O presente capítulo apresenta a análise dos principais resultados encontrados. São feitos, ainda, breves comentários sobre a interdependência dos resultados; contudo, a análise conjunta dos dados e suas implicações serão realizadas no próximo capítulo, dedicado à conclusão do trabalho.
A amostra foi constituída por 3.365 municípios. A tabela 3 apresenta a distribuição dos municípios por região, assim como o número de municípios eficientes e ineficientes. No Brasil, 167 municípios estão localizados na fronteira eficiente, o que corresponde a 4,96% do total de municípios estudados. A região com mais municípios na fronteira é a Região Norte, seguida, respectivamente, das Regiões Sul, Centro-Oeste, Sudeste e, em último lugar, da Região Nordeste. A posição ocupada pela Região Norte pode ter duas explicações: em primeiro lugar, mesmo sem assistência médica, alcança-se um nível mínimo de expectativa de vida e máximo1 de mortalidade infantil, esse fato associado à completa escassez de recursos termina por garantir uma boa relação entre insumos e resultados; em segundo lugar, erros nas informações sobre mortalidade e expectativa de vida podem favorecer a região. O restante da classificação não apresenta grandes surpresas. A Região Sul possui a maior parte, em termos absolutos, dos municípios considerados eficientes e, em termos relativos, está em segundo lugar. Centro-Oeste e Sudeste são, respectivamente, segundo e terceiros colocados em termos relativos, porém, com relação a valores absolutos, o Sudeste ocupa o segundo lugar.
É útil destacar que o conceito eficiência técnica não implica em grandes resultados em termos de taxa de mortalidade infantil (TMI) e expectativa de vida. Um município do
1 Há um número mínimo de crianças que sobrevivem ao nascimento e alcançam a idade adulta, mesmo sem
Nordeste pode estar localizado na fronteira, mas possuir uma alta taxa de mortalidade infantil e baixa expectativa de vida. Ele pode até mesmo ter indicadores piores do que os possuídos por um município ineficiente de outra região ou mesmo do próprio Nordeste.
Tabela 3: Número de Municípios Eficientes
Número de
M unicípios Eficientes
Número de M unicípios Ineficientes Totalpor Região Eficientes/ Ineficientes Centro- Oeste 18 323 341 5,57% Nordeste 35 1.105 1.140 3,17% Norte 25 206 231 12,14% Sudeste 37 898 935 4,12% Sul 52 666 718 7,81% Brasil 167 3.198 3.365 4,96% Elaboração: Autor
A Tabela 4 apresenta as médias e os desvios-padrão da eficiência por região. Adotando-se o desvio-padrão como medida de homogeneidade, a Região Norte surge como a mais heterogênea e a Nordeste como a mais homogênea do país. As Regiões Sudeste e Centro-Oeste possuem um desvio-padrão praticamente igual: o da Região Centro-Oeste é apenas 0,0033 maior que o da Região Sudeste.
Tabela 4: Eficiência por Região
Eficiência por Região Região Eficiência
M édia Desvio-Padrão
Centro-Oeste 0,5079 0,2283 Nordeste 0,4579 0,2084 Norte 0,5623 0,2482 Sudeste 0,4993 0,2250 Sul 0,5312 0,2318 Elaboração: Autor
É insuficiente uma análise que se limite a classificar quais regiões são mais ou menos eficientes que seus pares. Qual o significado da eficiência, as diferenças entre eficientes e ineficientes, as diferenças entre municípios eficientes de regiões diferentes e dos municípios ineficientes, são questões complementares à mensuração da fronteira eficiente. Da Tabela 5 à Tabela 10 são comparados insumos e produtos dos municípios eficientes, ineficientes e as médias entre todas as regiões brasileiras e a média nacional.
A distribuição do número de médicos pelo país segue um padrão bastante heterogêneo. Apesar de sua relevância para os serviços de saúde pública, a mobilidade do fator médico, assim como do fator enfermeiro, está muito mais associada à uma decisão do indivíduo em fixar ou não residência em determinado lugar do que às decisões de política pública2. A princípio, é esperado que as regiões mais ricas possuam uma maior disponibilidade de médicos e enfermeiros por mil habitantes, pois, como visto no Capítulo 2, oferecem maiores incentivos para que indivíduos produtivos fixem residência3.
