As leis me autorizam a prodigalizar as palavras mais arcaicas do idioma e as mais complexas metáforas. Domino a escrita secreta que defende nossa arte do indiscreto exame do vulgo.
Em O espelho e a máscara, Jorge Luís Borges.
O método qualitativo foi empregado para discutir as transformações sociais na esfera do trabalho da pequena pesca comercial simples, compreendido como o instrumental metodológico que visa levantar através do entendimento e da observação (BRASILEIRO, 2005) os elementos da cultura de uma determinada sociedade, ressaltando suas singularidades no curso histórico. Ao longo deste trabalho, ver-se-á tabelas e ilustrações que objetivam auxiliar o entendimento do problema da tese e seus desdobramentos econômicos e sociais nos loci analisados.
Salienta-se que os loci dessa pesquisa compreendem duas comunidades costeiras cujo principal produção econômica é a pequena pesca comercial simples, localizadas no Estado Rio Grande do Norte. Compreendem a comunidade praieira- estuarina de Barra do Cunhaú, localizada no município de Canguaretama e a comunidade de pescadores no município de Baía Formosa, importante centro produtor de pescado potiguar. A escolha destas dois espaços de produção da pequena pesca comercial simples deu-se pelas seguintes razões: I) serem economicamente relevantes, em contextos de pesca distintos; II) ocuparem espaços geográficos com características
socioeconômicas diferenciadas, o que enriquece a pesquisa comparativa; III) estarem circunscritos em determinações históricas singulares, apresentando assim um quadro analítico profícuo para o desenvolvimento teórico desta investigação. Dessa forma, afirma-se que esta pesquisa adotará uma análise sincrônica comparativa, ao abordar as relações de produção no espaço da pesca num contexto de significação histórica num determinado espaço temporal, comparando os elementos analíticos levantados em campo, nas duas comunidades tradicionais de pesca acima referidas.
O levantamento dos dados deu-se através da etnografia tornada concreta pela observação participante. É ela que nos oferece os contornos necessários para se observar o que se passa na nossa frente ou atrás, escondido ou oculto (ESPINHEIRA, 2008). Aliada à observação participante, a etnografia faz-se necessária como método sofisticado de entendimento da cultura do outro, através de uma descrição densa e reveladora das dinâmicas sociais envolvidas no trabalho de campo (GEERTZ, 1973). O resultado desse empreendimento em campo é a transferência de uma cultura que se desenvolve no vagar das ruas, encontrando seus atores sociais, nos espaços de convívio e interação (ESPINHEIRA, 2008), para uma forma textual e intelectualizada (CLIFFORD, 2002, p.21),
A etnografia foi um método de pesquisa utilizado amplamente pela antropologia nos séculos XIX e XX. Desempenha papel metodológico fundamental no campo das Ciências Humanas, uma vez que possibilita a observação e análise de sociedades consideradas em sua particularidade (BÉAUD e WEBER, 2007), (CLIFFORD, 1998). Este método de observação torna possível a proximidade cultural entre os agentes envolvidos, permitindo o que se denomina de encontro entre subjetividades reciprocamente referidas (GONÇALVES, 2010). A abordagem etnográfica configura-se num campo de interconhecimento articulado de tensões, ambigüidades e indeterminações que em muito afeta os encaminhamentos da pesquisa, os caminhos escolhidos pelo pesquisador, as trilhas deixadas em nome de uma rede complexa de relações sociais reciprocamente interessadas. Em relação ao entrecruzamento de experiências entre pesquisador e nativo, Gonçalves (Idem) salienta que a etnografia se efetua através da busca de semelhanças analíticas em padrões tidos como distintos. Pode-se afirmar que a abordagem etnográfica é modelada pelo fluxo de informações propiciadas pelo interconhecimento (Idem, 1998) construído pelas partes envolvidas na pesquisa. Seria o que Gonçalves (2010) apontou como principal
privilégio das Ciência Sociais valorizar a palavra do outro como fonte de análise e, a partir dessa situação, constituir uma forma singular de conhecimento.
