Entendo que o termo pré-aposentado abrange aqueles que estão para se aposentar em poucos meses e aqueles que já têm tempo de serviço (contribuição ao INSS) e ainda não requereram a sua aposentadoria ao INSS. Nesse caso se enquadram tanto aqueles que o farão por opção própria como aqueles que o farão sob pressão de grupo de trabalho ou de familiares. É típico do pré-aposentado ver- se repentinamente abalroado pela aposentadoria, vivenciando-a com surpresa, dado que sabia, mas nunca tinha se preocupado com isso. Ou seja, pessoas que ainda
não entraram no processo de desengajamento daquele trabalho, que deixaram para pensar depois ou que consideraram a aposentadoria do outro, mas não a própria.
São pessoas ainda altamente identificadas com o seu papel de trabalhador tal como o vinham desempenhando até então e, portanto, se percebem integrados ao grande grupo social de trabalhadores (e contribuintes do INSS). Na terminologia de Kurt Lewin, são pessoas cujos grupos de pertinência e referência coincidem.
O termo aposentando refere-se àqueles que já estão se ocupando da reformulação de sua identidade social, vivenciando as tensões entre ambos os grupos (grupo de trabalhadores assalariados e grupo de aposentados), cogitam de desligar-se do seu trabalho de então, em preparar-se para reformular o seu meio de
ganhar a vida e a ocupação de seu tempo, e/ou preparar-se para exercer outras
atividades (remuneradas ou não). Entre os aposentandos encontram-se aqueles que dizem querer aposentar-se, mas considerar que ainda não está na hora, porque: têm filhos economicamente dependentes ou outros familiares também dependentes, quase sempre pais ou sogros idosos, doentes, que consomem grande parte dos proventos do trabalhador ou estão aguardando completar o tempo de contribuição; e, aqueles que dizem não querer aposentar-se, ainda que já esteja na hora, já que têm tempo de contribuição para tanto, porque: a) querem acompanhar a realização de um projeto de trabalho na empresa ou b) são solicitados a permanecer por mais algum tempo na empresa, ou c) ainda não sabem a que se dedicar após a aposentadoria e/ou d) permanecem trabalhando enquanto procuram se reorganizar.
São pessoas que se percebem integradas ao grande grupo de trabalhadores, assalariados, contribuintes, ainda bastante identificados com o seu papel social de trabalhador, portanto integrados ao seu grupo de pertinência, mas cujo grupo de referência já é outro, ainda que somente suposto, não claramente delineado. Sofrem
de pressões internas e externas de mudança, já começam a se desvincular de seu grupo social anterior, mas ainda não se inseriram em novo grupo.
E o termo aposentado se refere àqueles que já requereram a sua aposentadoria oficial - por tempo de serviço ou por idade - desligaram-se de sua ocupação profissional anterior, exercem a mesma atividade profissional de maneira modificada ou exercem alguma outra atividade diferente, remunerada ou não, e já tomaram suas decisões no que se refere à ocupação de tempo, interesses e dedicação, perspectivas de vida, inserção em novos grupos sociais. São pessoas que: a) continuam trabalhando sem qualquer mudança, ou b) já adotaram um novo estilo de viver social e se reconhecem como desengajados das atividades anteriores que serviram de base para a sua aposentadoria oficial.
Nessa segunda condição são muitos aqueles que dizem jamais terem
trabalhado tanto como o fazem depois que se aposentaram, pois se dedicam a uma
segunda ou terceira carreira, ao trabalho autônomo, à adoção de causas sociais ou mesmo aos cuidados para com a casa e família; a combinação destes dois últimos argumentos é especialmente das mulheres. Acredito, porém, por força de observação, que em maior número são aqueles que deixam de exercer qualquer tipo de atividade profissional remunerada e dizem: estar procurando. Procurar é a sua ocupação, mesmo quando não a fazem ativamente. Não saem em busca, não se oferecem ao mercado, mas têm a fantasia de fazê-lo. Perambulam, porém. Vivem dos proventos da aposentadoria e, se muito, exercem algum trabalho esporádico, o que se conhece como bico – trabalhos esporádicos e, em geral, mal remunerados. São aqueles indivíduos que já se reconhecem como pertencendo a um novo grupo social, com uma nova identidade social, gostando, ou não, de suas novas experiências. Cabe aqui um trecho de Barbara Ehrenreich, jornalista, extraído de seu livro O desemprego dos colarinho-brancos:
(...) as coisas finalmente encontram um rumo quando ele pergunta que obstáculos enfrentamos em nossa busca de emprego. Erguem-se meia dúzia de mãos, mencionando dificuldades como medo, inércia, embaraço, adiamento, dinheiro, desenvolvimento não linear de carreira e o misterioso desafio de ficar para cima.
