“Aqui em casa todos são bem vindo”.
Fala de um pescador de Barra do Cunhaú.
O contato com as pessoas que vivem no espaço onde se desenrolou a pesquisa de campo foi o momento mais importante da pesquisa, uma vez que os contatos estabelecidos serão decisivos para o andamento e êxito da mesma. Este contato prévio foi bastante enriquecedor porque pode-se levantar questionamentos que o pesquisador não conseguiria construir ao longo do projeto da pesquisa. Esse aspecto crucial é parte integrante da dinâmica de uma pesquisa de campo (e em campo), pois o conhecimento construído ao longo da estadia do pesquisador provém dos contatos, diálogos e observações empreendidas pelo mesmo; com isso, o pesquisador tem a preciosa oportunidade de testar hipóteses, levantar questionamentos e construir novas idéias. Ou como nos diz Beaud e Weber:
Ora, o campo deve poder também funcionar, se não como questionamento radical das teorias, pelo menos uma série de ajustes, por vezes muito importantes. (BEAUD E WEBER, 2007, p.50)
O contato que realizei em Barra do Cunhaú foi iniciado em 2008, a partir de um convite feito por amigos que foram passar um fim de semana lá. Ao chegar em Barra do Cunhaú, muito me interessou a relação que a comunidade estabelece com o rio e o mar, retirando destes seus meios de existência. Centenas de canoas à margem do rio causaram-me interesse, pois logo percebi que era um espaço social cujas dinâmicas grupais estavam fortemente ligadas à cultura da pesca. Ao chegar a casa de Dona Dinalva e Seu Ivo, localizada próxima da “Antena” de redes de celulares, conheci dois simpáticos pescadores. Conversamos durante horas sobre pesca, a vida na comunidade e os problemas relacionados ao mundo deles. Foi uma interação muito gratificante porque rapidamente ficamos “amigos” e surgiu um convite inusitado: “Por que você não vem estudar essas coisas aqui?”. Fiquei tentado pela possibilidade de ampliar meu conhecimento sobre a pesca, negociei com o meu então orientador e rapidamente aceitou meu pedido de ampliar o tema da pesquisa, contemplando as questões suscitadas com o meu primeiro contato em Barra do Cunhaú.
A casa de Dona Dinalva fica numa rua recuada, sem asfalto e saída. Quando chove fica difícil trafegar de automóvel. Nesta mesma rua muitos pescadores residem, confeccionam redes, despescam os mariscos, tomam uma cerveja ou aguardente no fim do trabalho. Nos terraços das casas é comum ver muitas tarrafas e caçoeiras secarem, instrumentos de trabalho como remos, varas, covos e samburás. Em meio a cerveja, peixe frito, aguardente com lascas de limão e rum, animadamente ouvíamos, eu, Dona Dinalva, Seu Ivo, seu filho e nora, o harmonioso acorde do coco de zambê tocado por Seu Geraldo e Seu Menininho. Foi neste clima de alegria e integração que construí meus primeiros contatos na comunidade.
Neste contexto de pesquisa inicial, fui à Barra do Cunhaú na incumbência de levantar fontes, em meados de novembro de 2008. Fiquei hospedado na casa de amigos, próximo à praia e ao rio; em outras palavras, estava localizado num ponto estratégico da comunidade para observar, analisar e descrever a dinâmica do cotidiano da vida social local. Esse momento da pesquisa foi pontuado pela introdução do diário de campo, onde obrigatoriamente fui descrevendo minhas impressões sobre o grupo pesquisado; anotando dados fornecidos por moradores locais, endereços úteis e detalhes sobre a comunidade que, num primeiro momento poderia ser considerado acessório ou irrelevante, mas que em alguma fase da pesquisa poder-se-ia mostrar crucial para o andamento do trabalho investigativo.
