Compreendo este trabalho não apenas como uma tentativa de apreender epistemologicamente e metodologicamente a disciplina de Bioética Islâmica, senão de posicionar o islã dentro da modernidade, procurando dar a ver as alternativas ao status quo neoconservador presente contemporaneamente em quase todas as sociedades islâmicas existentes.
A tarefa de reflexão a que se propôs este trabalho refere-se, assim, à tentativa de delineamento do pensamento islâmico contemporâneo desde a conformação do islã moderno até a apresentação dos feminismos islâmicos como possíveis contrapontos relativamente à ortodoxia neoconservadora vigente. Este recorte fez-se necessário por reconhecermos que qualquer tarefa de reflexão relativamente à produção intelectual islâmica atual exigir-nos-ia compreender em que termos o que é tido como “islâmico” se apresenta.
Nesse sentido, a bioética como um campo do conhecimento que envolve reflexões sobre temas diversos como os biotecnocientíficos, sociais e ambientais, concomitantemente às questões morais relacionadas à saúde, não poderia ser analisada como se fora uma produção acadêmica destituída da historicidade do pensamento, aquela que se conforma em consequência da modernidade.
O pensamento a que estamos chamando de moderno afigura-se com os colonialismos da segunda modernidade na medida em que o ocidente passa a ser um horizonte de comparação para as populações colonizadas da África e da Ásia. Primeiramente como um lugar para onde se quer chegar e, posteriormente, tendo em vista a política dos centros imperiais, tomado como um mote de resistência nacionalista e cultural. Essa resistência logra agregar ideologias políticas cujo idioma identitário será o religioso. Visto como um caminho de resistência aos colonialismos e depois aos nacionalismos árabes, esse idioma religioso pendulará desde ações sociais, atuação política, como também de resistência armada.
Tendo sido uma ideologia que, em vários aspectos, procurou recuperar uma ética islâmica originária, aquela praticada pelos primeiros salafis, ou contemporâneos do profeta, esse novo pensamento religioso, que estará sempre se restabelecendo conforme as questões políticas do momento, passará a ser configurado pela ideologia wahhabi proveniente da Arábia Saudita. Primeiramente
pelo acolhimento de uma resistência que sofre grande baixa em seus países de origem; e, em um segundo momento, por meio da influência bilionária dos petrodólares na construção de mesquitas e madrasas, na formação dos clérigos muçulmanos, e no treinamento dos jihadistas nos campos de guerra do Afeganistão, e outros espaços em que a resistência armada fora chamada a atuar.
O que atualmente se entende por islâmico, portanto, refere-se a um pensamento que se vê como eminentemente político e comprometido com a realidade, cuja inspiração advém de um tempo, no mais das vezes fictício, em que houvera justiça social e um ethos islâmico que correspondia às prescrições proféticas, e à vida da primeira comunidade. Desse modo, para o islã moderno, os séculos posteriores ao nascimento do islã contribuíram pouco ao seu enriquecimento, uma vez que agregaram elementos que são considerados exógenos à sua identidade como religião.
É nesse sentido que entendemos o conteúdo dessas ideologias como pertencente à modernidade, visto que procura diferenciar-se de outras tradições de pensamento, acorrendo a um suposto lugar de origem, e pretendendo que esses conteúdos possam orientar eticamente os conflitos morais. Tal pensamento recolhe da tradição apenas elementos que considera interessantes a fim de reificar seus discursos, desfazendo-se de análises históricas necessárias para se compreender a sociedade da Arábia do séc. VII.
Esse movimento ocorre de duas formas, a primeira sacralizando as escrituras (como os hadith, as sunnah, e o fiqh), ou seja, não realizando o processo crítico de pensamento que exige tanto uma análise histórica das formulações destes textos, e mesmo uma crítica ao Corão (a sua compilação, a sua linguagem figurada, ao fato de seus versículos atenderem às necessidades do momento, a sua plurissignificância, bem como outras especificidades), como também se apropriando desses textos de modo a forjar interpretações e orientações normativas e éticas inexistentes à época, desconsiderando, inclusive, os debates, as sutilezas e as diversas orientações e escolas existentes anteriormente ao que se denominou de o fechamento dos portões do ijtihad.
Contrariamente a essa posição, os feminismos islâmicos, principalmente os decoloniais, procuram recuperar elementos da tradição que possibilitem interpretações que acorram ao que consideram o espírito ético do Corão. Em vez de apresentarem leituras normativas do texto, buscam por uma ética de igualdade e
justiça que faça frente às asserções misóginas, exclusivistas e reacionárias relativas ao que consideram próprio de uma época. Trata-se não apenas de criticar os salafabismos, mas também fazer ver que o pensamento islâmico comportou uma grande quantidade de interpretações desde suas origens e em vários momentos de sua história. O totalitarismo da interpretação que hoje está em mãos de uma teologia do poder, produzida por homens que são financiados por um centro exclusivo de controle da ortodoxia, deve ser revisto não em busca de um pensamento de origem, mas, ao contrário, por meio das brechas, fissuras, e suspensão presentes em qualquer tradição de pensamento: é nesses espaços que é possível fazer existir uma tradição que se renova com o intuito de atender às demandas e deliberações internas continuamente.
