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Features of the present wake flow

Dentre os diversos temas tratados, a fantasia, enquanto potencial transformador da realidade, merece destaque. Nos discursos livres, não foram feitas menções diretas às fantasias, mas, justamente por serem discursos livres, permitem uma expressão maior das fantasias. As falas de três professoras merecem maior atenção.

Retomando as interrogações que encerraram a seção anterior, que dizem respeito à atitude diante de um curso de formação continuada, é importante retomar a fala de Paula sobre suas perspectivas futuras:

Eu fico até preocupada porque hoje, com o aumento de alunos, por número... é impossível, você não consegue ajudar... você tem que retomar tudo... a minha questão é essa: Meu Deus o que é que eu vou fazer pra poder melhorar isso, porque também, você não pode ficar vivendo em conflito, direto né... porque senão você não vai dar aula nunca... o professor está precisando de terapia porque hoje a gente vê tanta gente assim, tomando remédio, procurando alternativas... ontem eu até li uma matéria que falava que hoje as pessoas estão plastificando suas vidas, as pessoas não estão mais sonhando... isso que me assusta... e passa também pela nossa prática. Nossa prática também vai por água abaixo... então é isso... mas a minha perspectiva não sei se vai melhorar... eu penso em ser otimista, né, sempre falo: não, vai melhorar... não sei se o governo atual pode fazer isso...

A alternativa é o remédio, a vida artificial, não mais sonhar ou fantasiar. A perspectiva não encontra possibilidade de melhora, os lampejos de otimismo são

deslocados para uma possível ação governamental. Nesse contexto, podemos imaginar que as contribuições oferecidas pelo curso de formação, apontado como positivo por outras duas professoras, não foi relevante para Paula, que já não consegue enxergar alguma transformação. Como ela mencionou em outro momento do discurso livre: “a gente não consegue quase nada...”.

Já a professora Maria apresenta um caminho diverso para as suas fantasias, que ainda podem residir no campo da educação, apesar das frustrações de uma vida profissional que não tomou o rumo desejado.

Bom, como professora é o seguinte, eu na verdade nunca quis ser professora... eu tinha vontade de ser outra coisa. Gostava de desenhar, desenhava moda, assim quando eu era criança e isso é uma habilidade rara. Uma criança gosta de desenhar outra coisa e eu gostava de revista de moda e de desenhar roupa. Desde os sete anos, eu desenhava roupa e... mas eu não tinha condição pra... no interior isso daí é balela, né... cê fala assim: eu quero ser estilista – as pessoas têm que ter o pé no chão, né... isso não vai te proporcionar condição pra sobreviver. Se eu fosse você, pensaria em alguma coisa mais palpável. Tem que ter família estável... por exemplo, eu não tenho mãe nem pai, né... sou órfã. Eu fui criada pela minha avó. A minha avó não tinha condições de ficar com tantas crianças, ela cuidava de seis crianças... então o que ela podia proporcionar ela proporcionou. Tomar conta de toda essa criançada é difícil, né? Dois já é difícil. A família fez o que pôde, falou: vai fazer o magistério ou um curso técnico, você pode ter uma profissão e dessa você mudar. Então acho que foi isso que aconteceu, eu fiz o magistério e quando eu estudava eu gostava, porque sempre fui boa aluna. Sempre gostei de estudar, então não tive problema durante o curso, né. Mas, quando eu comecei a trabalhar, daí eu vi que era muito sonho pra ser realizado, então eu me frustrei demais, né. E... aí eu acho que... aquilo que eu já não tinha vocação, eu acho que fui me frustrando. Eu não me acho uma pessoa incompetente... até não me acho... mas eu vejo que há muitas dificuldades mesmo e hoje eu vivo com isso de forma real... como pessoa eu não me sinto realizada, profissionalmente... porque eu não fiz aquilo que eu sempre quis. As pessoas falam: ainda há tempo, mas eu como uma órfã, que vim pra cá morar com uma tia e tinha que trabalhar, não tinha como voltar... Porque, desde que eu pisei aqui, eu divido aluguel, eu divido água, luz, telefone... acho que eu sou uma sobrevivente mesmo, entendeu? E é assim até hoje. E eu não voltei porque eu sempre trabalhei muito, trabalhei em escola pública, trabalhei muito em Estado e prefeitura [...] então assim, eu gosto mais da criança pequena... eu gosto mais do meu trabalho na educação infantil. Eu queria ter mais tempo pra me dedicar mais, né? Eu fico em duas escolas, eu acho puxado, eu acho pouco tempo pra me dedicar. Se fosse pra optar hoje, eu ficaria com as crianças do ensino infantil. Gosto do carinho, gosto de como a criança da educação infantil fantasia as coisas e eu gosto de fantasiar. É mais a minha cara. Eu me sinto mais realizada lá, eu acho... eu me sinto mais feliz lá. É um espaço diferente, te dá... não cobra conteúdo. É essa coisa mais, sabe... cobra trabalho, mas um trabalho mais livre, bem lúdico, bem né... tem brincadeira...

A educação infantil é uma forma de elaborar o luto de uma escolha profissional frustrada. Maria, uma sobrevivente, encontra no carinho e no fantasiar um gosto que falta em outros momentos da vida. A liberdade e o brincar alimentam um desejo de maior dedicação, de querer trabalhar mais e melhor pela educação das crianças. A fala de Maria é um indício de que a educação infantil pode ser uma boa fonte para referenciar a prática inclusiva nos demais níveis de ensino. Nela ainda se fantasia. Por estar livre do conteudismo, o afeto e o brincar ainda estão presentes.

A terceira postura diante da fantasia e do trabalho docente na rede pública é a já mencionada atitude a favor da educação pública como um espaço mais livre e inclusivo que a educação particular. Maristela declara ser o ensino público gratificante e vê nele algo desafiador, uma forma de se fazer a diferença, uma possibilidade de ofertar educação de qualidade. Lembremos que ela menciona alunos de escola pública que se destacaram em uma escola particular que lhes concedeu bolsa. Ela encontra uma gratificação prazerosa em seu trabalho.

Nesta subseção, encontramos o contraponto da falta de perspectiva que afeta a formação. Maria encontra maior motivação diante das fantasias, do lúdico e da liberdade da educação infantil, uma área que possivelmente contribua na construção da educação para todos, assim como a educação especial. Maristela lembra a possibilidade de se extrair prazer do trabalho na escola pública, apontando para um caminho que é o de aprofundar as pesquisas com professores que conseguem manter a motivação, identificando elementos que possam contribuir para uma transformação educacional que possibilite a um número maior de professores uma vida profissional mais satisfatória.