Como escolher interlocutores cujos testemunhos fossem mais úteis num contexto de pesquisa? Essa é uma questão complexa para responder, mas que a mim se interpunha frequentemente em campo. Estabeleci alguns critérios metodológicos para guiar minha incursão no universo da comunidade estudada, para não ficar à deriva de especulações subjetivas que poderiam não ajudar na construção do meu objeto de análise. Primeiro, estabeleci que a forma mais adequada em meu contexto de pesquisa seria construir um contexto de empatia e confiança com o interlocutor contatado. Transmitir confiança e boa fé seriam pontos fundamentais para que os interlocutores sentissem à vontade de indicar-me um colega de trabalho para conversar comigo e, assim, a pesquisa prosseguir. Geralmente, após a primeira ou segunda entrevista, dependendo do grau de “empatia” oportunizado pela interação, ocorreram dois modos de encadeamento da pesquisa: ou o interlocutor me indicava uma segunda pessoa a ser entrevistada, que seria ideal para o que eu estava pesquisando ou eu pedia voluntariamente o contato de um ou mais interlocutores que poderiam me ajudar no andamento do trabalho. Foi assim que conheci o líder da comunidade, o pescador Sergio Canoa, que muito contribuiu para o avanço da pesquisa.
Numa tarde ensolarada, andando pela beira da praia, encontrei Sergio Canoa com um amigo, possivelmente também pescador, conversando sobre coisas do dia a dia. Apresentei-me aos dois e foram desde os primeiros momentos muito receptivos. Sergio, de personalidade forte, foi logo dizendo que “sabia que eu iria procurá-lo para conversar”. Rapidamente, associei essa postura de Sergio Canoa a uma categorização de Émile Durkheim, denominada solidariedade mecânica. Uma sociedade organizada dentro de uma divisão do trabalho baseada na solidariedade mecânica, as representações sociais elaboradas pela coletividade são tão impositivas sobre ela que os indivíduos que a compõem pouco podem resistir aos efeitos delas (DURKHEIM, 1999). Com isso, pode-se estabelecer uma relação entre a reflexão empreendida por Durkheim (1999) e a situação desenrolada acima: a de que numa comunidade onde todos se conhecem, qualquer indivíduo estranho ao grupo, ao participar das relações sociais inerentes a este, não passa despercebido pelos indivíduos que residem aí. Pelo contrário, minha inserção no cotidiano da comunidade os alertou para a ruptura de uma rotina que passou a ser, intencionalmente observada e vigiada (WEBER, 1999).
Deste modo, avisar a Sergio Canoa sobre a minha presença poderia ser analisado como uma atitude de dúplice interpretação: primeiro, desenvolvida como uma atitude cuja intencionalidade seria ajudar o pesquisador a compreender a vida social através de alguém que tem autoridade para falar; segundo, esta atitude de “informá-lo sobre a minha presença” pode ser interpretada como uma forma social de controle, para eu perceber que embora seja considerado um “desconhecido” no contexto local, eles sabiam do meu objetivo ao passar a conviver com eles em termos de rotina e que não sou exatamente um “anônimo”. Beaud e Weber estabelecem uma interessante relação entre estranheza e riqueza no trabalho de campo realizado pelo pesquisador, uma vez que:
Quanto mais a gente destoa do meio pesquisado, mais fácil fica para os pesquisados ter uma idéia clara do que fazemos por lá. Ao mesmo tempo procurarão achar-lhe um lugar possível, uma função em que a sua não conformidade parecerá natural.
(BEAUD E WEBER, 2007, p.69)
É mister salientar que embora pareça que eles ignorem a minha presença, não é isso o que de fato aconteceu. Diferentemente da atitude de um turista, que rapidamente passa pela comunidade, consumindo roupas de banho, cartões postais, passeios pelo rio e mar, provando pratos regionais, ou de um veranista que casualmente
Figura.24 : Pescadores em Baía Formosa confeccionados novas redes de pesca. Foto: Rubens Elias da Silva.
passa o fim de semana em sua casa de praia, o pesquisador é visto como alguém que tem por ofício investigar a vida coletiva, interferindo no cotidiano em suas mais diversas gradações. De fato, essa postura negociada em relação a mim poderia ser percebida como um traço da desatenção civil tipificada por Goffmann (2010). O autor descreve essa estratégia de desatenção como atos de engajamento da face:
O que parece estar envolvido é que uma pessoa dá a outra um aviso visual suficiente para demonstrar que ela compreende que a outra está presente (e que admite tê-la visto). e no próximo momento ela retira sua atenção para expressar que a segunda não constitui um alvo de curiosidade ou intenção especial (GOFFMAN, Idem, p. 96).
