F, como referido pela profissional da área de psicologia pela qual passou, utiliza a indisciplina como um escudo na sala de aula. Sobre ser uma personagem para disfarçar sua condição, colocou: “um pouco, sim.” Afirmou que bagunçava porque “ah, é ruim, né, ficar na sala sem fazer nada, né (...)num faz lição, né...?”.
Até a 4ª série, F utilizava o recurso da invisibilidade para se manter no ambiente escolar. Da 5ª em diante: “Ah... Eu num fiz nada, né, eu ficava sentado no canto queto (...). Eu copiava, não pedia ajuda para ninguém”. A partir daí, aos poucos foi começando a se valer da indisciplina.
Exatamente uma semana após ser matriculado na escola 01, houve o registro de uma ocorrência disciplinar na qual esteve envolvido, transcrita, a seguir:
(Nome da cidade), 25 de outubro de 2011.
Os alunos (cita-se o nome completo de três meninas e dois meninos, não consta ainda o de F), todos da 8ªB, não respeitaram as ordens da professora (cita-se o nome), de Língua Portuguesa, para que fizessem atividades para nota.
Quando a Coordenadora esteve na sala para entregar o questionário do SARESP, quase não conseguiu por causa da bagunça, jogavam papel com elástico, giz, etc. A professora os enviou à Direção. Todos estão suspensos por 2 dias (dois), devendo retornar à escola no dia 31/10/11 (segunda-feira). Os responsáveis serão notificados e convocados a comparecer à Direção da Escola. Inclui-se também a aluna (nome). Os referidos alunos só entrarão para as aulas após o comparecimento do(s) responsável (s).
Nota 2. - O aluno (nome), por ser reincidente, levará suspensão por 5(cinco)dias, devendo retornar para as aulas no dia 04/11/11 (sexta-feira).
(Nome da cidade), 25 de outubro de 2011. (Vice-diretor e alunos assinam).
Os alunos (cita-se o nome de F e de mais três alunos) também participaram da bagunça, impedindo o trabalho da professora e da coordenadora (cita-se o nome, não se trata da coordenadora com a qual estabeleci contato). Todos levam suspensão por 2(dois)dias, devendo retornar no dia 31/10/11, segunda-feira, para a escola. Os responsáveis também serão convocados.
Compareceu o Sr. (nome do pai de F), pai do aluno (nome de F), e tomou ciência do comportamento de seu filho.
*O aluno foi matriculado recentemente nesta escola - dia 18/10/11.
F relatou que sua bagunça é ficar “zoando”, falando, andando pela sala, mas que não desrespeita os professores. Ninguém na classe sabe que F não lê e não escreve. Já ocorreram situações em que um colega realizou alguma atividade e tentou lhe entregar para que copiasse. Disse que, algumas vezes, acabou copiando. No entanto, afirmou que nunca solicitou auxílio a ninguém. Segundo ele, conseguia manter a artimanha de esconder sua condição desde que cursava a 5ª série. Quando questionado se tinha, ao menos, algum amigo que sabia dessa condição e que o ajudava: “Não, ninguém sabe”.
Retomei o assunto mais adiante e F sorriu, envergonhado, mas se vê que satisfeito, afinal, é uma estratégia na qual obtém êxito, assim, não é uma faceta que incomoda. Nem mesmo V, seu melhor amigo e da mesma sala, sabia dessa condição. “Não [sabe], mas ele faz, eu copio dele, assim, mas... Ele faz aí eu falo, não vou entregar não”. Contou que não requisitava auxílio em nenhuma circunstância. Uma de suas estratégias, simplesmente: “Eu não faço.”
Classificou seu amigo V como muito bagunceiro, afirmou que não por sua influência, já que se apresentava dessa forma antes de conhecer F. Sobre quando a trajetória dos dois se encontrou: “Desde a 8ª, eu vim no final do ano, né? Tipo, faltando dois meses, daí eu repeti, né, daí ele foi pro 1º, daí no 1º ele repetiu. Ele repetiu, daí... Daí eu fui, eu passei, né? Eu passei...”. Fiz-lhe outras perguntas a fim de continuar o assunto, numa tentativa de F abrir a circunscrição do pouco que falava, de trazer aspectos de suas relações na escola. Direcionei-o a falar se se encontraram na mesma sala de aula esse ano e F: “Não, mas na 8ª série eu já estudei com ele, já. No final do ano, só que aí ele passou de ano e eu não, né. Só que daí ele repetiu o 1º e eu passei, né”.
V, então, tinha 15 anos; portanto, mais novo que F. O amigo nem sempre desenvolvia as atividades, como contou F, mas sabia realizar o que era proposto em sala de aula. Intrigada para saber se V reconhecia a condição de F, e que talvez apenas não conversasse com ele sobre isso por ter a ciência de que o assunto incomodava F, conversei com F sobre o assunto, que mencionou: “Ah, eu acho que não”. Nem sempre que F precisa utilizar a leitura e a escrita, bagunça: “Não, às vezes, às vezes eu fico quieto também”. Quando F e V ficam quietos, não soa comum para os demais: “Quando a gente fica queto, é estranho, né.”. A reação dos professores quando estão quietos: “Acha que tem alguma coisa de estranho, né?”. E sorri.
