Neste momento dedicar-me-ei ao debate das questões pertinentes à metodologia empreendida na pesquisa de coleta de dados (amplamente conhecida como pesquisa de campo). Para início de debate, pretendo fazer algumas considerações a respeito da escolha pessoal em relação ao tema da pesquisa. Os postulados metodológicos da Ciência Sociais nascente com Auguste Comte (1978) e, algum tempo depois, sistematizada por Émile Durkheim com a nomenclatura até hoje conhecida por Sociologia, prescreveu que o conhecimento das dinâmicas sociais só seria possível com o distanciamento analítico do sujeito-objeto. Essa promessa racionalista é problemática porque fazer ciência pressupõe o mínimo de envolvimento do “sujeito” com aquilo que investiga; principalmente, quando este “objeto” envolve outros sujeitos que agem conforme determinados objetivos socialmente referidos. Assim, as escolhas que realizamos ao longo da vida em seu sentido mais amplo, nunca são neutras. Estão prenhes de significados pessoais, aptidões, inclinações, juízos de valor (o que Max Weber analiticamente denominou de valor axiológico), visões de mundo. Não me furto dessa responsabilidade. Os primeiros contatos que estabeleci com a pesca artesanal deram-se na infância. Lembro-me dos manguezais enormes, o odor característico da decomposição orgânica na água do rio, a olaria às margens das águas, as canoas e baiteiras atravessando o Paroeira (rio da região), jovens e mulheres passando ao longo da rua em que eu morava vendendo peixes, caranguejo, mariscos em pratos plásticos a preços módicos.
Essas visões povoaram meu imaginário, compartilhado com os meus amigos da infância. Lembro-me das tardes longas que ia ao mangue com meus amigos para tomar banho e capturar caranguejo com instrumentos denominados de “ratoeiras”
23. Cada caranguejo que capturávamos era motivo de comemoração; na falta do
caranguejo, recorríamos ao guaiamum, espécie de crustáceo que se desenvolve em áreas mais distantes do rio e da lama e cuja carapaça é levemente azulada. Ficávamos no mangue até o cair da tarde. Havia épocas que chovia muito e, quando trovejava, as encostas do manguezal ficavam apinhadas de caranguejos que saiam das tocas. Meus pais diziam poeticamente que aqueles estavam de “andada”. Este fenômeno natural é descrito com fidelidade em Homens e Caranguejos, de Josué de Castro (2001).
Esta experiência com o mundo das águas passou muito tempo adormecida. Concluí o ensino médio em 1995 e em seguida, decidi prestar vestibular para a graduação em Comunicação Social – Jornalismo. Fiz esta opção pelo fato de considerar a carreira jornalística um caminho em busca da justiça em torno da idéia de discurso libertário e emancipador. Ao longo do curso, descobri uma forte inclinação para a produção de texto, leituras teóricas em Sociologia e Teoria da Comunicação. Constatei, surpreso, que o que eu queria mesmo era seguir uma carreira que possibilitasse a inquietação e a busca da discussão de temas relacionados à vida social. O jornalismo não cabia mais em mim. Foi desse modo que decidi explorar no TCC em Jornalismo (trabalho de conclusão de curso) a seguinte temática: o uso social do corpo feminino em dois programas de auditório no domingo em dois canais de TV. Sabia que a empreitada era difícil, a começar pela carga teórica que o tema exigia, e o curso de Jornalismo priorizava a parte técnica e prática da profissão de jornalista.
23 Tipo de instrumento utilizado para capturar guaiamuns. Geralmente as confeccionam com latas de óleo e um cabo de madeira que é preso a uma isca colocada no interior da lata. Quando o guaiamum tenta comer a isca, a lata é fechada e o crustáceo, finalmente preso.
Figura. 19 : Minha primeira pesquisa de campo na Casa Branca, em Bayeux (outubro de 2000). Foto: arquivo pessoal.