Ao estabelecer uma interpretação deste conceito em Goffman, Giddens (1991), em sua obra “As conseqüências da modernidade”, desenvolve a idéia de que a desatenção civil é um construto social em contextos modernos que envolvem duas ou mais pessoas que não se conhecem e que estabelecem contatos instantâneos em lugares públicos ou abertos, numa atmosfera de “estranhamento polido” (GIDDENS, 1991, p.85). Ao cruzar a rua, duas pessoas possivelmente se olham, baixam os olhos e continuam seguindo seus objetivos práticos. No contexto da pesquisa, num primeiro momento acreditei nessa “ausência de intenção hostil” (GIDDENS, Idem, p.85), mas que durou muito pouco tempo. Imaginava ser ainda ignorado pelo grupo em respeito às minhas intenções, o que se provou completamente o contrário. Isso não quer dizer necessariamente que essa atitude em detrimento a minha presença seja negativa: pelo contrário, consiste num jogo social de reconhecimento e autorização informal para a continuidade da pesquisa de campo. De outro modo, pode-se argumentar que o fato de minha presença ser notada por muitos que compõem o grupo e constatarem o propósito de minha incursão no cotidiano deles é resultado de relações sociais negociadas dentro de contextos de poder e disciplinamento (FOUCAULT, 2007). A argumentação de Foucault em relação aos regimes de poder articula-se na descentralização do poder, não mais restrito às instituições modernas de controle social, como justiça e educação. Os efeitos de poder, ao contrário, estariam imbricados nas relações sociais desenvolvidas no cotidiano (FOUCAULT, Idem).
Saber que estava sendo observado, por si só, causou ansiedade e constrangimento. Meus atos corriqueiros estavam sendo analisados, ponderados e julgados independentemente de minha vontade. Só o fato de saber que estava sendo sistematicamente observado por indivíduos de Barra do Cunhaú já continha em si o dispositivo interno de disciplinamento, como bem observa Foucault na obra Vigiar e Punir, referindo-se ao Panóptico de Bentham e que pode ser feita uma analogia à situação analisada neste momento:
Esse espaço fechado, vigiado em todos os seus pontos, onde os indivíduos estão inseridos num lugar fixo, onde os menores movimentos são controlados, onde todos os
acontecimentos são registrados, onde um trabalho
ininterrupto de escrita liga o centro à periferia, onde o poder é exercido sem divisão, segundo uma figura hierárquica contínua, onde cada indivíduo é
constantemente localizado, examinado e distribuído entre os vivos (...) (Grifo meu). (FOUCAULT, 1999,
p.163)
Os atos do “outro” (no caso, refiro-me a mim) é registrado através do exercício do olhar. É nesse sentido que o poder disciplinador do Panóptico se objetiva: quem está na posição de observado não tem condições concretas de saber quem o vigia e controla. Como diria Foucault (Idem, p.162), “o olhar está em toda parte”. O olhar está em toda parte pode ser compreendida por uma estratégia social do grupo de se preservar diante da atuação de indivíduos que são “de fora” e que permanece por um tempo a mais que o esperado.
O encontro com Sergio Canoa foi extremamente proveitoso. Seguimos conversando pelas ruas de Barra do Cunhaú quando ele me convidou para conversar com mais dois pescadores antigos do lugar e que seria muito valioso para minha pesquisa. Aceitei de imediato e fomos para a casa de Seu Nildo. As ladeiras de Cunhaú são relativamente íngremes. Ao subir a ladeira principal da comunidade, pode-se ver a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, ladeada por um jardim florido e casas de pescadores. A festa da Padroeira Navegantes acontece na última semana de janeiro de cada ano, e o evento de maior público consiste na Procissão Fluvial nas águas do Rio Cunhaú em homenagem à Santa. Seguimos numa rua perpendicular à igreja, pessoas indo e vindo, carros de mão com frutas tropicais à venda, cachorros latindo, crianças correndo de um lado para outro. Sérgio me informara que aquelas ruas “antigamente”
eram palco de despesca de caranguejo, mas que há muito a comunidade local desinteressara-se pelo crustáceo.
