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A fabricação de calçados, de modo genérico, envolve cinco principais etapas: modelagem, corte, costura, montagem e acabamento (ver figura 16). Em cada uma dessas etapas a configuração de operações realizadas depende do produto que se deseja obter, bem como o modo de operação definido na fábrica. Fatores que influenciam para a definição do método de realização da tarefa podem ser listados: complexidade do produto, máquinas e equipamentos disponíveis, fatores ergonômicos e de segurança no trabalho, etc.

Figura 16 - Principais etapas de fabricação de calçados

Fonte: Elaboração própria.

Nas empresas do APL a produção de calçados também é constituída por essas tarefas, sendo realizadas, em parte, manualmente e outra parte com o auxílio de máquinas. No

entanto, como já visto, o maquinário empregado na produção de calçados do APL é defasado, e depende de ampla intervenção humana para operar.

Em corroboração aos resultados obtidos nessa pesquisa, Albuquerque Neto e Silva (2008) apontam que as empresas campinenses do setor calçadista, por vezes faz uso de maquinário obsoleto ao tipo de produção pretendida, o que indica maior dependência da intervenção humana na produção. Alves (2005) é concordante, nesse aspecto, acrescentando que esse fato demanda maior habilidade dos trabalhadores.

Dadas essas condições, espera-se que as empresas possuam seus métodos de realização das tarefas bem definidos, a fim de reduzir a vulnerabilidade da qualidade de seus produtos a fatores humanos. Nesse sentido, foi inquirido aos respondentes se a empresa possui um método de realização das tarefas, determinado sistematicamente. O resultado demonstra que apenas 20% das empresas pesquisadas possuem métodos sistemáticos de realização das tarefas.

Em outras palavras, a maioria das empresas (80%) alegou não possuir um método de realização das tarefas definido sistematicamente. Esse resultado torna-se relevante, à medida que vai de encontro ao esperado, pelo perfil das empresas, no que toca á forma de contratação de novos empregados, bem como pelos serviços de consultoria prestados pelas instituições de apoio ao APL. Isso porque os novos empregados iniciam as atividades imediatamente, como já discutido.

Ainda com relação ao método de realização das tarefas produtivas do APL, foi questionado como foi determinada a forma de realização atualmente empregada. Nesse caso, considerando que o método pode ter sido determinado pela combinação de fatores, foi conferida a não excludência das alternativas.

Embora tenham sido disponibilizadas 4 alternativas (Baseado na experiência do gestor, Orientado pelo gestor de outra empresa, Método realizado pelo operário mais experiente e Cada operário realiza a tarefa ao seu modo), os respondentes concentraram suas respostas em apenas duas. Os resultados a esse questionamento revelam que, em 80% das empresas pesquisadas, o método de realização da tarefa é influenciado pelo gestor. Há ainda uma taxa de 47% de empresas que tem na experiência do funcionário mais antigo a maior influência para a determinação do método de realização das tarefas.

É possível perceber que prevalece a determinação dos métodos baseados na experiência dos gestores. Á parte da experiência do gestor, a experiência do empregado mais veterano é o único outro fator determinante do método de realização das tarefas. Em 33% das empresas ambos os fatores são determinantes na definição do método.

A determinação do modo de execução das tarefas baseada unicamente na experiência do gestor da empresa pode não contemplar todos os aspectos que o método de trabalho deve abranger. Embora seja mais indicada a busca por auxílio nos órgãos de apoio ao APL, configura-se, ainda, como melhor alternativa, à arbitragem do método de realização das tarefas unicamente pelo gestor, o compartilhamento de experiências com outros atores do APL, como gestores de outras empresas do arranjo. Essa prática promove o compartilhamento do conhecimento que cada um possui, compondo um corpo de conhecimento próprio do APL.

Nenhuma empresa alegou buscar auxílio junto a outros gestores, preferindo, quando não definido por conta própria do seu gestor, acolher o modo de realização das tarefas dos empregados mais experientes. Desse modo, embora isso represente uma forma de difusão do conhecimento tácito do empregado, pode ocorrer a perpetuação de erros inerentes aos métodos de realização da tarefa do funcionário, sobretudo ao considerar que este é responsável pelo treinamento on the job dos novos empregados.

A absorção do método de realização das tarefas baseada na experiência dos empregados merece melhor atenção ao se considerar as formas de inserção de novos empregados na rotina produtiva da empresa e o perfil de trabalhadores preferido pelas empresas, já discutidos em seções anteriores. É valido recolocar que a maioria dos empregados possui nível de escolaridade baixo e são admitidos sem treinamento prévio, iniciando as atividades imediatamente.

Ao se tratar de aspectos relativos à organização e métodos é natural cogitar o fator tempo, ou, mais especificamente, o tempo-padrão da tarefa. Nesse aspecto foi aferida uma taxa de 20% de empresas que alegaram ter conhecimento do tempo necessário à fabricação de seus produtos. No entanto, é importante ressaltar que, ao declararem ter conhecimento desse tempo, nenhum respondente demonstrou que este tempo havia sido determinado mediante aplicação de métodos consagrados de medição. Portanto, tendo sido esse tempo estimado empiricamente, o tempo necessário para a produção não pode ser caracterizado como tempo- padrão.

Foi averiguado, ainda, que apenas 27% das empresas pesquisadas declarou realizar o planejamento sistemático das necessidades de recursos humanos, para o alcance da produção pretendida. Dentre algumas possíveis conseqüências desse resultado estão o superdimensionamento da quantidade de recursos humanos empregados, acarretando em custos excedentes à produção pretendida, ou, em caso contrário, operação com déficit de mão- de-obra, ocasionando atrasos na entrega dos produtos, por exemplo.

Percebe-se que as empresas do APL de calçados possuem carência no que toca à aplicação de métodos de trabalho bem definidos, bem como à gestão de seus recursos humanos. A forma como as empresas tratam seus recursos humanos expressa uma falta de concisão, sobretudo com relação ao perfil de empregados admitidos e a forma como é feita a inserção desses na rotina produtiva, deixando a produção (no que toca à qualidade) vulnerável a fatores relativos às capabilidades dos recursos humanos.