A distribuição do número de médicos é apresentada na Tabela 5. A média do país é de 1,48 médicos para cada mil habitantes. A Região Sudeste possui o maior número de médicos, com um total de 2,3 por mil habitantes; é seguida pelas Regiões Sul, Centro- Oeste, Nordeste e Norte, com, respectivamente, 1,63; 1,16; 0,98 e 0,69 médicos por mil habitantes.
É evidente a má distribuição de médicos ao longo do território nacional. O Sudeste possui cerca de 3,5 vezes mais médicos por mil habitantes que o Nordeste. O impacto desse fato na qualidade dos serviços prestados não é tema deste trabalho, mas pode-se, com
2 O gestor público pode oferecer salários mais altos no interior, com o intuito de atrair mais médicos. Ainda
assim, a decisão sobre a mudança caberá ao bacharel.
3 No Brasil, as vagas dos cursos de medicina são as mais disputadas. Portanto, é razoável se esperar um alto
razoável sensatez, supor que, abaixo de determinado valor, a qualidade do serviço é comprometida. A concentração de profissionais na Região Sudeste pode ser explicada por outra concentração, a de faculdades de medicina.
Ao serem observadas as diferenças entre os municípios eficientes e os ineficientes, é possível endossar a hipótese de que a posição da Região Norte como a mais eficiente do país está, principalmente, relacionada a uma escassez absoluta de recursos4, e não a um sistema de saúde bem organizado. A Região possui apenas 0,69 médicos por mil habitantes e os municípios localizados na fronteira eficiente têm o ínfimo número de 0,28 médicos por habitante. Essa indisponibilidade de recursos humanos deve, fatalmente, limitar a efetividade de qualquer política pública de saúde.
Algumas Regiões são mais homogêneas do que outras, na distribuição de médicos entre seus municípios. O Sudeste é a Região mais heterogênea, com um coeficiente de variação superior a 1; e o Centro-Oeste, a Região mais homogenia, com um coeficiente de variação de apenas 0,59. Com a exceção das Regiões Norte e Nordeste, os municípios eficientes têm uma distribuição mais igualitária no número de médicos; o mesmo vale para a média nacional.
4 O retorno decrescente dos insumos, amplamente debatido no Capítulo 2, também deve contribuir para esse
Tabela 5: Médicos por Mil Habitantes
M édicos por milHabitantes
Região Classificação M édia Desvio-Padrão Coeficiente de Variação Centro-Oeste Eficiente 0,71 0,40 0,56 Ineficiente 1,19 0,69 0,58 Todos 1,16 0,69 0,59 Nordeste Eficiente 0,47 0,32 0,67 Ineficiente 0,99 0,63 0,64 Todos 0,98 0,63 0,65 Norte Eficiente 0,28 0,24 0,87 Ineficiente 0,75 0,56 0,75 Todos 0,69 0,56 0,80 Sudeste Eficiente 1,75 1,18 0,67 Ineficiente 2,32 2,99 1,29 Todos 2,30 2,94 1,28 Sul Eficiente 1,21 0,74 0,61 Ineficiente 1,66 1,35 0,82 Todos 1,63 1,32 0,81 Brasil Eficiente 0,98 0,89 0,91 Ineficiente 1,51 1,85 1,23 Todos 1,48 1,82 1,23 Elaboração: Autor Fonte: IBGE/MS - AMS
Quanto ao número de profissionais de enfermagem, o último lugar em disponibilidade de profissionais é ocupado pela Região Nordeste, como pode ser visto na Tabela 6. Sul e Sudeste têm praticamente o mesmo número de enfermeiros por mil habitantes, assim como o Norte e o Nordeste. Enquanto no caso dos médicos, os municípios mais eficientes eram mais homogêneos na distribuição geográfica dos profissionais, exceção feita ao Norte e Nordeste, no caso dos enfermeiros, municípios eficientes possuem uma distribuição pior.
Um fato curioso pode ser observado na comparação das Tabelas 5 e 6: ao contrário do que acontece no restante do país, a Região Sudeste possui um maior número de médicos do que de profissionais de enfermagem.