F é um bom copista, o que é um fator de disfarce de sua situação. Sobre o conhecimento dos professores da situação, se eles percebem, diz: “Não, na verdade eles só sabem também porque eu falei o ano passado pra professora. Eu falei pra professora de Português. Lá no (escola anterior) ninguém, lá ninguém sabia”.
A seguir, está transcrito o registro de ocorrência disciplinar da situação em que revela à professora que não sabe ler:
(Nome da cidade), 29 de agosto de 2012.
Nesta data a profª (nome) nos encaminhou o aluno (nome de F), pois o mesmo se recusa a participar das aulas. Hoje ela solicitou que o aluno fizesse a leitura de um texto e ele se recusou, ironizando que não sabia ler (destaque meu). Conversei com o aluno e comunicamos que estaríamos “convocando” seus responsáveis para uma reunião, visto que o mesmo já é retido na 8ª série e vem apresentando problemas tanto em relação ao seu rendimento como em relação ao comportamento.
(Coordenadora M assina).
Note-se que na data do ocorrido, fazia dez meses que F era aluno da escola e não havia conhecimento por parte de ninguém na escola de que ele não sabia ler. Tomadas as suas atitudes
como recusa pura e simples e, na ocasião em que revelou, supôs-se que em desespero por ser cotidianamente cobrado de uma ação que não tinha condições para executar, o aluno foi mal interpretado, como se estivesse caçoando da professora, tumultuando a sala. Nove dias antes, a mesma professora encaminhou F junto com um colega também mencionado na ocorrência de 25 de outubro de 2011:
(Nome da cidade), 20 de agosto de 2012.
A profª (nome) me encaminhou os alunos (nome de F e do colega) visto que eles são retidos e apresentam problema de indisciplina/aprendizagem. Os alunos estão com notas vermelhas e em sala de aula não participam, não realizam as atividades propostas e, ainda, atrapalham as aulas. Conversei com os alunos no sentido de tentar conscientizá-los e informei que na próxima vez não ficaremos apenas no diálogo, pois, os pais serão convocados a fim de tomarem ciência do que está ocorrendo. Os alunos assinam abaixo, cientes dos fatos.
Assinatura dos alunos
Na ocorrência, curiosamente, constam vinculadas as palavras “indisciplina/aprendizagem”, mas, embora essa junção esteja posta no registro, não se vincula uma ideia à outra na prática. F é apenas um “bagunceiro”, o ponto central que causa sua atuação na escola não é debatido pelos professores, que acabam não se aproximando de F, na fala da coordenadora M.
Três meses após, mais um registro da falta de participação de F nas aulas:
(Nome da cidade), 08 de novembro de 2012.
Os alunos (nome de F e de um colega também mencionado na ocorrência de 25 de outubro de 2011) não fizeram a atividade avaliativa proposta na aula recusando-se inclusive a copiar as questões. Então ficaram perturbando as colegas de classe (nomes de duas), inclusive com movimentos de tapas e chutes. Quando chamados atenção ficaram com zombarias.
Profª (nome)
Os alunos foram chamados à Direção e não apresentaram nenhuma justificativa que pudesse ser aceita. Os dois alunos apresentam dificuldades de aprendizagem e já passaram por psicólogo neste ano, o que em hipótese alguma têm o direito de perturbar as aulas e prejudicarem os colegas. Quanto à atividade proposta pela professora (nome), a Direção e Coordenação conversaram com a referida professora sobre a possibilidade de substituição da atividade.
(Nome da cidade), 08 de novembro de 2012.
F afirma que ser indisciplinado torna sua imagem melhor para os amigos. Acredita que influencia alguns amigos, mas sobre outros não exerce influência: “Ah, tem uns que sim, outros são pior que eu”. F não tem plena consciência de que se vale da indisciplina como uma estratégia; nos diferentes momentos da entrevista em que abordei o assunto, ele oscilou: em um deles, menciona que um pouco é para disfarce, já em outros, afirma veementemente que não atua,
que a indisciplina não é planejada, que nunca teve a intenção de disfarçar e que só se porta de maneira inadequada por não lhe ser oferecido nada para fazer.
Nenhuma outra atividade fora da sala de aula também desperta o interesse de F. Não pratica e não gosta de atividades físicas, não participa da Educação Física: “Ah, eu fico mais na minha, né... Não, não participo”. V, seu amigo, o acompanha nessa recusa por participação na Educação Física, por exemplo, mas desenvolve algumas atividades na sala. Nas ocasiões em que V faz a opção de participar da aula, F afirma que não bagunça, fica quieto.
Na sala de informática, também não desenvolve as atividades; nunca participou de organizações juvenis, como o grêmio escolar. Como exceção, diz que faz algumas coisas de Artes, mas que não gosta. F não se interessa por nada trabalhado em nenhuma disciplina, nem mesmo por assuntos discutidos acerca da atualidade, de nada participa. Afirma que nem quando a atividade não exige leitura e escrita, não participa de discussões ou similares. Insisti, questionando se poderia participar de algumas outras atividades e é enfático: “Não!”.