O método etnográfico busca compreender a cultura através de um longo processo de observação das dinâmicas sociais, numa imersão no universo social e cosmológico do "outro" adicionado à descrição pormenorizada destas e posterior interpretação dos dados levantados (PEIRANO, 1992). Fazer etnografia (Doing ethnography, segundo Geertz) é estabelecer um método de análise e compreensão dos fenômenos da realidade social que quantitativamente pode-se dizer que é inviável por sua intangibilidade (religiosidade, crenças, ideologias, mitos, linguagem, relações de poder, entre outras variáveis). Sem dúvida, nos trabalhos etnográficos dos séculos XIX e XX os holofotes foram lançados sobre o conhecimento daí construído e o fascínio despertado na sociedade urbano industrial européia para conhecer os padrões (e exotismos... ) culturais do “outro”. O homem como objeto de estudo e centro da razão somente corroborava a essa nova postura diante do “outro”
Sem dúvida, concorda-se com o que Geertz (1973) afirma que o homem é um ser suspenso nas próprias redes de significado que ele mesmo criou. A relação natureza – sociedade é a base dessa “suspensão” e, sem ela, os homens, ao depararem-se com os limites impostos pelo meio, não elaborariam materialmente uma determinada “cultura”. Para entender as relações de significado das “redes” (webs of significance) o pesquisador etnógrafo deve:
Estabelecer vínculos (rapport), selecionar informantes, transcrever textos, traçar genealogias, mapear campos, portar um diário e o mais. (GEERTZ, Idem, p.6).
De acordo com Clifford (2002) o trabalho de campo etnográfico dá-se na imersão da escrita, em pari passu com o olhar, o sentir e o etnógrafo vê-se, segundo aquele mesmo, nas fronteiras tênues da tradução. E, convém esclarecer, o processo de escrita e tradução do “outro” ocorre geralmente fora do “campo”, justo no momento em que o pesquisador etnógrafo passa a interpretar os dados à luz do seu repertório cultural (PEIRANO, 1992; CLIFFORD, Idem).
Com isso, selecionaram-se através de contatos interpessoais, os sujeitos diretamente envolvidos na atividade pesqueira, tomando como referência o tempo de trabalho na pesca, faixa etária e, principalmente, através do conhecimento empírico adquirido ao longo da vida (que fosse referendado por outros sujeitos envolvidos, que me indicavam solicitamente). Para que este presente trabalho não perdesse de vista uma abordagem sociológica estrutural, decidiu-se compreender o espaço das relações de produção da pesca a partir de vários sujeitos envolvidos que não poderiam estar dissociados da análise: mulheres e jovens, além dos já citados, os pescadores. Assim, pode-se elaborar um esboço macro de uma identidade singular do grupo investigado, organizada sob o princípio de “maritimidade”. Com isso, evita-se elaborar uma análise que negligencie as diversas temporalidades e mentalidades envolvidas naquilo que Durkheim categorizou como “representações coletivas”.
Para o detalhamento das experiências individuais dos sujeitos escolhidos para compor o quadro analítico deste trabalho, determinou-se que estas experiências seriam coletadas dentro de uma proposta metodológica eficaz denominada história de vida. Wright Mills (1959) observou que para constituir a sociedade como objeto de investigação, problematizando as convenções sociais, enxergando-as como elaboração das relações entre biografia e sociedade. Assim, tomando-o como eixo condutor, a história de vida pode ser considerada como fecundo recorte metodológico para estabelecer as interligações necessárias entre estas e as relações sociais e
Perceber o que está acontecendo no mundo, e compreender o que está acontecendo com eles, como minúsculos pontos de cruzamento da biografia e da
história, dentro da sociedade. (WRIGHT MILLS, Idem, p.14).
