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Flow configuration and computational aspects

Diante da sensação de abandono e da falta de clareza sobre a inclusão, os cursos de formação continuada aparecem como uma alternativa interessante de mudança das condições docentes. Eles são mencionados como um elemento que ajuda a baixar a ansiedade e muda a atitude diante da educação. Mas também aqui surge a questão de que os efeitos de um curso variam conforme as perspectivas do profissional em relação à educação.

Rafaela menciona o papel da intuição em sua atividade profissional, mas também descreve como o curso de formação oferecido pela prefeitura ajudou a repensar as atividades pedagógicas com seu aluno:

Aí, por conta disso, ontem eu fui fazer um curso e aí falaram que quando a criança não sabe ler, não tem ainda o domínio da escrita, a oralidade, né, é maior do que o que ele dá conta da escrita. Então isso eu precisei ouvir no curso de ontem pra... e olha que eu tenho quase vinte anos de escola, nunca veio alguém falar isso pra gente... eu sei que a gente deve procurar, não ficar só esperando, mas você às vezes não tem tempo né, então, a partir disso, eu passei a baixar minha ansiedade também em relação a ele, ele começava a falar, eu mandava ele parar de falar, porque tava falando demais, atrapalhando, agora eu deixo ele falar um pouco, né.

A presença de um aluno considerado com necessidades especiais foi um motivo para que Rafaela fosse fazer um curso que a ensinou que uma criança que não sabe escrever faz mais uso da fala. Isso chamou a atenção de uma professora que se considera experiente, com mais de vinte anos de magistério. Outro elemento

importante nessa fala é o fato de que falta tempo para o profissional buscar aperfeiçoamento em sua profissão e há indícios de que essa formação pode ser um fator de mudança atitudinal, baixando a ansiedade e favorecendo uma relação outra com os alunos.

Esse efeito da formação fica evidente em Maristela, que relata dois momentos formativos importantes em relação à sua atitude diante da inclusão e da educação pública.

O primeiro deles é o mesmo curso mencionado por Rafaela. Ela é a única a mencionar o nome do programa criado pela prefeitura: “Toda a força para a primeira série” (TOF). Ela disse que estava gostando do curso, pois aprendeu muito. Por outro lado, tiveram que lutar para conseguir participar desse programa. Era um programa para reforçar o ensino da primeira série, a alfabetização, mas só puderam começar a freqüentá-lo em agosto. Até então, no primeiro semestre, o programa era oferecido às coordenadoras da escola, que relataram não ver muita utilidade nisso, pois elas não tinham experiência com alfabetização e mal poderiam passar o que aprenderam para as professoras, sendo que essas eram quem realmente deveria estar no curso.

O segundo momento formador importante mencionado por Maristela foi um curso de pós-graduação que fez na Universidade de São Paulo, alguns anos antes, sobre psicologia e educação: “aí minha visão começou a mudar”. Foi nesse curso que ela resolveu abandonar o ensino particular e se dedicar à educação pública. Após o pedido do entrevistador para explicar melhor essa mudança de visão, ela disse:

O que que a faculdade ajudou: porque como eu fiz psicologia, eles te fazem ver, te fazem olhar, ver melhor. Então eu comecei a perceber que aquilo não era adequado, essa visão não era adequada, nem pra mim nem pros meus filhos. Sabe, lá [na escola particular] eu tinha bolsa, né, e eu falei: não quero isso pra eles. E eu fui ver o que eu queria realmente,

procurei algo que era a minha cara e a cara deles. Eu tirei eles de lá, minha filha tava na sétima série. Mas ela não era feliz lá, porque a gente tinha uma outra visão também. Porque eles tinham uma visão de ter, possuir, e também não era a nossa, né... pra você ter uma idéia, hoje ela faz Letras na UNESP, quando ela encontra no MSN ela fala: mãe eu nem falo com o pessoal de lá. Eles são tão vazios, tão sem... hoje ela me agradece por ter tirado da escola...

Então foi a Psicologia, foi lá a Marilene, a Marilize, entre outras, né... que me fizeram ver... que me fizeram... foi tudo o que aconteceu, mudou minha vida radicalmente. Meu marido me apoiou na época, porque eu falei: eu não quero mais isso. Também juntaram outras questões, lembrando assim, né... eu tinha ficado grávida, e eles me tiraram o jardim dois, eu tava adorando trabalhar com eles... e eles me tiraram... coisas assim, você percebe que você não é nada... também colocaram pra trabalhar comigo pessoas incompetentes, as auxiliares, só porque eram bonitas, beleza... contratam porque têm lindos olhos azuis, cabelo loiro. Então acha que a pessoa porque é bonita, fala bem, ela é competente, mas não é...

Eu gosto de trabalhar mesmo na escola pública. Lógico que a gente podia ser melhor remunerado, que eu não tivesse que trabalhar dois períodos pra dar conta dos compromissos financeiros, mas é muito gratificante, né. Saber que aquela pessoa precisa de você, que você é essencial, faz a diferença. E agora a inclusão que é algo novo pra mim. Eu tô aprendendo, é o que eu tô te falando, sempre tem algo novo [risos]...

A psicologia é apontada como um conhecimento potencialmente transformador da forma de ver o mundo. A partir de uma psicologia de orientação crítica – deve-se destacar –, Maristela passou a ver a educação particular com outros olhos, repensando inclusive questões familiares, pessoais e profissionais. Daí seu gosto pela escola pública, por fazer a diferença, por enxergar a inclusão como um desafio, sem deixar de reconhecer as dificuldades e a exploração de seu trabalho.

Maristela menciona em seu discurso livre que, com Rafaela e Paula, estava participando do curso de formação oferecido pela prefeitura, destacando a relevância dessa formação para sua prática. Rafaela o menciona de passagem, como uma boa contribuição. Paula não o menciona. Não teria para esta a mesma relevância que para aquelas? Lembremos que ela tem poucas esperanças de que algo possa mudar na educação. Seria uma questão pessoal o que determina a postura assumida diante da educação pública ou dos cursos de formação continuada? É pessoal a capacidade de ainda negar a realidade educacional

presente afirmando a necessidade de um novo olhar? Há aqui um indício de que os programas de formação precisam dar destaque às atitudes dos professores diante dos ideais a serem desenvolvidos. Veremos, na subseção sobre as perguntas da entrevista, que, segundo Flávia, houve um trabalho de introdução da inclusão na escola, mas muitos professores não o aproveitaram pela resistência inicial diante da proposta.