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“És um senhor tão bonito Quanto a cara do meu filho Tempo Tempo Tempo Tempo” ORAÇÃO AO TEMPO, Caetano Veloso

Gostaria de compartilhar neste momento um tipo específico de dificuldade na pesquisa de campo do doutoramento. Poderia sugerir tratar-se de um sentimento de estar à deriva em plena investigação. Feliz idiossincrasia, pois redundou neste material que aqui está. Já realizei trabalhos de campo em várias comunidades de pesca e a experiência oportunizada em Barra do Cunhaú e Baía Formosa me exigiu a tarefa de escrever um texto que discutisse a tensa negociação do tempo que dispunha e o tempo do outro. O tempo do pesquisador, num contexto de pesquisa de campo contemporânea, é demasiado curto e a breve estadia a cada ida ao campo transforma-se num desafio em si. Levantar dados numa situação dessas não é das mais fáceis, diante do jogo de poder existente entre os agentes envolvidos.

Uma das circunstâncias mais difíceis em campo é encontrar o (seu) lugar no tempo dos outros. Quando me refiro a lugar, não é alusivo ao sentido topográfico propriamente. É, sim, no sentido de estabelecer redes, ser reconhecido socialmente no grupo que pesquisa, assumindo todo o ônus que esse reconhecimento exige. Enfim, ser acolhido com todas as circunstâncias que circunscrevem a pesquisa. E este trabalho exige tempo, senso crítico e muito humor.

Em seu livro A experiência etnográfica, James Clifford desenvolve um minucioso estudo sobre a escrita etnográfica em campo ao longo do século XX. Ao longo da obra, Clifford discute a problemática dicotomia entre pesquisador de campo e os interlocutores e usa como metáfora a experiência etnográfica de Malinowski entre os trobriand, na obra Os argonautas do Pacífico Sul. Diferente do usualmente imaginado a respeito da postura do etnógrafo em campo, no diário de Malinowski há relatos sobre as difíceis condições de trabalho de quem não pertence culturalmente a um determinado espaço social. Ou como Clifford aponta:

Um antropólogo (no caso, Malinowski) com tanta autoridade aparece em seu diário íntimo como um hipocondríaco autocentrado, frequentemente deprimido, (...) envolvido numa interminável luta para manter sua autoconfiança para se manter coerente. (CLIFFORD, 2002, p.106)

O pesquisador quando se propõe a realizar uma pesquisa de campo está, em linhas gerais, suscetível a externar sentimentos como decepção, medo e raiva. Faz parte do comportamento humano a manifestação dessas idiossincrasias. Lembro-me claramente da tarde chuvosa de maio de 2009, depois de uma longa viagem de ônibus interestadual. Ao chegar a Barra do Cunhaú fui à casa de um pescador. Dei sorte: o encontrei em casa, sentei, tomei um copo com água, conversamos rapidamente e combinamos de nos encontrar à noite, na casa dele, para levantar algumas questões da pesquisa. Entusiasmadíssimo, concordou com o encontro, sorriu e despedi-me, já que ele se encontrava com visita. Da casa do pescador até a pousada em que eu estava hospedado, dava uns 20 minutos a pé. Eu a pé, nas ruas sem calçamento, encharcadas por conta da chuva, me prepararei para voltar à noite. Confesso que estava exaurido, cansado, com fome e, pior, com sono. Tomei banho, liguei a TV, desliguei (o programa de TV não era dos mais interessantes), deitei na rede e descansei por exata meia hora. Levantei, pus uma camisa, calça e uma sandália e segui a caminho da casa do pescador. Cheguei pontualmente às 19h30, me apresentei e falei com a esposa dele. Para minha surpresa, ele não estava em casa, não tinha previsão para voltar e, pelo que ela disse, provavelmente estava tomando aguardente em um dos inúmeros bares da localidade. Garanto que senti vontade de esbravejar, mas segurei a língua, agradeci a atenção e saí pelas ruas de Cunhaú me perguntando se “joguei pedra na cruz”. Cansado, mil vezes cansado, dores de coluna e naquela situação desalentadora. Mas fazer o que numa situação dessas? Decidi ir a um bar porque quando “o mar não está para peixe” o remédio é desacelerar e nada que um copo de cerveja gelada não resolva. Pesquisador que se preza conversa com qualquer pessoa. Comecei a conversar com um freqüentador do bar, à beira do rio, sobre assuntos corriqueiros, aqueles que sempre acompanham a cerveja, fielmente. Daí surgiu uma amizade profícua que resultou numa das conversas

mais ricas da pesquisa de campo: descobri que havia um descontentamento da comunidade em relação à inserção de estrangeiros no cotidiano dos cunhauenses, principalmente quando aqueles decidem fixar residência. Agradeço até hoje ao pescador por não estar em casa naquele fatídico início de noite...

Realizar uma pesquisa de campo envolve dificuldades dessa magnitude e, paradoxalmente, sempre reserva gratas surpresas para quem está atento a tudo o que o circunda. Fazer uma investigação de campo não é uma das tarefas mais fáceis para quem decide construir um estudo de observação. Não me refiro diretamente às questões de método, morais, éticas ou epistemológica. Refiro-me à discussão de ordem prática de organizar eventos e agendar encontros com pessoas. Vão exigir-lhe tolerância, humor e a capacidade de observar a realidade e “esclarecer o enigma da vida social” (CASTANHEIRA, 2008, p. 26). O relógio e os ditames do ritmo de vida urbano não combinam com o trabalho de pesquisa de campo. O tempo do pesquisador, ou o espaço de tempo disponível do seu trabalho está e deve ser organizado a partir da disponibilidade temporal do grupo pesquisado. Sem ter consciência dessa singularidade relacional, seu projeto de pesquisa pode não passar de um projeto de pesquisa...