Quanto às excursões na escola, F comenta que é muito raro ocorrer. Essa recusa de F por todas as atividades que envolvam o cotidiano escolar, possivelmente, se constitui, ainda que não lhe seja consciente, em parte da composição de sua personagem no teatro escolar: F, ainda que tenha domínio de executar algumas atividades na qual a condição não seja o domínio da leitura e da escrita, como operar algumas tarefas no computador com o qual relata ter havido familiarização em sua casa, ou realizar atividades físicas, não o faz, supostamente porque destoaria da capa que veste na sala de aula. Assim, para não ficar evidente em nenhuma ocasião sua condição que reluta para camuflar, prefere recusar as práticas da escola como um todo, reconhecendo-a, exclusivamente, como um espaço de socialização.
Como parte do contexto de sua atuação, a indisciplina também não aparece apenas em momentos que necessita esconder que não sabe, ela está nos diversos contextos do cotidiano escolar, para ser mais convincente. Na hora do almoço, em todo lugar... “Ah, nóis bagunça também”. Contudo, no plano de sua consciência, negou que faça parte se sua estratégia, afirmou que é só porque é legal mesmo. Ao mesmo tempo, F não esconde que tenta ocultar sua condição, que essa marca o incomoda: “É, dá vergonha, né”. Segue a transcrição das ocorrências disciplinares de F fora da sala de aula:
(Nome da cidade), 09 de maio de 2012.
(Nome de dois alunos e de F), todos da 8ª B, estavam atrapalhando a aluna (nome) enquanto ela tentava telefonar par sua mãe pelo orelhão da escola. Quando ela acabava de discar, os alunos desligavam o gancho para a ligação não se completar. A aluna reclamava e os alunos saíam correndo. Quando indagada, (nome) também diz que os três a importunavam muito na sala de aula, e acrescenta o aluno (nome) também da mesma sala, joga giz no seu cabelo, que (nome de um colega) esconde sempre seu caderno em mochilas de outros alunos e rabisca frequentemente seu caderno. Os alunos serão chamados à Direção.
Ocorrência 04/03
Neste dia as inspetoras desta Unidade Escolar (nomes) ouviram barulho muito forte vindo da direção do banheiro masculino, observaram os alunos (F e mais um), ambos da 1ª série B do Ensino Médio, saindo do banheiro masculino. Os dois alunos foram convocados a acompanhar o vice-diretor (nome) ao banheiro para observar o que estava acontecendo. Ao entrar no banheiro verificou-se que a bacia sanitária estava quebrada em pequenos pedaços. A saber que os seus responsáveis sendo convocados, o aluno (F) resolveu falar e assumir ter sido o autor do vandalismo.
Sendo assim, o vice-diretor convocou seus responsáveis para repor o patrimônio danificado. O vice- diretor (nome) entrou em contato com a ronda escolar para relatar o ocorrido e foi orientado a registrar um Boletim de Ocorrência na delegacia de polícia por se tratar de vandalismo ao patrimônio público.
Nome da cidade, 20 de março de 2013.
Localizou-se a cópia do boletim de ocorrência expedido a partir da orientação da guarda municipal:
BOLETIM DE OCORRÊNCIA
26/03/2013 14h36 Espécie - ato infracional
Natureza - ato infracional Dia 20/03/2013, às 11h30 Flagrante: não
Representante - (nome do vice-diretor) Diretor de escola
Adolescente - (nome de F) - não presente ao plantão Objetos - (danificado)
Tipo - materiais hidráulicos e afins - Subtipo - Bacia sanitária
Histórico - Comparece o representante da Escola Estadual (nome), noticiando que na data dos fatos, o adolescente, que é aluno da referida escola e estuda na 1ª série B, do ensino médio, veio a danificar o vaso sanitário do banheiro masculino. O representante da Escola afirma que o adolescente foi conduzido para a diretoria, onde confessou a autoria do delito, mas não disse os motivos que o levaram a danificar o vaso sanitário. Informa o representante da Escola que o adolescente foi suspenso por cinco dias. Que nesta data foi feito contato com o genitor do adolescente infrator, sendo que o mesmo se comprometeu em apresentá-lo posteriormente na delegacia de polícia.
Os relatos acima reiteram a constatação já evidenciada, de que F não burla as regras somente no espaço da sala de aula, onde possa ser reconhecido como não leitor, mas também nos espaços externos. F, pela escola anterior e pela atual, foi tomado como “um caso de polícia”.
F é um menino muito popular entre os pares na escola. Ao tratar desse assunto com F, ele fica envergonhado e sorri. Mas, por trás dessa timidez, é possível perceber F orgulhoso de este aspecto ser posto em evidência. Sua fala, como em toda a conversa, restrita, mas no entorno a aparente satisfação de abordar uma faceta de sua vida escolar na qual se sabe exitoso. Atua para se fazer reconhecer e, de alguma forma, se faz gostado e admirado pelos demais. Como ele próprio relata: “Eu tenho bastante amigos”.