A pesquisa é grito É silêncio É potencia É solidão (Rebeca A. Meijer)
Rio Parnaíba, município de Barão de Grajaú, estado do Maranhão. Estava numa localidade, conhecida como Manga, com alguns pesquisadores malditos, loucos, inventivos e transgressores. Não parava de falar da pesquisa. Era que tanta coisa estava acontecendo e minha cabeça não conseguia se desligar. Um entre esses caras fantásticos, imaginários ou reais, que me acompanhavam é um filósofo e grande amigo, Erlon Barros.
Gostamos muito de beber e comer em locais pitorescos à margem do Rio Parnaíba. Juntamos nossas famílias em busca de hibridizações, de ampliações de nosso currículo cultural. Entre uma cerveja e outra, nesse lugar mágico, surreal e muito brasileiro que é a Manga, conversamos sobre a escola escolhida para acontecer a pesquisa-ação. “– Então professora, por que a Escola Eleutério Rezende?” – perguntou.
O filósofo fez-me voltar os olhos para as costas. Havia algo que antecedia a exposição de como vinha sendo a pesquisa. Erlon fez-me refletir sobre minha aproximação com o campo de pesquisa, com aquelas pessoas. Como nos escolhemos? Poderia, meu amigo, elencar uma série de razões. Mas mencionei uma entre tantas outras que considero visceral: Zica e suas amigas reais.
Em Floriano, por alguns meses, fui vizinha de duas meninas negras. Uma tem o meu nome, Rebeca, a outra, tem o nome da minha filha caçula, Ângela. Algumas vezes elas foram convidadas a lancharem em minha casa e conversávamos sobre muitas coisas. Como eu era recém-chegada na cidade de Floriano, fui aprendendo muitas coisas com minhas novas amigas. Nossos encontros mostravam-me que as meninas não tinham quase nenhum conhecimento sobre a cosmovisão de raiz africana, apesar de possuírem muitos “eus” negros em si.
escola em que estudavam, o que aprendiam lá, como era essa aprendizagem, se gostavam da escola etc. Elas me falaram muito bem de lá, mas eu percebia que a Lei 10.639/2003 não estava sendo mobilizada nas práticas pedagógicas e curriculares daquela instituição.
Um dia, peguei o carro e passei na frente da escola. No mesmo instante, meus “eus” Macu e Zica correram para dentro do prédio. Resolvi conversar com a diretora da escola e, depois de algum tempo, entendemos que a parceria universidade e escola estava acontecendo naquele momento, e que a escola seria palco de uma pesquisa-ação formativa inspirada na cosmovisão de raiz africana.
“– E como vem acontecendo a pesquisa?”
Enquanto comíamos um delicioso peixe piau (que deu origem ao nome Piauí) regado a cerveja, eu organizava em palavras as ações da pesquisa interventiva que mobilizava a mim e a meus “eus” naquele momento-existência. Minha vida estava atravessada por aquela escola, por aquelas pessoas; então fui falando: “– Resolvi transformar a pesquisa-ação em curso de extensão universitária (na UFPI) e, desse modo, os profissionais da educação teriam, além da formação, a certificação para utilizarem como lhes fosse oportuno”.
“– Suas bolsistas participam da pesquisa?”
Apesar das alunas do curso de Pedagogia não fossem bolsistas de pesquisa e sim de Bolsa PRAEC, ou seja, bolsa de auxílio ao estudante da UFPI para manterem-se financeiramente na universidade, resolvi convidar as alunas a integrarem o projeto de extensão. Após participarem das primeiras intervenções, as alunas passaram a envolver-se bastante com o tema e resolveram adotar-me como orientadora de seus TCC. Desse modo, além de desenvolverem ações de extensão, também estariam pesquisando.
“– Mas como vocês estruturaram a pesquisa?” – continuou perguntando Erlon, interessado em entender os passos metodológicos que estávamos dando.
“– Foi marcada uma primeira reunião com os profissionais da educação da escola. Pedi para que professores e funcionários participassem”. Nesse momento, tive que apresentar a proposta do curso de extensão e, para tal, desenhei uma estrutura metodológica em três etapas, o que foi imediatamente aceito pelo grupo. Essas etapas consistiam em:
a) 1ª etapa (Pré-Formação): aproximação com o campo de pesquisa, assembleia com professores da escola com o objetivo de apresentação da proposta da formação, assembleias com o intuito de construção do planejamento estratégico PE (cronograma de atividades, decisões de caráter metodológico, escolha dos membros dos Grupos de formação (GF) e avaliação diagnóstica sobre elementos da cosmovisão africana por
dinâmica interventiva. Como nos constituíamos em um coletivo motivado por uma problematização a ser transformada por meio de uma pesquisa-formação, coube pensarmos como fazer essa pesquisa/curso, ou “pescurso”13. Decidimos que faríamos grupos de formação (GF) e esses grupos foram formados tendo em sua composição a coordenadora/pesquisadora oficial, uma aluna bolsista e professores. A composição de membros podia variar, apenas a coordenadora/pesquisadora permaneceu fixa em todos os GF;
b) 2ª etapa (Formação): momento em que os GF criaram e planejaram os subtemas geradores dos módulos, aplicaram as intervenções a partir dos subtemas geradores, planejaram práticas pedagógicas a serem aplicadas pelas professoras em sala de aula para os alunos após a realização de cada uma das intervenções com seus respectivos subtemas geradores, realizaram visitas formativas com pessoas que ajudassem no entendimento do tema ou subtemas geradores;
c) 3ª etapa (Pós-Formação): após a aplicação das intervenções pelos GF e após a execução das práticas pedagógicas pelas professoras em suas respectivas salas de aula para os alunos; professoras e bolsistas planejaram apresentações artísticas para os alunos que expressassem o que os docentes aprenderam e ensinaram sobre cosmovisão africana; realizou-se a Festa da Cosmovisão Africana, momento em que alunos e alunas apresentam-se no pátio da escola expressando o que suas professoras ensinaram em sala de aula sobre cosmovisão africana; avaliação final com atividades que possibilitassem dados acerca do êxito da formação; análise comparativa das aprendizagens do coletivo e restituição da pesquisa para o grupo.