Tabela 6: Enfermeiros por Mil Habitantes
Profissionais de Enfermagem por milHabitantes
Região Classificação M édia Desvio-Padrão Coeficiente de Variação Centro-Oeste Eficiente 0,71 0,61 0,86 Ineficiente 1,39 0,93 0,67 Todos 1,35 0,93 0,69 Nordeste Eficiente 0,62 0,84 1,35 Ineficiente 1,37 0,94 0,69 Todos 1,34 0,94 0,70 Norte Eficiente 0,87 0,56 0,65 Ineficiente 1,55 0,87 0,57 Todos 1,48 0,87 0,59 Sudeste Eficiente 1,31 1,49 1,14 Ineficiente 1,96 1,74 0,89 Todos 1,93 1,73 0,90 Sul Eficiente 1,54 1,06 0,69 Ineficiente 2,00 1,15 0,58 Todos 1,96 1,15 0,59 Brasil Eficiente 1,10 1,10 0,99 Ineficiente 1,68 1,28 0,77 Todos 1,65 1,28 0,78 Elaboração: Autor
Fonte: IBGE/MS – AMS 1999
As Tabelas 5 e 6 tratam de recursos humanos e as Tabelas 7 e 8 possuem informações sobre os recursos físicos existentes nos municípios.
Conforme a Tabela 7, o Brasil possui uma média de 3,6 leitos por mil habitantes; os municípios eficientes, 2,8; e os ineficientes, 3,64. O maior número de leitos por mil habitantes está localizado na Região Centro-Oeste, com cerca de 4,65 leitos por mil habitantes. Na Região Sul, onde se encontra a segunda maior quantidade de leitos por mil habitantes, 4,3 para cada mil, os municípios eficientes possuem apenas 0,3 leitos a menos que a média da Região. O Norte possui mais leitos por mil habitantes que o Nordeste e cerca 64% do que possui a Região Sul. Esse valor é surpreendente dado à disponibilidade
de médicos na região, que, conforme a Tabela 5, é cerca de 42% da disponibilidade do Sul e de 69% daquela existente no Nordeste.
Tabela 7: Leitos por Mil Habitantes
Leitos por milHabitantes
Região Classificação M édia Desvio-Padrão Coeficiente de Variação Centro-Oeste Eficiente 3,47 2,74 0,79 Ineficiente 4,71 3,52 0,75 Todos 4,65 3,49 0,75 Nordeste Eficiente 1,45 1,44 1,00 Ineficiente 2,73 2,08 0,76 Todos 2,69 2,08 0,77 Norte Eficiente 1,65 1,33 0,80 Ineficiente 2,90 1,57 0,54 Todos 2,76 1,58 0,57 Sudeste Eficiente 2,86 2,03 0,71 Ineficiente 4,04 3,99 0,99 Todos 4,00 3,94 0,99 Sul Eficiente 4,00 2,67 0,67 Ineficiente 4,33 2,48 0,57 Todos 4,30 2,48 0,58 Brasil Eficiente 2,80 2,37 0,84 Ineficiente 3,64 3,04 0,83 Todos 3,60 3,01 0,84 Elaboração: Autor
Fonte: IBGE/MS – AMS 1999
O número de consultórios por região é apresentado na Tabela 8. Pode-se ver que o Sul do país possui quase o dobro de consultórios por mil habitantes do que o existente na Região Norte. Sul e Sudeste possuem mais consultórios do que a média nacional; o Centro- Oeste está praticamente na média; e o Norte e Nordeste estão abaixo da média. A menor disponibilidade é encontrada na Região Norte. Com a exceção do Nordeste, os municípios eficientes são mais homogêneos no número de consultórios por mil habitantes do que os ineficientes.
Tabela 8: Consultórios por Mil Habitantes
Consultórios por milHabitantes
Região Classificação M édia Desvio-Padrão Coeficiente de Variação Centro-Oeste Eficiente 0,50 0,37 0,74 Ineficiente 0,74 0,61 0,82 Todos 0,73 0,60 0,83 Nordeste Eficiente 0,37 0,30 0,81 Ineficiente 0,62 0,38 0,61 Todos 0,62 0,38 0,62 Norte Eficiente 0,34 0,32 0,94 Ineficiente 0,50 0,34 0,69 Todos 0,48 0,34 0,71 Sudeste Eficiente 0,66 0,41 0,62 Ineficiente 0,88 0,46 0,52 Todos 0,87 0,46 0,53 Sul Eficiente 0,76 0,46 0,61 Ineficiente 0,93 0,49 0,53 Todos 0,92 0,49 0,54 Brasil Eficiente 0,57 0,42 0,75 Ineficiente 0,76 0,48 0,62 Todos 0,75 0,48 0,63 Elaboração: Autor
Fonte: IBGE/MS – AMS 1999
As Tabelas 9 e 10 apresentam o que, no presente estudo, foi assumido como os resultados esperados de um sistema de saúde.