Mas o projeto de realizar uma monografia sobre TV e gênero durou pouco tempo. Lembro-me claramente numa tarde que fui à Casa Branca (bairro da cidade de Bayeux) com amigos e vi pousado sob estoupas centenas de caranguejos cozidos e mulheres habilidosas tirando com facas e garfos pacientemente modificados (estes talheres são limados por meio de esmeril, que os deixam com aparência de quelíceras), para a extração da carne do abdômen e membros do caranguejo. Essa imagem ficou cristalizada na minha memória por inúmeras razões, mas elencarei algumas: o caráter de comunidade e associação que o trabalho reivindicava; um número considerável de indivíduos retirando a carne do caranguejo para o sustento da família; e a abundância do caranguejo, que me fez pensar no árduo trabalho que deveria requerer cozinhar aquele número espantoso de crustáceos. No entanto, mais de dez anos depois me encontrei com um ex-aluno e, numa conversa passageira, descobri que ele morava no bairro da Casa Branca. Perguntando sobre a atividade de extração da carne do caranguejo descobri que a atividade havia sofrido considerável declínio por conta da diminuição expressiva do crustáceo nos manguezais da comunidade, o que fez com que os indivíduos que trabalhavam nessa atividade se deslocassem para atuar em outras áreas (subemprego doméstico, trabalho informal entre outros). Deste modo, decidi visitar a Casa Branca e a situação era mais dramática do que havia imaginado: o caranguejo praticamente havia sido extinto, a pesca em processo de franca precarização, desemprego e desilusão por parte dos ribeirinhos em relação à atividade pesqueira.
Com isso, decidi realizar meu Trabalho de Conclusão de Curso em torno das questões socioambientais da Casa Branca. Comecei a realizar a pesquisa de campo em meados de abril de 2000, sob a orientação da professora Gloria de Lourdes Freyre Rabay. Assim, redundou no livro-reportagem denominado “À Margem da Liberdade: reportagem documental sobre a relação homem – mangue – sociedade”, onde faço um longo levantamento das questões sociais, econômicas, políticas, culturais do bairro da Casa Branca, cujo principal enfoque deu-se nas relações econômicas desencadeadas pelos ribeirinhos tendo como elemento significador o manguezal e suas águas estuarinas. A defesa deste trabalho aconteceu a outubro de 2000, obtendo avaliação máxima o que me estimulou a participar de seleção de mestrado em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba.
Fiz a seleção em meados de novembro do mesmo ano e fui selecionado para cursar regularmente o curso de pós-graduação. No meu Projeto de Mestrado delimitei meu problema de pesquisa à questão da relação pescador artesanal – natureza
e a mediação da narrativa do Pai do Mangue como elemento organizador das práticas sociais dentro do mangue e do rio. Tive sérias dificuldades bibliográficas porque antes ninguém havia escrito monografias sobre este fenômeno social e fui instado a discutir, amparado por autores da Sociologia Clássica, a problemática dentro de um universo delimitado e exíguo de aportes teóricos e categoriais. Em princípio, o professor Andrea Ciacchi – do Departamento de Ciências Sociais – havia aceito a minha orientação, mas infelizmente não pôde acompanhar-me até a conclusão do curso na qualidade de orientador. Fui à procura do professor Adriano de Leon, que diligentemente aceitou a empreitada de trocar idéias e experiências comigo em torno do meu objeto de pesquisa, assumindo assim a tarefa de orientar-me. A professora e antropóloga Simone Carneiro Maldonado, nacionalmente conhecida pelo conhecimento acadêmico sobre a pesca e suas implicações culturais, em muito me ajudou em suas conversas longas e profundas sobre meu problema de pesquisa e com isso meu trabalho de mestrado foi tomando forma e investido de uma discussão teórica consistente. Em março de 2003 defendi a dissertação “Sob o olhar do Pai do Mangue: a relação homem – natureza e a mediação das narrativas míticas”, cuja banca examinadora foi composta pelos professores Adriano Azevedo Gomes de Leon (PPGS/UFPB), Simone Carneiro Maldonado (PPGS/UFPB) e Alberto Guy Nishida (PRODEMA/UFPB). O trabalho obteve nota máxima e credenciou-me a participar de seleção de doutorado. Preferi passar um tempo adquirindo experiência acadêmica e vivencial para num espaço de média duração pleitear vaga num curso de Doutorado.