A casa de Seu Nildo é de alvenaria, pintada de azul. Foi erguida num terreno em declive, onde dá para se ver o Rio Cunhaú lá embaixo desaguando no mar. É uma paisagem exuberante. Tem-se um terraço abrigado por um telhado que protege os moradores nos dias de chuva. No terraço estava organizada uma festança, como sempre fazem nos fins de semana. Cerveja, aguardente, runs, limões cortados, caranguejos cozidos e peixes fritos estavam servidos à mesa, para os convivas. Cumprimentei a todos, desculpei-me por ter ido sem antes avisar e fui logo sendo advertido: “Aqui em casa todos são bem vindo. E pode tomar uma cerveja. Aqui não se paga”. Agradeci o convite, mas tinha que conversar, observar, anotar dados e essas tarefas decisivamente não combinam com um comportamento ébrio. Acredito que eles tenham entendido, mas garanto que de vez em quando me dava água na boca ver uma garrafa de cerveja gelada à mesa, um calor terrível e me privar de prazeres momentâneos.
Outro ponto importante de análise sociológica é a concepção de mundo implícita na fala do pescador presente na casa de Seu Nildo: “Aqui não se paga”. Deste modo, pode-se inferir que há uma estrita diferença entre as sociabilidades desenvolvidas pela comunidade e as encontradas nas grandes cidades, constatando-se na fala do pescador presente na casa de Seu Nildo. A tipificação das sociedades simples, em detrimento das sociedades complexas, surgiu com a própria história da disciplina sociológica enquanto projeto de explicação das manifestações sociais em contextos de modernidade.
Segundo Diegues (1983), as sociedades tradicionais de pesca têm características internas bem distintas das encontradas em sociedades urbanas industriais, cujo fluxo das interações sociais teria como força motriz uma ideologia monetária e do estabelecimento de relações impessoais (SIMMEL, 1979). Dentre as características da organização da produção da pesca elencadas por Diegues (1983), pode-se destacar o fato de a remuneração organizar-se pelo sistema de partes sobre o valor da captura; os instrumentos de produção são de propriedade individual ou familiar, cujo proprietário também participa do trabalho de captura dos cardumes; o conhecimento de identificação dos cardumes é adquirido ao longo da vida, através da transmissão grupal ou familiar; por fim, a organização social tem como base o sistema de camaradagem ou compadrio (MALDONADO, 1993; DIEGUES, 1983). No entanto, essa cultura costeira baseada na partilha de bens comuns (FORMAN, 1970; MALDONADO, 1993) passa, através da
observação em campo, por um processo de mudança social que será mais detalhadamente analisado no capítulo seguinte, mas que é fundamental ser adiantado aqui: a competição entre os pescadores em Baía Formosa e Barra do Cunhaú tornou-se tão acirrada nas últimas décadas que essas práticas solidárias sobrevivem parcamente. Como fala Antonio Madeiro, de Baía Formosa: “Ainda tem muito pescador que ajuda, que entrega o peixe para a família do pescador doente... mas hoje isso está ficando cada vez mais raro... (sic). Seu Menininho encontra uma explicação para essa ruptura nas sociabilidades locais: “Hoje tudo mudou, num sabe? Tem TV, internet, o povo pode trabalhar no que quiser, é o cada um por si... tem gente que acha que é otário se for ajuda aquele que tiver doente ou impedido de pescar. O mundo mudou... (sic). Essa transformação das práticas sociais cotidianas sinaliza que novos contextos baseados numa sociedade de rede (CASTELLS) e elaboram novos estilos de vida conforme será debatido no próximo capítulo.
A partir da constatação acima, parte significante do sentido das relações sociais entre os pescadores é organizada, em certa medida, dentro de uma lógica da dádiva (MAUSS, 2001). O processo de partilha grupal de artigos destinados à diversão remete a uma gama extensa de significados sociais. A necessidade de dar, receber e retribuir reivindica de cada participante a partilha de uma comunhão de idéias e convicções. A recusa, segundo Mauss (2001, p.68) representaria “negligenciar o convite, como recusar receber equivale a declarar guerra; é recusar aliança e comunhão”. De outro modo, essa propensão às trocas dádivas é um elemento constitutivo das comunidades tradicionais pesqueiras, como o caso da entrega do peixe à família do pescador que não pode ir, por diversas razões, ao mar trabalhar (MALDONADO, 1993)24.