Surpreendo Ted, que está em pé, encostado na parede, balançando vigorosamente a cabeça à menção dos obstáculos, como se sugerisse que conhece bem demais cada um deles. Joe está fazendo o que pode para acompanhar o grupo em um quadro dobrável. Digo que fico sobrecarregada com todas as coisas que há para fazer, preciso determinar prioridades. Isso é registrado como agendamento.
A esta altura, estou esperando soluções vindas de Joe, mas Merle, que não abriu mão de seu posto na frente da sala, adianta-se para perguntar o que algumas pessoas fizeram para enfrentar esses problemas? Quero o emprego de Joe, é o que estou pensando agora, uma vez que o trabalho dele parece não envolver nada além de anotar e esperar, vestido com seu brilhante suéter vermelho como um sinal de trânsito humano. Mas as soluções para o meu problema de agendamento começam a chegar tão depressa que mal posso escrevê-las. Faço uma programação diária, incluindo buscas na Internet e exercícios, diz uma mulher. Isso me obriga a ser responsável mesmo que esteja sozinha no quarto, administrando a mim mesma. Alguém acrescenta:. Outra solução: envolva a esposa, fazendo com que ela seja uma supervisora, para lembrá-lo de que você disse que hoje faria isso e aquilo.
Esse conselho me surpreende: busca de emprego não é desemprego; a própria busca é um emprego e deve ser estruturada para se parecer com um, até nas características mais lamentáveis do emprego, como ter de cumprir ordens - ordens que, neste caso, emanam da própria pessoa. Algo neste cenário tem um sopro de necrofilia. Lembro-me do lendário residente da velha Key West, que, de alguma forma, conseguiu manter o cadáver de sua bem amada preservado em condições agradáveis, o que lhe permitiu freqüentes intimidades físicas durante anos. Da mesma forma, não devemos aceitar o desemprego, mas agarrar-nos desesperadamente a algum débil simulacro de emprego.
(...) Mas começo a perceber que a questão aqui é a administração estruturada da dor e do luto. Se você foi cuspido pela grande máquina corporativa é deixado a contemplar sua suposta inadequação a ela, faz sentido preencher o tempo com microtarefas, de preferência sob a supervisão de outra pessoa. Imaginar a própria busca como trabalho deve satisfazer o desejo calvinista de fazer alguma coisa, qualquer coisa, parecida com trabalho, e os americanos podem ser especialmente inclinados à angústia calvinista. Freqüentemente valorizamos alguma tarefa com a frase pelo menos ela me mantém ocupado – como se ocupação fosse um estado desejável sem se levar em consideração a forma como é alcançada. (...) A busca de emprego, conduzida de forma apropriada, pode consumir muito mais tempo do que o emprego verdadeiro: Se você está empregado, pode desfrutar o luxo de trabalhar das 09 às 17 horas; se procura trabalho, planeje uma jornada de 12 a 16 horas por dia.
A alternativa a esse emprego inventado é a depressão, que um homem alto, de cabelos grisalhos, parece confirmar, quando, em aparente desvio do assunto, levanta a mão para observar que a introspecção pode ser muito poderosa quando feita no estado de espírito certo. De outra forma, pode jogá-lo para baixo. (...) O comentário serve apenas de pretexto para o conselho de ficar para cima, que significa manter uma atitude de vitória mesmo em face do desespero. Aqui, o sombrio calvinismo da auto- administração cede lugar a um anêmico hedonismo: devemos ir à academia de ginástica e fazer contatos enquanto estamos lá. Almoce com um amigo. Faça uma lista das coisas que gosta.
Seguimos adiante para Medo e Joe pergunta de que temos medo. Fracasso é mencionado sob diversas formas, e acrescento rejeição. Não há como se esquivar do medo. Joe nos estimula a olhar diretamente na face do medo, e uma mulher, que mais tarde soube que também é uma instrutora de carreira, enfatiza a necessidade de cada um realmente sentir seu medo. Isso parece alegrar Pamela, que permaneceu de pé, como Merle, embora mais para o lado: Isso é respeitar seus sentimentos!. Mas o medo, uma vez encarado, deve ser rapidamente abolido. Como diz Joe resumindo o tema, a questão é: o que há para temer? É Nike, ‘Just do it’. (EHRENREICH, B: 2005, pp 53 - 56)
Interessante registrar que os universos vivenciais dos pré-aposentados, aposentandos e aposentados não são os mesmos, embora todos se ressintam de fatores comuns ligados ao envelhecimento biológico e à rejeição social, que estigmatiza a velhice.
Não estou, nesta tese, cogitando sobre os aposentados por invalidez, cujas mudanças bruscas e súbitas têm também toda uma nova base corpórea, o corpo mutilado, modificado, que impede o exercício do trabalho, ou a neurose/psicose como sucedâneo do trabalho organizado, a mente rígida que se recusa a mudar.