A categoria tempo açambarca um dos principais pilares dos estudos sociológicos nas sociedades tradicionais haliêuticas, daí sua relevância na organização da vida social dessas sociedades. O tempo e os ritmos ditados por ele dão sentido à vida comunal, que está intimamente ligada a uma dupla noção temporal: o tempo linear e cronométrico, organizado dentro de padrões fixos e o tempo natural regido pelo regime das marés, do tempo da captura de cardumes. Assim, como diz Oliveira Cunha ao analisar a relação entre tempo natural e mercantil em Barra da Lagoa, Santa Catarina:

A pesca conduz o fio do tempo, percorrendo não somente a dimensão econômica, mas a sócio-cultural: a alma dos barrenses parece embebida de mar e rio; e peixes.

(CUNHA, 2000, p.103)

A partir do exposto acima, pode-se afirmar que o tempo é uma categoria que se articula dentro de padrões culturais singulares em qualquer sociedade. Ele é dimensionado a partir de fatores locais influenciados por variáveis geográficas, biológicas, econômicas e sociais. Deste modo, o tempo articula-se e é percebido dentro de uma configuração complexa na vida social. A pesca compreende uma atividade

extrativa econômica que depende do ciclo natural para, assim, poder capturar os cardumes com o mínimo de risco, pois as águas são um espaço instável, suscetível a tempestades e um perigo constante aos que as utilizam como meio produtivo (Diegues, 1983; Maldonado, 1993). Também consiste numa atividade em que o pescador pouco tem controle sobre o trabalho, pois depende diretamente da interpretação do regime da natureza e do próprio ciclo de reprodução e migração dos cardumes para reproduzir-se socialmente (KOTTAK, 1983; ROBBEN, 1989).

Há situações que somente com o tempo pode-se perceber quando se deve ou não abordar alguém para conversar. Em Cunhaú é bastante comum você ver pescadores da pescaria de lanço à margem da barra pescando atentamente por horas a fio. Contenha a sua vontade desenfreada de conversar para dali, quem sabe, encontrar um novo interlocutor para a construção da sua pesquisa. Aprendi que o pescador quando está trabalhando geralmente não gosta de ser incomodado, até porque a conversa poderá distraí-lo; se ele caso ceda à conversa, pode perder a oportunidade de capturar um cardume que passa na superfície da água. É preferível entrevistá-lo no momento de folga. É o regime da natureza interferindo nas atividades humanas... Diante deste estado de coisas, ambos (pesquisador e interlocutores) irão ganhar negociando simbolicamente a organização e utilização do tempo. Aprendi isso duramente ao abordar um pescador de linha em Barra do Cunhaú. Vinha caminhando pela praia quando o avistei em pé, com a rede pousada sobre o ombro, olhando atentamente o horizonte. Era um novato no lugar, ansioso para fazer os primeiros levantamentos para a pesquisa e, ingenuamente, perguntei se poderia conversar com ele. Respondeu-me rispidamente que não e que estava atrapalhando o “serviço” dele. Senti-me desconcertado, constrangido e com raiva de mim mesmo ao constatar como pude ser tolo ao ponto de não enxergar a obviedade da situação...

O tempo é uma das dimensões da vida social, cujas necessidades sociais são atendidas através da relação que as pessoas estabelecem no cotidiano (SZTOMPKA, 1998; THOMPSON, 1998). A temporalidade possui diferentes qualidades por meio de circunstâncias naturais ou sociais. Tanto em Barra do Cunhaú como Baía Formosa, a relação entre o tempo e o cotidiano dos pescadores articula-se em períodos de trabalho e lazer que tem correlação imediata com a sucessão do dia e da noite, do regime das marés e da disponibilidade de cardume em determinada época do ano. Thompson estabelece uma relação entre necessidade, tempo e cotidiano no trabalho em sociedades de economia simples:

A expressão operacional é “cuidar das marés”: a padronização do tempo social no porto marítimo observa os ritmos do mar; e isso parece natural e compreensível para os pescadores e navegadores: a compulsão é própria da natureza.

(THOMPSON, Idem, p. 271)

Sem dúvida, a vida das pessoas está tecida dentro de uma gama imensa de obrigações cotidianas de cuja existência o pesquisador não tem condições objetivas de saber. No entanto, não pode desconsiderar essa questão e imaginar que os interlocutores vivem no paraíso e não precisam trabalhar. Eles trabalham sim, claro; o que desconcerta, no bojo dessa situação, é o paradoxo presente nesse jogo existente entre pesquisador e interlocutores. A cabo disso, o trabalho do pesquisador de campo subordina-se ao tempo disponível dos interlocutores.

Entre aqueles que colaboram com a pesquisa e o pesquisador de campo há uma espaço preenchido por campos de significação tornados concretos através da linguagem. Ao pesquisador de campo, ou como convém denominar de etnógrafo, cabe a tarefa de decodificar o universo cultural dos interlocutores para um outro campo de significação. Geertz considera essa peculiaridade do trabalho do pesquisador como um artifício de traduzir a cultura, os valores, as representações e o sentido das dinâmicas sociais do mundo do outro. A tradução é realizada por intermédio da interação entre agentes interessados que, ao estabelecer diálogo, constrói, assim, uma relação intersubjetiva que redundará num outro texto, que procura interpretar a cultura dos outros. Este texto, no mais das vezes escrito distante do campo, vai munir-se da descrição das sociabilidades e suas inúmeras facetas e estabelecer interconexões com os paradigmas teóricos que compreendam os sentidos da organização da cultura do outro.

4.5 Experiências na pesquisa de campo: espaços, negociações e possíveis