é denominada “perguntas intermediárias”, pois fica entre o discurso livre e o questionário. Como não fizemos uso do questionário, utilizamos apenas a denominação “perguntas”.
aula, a mesa do professor e cadeiras.
O discurso livre foi gravado e algumas anotações foram feitas, para que fossem registradas expressões e situações não registradas pelo gravador. Após o pedido de licença para a gravação – foi utilizado um pequeno gravador digital – da entrevista e a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido (apêndice A, p. 257), foi feita uma solicitação baseada no seguinte modelo:
Eu estou fazendo uma pesquisa para saber como é a vida das professoras, saber o que elas fazem, sentem, pensam, acham das coisas... vou falar com outras pessoas, o nome delas nem me interessa. Se preferir, nem precisa dizer seu nome. Depois vou juntar tudo o que as pessoas me disseram, estudar, analisar e escrever um trabalho sobre a vida das professoras como ela é mesmo. Por isso eu gostaria de pedir para você falar tudo o que você quiser, tudo o que vier à sua cabeça, o que faz, o que acha, o que pensa, o que sente. Tudo o que me contar, qualquer coisa, me interessa.
As perguntas constituem um elemento central para uma pesquisa temática, pois levam o sujeito a falar sobre elementos importantes para a pesquisa que eventualmente não tenham sido abordados no discurso livre. Ainda assim, o entrevistado deve se sentir à vontade para fazer seu discurso com liberdade.
O procedimento consistiu em apresentar algumas expressões temáticas para que o entrevistado falasse livremente sobre elas. Aqui foi tomado como pressuposto o conceito de “representação-meta”, apresentado no capítulo anterior. Estando uma representação central associada a uma cadeia, as expressões temáticas devem acionar representações próximas a elas e afetos correspondentes.
O entrevistador acompanhou as respostas com uma lista de subtemas a serem explorados caso o entrevistado não fizesse referência a eles. O roteiro das perguntas levou em consideração os dois níveis de abordagem das atitudes dos professores apresentados por Correia e Martins (2000): 1) em relação aos alunos; 2) em relação à proposta de inclusão escolar. O roteiro também foi adaptado dos itens “ocupação” e “minorias” do plano de entrevista da pesquisa A personalidade
autoritária (ADORNO et al., 1965). Os itens foram formulados de forma indireta, ou
seja, evitou-se expor nos enunciados seus verdadeiros objetivos e respostas já sugeridas pela pergunta. Tomou-se o cuidado de posicionar mais para o final da entrevista os itens de conteúdo considerado polêmico, que pudessem resultar em respostas mais emotivas, ou que pudessem levantar resistências psicológicas, para que não causassem interferência na boa condução da entrevista. Quanto à terminologia, não foi utilizada a forma considerada politicamente correta “pessoa(s) com deficiência”, mas sim a mais coloquial “deficiente(s)” para não influenciar as respostas e perceber se os entrevistados fariam alguma observação a respeito dos termos. Como resultado final, chegamos a um roteiro com dez itens (ver apêndice B, p. 258).
O primeiro item trata das vantagens e desvantagens de ser professor, buscando investigar a relação do entrevistado com sua profissão por meio de seus valores e fantasias. É uma forma de verificar a pertinência da hipótese sobre a labuta docente e a dessublimação. Os subitens chamam a atenção para a decisão pela carreira, a visão familiar sobre a escolha, o acerto ou não na escolha profissional e o desejo ou não de mudar de profissão. Ainda sobre a labuta e o burn-
out, o décimo item, localizado no final da lista por seu conteúdo mais emocional,
trata dos problemas de saúde relacionados à profissão.