Pela análise da Tabela 9, o pior resultado em termos de expectativa de vida pertence à Região Nordeste, com uma média de apenas 63,82 anos. A segunda pior Região é a Norte, com uma média de 66,2 anos. Em ambos os casos, as expectativas alcançadas pelos municípios mais eficientes, respectivamente, 64,26 e 67,42, não são sequer as expectativas de vida dos municípios ineficientes do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Novamente os municípios eficientes tendem a ser mais homogêneos que os ineficientes. A exceção é, novamente, o Norte e o Nordeste, que terminam por levar essa tendência para a média nacional.
Tabela 9: Expectativa de Vida ao Nascer
Expectativa de Vida ao Nascer
Região Classificação M édia Desvio-Padrão Coeficiente de Variação Centro-Oeste Eficiente 70,78 2,34 0,033 Ineficiente 68,99 2,45 0,036 Todos 69,08 2,47 0,036 Nordeste Eficiente 64,26 4,61 0,072 Ineficiente 63,80 3,64 0,057 Todos 63,82 2,08 0,033 Norte Eficiente 67,42 3,22 0,048 Ineficiente 66,13 3,07 0,046 Todos 66,20 1,58 0,024 Sudeste Eficiente 73,11 2,78 0,038 Ineficiente 70,41 2,81 0,040 Todos 70,51 2,86 0,041 Sul Eficiente 73,97 2,53 0,034 Ineficiente 70,82 2,98 0,042 Todos 71,05 3,06 0,043 Brasil Eficiente 70,42 5,00 0,071 Ineficiente 67,79 4,42 0,065 Todos 67,92 4,48 0,066 Elaboração: Autor Fonte: IBGE – Censu 2000
Na Tabela 10, são mostrados os dados sobre mortalidade infantil. O Nordeste possui a pior taxa de mortalidade infantil, com 51,82 crianças mortas para cada mil nascidos vivos. Nota-se que esse valor pouco se altera quando se compara municípios eficientes e ineficientes dessa região. A taxa corresponde ao dobro do que é encontrado nos municípios ineficientes do Sul e Sudeste.
Nesse ponto, é útil destacar os resultados obtidos pela Região Norte e Sul. No Norte, a taxa de mortalidade infantil dos municípios eficientes é de 36,62 e a de expectativa de vida é de 67,42; esses mesmos resultados para a Região Sul são, respectivamente, 13,74 e 73,97. Um município eficiente no Sul possui resultados muito melhores que seu par do
Norte, mas, enquanto no Sul convive-se com uma razoável disponibilidade de recursos, no Norte há ampla escassez.
Na média nacional, quem vive em um município eficiente tem uma expectativa de vida cerca de três anos superior à daqueles que vivem nos municípios ineficientes. Quanto à mortalidade infantil, a diferença entre eficientes e ineficientes é de sete crianças mortas a mais, nos últimos, para cada mil nascidas. Esses dados são, por si só, um ótimo argumento em prol dos esforços pró-eficiência.
Tabela 10: Taxa de Mortalidade Infantil
Taxa de M ortalidade Infantil
Região Classificação M édia Desvio-Padrão Coeficiente de Variação Centro-Oeste Eficiente 21,35 5,72 0,268 Ineficiente 26,48 7,29 0,275 Todos 26,21 7,30 0,279 Nordeste Eficiente 51,51 16,39 0,318 Ineficiente 51,83 13,38 0,258 Todos 51,82 13,48 0,260 Norte Eficiente 36,62 12,51 0,342 Ineficiente 39,62 12,19 0,308 Todos 39,51 12,08 0,306 Sudeste Eficiente 15,63 7,05 0,451 Ineficiente 23,17 9,81 0,423 Todos 22,87 9,82 0,429 Sul Eficiente 13,76 4,58 0,333 Ineficiente 19,45 5,91 0,304 Todos 19,04 6,01 0,315 Brasil Eficiente 26,33 18,04 0,685 Ineficiente 33,71 17,48 0,518 Todos 33,34 17,58 0,527 Elaboração: Autor Fonte: IBGE – Censu 2000
A Tabela 11 permite uma comparação direta entre a taxa de mortalidade infantil e o nível de eficiência de alguns municípios. O corte das 167 menores TMIs foi realizado pois,
como visto na Tabela 3, são 167 municípios que compõem a fronteira. Percebe-se imediatamente que melhor resultado não necessariamente significa maior eficiência, já que os municípios com as 167 melhores TMIs possuem um escore de eficiência médio de apenas 0,77 para uma TMI de 10,62. Observar os coeficientes de variação permite a conclusão de que os municípios são mais homogêneos em termos de mortalidade, ao menos os extremos constantes na Tabela 11, do que em termos de eficiência.
