8. Gruppene utenfor arbeid og utdanning
8.5. Inaktive statuser og landbakgrunn (verdensregion)
T, como dito, foi levada a refletir sobre o que sua mãe pensava dela como aluna: “Eu acho que minha mãe não pensava em nada, só pensava no meu pai, só”. E também o que ela imaginava que os professores pensavam dela como aluna: “Que eu era problemática”. Sua reação ao que os professores pensavam: “Não tava nem aí”. Com isso, não se importava. “Ah, eu nem ligava, só que ninguém falava nada também”.
P - Problemática? Em que sentido, problemática? E - Acho que um pouco de tudo, né?
P - Você se preocupava com isso? E - Não.
T acredita que os professores não a achavam boa aluna: “Acho que não”. Relata que se sentia discriminada pelos professores pelas seguintes condições: “Acho que tinha desigualdade, né? Acho que as crianças iam bem arrumadas, e a gente quando era pequena não ia, ia de chinelinho...”. Sentia, então, que era tratada com diferença pela condição social. “Acho que pode ser tudo junto, né? Pelo jeito que minha mãe mandava a gente pra escola... A gente de chinelinho, não arrumava a gente, mandava de qualquer jeito...”. Mais velha, na oitava série, por exemplo, essa não era uma marca preponderante: “Eu acho que aí já tava melhor porque eu já tava mais grandinha, né?” Questionei se o fato de não ler e escrever lhe era uma marca e T diz: “Eu ia pouco pra escola, um dia sim, um dia não...” T não chegou a concluir a oitava série. Nessa época, ela tinha 14 anos, em 2003. Direcionei a mesma temática para os pares, para saber quais suas concepções sobre ela:
P -E seus amigos, o que pensavam de você? E - Não sei.
P -Não tem ideia? E - Não, não tenho ideia.
P - Também você não se abria com eles? E -Não me abria.
P -E a sala, em geral, eles olhavam pra você como, você tem ideia? E -Um olhar de medo.
P - Medo? Você queria manter essa imagem ou foi sem querer?
E -Não... Olhavam pra minha cara e falavam que eu tinha cara de brava. P -Então, mas você construiu essa imagem pra ficar aí, ou foi meio sem querer?
E -Ah, pra me defender de algumas pessoas, que eram não da minha sala, que eram os maiores.
T trouxe duas marcas da infância, ao tratar de sua imagem perante os outros: a de não conseguir aprender a ler e a escrever, em conformidade com os pares e a do pertencimento a um contexto social diferente da situação das demais crianças. Para ela, supõe-se que esse processo tenha sido ainda mais complexo, já que a marca de não leitora com muito esforço possa ter sido disfarçada perante os colegas, mas a outra está evidente: ir de ‘chinelinho’, como refere, desarrumada, enquanto todos os outros, embora não possuíssem uma condição social privilegiada, fossem bem arrumados. Essa faceta pode ter se tornado preponderante frente à outra, inclusive inibindo T de se colocar atuante na sala de aula, e talvez ficando mesmo à margem por conta disso.
4.1.4. A aluna K
4.1.4.1. Percepções sobre o percurso desqualificado
A aluna K aprendeu a ler durante as férias, terminada a 8ª série. Ela relatou que não se lembrava até que momento de sua trajetória conseguira acompanhar os estudos. Levada a refletir sobre o assunto, afirmou que na 5ª série isso ficou evidente, até a 4ª não percebia uma diferença entre ela e os demais. E, a partir da 5ª, relatou: “É, percebi diferença... E fui lutando até chegar e agora...”. Na ocasião, evidenciei a K a contradição de anteriormente ter me dito que até o ano anterior não se importava com a situação:
P - Mas quando você fala assim, fui lutando, você falou pra mim assim que até a 7ª você não queria nada com nada.
E - É.
P - Você foi lutando como assim? Me explica.
E - Fui pegando um livro, pegando outro, caderno e fui juntando as letrinhas assim pra formar.