Em 2008, participei da seleção de Doutorado do PPGS/UFPB com o projeto “Só acredito vendo: O processo de racionalização nas relações de trabalho pesqueiro de mangue na comunidade da Casa Branca, Bayeux-PB”, onde problematizo os princípios da materialidade que organizam a vida social dos ribeirinhos e os desdobramentos no mundo da cultura histórica. Fui selecionado e a pesquisa de campo nos impõe certas singularidades que terminou desviando-me das minhas intenções iniciais de abordagem temática. Ao começar a pesquisa de campo, deparei-me com problemas sociais de uma outra ordem e que reivindicavam ser abordados numa pesquisa que mal iniciara e já se apresentava como desafio para o pesquisador etnógrafo. Os entrevistados não estavam muito interessados em falar sobre quais bases racionais erigiam seu discurso acerca da crença em seres sobrenaturais, que viviam no manguezal, mas nas relações ecológicas que se lhes apresentavam como desafio diário para a obtenção dos meios de existência na atividade de pesca. O pesquisador, falo sem
constrangimento e com uma parcela de orgulho por tanto ter aprendido em questões de método e interação social, não tem total controle sobre a sua pesquisa nem sobre que tema vai debater. Os entrevistados e o grupo social nos exigem determinadas escolhas axiológicas e de método empírico que nem sempre somos capazes de ir ao encontro delas. Caso sigamos nossas convicções pessoais, pode-se ter perdido uma grande chance de crescermos no tocante à experiência de campo e, ainda mais, de construir nossa capacidade de reformular problemas, adequar esquemas teóricos à realidade social, que está em constante transformação.
Só que as minhas aspirações de enfoque metodológico sucumbiram a elementos que estão presentes na vida e que têem uma força misteriosa e caprichosa: mudei de problemática e ampliei o locus de pesquisa. Em setembro de 2008 fui com amigos passar o fim de semana numa praia descrita por eles como “paradisíaca”. Ao chegar à Barra do Cunhaú, descobri que era um espaço social orientado para a pesca comercial simples tanto no rio quanto no mar. Os pais de Ivonaldo, amigo meu, receberam-me com hospitalidade e na casa deles estavam dois pescadores locais, Geraldo e Manoel (Seu Menininho). Conversamos sobre pesca (seria inevitável...), a cultura do lugar, hábitos, captação de pescado. A conversa, sem dúvida, abriu novas possibilidades para minha carreira enquanto pesquisador. Rimos muito, tomamos cerveja e aguardente, eu sem saber se ainda era um visitante de fim de semana ou se já estava desempenhando meu faro de etnógrafo. Surgiu assim uma proposta, feita por mim, de acrescentar na minha pesquisa a comunidade de Barra do Cunhaú, uma vez que, segundo o relato deles, havia grande demanda de pescado, fato que há muito não acontecia nas águas de São Lourenço, em Bayeux. Geraldo e Seu Menininho concordaram em me ajudar no estabelecimento de contatos, apresentando alguns membros da comunidade para contato mais intenso e servindo, também, como partícipes da pesquisa de campo.
Estava entusiasmado com a possibilidade de ampliar a temática da tese. Entrei em contato com meu orientador de então, Andrea Ciacchi e relatei as questões relevantes que tinha conseguido levantar em Barra do Cunhaú e que pretendia adicioná- la na minha pesquisa. Andrea rapidamente concordou e sugeriu que eu deslocasse a discussão para a questão da obtenção dos meios de existência e as diferentes estratégias de conseguir estes meios por intermédio da cognição. Esse empreendimento teórico- metodológico durou apenas a pesquisa de campo ser iniciada. Em campo, constatei, através de muitos relatos, que em Barra do Cunhaú não havia o pescado abundante que me disseram, pelo contrário. Deve ter sido a ação de muita aguardente e a alegria de estarem reunidos que os pescadores terminaram colocando tintas demais nos relatos na casa dos pais de Ivonaldo. Mais uma vez o problema da tese apresentava-se como um desafio, uma vez que a realidade social sempre se transpunha ao que eu queria abordar, tornando-se quase uma realidade auto-realizante (SANTOS, 2002).
Foi nesse contexto que a proposta de investigar o problema em torno da tese Guiados por mares e peixes. A princípio a orientação (mais uma vez) foi iniciada com Andrea Ciacchi que, por imperativos pessoais, não pode seguir a frente com o projeto. Entrei em contato com a professora Simone Carneiro Maldonado, falei a respeito do meu projeto e da intenção de que a mesma me orientasse no Doutoramento. A professora aceitou o convite – para minha alegria – uma vez que congregávamos de muitos valores em comum. A amizade estreita que tínhamos facilitou o processo de Figura.21 : Encontro com Sérgio e Rodolfo, numa tarde em Barra do Cunhaú (outubro de 2010).
orientação que se efetivou desde a redação da tese até na elaboração e execução de exposições de imagens com a temática da pequena pesca comercial simples.
Desta forma, a temática escolhida por mim como objeto de investigação apenas evidencia o quanto uma pesquisa científica está ancorada a fatores e forças subjetivos. Sem eles, o problema talvez nunca chegasse a seu termo: existir enquanto problema.