Ao se comparar os resultados da Tabela 11 com os da Tabela 10, é possível perceber que os municípios com as 167 menores TMIs possuem uma TMI média menor do que as TMIs dos eficientes em qualquer região do país e, conseqüentemente, do que a média nacional.
Tabela 11: Maiores e Menores Taxas de Mortalidade Infantil
M aiores e M enores Taxas de M ortalidade Infantil(TM I)
Eficiência Taxa de M ortalidade Infantil
Taxa de Mortalidade Infantil Média Desvio- Padrão Coeficiente de Variação Média Desvio- Padrão Coeficiente de Variação 167 menores 0,77 0,21 0,27 10,62 1,20 0,113 10% menores 0,71 0,21 0,30 11,98 1,65 0,138 10% maiores 0,45 0,22 0,48 69,27 6,92 0,100 Elaboração: Autor
Fonte: Taxa de Mortalidade Infantil - IBGE
Muito mais homogêneo que as TMIs são as expectativas de vida, os escores das eficiências apresentam praticamente o mesmo grau de dispersão. Esses dados podem ser vistos na Tabela 12. Assim como no caso da TMI, os municípios com as melhores expectativas de vida possuem um resultado melhor do que a média dos eficientes. Esse resultado não contrapõe a conclusão de que a eficiência pode melhorar a esperança de vida e a mortalidade infantil, visto que os melhores resultados estão em municípios onde a eficiência marginal do gasto é bastante menor do que a dos municípios com resultados
ruins, assim como, mesmo possuindo um escore de eficiência médio de 0,77, esse é um valor consideravelmente superior ao escore de 0,45, obtido pelos municípios com resultados piores.
4.1.Análise Tobit
Após a análise das estatísticas descritivas, que buscou formular uma visão mais completa do significado de município eficiente e ineficiente, parte-se para a análise dos fatores que explicam, ao menos em parte, a eficiência. Para isso, um modelo Tobit foi estimado5. Infelizmente, devido a limitação dos dados, o número de observações disponíveis para esta parte do trabalho foi pouco menor do que o disponível para o cálculo da eficiência e da análise via estatísticas descritivas. No modelo Tobit, 3.257 observações estavam disponíveis para todas as variáveis escolhidas. Como pode ser visto nos anexos, o modelo é estável e robusto. Portanto, o uso de menos variáveis na regressão Tobit não afetou as inferências obtidas da regressão.
A Tabela 13 apresenta a regressão para todas as observações disponíveis, ou seja, eficientes e ineficientes. Apenas a variável distância da capital mostrou-se estatisticamente
5 O nível de confiança adotado é de 5%.
Tabela 12: Maiores e Menores Expectativas de Vida
M aiores e M enores Expectativas de Vida ao Nascer
Eficiência Expectativa de Vida
Expectativa de
vida Média Desvio-Padrão de Variação Coeficiente Média Desvio-Padrão Coeficiente de Variação 167 maiores 0,80 0,19 0,24 75,31 0,66 0,009 10% maiores 0,73 0,20 0,28 74,58 0,89 0,012 10% menores 0,46 0,22 0,48 59,22 1,51 0,025
Elaboração: Autor
insignificante. Anos de existência apresentou sinal negativo, o que pode ser explicado em virtude do aumento de complexidade do sistema à medida que o município se torna mais velho. Isso ocorreria pela necessidade de gerenciamento de estruturas de saúde mais antigas. Como esperado, a renda apresenta relação positiva com a eficiência, tema discutido no Capítulo 2. Renda mais alta atrai mão-de-obra mais eficiente e qualificada. O Coeficiente de Gini6 atua como proxy para o grau de divisão de interesses dentro do município, essa concepção segue Piola (2004) e o sinal negativo implica que piores distribuições de renda resultam em sistemas de saúde menos eficientes. Esse é um resultado esperado: quanto mais desigual é uma localidade, mais forte será politicamente o grupo econômico dominante e dificilmente esse grupo utilizará os recursos públicos para atender aos interesses do grosso da população local.