É nessa perspectiva dialética entre biografia e sociedade; entre história de vida dos interlocutores e as forças exteriores e coercitivas integrantes da esfera social (DURKHEIM, 1971) que incidem nos primeiros como perturbações (WRIGHT MILLS, 1959). Desse modo, essa será a ferramenta teórico metodológica que conduzirá este trabalho. Para tanto, as experiências adquiridas ao longo da vida nas águas, o trabalho em grupo, os conflitos que daí resultam, as solidariedades desencadeadas, as percepções de tempo e espaço no trabalho pesqueiro, as expectativas quanto ao futuro da atividade de captura do pescado, a representação que fazem de si, do outro e do mundo do mar são elementos de investigação que compõem o mosaico social. Este “mosaico social” torna evidente que as experiências pessoais, as relações sociais de produção, as percepções do espaço e do tempo da pesca fazem parte não de experiências individuais e residuais, mas de experiências reciprocamente referidas dotadas de significado para o grupo social.
O levantamento dos dados em campo deu-se com o método de observação cunhado como observação participante, que compreende na participação negociada entre pesquisador e grupo pesquisado para obter conhecimentos sobre a dinâmica social da comunidade, do grupo ou de situação determinada (GIL, 2008). A integração do pesquisador nos loci envolvidos na pesquisa de campo efetivou-se de modos distintos, oriundos do nível de empatia, envolvimento e de elementos subjetivos que são inerentes à natureza da pesquisa que se constrói num campo de trocas intersubjetivas. A observação participante oferece contato com dados sobre situações habituais relevantes na análise sociológica; no entanto, aquele restringe o acesso a determinados “dados” por razões, na maioria das vezes, que independem da atuação do pesquisador. Dessa forma, salienta-se a necessidade de estabelecer uma relação dialógica, que aos poucos construa o que se conhece como rapport.
Para que a pesquisa de campo obtivesse o patamar desejável de dados analíticos para o entendimento do problema de tese em questão, atentou-se para o registro de dados através de caderno de campo, cada um referente a um locus da pesquisa. Após cada entrevista em campo, preencheram-se fichas de catalogação para ter o controle informacional dos entrevistados, além de permitir revisar e reelaborar questões a serem respondidas em campo (ver Anexo). Nestas fichas, encontram-se, além de dados biográficos, tempo de trabalho na pesca, modalidades de pesca em que o (a) entrevistado (a) está ou esteve envolvido (a), tipologia do pescado capturado e dos respectivos instrumentos de trabalho exigidos para cada tipo de captura, atividades produtivas paralelas ou sazonais à atividade pesqueira.
Com relação à captação de dados, as entrevistas foram construídas numa proposta de semiestruturá-las, deixando espaço para que os entrevistados pudessem falar espontaneamente sobre um assunto que considerasse importante e que, a partir disso, novas questões pudessem ser formuladas. A entrevista semiestruturada permite que entre uma questão a ser investigada à outra, pode-se inserir uma questão imediata, dependendo do grau de interação e conhecimento empírico do entrevistado (a).
É importante ressaltar que as entrevistas foram realizadas com o consentimento prévio e tácito dos entrevistados. O uso do gravador e câmeras digitais para a captação de imagens em termos de pesquisa foi oportunizado com a aquiescência e consentimento formal dos envolvidos, principalmente quando se tratou de vídeo ou imagem de plano fechado.
Figura.23: Preparo para a pesca de arrasto, pela manhã, em Barra do Cunhaú. Foto: Valbio Elias da Silva
Desse modo, este trabalho investigativo só se tornou um possível mediante esta negociação simbólica entre os envolvidos, zelando pelo respeito mútuo. Respeitaram-se, também, as recusas dos virtuais cooperadores em fornecerem dados e relatar experiências na atividade pesqueira. Sendo assim, a pesquisa de campo efetivou- se, através de uma negociação entre subjetividades, em nome de um saber teórico sobre as sociabilidades do espaço da produção pesqueira e, acrescenta-se ainda, que este saber construído a partir de experiências partilhadas possa ser objeto de discussão na sociedade em seus mais diversos espaços.