7.3 Grid study
7.4.2 Computational challenges for investigating a long pe-
A política é um tema recorrente nos discursos livres das professoras. Das sete entrevistadas, quatro fazem referência explícita a ela. As imagens referentes à política denotam algo distante, imposto e que dificulta o trabalho docente. Ela pode ter sido melhor no passado, talvez seja diferente no futuro: é preciso mudar.
Paula faz referência a um passado político, associado ao início de sua carreira, que é sua representação de algo bom em política educacional, mas que não soube aproveitar:
Porque assim sabe, quando eu entrei na prefeitura, isso já faz uns vinte anos, então é... já mudou bastante. Algumas coisas têm mudado... na minha concepção... além da concepção, tem mudado a prática também,
né... mas isso porque assim, já entrei num período, vinte anos atrás... de direita, né, digamos assim... um governo de direita, né... na época do Jânio, depois passei pra gestão da Erundina, que foi onde a gente teve uma revolução. Mas eu tava no comecinho ainda, não sabia muito... e hoje a gente percebe o quanto a gente deixou de fazer coisas que... e hoje a gente pensa, puxa, como foi bom...
A política influencia nas concepções e nas práticas dos professores. Diante da política atual, Paula, na verdade, “luta”. Esforça-se em sua labuta, em um trabalho muitas vezes de validade questionável. A imposição de uma política gera angústia: “é lei [...] e o professor tem que estar ali, esteja ele preparado ou não”, afirma Fernanda. Paula, por sua vez, relata sensação de incapacidade, de estar em segundo plano e ser apenas mais uma...
Hoje eu to mais assim, lutando na verdade... quando você fala assim no dia-a-dia, às vezes eu deito e fico assim pensando: hoje eu não fiz nada! Será que isso é válido? Será que isso é legal? Onde estou errando, onde estão errando? Isso no ensino público, que eu conheço a história, não conheço do lado do ensino particular, que talvez tenha, né, uma coisa diferente. Tem também as minhas angústias relacionadas à minha prática e a essa imposição mesmo, né... da inclusão. A inclusão hoje está como marco, talvez até como moda, precisa ficar uma coisa assim mais clara... o educador está sempre em segundo plano. Em primeiro deve ser o aluno, eu até entendo, mas... será que esse profissional está realmente capacitado pra estar trabalhando?... são essas coisas, minha história, minhas perspectivas, minhas concepções, minha práticas... fico pensando se realmente vai mudar alguma coisa, se mudar que seja pra melhor, fico me sentindo apenas mais uma educadora.
A mudança, uma coisa diferente, uma outra história, talvez esteja em outra modalidade de ensino: no ensino particular. A “revolução” ficou no passado e não foi aproveitada. O momento atual é de conflito. A alternativa aparece psicologizada ou medicalizada, não é natural, é plastificada. O sonho acabou. Paula se questiona sobre a possibilidade do governo mudar algo:
Eu fico até preocupada porque hoje, com o aumento de alunos, por número... é impossível, você não consegue ajudar... você tem que retomar tudo... a minha questão é essa: meu Deus o que é que eu vou fazer pra poder melhorar isso, porque também, você não pode ficar vivendo em conflito, direto né... porque senão você não vai dar aula nunca... o professor está precisando de terapia porque hoje a gente vê tanta gente assim, tomando remédio, procurando alternativas... ontem eu até li uma matéria que falava que hoje as pessoas estão plastificando suas vidas, as pessoas não estão mais sonhando... isso que me assusta... e passa também pela nossa prática. Nossa prática também vai por água abaixo... então é isso... mas a minha perspectiva não sei se vai melhorar... eu penso em ser otimista, né, sempre falo: não, vai melhorar... não sei se o governo atual
pode fazer isso.
Já Flávia não retoma o passado da política educacional, concentra seu discurso na nova política e no ano de 2006. As atuais mudanças políticas atrapalham. Menciona a luta dos professores por melhores condições de trabalho, envolve-se ativamente nela, mas a considera desgastante. Não menciona manifestamente sua avaliação dos resultados efetivos da greve dos professores, mas, se nos permitirmos uma interpretação baseada na associação livre de Flávia, é possível identificar em seu discurso que a greve resultou em graves problemas. O primeiro deles com dois alunos. Nesse caso, a relação não é direta, mas pode estar, em fantasia, associada à greve, já que intercala o relato da greve e o da mudança de turno que entraria em vigor em 2007. Reside de forma latente no discurso a mensagem de que a luta teve conseqüências graves e mudanças que trazem ainda piores condições de trabalho.