Os ganhos de escala são comprovados pelo resultado positivo obtido na variável população total. Já o sinal negativo de população urbana pode estar relacionado à concentração de bolsões de pobreza em torno dos centros urbanos. O Programa de Saúde da Família está com sinal negativo, ao deslocar profissionais e recursos de saúde para a saúde preventiva, que gera impactos ao longo prazo, ao invés de alocá-los em locais que gerem impactos mais imediatos. É esperado que, em seus primeiros anos, a eficiência em termos de médicos e enfermeiros seja reduzida, mas ao logo prazo esses resultados devem melhorar. Vale lembrar que os dados utilizados foram do ano de 2000, apenas quatro anos após a criação do programa nacional e a dois anos do Piso da Atenção Básica7.
A proxy para infra-estrutura urbana, domicílios com energia elétrica, é, como esperado, positiva. Quanto melhor a infra-estrutura do município, melhores serão as
6 Além de proxy, o índice de Gini tem um significado próprio. O resultado aponta que municípios com piores
distribuições de renda tendem a relegar a gestão dos sistemas de saúde a um segundo plano.
condições de vida e os níveis de higiene sanitária da população. Logo, menos mortes infantis e maior expectativa de vida são esperadas para um mesmo volume de gasto em sistemas de saúde.
Para captar a complexidade das enfermidades enfrentadas pelas redes municipais de saúde, adotou-se a proxy “dias de internação” ra o el supor ue problemas mais complexos demandam maior tempo de internação. O sinal negativo também era esperado, na medida em que intervenções mais complexas demandam mais médicos, enfermeiros e leitos, assim como apresentam maior probabilidade de insucesso8, ou seja, de óbito do paciente. Portanto, a complexidade aumenta a demanda de insumos e reduz o resultado, em termos de expectativa de vida.
Na Tabela 13 há um ponto, a priori, delicado para a realização de testes de hipótese, visto que é rejeitada a normalidade dos resíduos. Como resultado, nem as estatísticas t, nem a estatística F, seguem distribuições t e F, respectivamente. Conseqüentemente, os testes de hipótese usuais não podem ser realizados. Porém, segundo Greene (2005), se a esperança dos resíduos for igual a zero, os resíduos terão uma distribuição assintoticamente normal sob as hipóteses de Gauss-Markov. Ou seja, as cinco primeiras hipóteses do modelo clássico de regressão linear. Resta responder se o modelo apresenta as cinco propriedades necessárias.
8 A medida que, quando comparadas a procedimentos de menor complexidade, essas intervenções envolvem
Tabela 13: Modelo Tobit - Eficientes e Ineficientes M odelo Tobit - Eficientes e Ineficientes
Coeficientes Desvio- Padrão
Estatística Z Valor-P
Anos de Existência -0,000308 7,41E-05 -4,16E+00 0,0002 Distância da Capital 2,32E-05 2,81E-05 8,27E-01 0,43633
Renda 0,000506 5,80E-05 8,73E+00 0,0000 Gini -0,587338 4,24E-02 -1,38E+01 0,0000 População Total 3,02E-06 5,07E-07 5,96E+00 0,0000 População Urbana -3,20E-06 5,19E-07 -6,16E+00 0,0000 Programa Saúde da Família -0,000529 1,20E-04 -4,40E+00 0,0000 Domicílios com Energia Elétrica 0,001052 2,94E-04 3,58E+00 0,0002
Duração média das Internações
(Dias) -0,003213 0,00098 -3,27E+00 0,0011
Distribuição do Erro
Escala:C(9) 0,224943 0,002793 8053141 0,000 Média da Variável Dependente 0,494621 Desvio-Padrão da
Variável Dependente 0,224606 S.E. of regression 0,224594 Critério de Informação
de Akaike
-0,142301 Soma dos quadrados dos Resíduos 1637862 Avg. log likelihood 0,074221 Log likelihood 2417376
Elaboração: Autor
A primeira hipótese do Modelo Clássico de Regressão Linear diz que o modelo é linear nos parâmetros, como pode ser visto no Capítulo 3; essa hipótese é atendida. A segunda hipótese diz que X é uma variável não-estocástica fixada em amostras repetidas; a