A coordenação da Prefeitura apresenta a necessidade da SDHDU em demonstrar os resultados obtidos com o Programa de Inclusão Digital, ao prefeito de Porto Alegre. Segundo essa coordenação, hoje, os resultados estão baseados em previsões, não existindo nenhum mecanismo sistematizado que possa apresentá-los com maior precisão.
Cita o exemplo do Telecentro de Belém como uma exceção a ser perseguida pelos demais Telecentros: nesse espaço de inclusão digital estão sendo gerenciados alguns indicadores de resultados e, um deles é o impacto do uso do Telecentro nas notas escolares das crianças recebidas pelo espaço. Após um ano de gerenciamento desse indicador, a coordenação local do Telecentro Belém apresentou a SDHSU esse resultado, apontando um aumento médio de dois pontos nas notas curriculares obtidas pelas crianças da escola que freqüentam esse Telecentro.
Na área da Administração, existe uma máxima que diz mais ou menos assim, “não existe gestão sobre algo que não é medido ou avaliado”. A pesquisadora acredita que há necessidade de implementar indicadores de resultados aos objetivos pretendidos pelo Programa Telecentro, por várias razões entre as quais destaca: (1) há investimento público no programa, sendo necessário apresentar, não só ao Prefeito, mas também, aos cidadãos do município, resultados quantitativos e qualitativos obtidos com o programa; (2) os resultados são essenciais, na medida em que servirão como base para a análise em manter ações ou implementar melhorias no programa; (3) sem resultados não há como saber se os objetivos pretendidos pelo Programa Telecentro estão sendo atingidos, tendendo a oportunizar atuações indevidas das coordenações; (4) um plano somente pode ser acompanhado e avaliado quando são definidos indicadores ou parâmetros de desempenho de maneira a avaliar a eficácia dos objetivos previamente delineados em uma política pública; (5) garantir a estratégia de formação de parcerias com o segmento
empresarial com vistas à manutenção e desenvolvimento do programa de inclusão digital; e (6) preservar a parceria com as associações que acolhem os Telecentros.
Entretanto, é importante registrar que, nesse estudo de caso, o conceito de qualidade transcende uma padronização e acompanhamento dos resultados de indicadores, buscando atingir metas pré-estabelecidas. Partilha-se da idéia de qualidade associada à equidade, sendo a comunidade educativa, no caso do Programa Telecentro, as coordenações, os educadores e monitores que atuam nos Telecentros, responsáveis pela aplicabilidade e sucesso, ou não, das práticas educativas de qualidade com equidade (MOROSINI, 2001).
Entre os fatores mencionados por este mesmo autor, para alcançar qualidade com equidade, citamos alguns que se apresentam aderentes ao contexto do Programa Telecentro: “tratamento da diversidade, currículo/autonomia curricular,
participação da comunidade educativa, avaliação e inovação e investigação”.
Ainda de acordo com Morosini (2001), na Declaração de Cochabamba, ministros da educação incorporaram recomendações ao Projeto de Educação na América Latina e Caribe, em torno de nove pontos básicos, entre os quais se encontra a apropriação de meios e tecnologias para a transformação da educação. A posição da UNESCO, de defensora da qualidade com equidade, se expressa na declaração de que,
o uso pedagógico das tecnologias de informação e comunicação deve ocorrer no marco de um projeto social e educativo comprometido com a equidade e com a qualidade...não podemos esquecer que a opção por tornar mais eficientes estas aprendizagens deve considerar mais as potencialidades do que as pessoas – e muito particularmente os professores – e o respeito as identidades culturais, antes que as próprias promessas da tecnologia. (MOROSINI, 2001, s.p.).
A coordenação do Telecentro Lupicínio Rodrigues diz estar descontente com o acompanhamento da coordenação da Prefeitura, em relação ao Programa de Inclusão Digital. Para essa coordenação, esse acompanhamento, de fato, não existe, pois não há reuniões com os coordenadores dos Telecentros com o objetivo de construir um projeto de gerenciamento dos resultados apresentados pelos espaços de inclusão digital. Em sua opinião, existem várias questões de responsabilidade da Prefeitura, previstas em convênio, que não são cumpridas pela coordenação do governo municipal do programa. Desta forma o governo, enquanto
parceiro do Programa de Inclusão Digital atua como mero repassador de recursos financeiros e tecnológicos.
Outra questão que até hoje que, pra mim, fica em haver, é a própria questão do acompanhamento da secretaria, que não existe [...] acompanhamento que eu digo de termos reuniões para construirmos isso. Tem várias questões atuais que não são efetivadas, nem cumpridas, que é de estar construindo um conselho gestor pra ser realmente um equipamento que garanta esse atendimento à comunidade, que não seja uma coisa meramente de repasse de recursos, [...]. (CCE).
Para a coordenação da Prefeitura, frente aos problemas por ela encontrados, no início de sua gestão, e a natureza desses problemas, foi necessário estabelecer algumas prioridades na administração dos Telecentros. Segundo essa coordenação, passados os seus dois primeiros anos à frente do Programa de Inclusão Digital, tendo resolvido os problemas administrativos e financeiros, o sucateamento dos computadores através da aquisição de novos computadores que visam substituir o parque de máquinas existente nos Telecentros e promovendo o aumento da capacidade de transmissão dos dados pela conexão da Internet, resta definir como se dará a formação dos monitores.
Embora seja possível entender a necessidade da resolução dos problemas ora citados pela coordenação da Prefeitura, é importante que esta não perca de vista a dinâmica em que o desenvolvimento tecnológico ocorre e de sua apropriação e infiltração nas mais variadas atividades desenvolvidas e a serviço da sociedade. Lembramos uma idéia da imbricação entre o processo de construção da educação e o processo de construção da infra-estrutura para atendê-la, a partir do seguinte texto,
[...]. Ou seja, a educação, e os sistemas de gestão do conhecimento que se desenvolvem em torno dela, tem de aprender a utilizar as novas tecnologias para transformar a educação, na mesma proporção em que estas tecnologias estão transformando o mundo que nos cerca. A transformação é de forma e conteúdo. (DAWBOR, 2001, p.18).
As situações de resolução de problemas não devem inviabilizar ou paralisar a construção de outras ações significativas em um projeto, principalmente quando este se trata de uma política pública que visa atender necessidades das comunidades.