Ela contou que a partir da 5ª série, foi se esforçando sozinha, mas que não estava tão empenhada como no ano passado. “Não tava muito assim, só pegava, juntava”. Comentei que, na 2ª série, a maioria dos alunos já lê e, portanto, se não percebia daí em diante que tinham colegas que liam e ela não. K pensou e usou a frase: “Eu também só bagunçava”. Diante da resposta, busquei saber quando esse fato começou a incomodar K, e ela respondeu que apenas no ano anterior ao da entrevista: “Incomodar, no ano passado foi. O ano passado que foi”. Reiterou que, na 5ª, 6ª e 7ª séries, isso não a incomodava
4.1.4.2. O que criou suas dificuldades
K de início não fez referência a nenhuma falha da escola ou de seus agentes com relação a ela. Fui, então, tentando fazer associações de suas ideias para perceber se ela apresentava alguma informação vinculada ao assunto:
P - Vamos pensar assim: quando que você de repente começou a ler? Você passou a 1ª, 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª, 7ª, sem ler. Aí na 8ª você começou a ler... Por que você acha que isso aconteceu?
E - Não sei, porque... Foi força de vontade, porque na 4ª série, não tinha força de vontade... P - Mas o reforço te ajudou?
E - Ajudou bastante.
P -Então se o reforço tivesse sido dado antes, você já teria lido antes? O que você acha? E - Lido antes, bem antes.
K não sabe precisar quantas vezes o reforço era dado na semana, mas afirma que poucas vezes. No reforço, era sempre acompanhada de um colega que ela diz ter aprendido a ler no mesmo tempo que ela.
K, embora aponte que seus professores não lhe davam atenção, não faz a leitura de que tenham responsabilidade por sua condição, culpa somente a si mesma:
P - Mas quem você acha que falhou: a escola, os professores, você, como que você vê isso, assim? Porque você já é uma moça, você consegue pensar em algumas coisas, na sua mente você acha que quem é culpado disso ter acontecido?
E - Ninguém, eu mesma.
P - Você mesma, você acha que você não teve força de vontade, é isso?
E - É. Ninguém porque eles fazia o trabalho deles, fazia muito bem. Eu mesmo que não se interessava. P - Mas quando você me fala que muitos falharam, de certa forma eles também têm culpa então, ou não?
E - Não.
P - Se a gente for pensar, assim quem que falhou, o que você me responderia? Quem fez você chegar até a 7ª série assim?
E - Ah, eu não posso culpar ninguém porque quem é eu pra culpar?
K acredita que eles falharam porque não davam atenção, “mas... não tem...”. Afirmou que, embora não dessem atenção, se ela se esforçasse, teria conseguido. Não faz a leitura de falha de nenhuma escola, nem da anterior nem da atual. Diante do quadro que ela enxerga, o que ela imagina que tenha criado suas dificuldades, aponta: “Falta de vontade”, desde o começo. K relatou que sua mãe não culpa ninguém: nem a ela, a própria K, nem a escola. “Não, minha mãe não recrama de nada”.
4.1.4.3. Estratégias
K não foi precisa no que ia fazendo em sala de aula para ir se mantendo ali. Quando questionada, silenciava. Fui fazendo perguntas específicas para extrair o que ela então afirmava ou negava.
K relata que, em situações que precisava acionar a leitura: “Ah, a professora, ela lia.” Quando questionada se sentia vergonha, silenciou. Sobre seus colegas: “Percebiam também, eles me ajudavam bastante”. Em seguida, afirmou que nunca sentiu vergonha por não saber ler e escrever, “porque não é vergonha”. E, pelo contrário, aceitava de prontidão a ajuda oferecida pelos colegas. Esse depoimento K não se contradisse em ocasião alguma. Demonstrou, sempre que levada a falar do assunto, que, em sua trajetória, não se mobilizou para esconder sua condição, que nunca se viu como uma vergonha, que não tentou disfarçá-la, aceitando esse estado e deixando-o transparecer para que pudesse receber prontamente todo tipo de auxílio que viesse para percorrer sua trajetória. No entanto, disse não ter solicitado ajuda: “Ajuda? Não, não pedia ajuda não”. Quanto à sua conduta: “É, ficando quieta, na minha. Não ia entregando as coisa”. Ela afirmou que ficava cansada de passar tanto tempo sem fazer nada; mas que sempre realizou todas as atividades que não exigiam a leitura e a escrita.
“Pra esse ano, eu fui mudando”. Perguntei se para melhor e K: “É, pra melhor, porque...”. Relatou que, aos poucos “eu fui... percebendo, né, fui percebendo que isso só vai deixando você pa trás”.