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À primeira vista, é óbvia a forte influencia hereditária nas características faciais, é fácil reconhecer as tendências familiares na inclinação do nariz, na forma dos maxilares e no tipo do sorriso. É visível que certos tipos de maloclusão ocorrem nos familiares. A mandíbula em Hapsburg, o prognatismo da família real alemã, é o melhor exemplo conhecido (Fig. 24), mas os dentistas rotineiramente vêem repetidos exemplos de maloclusões semelhantes nos pais e na sua descendência. A dúvida com relação aos fatores etiológicos da maloclusão não é se há influencia hereditária sobre os dentes e maxilares, porque certamente há, mas se diferentes tipos de maloclusão podem ser diretamente causados por características hereditárias.

Figura 24. O prognatismo da família Hapsburg tornou conhecido o maxilar de Hapsburg, pois ocorreu em múltiplas gerações da realeza européia e foi registrado em muitos retratos. (PROFFIT; FIELDS JUNIOR; SARVER, 2008)

Os povos primitivos, nos quais a maloclusão é menos freqüente do que nos grupos modernos, apresentam características isoladas e uniformes. Se todos do grupo apresentassem a mesma informação genética para o tamanho dos dentes e dos maxilares, não haveria possibilidade de uma criança herdar características diferentes. O resultado deveria ser exatamente o mesmo visto nas populações primitivas: indivíduos com discrepância de tamanho entre dentes e maxilares não são freqüentes e grupos que tendem a ter o mesmo relacionamento maxilar, não necessariamente com oclusão adequada, compõe a grande maioria. Grupos humanos diferentes desenvolvem variações nas proporções faciais e nas relações maxilares.

Com a civilização e a reunião de um grande número de pessoas nos centros urbanos a possibilidade de casamento entre membros de grupos étnicos diferentes foi muito aumentada. Desse modo nos Estados Unidos, entre 1930 e 1940, foi tentador concluir que o grande aumento da miscigenação que ocorreu à medida que a população crescia e se tornava menos móvel era a principal explicação para o aumento da maloclusão neste século.

Um exame cuidadoso da miscigenação da população humana questiona a hipótese de que as características dentárias e esqueléticas herdadas de forma independente sejam a maior causa das maloclusões, Chung et al, (1986) em uma pesquisa feita no Havaí analisou a hereditariedade das maloclusões. Antes de seu descobrimento o Havaí tinha uma população polinésia homogênea e a migração de europeus, chineses, japoneses e outros grupos raciais resultou em uma população excepcionalmente heterogênea. O tamanho dos dentes e maxilares nos havaianos era bem diferente daqueles encontrados nos polinésios, orientais, europeus. Logo, se as características dentárias e esqueléticas fossem herdadas independentemente, uma alta prevalência de maloclusão grave seria esperada nesta população.

A prevalência e os tipos de maloclusão presentes na população havaiana atual, apesar de maiores do que a prevalência da maloclusão na população original, não sustentam este conceito. Os efeitos dos cruzamentos entre as raças pareceram ser mais aditivos do que multiplicativos. Por exemplo, cerca de 10% dos chineses imigrantes apresentavam maloclusão c lasse III, e cerca de 10% dos polinésios tinham apinhamento dentário. Nos descendentes a prevalência foi de 10% para cada característica. Em outras palavras, se a maloclusão ou tendência à maloclusão é herdada, o mecanismo não é a herança independente de características morfológicas distintas, como tamanho dos dentes e maxilares.

Um método clássico para estudar a influencia da hereditariedade é o estudo dos membros da família, observando semelhanças e diferenças entre a mãe e o pai da criança e outros parentes. A partir de um exame de radiografias cefalométricas longitudinais e de modelos de irmãos que participaram do estudo de crescimento de Bolton Brush, Harris e Johnson, (1991) concluíram que a influência hereditária nas características crânio-faciais (esqueléticas) era relativamente alta, mas nas características dentárias (oclusão) eram

baixas. Para as características esqueléticas, a influência da hereditariedade aumenta com a idade; com relação às características dentárias, a influência hereditária diminui com a idade, indicando uma crescente influência ambiental contribuindo para a variação dentária. Esses achados foram confirmados e estendidos por um estudo da hereditariedade em famílias de regiões geladas (JOHANNSDOTTIR ET AL, 2005). Para se afirmar em que extensão o esqueleto facial determina as características da maloclusão, um componente hereditário deverá estar presente. Quando as correlações entre pais e filhos são usadas para auxiliar na previsão do crescimento facial, os erros são reduzidos, o que por si só indica a forte influência hereditária nestas dimensões. (SUZUKI E TAKAMA, 1991)

Como observado em famílias reais européias (Fig. 3-25), a influência das tendências herdadas é particularmente forte para o prognatismo mandibular. Em um grupo representativo de famílias com problemas Classe III, um terço das crianças que eram portadoras da maloclusão de Classe III grave tinha um dos pais com o mesmo

problema e um sexto tinha um irmão com o mesmo problema(LITTON

et al, 1970). O padrão de face longa parece ser o segundo maior tipo de deformidade a ocorrer nos familiares. Em geral, irmãos têm maloclusões mais severas, talvez porque a influência genética facial e o tipo de crescimento levam a respostas semelhantes aos fatores ambientais (KING, HARRYS E TOLLEY, 1993)

Além da prognatismo, a extensão na qual outros tipos de maloclusões são relacionadas a influências genéticas está menos clara. O padrão de crescimento face longa, que costuma causar mordida aberta anterior, também existe em famílias, mas é menos freqüente ser um problema herdado. Se as variações dentárias que contribuem para a maloclusão de mordida não são intimamente ligadas á expressão genética, uma condição como mordida aberta pode ser principalmente devido a influências externas, como por exemplo, hábitos de sucção ou postura de língua.

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