Este ano, nós tivemos um ano muito difícil, por conta de todas as mudanças políticas. A política ela, ela, ela atrapalha o nosso trabalho. Porque... tudo o que eles fazem lá, reflete aqui. Então quando eles propõem “São Paulo é uma escola”, eles fazem uma série de mudanças, mas não tem estrutura pra que essas mudanças ocorram [...] Foi um ano difícil, nós iniciamos o ano com uma greve, já final de março, começo de abril, uma greve. Não foi uma greve só por motivos salariais, uma greve por condições de trabalho mesmo. Nós estamos há onze anos sem aumento... e depois dessa greve, nós tivemos problemas sérios com alunos, não meus, mas o aluno é da escola como um todo. Mas problemas gravíssimos que nós nunca tínhamos enfrentado, como aquele caso dos irmãos, do G. e do L., que nós não... muito difícil de lidar... tínhamos que ter uma direção mais firme para encaminhar com mais rapidez para um tratamento. O menino precisa de tratamento. Ninguém quer o menino fora da escola, quer um menino que esteja em tratamento. Esse caso do L. foi muito difícil pra escola toda, assim, nós aqui, nível um, né... E depois a mudança de fechamento de turno, que também é uma mudança política, você vê, a política interfere no nosso trabalho, eles não estão preocupados com o pedagógico. Então tudo o que eles fazem eles dizem que é o pedagógico, mas não é. Eles querem enxugar a máquina, é menos funcionários, mostrar uma coisa que não é. Então com esse fechamento de turno nós vamos ter dois turnos, menos emprego né, porque você fecha um turno todo, salas de aula abarrotadas, certo? Muito mais aluno, qualidade, muito menos, porque um professor com trinta já é difícil, imagina com quarenta e dois, que nós vamos ficar no ano que vem. [...] então, foi um ano muito difícil, eu particularmente tive... me desgastei muito. Muito, muito... que eu vou... é pra fazer greve? Então você vai às assembléias, participa mesmo, não vai fazer greve e ficar em casa. É pra ir... vai nas manifestações... faz tudo o que tem que fazer. Acho que, no momento é isso... peço desculpas porque eu falo mesmo, não deixo passar... tá me incomodando, tem que ir na direção... eu
não sou uma professora que, ah, fala aqui e depois... não, eu falo aqui e vou lá e falo, então o pessoal fala: ah, fala pra Flávia que ela vai lá e fala. Mas é difícil viu, também. Então quando você vê essa política você fica enojado, não tem outra palavra.
Mesmo depois da luta, de fazer tudo o que tem que ser feito em uma desgastante greve por melhores condições de trabalho, a política afeta visceralmente a professora, dá nojo: não há outra palavra...
Maristela, que se destaca pela visão mais otimista da escola pública e da inclusão, como veremos mais adiante, também se expressa sobre a política como muito incompleta, com um olhar distante, míope, que atrapalha o trabalho docente:
Acho que falta, falta muita coisa, pra melhorar esse atendimento, principalmente na visão macro que eu vejo que... o político, ele tá muito fora da realidade... ele não vê, ele vê de longe, e essa visão de longe é que dificulta... o trabalho, né. Ontem eu tava escutando, depois do debate, na Cultura, eles estavam... eu peguei um trecho lá deles falando sobre a educação. Então tinha gente do PT e gente do PSDB e então eles estavam falando sobre educação. Sobre o provão, a classificação de São Paulo que foi uma das piores do Brasil, nã nã nã... e o PT atacando como se um, só um, tivesse culpa... até que na hora o do PSDB falou assim: mas não é só no Estado de São Paulo e toda uma parcela dessa nota foi da capital e a prefeitura era do PT... e o outro, não, não é assim... Eles nem sabem do que eles estão falando! É real que a educação precisa de uma visão melhor, de um outro olhar... é isso...
A identificação das professoras com a política educacional de uma forma geral, e com a inclusão em particular, não acontece. A política é algo distante da realidade das profissionais, mas a afeta diretamente. Gera angústia, sensação de incapacidade, de estar em segundo plano, de futuro incerto, dá nojo! A revolução, porém, resiste na memória. Não poder sonhar ainda assusta. A política ainda causa nojo e o corpo resiste. Fantasiar e lutar por uma outra modalidade de ensino, diferente, ainda é possível.