Diante do exposto, pode-se considerar que as bases da organização social das comunidades tradicionais pesqueiras em estudo são, em certa medida, diferenciadas em relação aos hábitos culturais das sociedades urbano industriais. Evoca-se mais uma vez a declaração: “Aqui em casa todos são bem vindo. E pode tomar uma cerveja. Aqui não se paga”. Logo, pode-se contrapor essa idéia ao modo de ser vigente nos grandes centros urbanos que encarnam modos de ser impessoais, organizados em torno de uma lógica mercantil contabilista, quando não se conhece claramente os agentes envolvidos. Exige-se do cidadão citadino uma postura sui generis que exige cálculo, frieza e espírito
24 MALDONADO (1993), em seu trabalho de campo, percebeu que o pescado também é chamado de “leite”, evocando claramente a relação entre produto do trabalho e sustento familiar.
de organização econômica individualista25. Simmel (1976) aponta esta postura em seu texto A metrópole e a vida mental, ao descrever o indivíduo urbano como susceptível a estilos de vida cada vez mais complexos, organizadas por maneirismos e atitude blasé. Com isso, pode-se inferir que viver na cidade grande, segundo os pescadores em contato comigo naquele contexto, é estar enredado em relações sociais tautológicas, num fim em si mesmas.
Foi através de Sergio Canoa que pude estabelecer contatos mais aprofundados em Baía Formosa. Num primeiro momento da pesquisa de campo, decidi ir sozinho a Baía Formosa em busca das primeiras fontes. Naquele momento eu estava engatinhando em campo, num espaço social desconhecido por mim. A busca de interlocutores foi extremamente difícil e a singularidade geográfica do lugar somente aprofundou essas dificuldades. Baía Formosa é uma cidade praieira que brota de um promontório que acaba no mar. As ladeiras são inúmeras e caminhar ao sol é uma tortura para quem não está acostumado com a topografia local. Depois de muito tatear em busca de fontes, consegui o endereço da casa do pescador que estava na presidência da Colônia de Pescadores do lugar. Encontrei a casa dele depois de muito andar pelas ruelas de Baía Formosa, em plena chuva. A casa dele tinha um pequeno terraço, rede de arrasto debruçada na janela, grades protegiam a casa. Visivelmente de mau humor, me recebeu sem muitas palavras, eu explicando os motivos de minha ida à sua casa e o desejo de iniciar uma pesquisa de campo em Baía Formosa. Ele secamente me respondeu: “Mais uma pesquisa... vocês vêm aqui, perguntam perguntam e vão embora. Somem”. Para mim, aquela declaração veio em péssima hora: eu desejando estabelecer contato e o outro simplesmente desmerecendo minha intenção de realizar pesquisa de campo.
Explicar foi o caminho. Calmamente fui descrevendo a natureza da pesquisa, em certo momento cheguei a concordar com a argumentação do presidente da Colônia dos Pescadores. Não poderia desconsiderar as argumentações do pescador, pelo contrário: concordar com as considerações dele seria a ficha simbólica vital para que a pesquisa “acontecesse” e pudesse, assim, construir uma relação mínima de confiança. Deu certo.
25 Georg Simmel (1976) descreve a conduta do indivíduo na metrópole como orientada para uma postura votada à “pontualidade, calculabilidade, exatidão” (SIMMEL, 1976: 15). A técnica da vida metropolitana, segundo este mesmo autor, estaria organizada dentro de atividades e relações mútuas num ritmo social impessoal.
As pesquisas de campo envolvendo atores sociais têm um sério problema de ordem ética: os pesquisadores em sua maioria não estabelecem diálogo com as comunidades pesquisadas no sentido de prestar informação sobre o que se produz enquanto conhecimento. Até hoje jamais cheguei numa comunidade pesqueira que tenha sequer um trabalho de conclusão de curso, dissertação de mestrado ou tese de doutorado que o pesquisador tenha concedido para a consulta dos próprios pesquisados ou futuros pesquisadores que se interessem pela comunidade. Esse fenômeno revela o quanto a academia, enquanto espaço de produção de saber, é preconceituosa em relação a espaços sociais que não têm acesso a determinados bens culturais simbólicos. Seria uma forma sutil de desdenhar dos pesquisados, enquanto sujeitos, serem capazes de