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Interessenternes synspunkter

Mobilisering af arbejdsudbuddet

6 Interessenternes synspunkter

Eu já teria idade para me aposentar, mas ainda não tenho tempo de contribuição para o Instituto9. Ainda me faltam 7 anos. Não sei se vou agüentar. Estou arrebentada. Olha, estou cheia de coceiras. Cabelos caindo. Até sem cílios estou ficando.

Enquanto fala, exaltada, M. arregaça as mangas e mostra os braços feridos pelas próprias unhas de tanto se coçar. Solta sua vasta cabeleira, que se emaranha entre seus dedos e se desprende em tufos, conforme exerce pouca pressão para puxá-los. O chão do meu consultório fica coalhado de longos fios pretos. Aos 44 anos de idade, M. já me alertava sobre os descalabros que se cometem contra os trabalhadores mais velhos.

Meses a fio, M. chegava ao meu consultório enraivecida pelo fato de que, com a mudança de chefia, todos os melhores vôos, aqueles que pagavam as diárias mais altas e apresentavam as melhores condições de viagem, passaram a ser destinados aos comissários recém-contratados, numa política absolutamente perversa de privilegiar os mais novos em detrimento dos mais velhos.

M. lutou ferozmente contra essa discriminação, representando colegas com mais tempo de casa junto à alta direção de uma das maiores empresas da área da aviação no Brasil, mas a resposta que sempre obtinha era somente o maior escárnio por parte de muitos de seus colegas, bem como de alguns controladores de vôo.

Assisti à sua derrubada, em meio à guerra particular que travou durante anos, com desespero e em estado de quase absoluta solidão. Era somente uma voz em meio aos burburinhos. Uma voz que aos poucos foi sendo calada pela exaustão e que, apesar de impotente, já pressentia piores dias para com os futuros aposentados.

Naquele tempo a fundação previdenciária que assistia os aposentados do sistema era ainda sólida e próspera e M. investia mais e mais em seu futuro, já consciente de que, ao se aposentar, haveria de ser imediatamente dispensada dos quadros, em que pese sua experiência e dedicação de toda uma vida.

Acompanhava desde aquela época meus próprios esforços em implantar um programa de preparação para a aposentadoria e pós-carreira e, muito consciente,

8 Relato de Caso – Atendimento ocorrido na década de 90.

tudo que desejava era que seus colegas pudessem usufruir desse benefício. Levava-lhes artigos e palestras, mas sempre esbarrava nas chefias, que se recusavam a investir naqueles que logo haveriam de sair da empresa.

Está assim, lá. De pernas pro ar. Os mais velhos estão sendo simplesmente desconsiderados, desprezados, escanteados, botados de lado como se não valêssemos nada! Isso é a política da empresa agora. Eles têm a cara de pau de chamar essa sem-vergonhice, esse descaramento, de política! Isso é maldade! É coisa lá da japonesa. Aquela maldita! E se não foi ela quem inventou essa coisa que eu nem sei como chamar, que nome dar, você tinha que ver a cara de satisfação dela ao anunciar que daqui pra frente os mais jovens é que teriam prioridade para os vôos internacionais!

M. estava transfigurada. Tenho acompanhado sua carreira por alguns anos, seus esforços em introduzir benefícios para os aeroviários, além dos aeronautas, seus princípios éticos e morais, sua garra em se auto-aperfeiçoar e buscar aprimorar o trabalho e a postura, tanto profissional como pessoal de seus colegas e sua dedicação. Eu imaginava o tamanho de sua dor motivada por justa ira, ao viver e testemunhar tal revolta na política de RH da empresa, no tocante às escalas.

Não estão respeitando nada, Ana. Estão dando um treinamento meia-boca pra essas mocinhas deslumbradas que se perdem todas só de pensar em passar a noite em Paris, como se Paris fosse tudo na vida, mal sabendo elas que lá chegando tudo o que a gente faz é cair na cama e tentar dormir vencendo o fuso horário porque no dia seguinte tem mais. Chega uma hora em que Paris, Londres, Nova Iorque, é tudo a mesma coisa, em que você acorda, não sabe nem onde está e dormir é dormir, em qualquer lugar. O sonho que você sonha é sempre na tua própria língua e tudo que você quer na vida é comida caseira não requentada, em prato de louça e talher de aço, sem nada de plástico artificial.

Pois elas não seguem manual10 nenhum, se engraçam com os passageiros,

são piores que os viadinhos, sabia? E dormem com um e com outro, se metem com qualquer homem, mesmo casado, a vida é festa. O bacana é ficar de biquininho pegando sol à beira da piscina dos 5 estrelas e ganhar diária. E olham pra gente, pras mais velhas, com uma arrogância, de dar nojo! Tudo isso orquestrado pela japa, aquela sem-homem desavergonhada! Ah, como eu me arrependo de ter-me tornado amiga dela. Agora não sou mais. Nem olho pra cara dela. Que não sou de lamber essa... Borra botas!

Vai alguém lá se queixar que não pode cumprir escala, vai. Ela persegue, aquela peçonhenta. E eu, que ajudei a botar ela lá! Eu não sabia. É alguém se queixar, vira inimigo pessoal! Até agora, com o B., ele procurava respeitar, deixar a pessoa em terra num aniversário de filho, uma data de formatura, deixar um casal se encontrar num fim de semana e passar junto, nem que fosse num fim de mundo. Com essa cascavel, esse demônio na torre, nada disso importa. Ela escala e escalado está. Então, eu estou feita. É por isso que eu estou desse jeito, toda estourada. Além de agüentar toda a loucura do dono da empresa com as malucas das filhas deles, estou no

10 Manual – Há um rigoroso manual de etiqueta e comportamento, vestuário e maquilagem a ser

maior fogo cruzado entre os meus colegas mais velhos, que não têm coragem de abrir a boca para reivindicar nada e a perseguição pessoal que a japa me faz, aquele desdém todo daquela cara de ‘fuinha’, mais aquelas deslumbradinhas que estão entrando!

E por que é que ninguém bota a boca no trombone, ninguém fala nada, só eu bato de frente? Ah, é porque você sabe, bem ou mal o povo não mexe muito comigo porque sabe que eu chego no Dr. (...) e ele me ouve. Embora eu não faça isso, de ficar no leva e traz, eles pensam que eu faço e é bom que pensem. Além disso, você também sabe que eles dizem que eu sou louca, você sabe, não sabe? Eu falo, eu berro, eu peito, dou de dedo, subo nas tamancas, não deixo por menos. Sou meio mula, né? Ah, é cavalo! (rindo). E eu não tenho família, filhos para sustentar, só respondo por mim. Eles têm tudo isso.(Contemplativa e mais calma). Então, é comigo mesma11

A situação perdurou por alguns anos, durante os quais M. foi adoecendo mais e mais. Afastou-se da terapia. Perdemos o contato.