Os itens de dois a seis tratam das expectativas em relação aos alunos, partindo de uma temática mais ampla para uma mais específica. O item dois invoca uma fala sobre minorias, grupos discriminados e investiga quais representações o entrevistado associa a eles. O item três busca investigar possíveis estereótipos relacionados às pessoas com deficiência, a influência que elas exercem sobre a sociedade. O quarto item investiga os valores relacionados às pessoas com
deficiência, questionando sobre cotas e casamento entre pessoas com e sem deficiência. O quinto item investiga a história das experiências do entrevistado com pessoas com deficiências, buscando extrair daí informações sobre suas atitudes. Por fim, a sexta questão busca revelar a concepção do entrevistado sobre a sinonímia entre deficiência e necessidades educacionais especiais, revelando também o conhecimento sobre esse conceito central para a compreensão da proposta inclusiva. O nono item, por ser polêmico, ficou afastado dos demais que tratam das expectativas sobre os alunos. Nele buscamos conhecer a opinião do entrevistado sobre o “bom aluno” e quais conseqüências a inclusão escolar exerce sobre ele.
Os itens sete e oito tratam das representações em relação à educação inclusiva, tratando tanto da concepção de educação especial como da visão que têm os professores, alunos e pais sobre a inclusão. A forma indireta dos questionamentos visa investigar as concepções do entrevistado permitindo que ele as expresse como se falasse dos professores em geral, diminuindo suas defesas e resistências (MUCHIELLI, 1978).
Foi feito um pré-teste da entrevista para treinamento da técnica de entrevista de discurso livre, verificação da efetividade e aperfeiçoamento do roteiro de perguntas. Para manter as respostas espontâneas, não realizamos o pré-teste com professores da mesma escola que não seriam entrevistados, pois eles poderiam fazer comentários com os colegas que participariam efetivamente das entrevistas. O pré-teste foi realizado com três professoras de uma outra escola, semelhante à que a pesquisa foi realizada: mesma região, mesmo nível e com alunos com necessidades educacionais especiais.
diversos elementos já encontrados na literatura sobre as representações dos professores em relação à inclusão e despertando no pesquisador novas articulações teóricas. Apenas uma das professoras se incomodou em falar livremente e ter sua entrevista gravada. Com relação ao rapport, foi facilmente estabelecido e, confirmando as informações fornecidas por Mário Costa (informação pessoal), as entrevistadas falaram bastante no discurso livre, mesmo sem conhecer o pesquisador. Consideramos também importantes as considerações apontadas por Baraúna (2002, p. 145) no estudo feito sobre o discurso livre:
É importante que haja uma preparação prévia do entrevistador para que este possa lidar com a tensão e a angústia (dele e do entrevistado) que muitas vezes se faz presente numa entrevista aberta, e que pode levá-lo a fazer intervenções inadequadas. O entrevistador precisa suportar os silêncios, deixando que o entrevistado resolva esse mal-estar da maneira que puder, pois esse movimento do sujeito é um material importante para a pesquisa. É necessário também que mantenha uma postura de aceitação e interesse, não introduzindo qualquer qualificação sobre o que o entrevistado trouxer, mesmo que este não faça referências ao que supostamente seria o material de interesse para a pesquisa. Nesse momento da entrevista não é necessário, nem desejável, que se interrompa o entrevistado para pedir mais esclarecimentos, pois isto pode ser feito na ocasião da aplicação do roteiro de temas.
A formação do pesquisador em Psicologia favoreceu a manutenção da postura descrita, mas ainda assim o pré-teste foi relevante para a diminuição da ansiedade em relação às entrevistas e à postura dos entrevistados. As instruções fornecidas por Arakcy Rodrigues ([199-?]b), principalmente sobre como conduzir a entrevista diante da interrupção de terceiros, foram muito úteis para as entrevistas realizadas no ambiente escolar, onde funcionários e alunos interromperam algumas vezes as entrevistas, entrando na sala para procurar alguma coisa ou mesmo por brincadeira (no caso dos alunos).
O pré-teste também revelou que nenhuma alteração no método ou no roteiro seria necessária. O tempo médio das entrevistas foi de uma hora, o que também contribuiu para a marcação das entrevistas com as participantes da pesquisa.