Como a vice-diretora havia comentado sobre ser o primeiro ano da sala de RI, tentei extrair algumas informações sobre o trabalho na concepção de alunos a partir da conversa com a aluna K, que diz muito entusiasmada: “É o primeiro ano, tá legal, eu tô achando muito bacana e, assim, todos da minha sala tão aprendendo mesmo, tá se dedicando pra aprender mesmo. Os professores também falam sobre a gente, nós tamo aprendendo e... tá muito bom”. K afirmou que na sala há mais meninas do que meninos.
Questionada se na sala de RI as aulas estão para ela melhores do que no ano anterior, respondeu: “Ah, o ano passado era bem pior um pouco. Aí esse ano já...”. K contou como desenvolveu a leitura, se os professores conseguiam atendê-la antes de ser montada essa sala: “Conseguia, eles davam atenção pra mim, aí eu fui, ó, no ano passado eu fui estudando em casa, minha mãe também me ajudava, aí eu comecei ler, não terminando esse ano, no outro ano assim, pra vim nesse ano, aí eu comecei estudar em casa e fui aprender ler em casa,aí me colocaram nessa sala aí eu tô aprendendo mais”. Avalia que foi melhor para ela ser direcionada para essa sala. No entanto, pondera: “Mas eu sei que tenho que me dedicar também, né? Não é só na escola, tem que aprender também”. Perguntei se está se dedicando em casa também: “É, em casa, tudo. Eu preciso aprender ler melhor, né?”. Ela teceu manifestações sobre o trabalho que está sendo desenvolvido: “Nossa série é tudo BA-BE-BI-BO-BU, ÇA-CE-CI-ÇO-ÇU, tudo assim”. Comentei que estava começando o trabalho a partir do simples. K: “É, uns que já sabem já, CA-QUE-QUI-CO-CU, já sabem já ler, aí eles separa, quem não sabe, aí vai... assim”.
K contou que era feita uma separação para os que já sabiam auxiliar os que ainda não aprenderam. Questionei se era ajudada ou se ela ajudava e disse: “Nessa sala eu ajudo. A professora fala: ajuda cicrano, ajuda beltrano, aí tem que ajudar porque você tava também junto, você não sabia”. Como até pouco tempo K não sabia, ela se sentia feliz por poder estar na condição de conseguir auxiliar. “Então você tem que ajudar também”.
K percebeu que se desenvolveu mesmo a partir de quando iniciou nessa sala. “Foi dessa sala, essa sala, é... foi... essa sala foi muito, muito bom. Foi a melhor coisa que eles colocaram
porque, foi essa sala que tiraram, também. Porque, como ia passar sem ler e escrever? Ia ficar repetindo a mesma série sem passar de série”.
Perguntei a K se ela acreditava que todos os seus colegas também estavam felizes como ela por estarem nessa sala. “Eu não sei, porque, eu já tô quase...”. K não concluiu seu pensamento e lhe perguntei então de D, seu companheiro do reforço do ano passado, o que ele demonstrava. “Bagunçava bem, agora ele tá normal”.
P - Não tem ninguém que fica nessa sala e fala assim ‘ai, que saco’? Todo mundo fica achando que eu não sei ler e escrever... ‘tá’ todo mundo contente?
E - Ah, tem umas que não quer saber... P - Mesmo nessa sala?
E - É, assim, tem uma que não quer saber, só fica com foninho, com fone assim, ouvindo música. Quando a professora, as professora aqui, é muito bom, porque eles dá educação mesmo, eles fala: você vai conseguir! Eles, sabe?
P - Eles estão empenhados, né?
E - É, eles falam: você vai conseguir ler e tem gente que nem quer saber, quer ir na outra série sem aprender ler. Como vai, assim, arrumar um emprego? Pega um ônibus, não sabe, não sabe ler se é Montreal, Josefina...
K avaliou sua escola atual como boa. “Boa, porque montou essa sala e tá fazendo muitos alunos aprender ler e escrever”. Perguntei se ela está percebendo mudança e afirmou: “É, mudança, não em mim, que eu já sei, mas nos outros que eu vejo assim que tá lutando pra aprender”. Referiu que estava ajudando naquilo e que, então, estava gostando de estudar. Busquei saber se ela estudava até em casa e K: “Eu? Estudar, não estudar, mas estudo”. Disse que não estuda para as matérias, mas que pega livros e lê. “Lição, eles dá na escola, se não termina na escola, você faz em casa”. Não realiza trabalhos em casa em que possa utilizar a internet, pelo que conta, “porque nossa série é tudo BA-BE-BI-BO-BU, ÇA-CE-CI-ÇO-ÇU, tudo assim”. Ela relatou que aprendeu coisas interessantes na escola, mas em algumas ocasiões: “Tem umas coisa que eu já sei, aí falo: ah, pssor, já sei. Aí ele fala assim: mas os outros não sabe, mas já sei, passa outra lição pa fazê...”.
Perguntei o que K levaria com ela da experiência dessa sala de RI: “Ah, a amizade, né? Que vai levar pra sempre, a amizade dos amigo, das amigas, vou levar pra sempre”. Procurei extrair elementos da dimensão da solidariedade entre os pares, todos passando pela mesma situação, perguntando se seu auxílio para com os colegas também iria marcá-la, posto que ela me contou que se encontra num estado em que tem condições de auxiliá-los. “Não é só eu que ajuda, eles também me ajuda, né? Do jeitinho deles, mas ajuda”.
Na sala, há um aluno que lê melhor que K: “É, porque o J, ele já sabe ler e escrever, eu não sei por que colocaram que ele e o irmão dele eram terrível, aí separaram ele e o irmão dele, aí ele entrou na nossa sala e ele também ajuda a gente”. Esta fala desvela indícios de que a sala de RI tem sim os casos mais gritantes em termos de aprendizagem, mas que também pode estar sendo utilizada como punição por conduta inadequada. K afirmou que ele já entrou na sala sem dificuldades, que estava lá para separá-lo por conta de bagunça, mas que pelo aprendizado “não precisava”. Aproveitei a oportunidade e perguntei a K se ela achava que deveria mesmo estar nessa sala e K: “Ah, agora eu também não preciso tá aqui também porque eu vou aprendê...”. No início do ano, avaliou que precisava, sim, entrar naquela sala, que suas condições melhoraram muito agora e no próximo ano tem condições de prosseguir. K relatou que tem um bom relacionamento com os colegas nessa sala.
O depoimento de K refutou minha hipótese inicial, nessa etapa da pesquisa, ao buscar entrevistá-la e saber dessa sala. Imaginei essa sala como um espaço de exclusão, onde haviam sido colocados os “piores” alunos de todas as salas e amontoados todos juntos para que não atrapalhassem nas outras salas. Mas, me surpreendeu o entusiasmo de K falando do trabalho desenvolvido, de sua aprendizagem, do esforço e incentivo dos professores. Outro aspecto marcante de seu depoimento é a solidariedade e cumplicidade que um construiu junto ao outro – eles se apoiam. Há a sensação de pertencimento a um grupo que está se desenvolvendo. A vice- diretora comentou que o comportamento de alguns alunos mudou totalmente, e o empenho também. Essa experiência evidencia que, investindo no aprendizado e dando aos alunos a oportunidade que precisam ter, todos têm condições para o avanço. O questionamento iminente é: por que esperar até a fase final da escolarização obrigatória, por que tão tardiamente para se investir em alternativas que promovam o desenvolvimento?