A bioética islâmica ainda precisará reconhecer que se desenvolve desde pressupostos bastante recentes, embora pense refletir seus próprios fundamentos e metodologias desde um lugar de pensamento que tivesse sido originário e que não apresentasse, em quase 1500 anos de história, variações profundas tanto na sua epistemologia quanto nas conclusões normativas que dela são retiradas. Aquilo que é considerado “a ortodoxia” nada mais é do que a recuperação de assunções localizadas em espaços/tempos específicos, desde onde o debate sobre a shariah fora suprimido, apagando tanto as diversas manifestações referentes aos posicionamentos relativos a decisões éticas, quanto executando releituras a fim de atender à reificação de um discurso de poder.
O intento da dissertação, portanto, refere-se à possibilidade de discutir os pressupostos acima desde uma crítica que seja interna, ou seja, realizada desde dentro, desde um pensamento crítico às autoridades de um pensamento que alegam poder normatizar para uma imensa e diversa comunidade, desconhecendo vozes femininas, bem como outras vozes minoritárias, por não engrossarem as fileiras do
status quo islâmico.
Para além deste trabalho de compreensão, localização e discussão de uma ética islâmica contemporaneamente, pretendeu-se apresentar elementos que qualifiquem o debate sobre o islã político e/ou os jihadismos contemporâneos, visto os últimos acontecimentos ocorridos em janeiro e novembro do presente ano, mormente relacionados à falência de alguns Estados do Oriente Médio, à prematuridade do término da primavera árabe em tantos outros países, os
neocolonialismos e, é claro, a criação, num vácuo de poder, na pobreza, destruição, e contrabando de armas, do Daesh.
Desnecessário dizer que esse debate restará em alguns poucos meios acadêmicos, fortalecendo posicionamentos sobre um nós e outro cujo diálogo restará impossibilitado pela total “inexistência” de vínculo ou qualquer outra familiaridade e/ou compatibilidade histórica, existencial e moral.
Se devemos falar em lados, então, de um lado temos a destruição de Estados por interesses escusos, o fortalecimento de uma resistência apoiada pelos vendedores de armas, ideologias e caos, que “acolhem” refugiados sem se preocupar em apontar o fato de que estão despatriados também por consequência de suas ações. De outro, temos o fortalecimento de um discurso reacionário, que se vale dos desmandos do Império para angariar guerreiros às suas fileiras, que se fortalece com a supremacia branca dos discursos civilizatórios e dos ataques indiscriminados em uma guerra dita justa por ambos os lados.
Mesmo que não estejam nas fileiras do Daesh, as comunidades muçulmanas precisaram rever seus posicionamentos em relação a que religião e/ou ideologia defenderão com sua vida e com a vida de suas filhas e filhos, ainda que fragilizadas e receosas de realizar uma crítica desde dentro que seja frequente, revigorante, atual, reformadora e radical. Essa tarefa não será fácil, pois que, de um lado, a colonialidade do poder continua operando a fim de destruir todo e qualquer projeto epistemológico próprio, por meio, principalmente da dizimação de milhões de vidas. De outro, que fazer, desde onde lutar e que discurso de paz e igualdade manter se não há mais que escombros?
Ainda sim, entendemos que o trabalho realizado por esta dissertação de dar a ver as vozes dissidentes, principalmente aquelas que vêm sofrendo um poderoso ataque tanto dos neoconservadores quanto dos neoseculares, forneça subsídios, e talvez mais ainda, esperança, para que os conflitos morais sejam solucionados em outras bases de militância política. Difícil dizer se uma ética de igualdade e justiça sobrelevaria situações de completo abandono social, econômico, político, enfim, de uma ideia de pertencimento e possibilidade de existência comunitária.
No entanto, resta-nos o poder da palavra, da linguagem e do discurso; esse, que promoveu as maiores atrocidades, grande parte delas na modernidade, pode vir a ter também alguns frutos que não sejam apenas os de destruição. Esperemos que não tenhamos contar com as consequências nefastas advindas de situações-limites
como esta que enfrentamos, esperemos que em momentos como o experienciado pelas duas grandes guerras, em que todos são chamados a admitir seu quinhão de responsabilidade, as relações possam se realizar sob outros termos. Esperemos, então, que o sistema aposto pelos colonialismos, pelo capitalismo e pela colonialidade possa desaparecer e que, em algum momento, as diversas comunidades étnicas, de pensamento e de afinidade possam se desenvolver e subsistir.