Na segunda parte do corrente capítulo apresentaram-se resultados relativos à gestão dos recursos produtivos pelas empresas componentes do arranjo. Nesse momento foram apresentadas e discutidas as características de utilização dos recursos físicos de produção, considerações sobre os métodos de realização do trabalho no APL, aspectos relativos à capacidade produtiva dos produtores de calçados do APL, métodos de planejamento e controle da mão-de-obra, gestão de materiais no arranjo e formas de coordenação das atividades de produção e gestão dos recursos no APL.
Os principais resultados dessa parte do capítulo apontam para o gerenciamento da produção dotado de alto teor de empirismo e rotinas gerenciais voltadas para o curto prazo, estando os esforços dos gestores empenhados em resolver problemas cotidianos emergentes, em detrimento de atividades de planejamento e programação da produção. Registra-se que o perfil mais comum dos gestores no APL é uma pessoa com escolaridade de nível médio, sem qualificação específica para gerenciamento de empresas e, em quase a totalidade das empresas pesquisadas, é o proprietário da empresa.
Foi averiguado que as empresas não estão concentradas em uma única região da cidade de Campina Grande - PB. As empresas pesquisadas se distribuem nos entornos de três bairros: Bodocongó, José Pinheiro e Distrito Industrial. Essa constatação é importante, pois o distanciamento geográfico reduz a interação cotidiana entre os gestores, principalmente consultas rápidas sobre questões emergentes, que dispensam a realização de reuniões formais, mas demanda uma solução rápida.
Outra característica das empresas, vinculada à sua localização, é o tipo de instalação fabril. Nos casos de empresas localizadas no Bodocongó e no Distrito Industrial, estas
possuem uma estrutura física mais adequada às atividades fabris de produção dos calçados, enquanto que as empresas que se localizam nos entornos do José Pinheiro funcionam em imóveis residenciais adaptados às atividades de fabricação dos calçados. Nesses casos a área interna disponível é restrita, sendo comum estoques de produtos ou de matéria-prima empilhados nos espaços disponíveis, ainda que seja entre as máquinas.
No que toca à gestão dos recursos humanos, foi constatado um contingente de 412 pessoas empregadas, considerando as empresas pesquisadas, das quais quase 90% está alocada na produção. Esse resultado aponta para o fato de as empresas do APL terem suas atividades intensivas em mão-de-obra.
Embora uma unidade produtiva intensiva em mão-de-obra pressuponha que haja determinação de um método de realização das tarefas, uma vez que há alto índice de intervenção humana nas atividades produtivas, isso não ocorre nas empresas do APL de calçados em tela (apenas 20% das empresas abordadas possuem um método sistemático de realização das tarefas). Esse fato é agravado ao considerar que a maioria dos gestores tem como principal fator de seleção dos seus novos empresários a experiência, e que estes iniciam as atividades imediatamente (53% dos casos).
No entanto, é oportuno observar que a admissão de pessoal experiente para compor o quadro da empresa é um fator positivo para a propagação do conhecimento tácito surgido nos limites do APL. As desvantagens da absorção de pessoal do modo praticado pela maioria dos empresários são amenizadas pela média de permanência dos empregados nas empresas, que de cerca de 3 anos, havendo registro de casos de empregados que permanecem na empresa há 10 anos.
A contratação de pessoal experiente chega a influenciar na adoção de um método empírico de realização das tarefas, tendo sido apontado, junto com a experiência do gestor, como principais fatores na determinação da forma como as atividades deverão ser realizadas.
No que toca ao gerenciamento dos recursos materiais foi constatado uma taxa muito baixa de empresas que realizam o planejamento e controle dos materiais necessários ás atividades produtivas. Os resultados apontam que os gestores das empresas componentes do APL conduzem essa atividade á revelia. Um indicador expressivo desse achado é a taxa de empresas que não utilizam um método de gestão dos seus estoques, que chega a 93%. Esses resultados apontam para pouca sistematização das atividades de gestão de materiais nas empresas do APL de calçados da Paraíba, elucidando que as atividades dessa natureza não estão na pauta das rotinas gerenciais.
Foi averiguado, ainda com relação à gestão dos materiais, que o setor responsável por maior parte dos desperdícios incorridos no processo produtivo é o setor de corte. A atividade de corte de materiais é realizada por maquinário que, como já discutido, depende muito de intervenções humanas. Desse modo, ao questionar os fatores que mais afetam os desperdícios, os respondentes elencaram os fatores humanos como os principais causadores dos desperdícios.
Quando questionadas sobre o destino dado ao material perdido durante a produção, as empresas demonstraram que não possuem prática de reaproveitamento de materiais, pois o principal destino dos desperdícios é o lixo, sobretudo o couro, que é um insumo de elevado custo de aquisição. O material que apresentou melhor índice de reaproveitamento foi o laminado sintético, que foi apontado por 5 empresas como destinado á reciclagem.
Com relação à capacidade produtiva foi constatado que, embora a maioria do empresariado tenha uma estimativa desta, persiste o empirismo na sua determinação. Identificou-se, ainda, que são minoria os casos em que a capacidade de máquinas em recursos humanos está equalizada, havendo ociosidade das máquinas e equipamentos, em regime normal de operação.
Nas situações em que é necessário adequar a capacidade produtiva para atender a demandas acima da capacidade normal da empresa, as duas principais alternativas apontadas pelos respondentes envolvem incremento da capacidade de mão-de-obra. Essa tática adotada pelos gestores das empresas do APL reforça as teses de que há ociosidade na capacidade de máquinas/equipamentos e que as operações nas empresas produtoras de calçados é intensiva em mão-de-obra.
Sendo as atividades de gerenciamento dotadas de empirismo e informalidade, como já se vem discutindo, foi constatado como conseqüência um alto índice de atrasos cometidos pelas empresas. Essa é uma falha em decorrência de atividades de planejamento e controle da produção realizadas sem sistematização. Os resultados da corrente pesquisa apontaram, ainda, para a não utilização de ferramentas adequadas ao gerenciamento da produção, sem mantimento de registros das rotinas e decisões tomadas, na maioria das empresas pesquisadas
Um resultado avaliado como positivo às práticas gerenciais das empresas componentes do APL calçadista da Paraíba foi o alto índice de empresas que alegaram realizar controle da qualidade de seus produtos. Apenas uma empresa informou não fazer controle da qualidade. Nos demais casos, o controle é feito, pela maioria, durante o processo produtivo e envolve mais de um cargo nesse processo, tanto gestores como operários.
Conforme indicações da literatura, a forma como as empresas realizam o controle da qualidade é a que mais se aproxima de uma situação ideal.
Embora a forma de controle da qualidade praticada pelas empresas não signifique que o controle de qualidade encontra-se em situação ótima, esta é a mais indicada de o fazer.
Por fim, na segunda parte da apresentação dos resultados dessa pesquisa, foram averiguadas as estratégias de competição das empresas no mercado. Os resultados apontaram para um comportamento homogêneo das empresas, adotando estratégias de conquista e manutenção do mercado parecidas. Talvez esse achado seja decorrência da dependência das empresas em relação ás instituições de apoio.
Com relação às estratégias de competição das empresas, um resultado tornou-se saliente, que foi o fato de apenas 13% das 15 empresas ter citado o estabelecimento de parcerias como forma de obtenção de vantagem competitiva. Esse resultado diverge das premissas dos fatores que motivam o surgimento e sobrevivência de um APL, sobretudo no que toca à coopetição entre os componentes, conforme apurado na revisão da literatura.